CABEÇÃO: um reserva de luxo

                Luiz Morais, nasceu dia 23 de agosto de 1930, na cidade de São Paulo. Sua vida esportiva é quase toda dentro do Parque São Jorge, onde viveu por muitos anos, tendo ali momentos de muitas alegrias e algumas tristezas, mas sempre foi um excelente profissional. Sempre soube aceitar a reserva, mesmo porque, seus companheiros de posição eram Gilmar no Corinthians e Castilho na seleção brasileira em 1954. Mas a maior tristeza de sua vida, não foi dentro do futebol, mas sim quando um de seus filhos, foi assassinado na rua Santa Virgínia, no bairro do Tatuapé, em São Paulo, no ano de 1990. Foi um fato muito triste que só o tempo pode amenizar sua dor, juntamente com sua esposa e o outro filho. Dizia-se que Cabeção tinha muitas dificuldades nos jogos noturnos, mas mesmo assim, foi campeão paulista em 1951 pelo Corinthians, como titular absoluto e em 1954, atuando em alguns jogos somente.   

INÍCIO DE CARREIRA

               Começou nas categorias de base do Sport Clube Corinthians Paulista em 1938, tendo sido bicampeão infantil, juniores (1947 e 1948) e campeão sul-americano juniores no Chile (1949).  Ao longo da carreira saiu várias vezes, vendido ou por empréstimo, para a Portuguesa, o Bangu, e o Comercial de Ribeirão Preto. Mas sempre retornou ao Parque São Jorge.

               Em 1949, assinou um contrato com o Corinthians como jogador profissional. Na época o goleiro titular era Bino, que jogou no Timão de 1943 até 1951. Um goleiro que veio do Coritiba e vestia-se todo de preto, daí o seu apelido de “Gato Selvagem”. No dia 3 de setembro de 1950, Cabeção fazia sua estréia com a camisa do Corinthians, assumindo a posição de titular da equipe. Neste dia o Corinthians enfrentou o XV de Piracicaba pelo primeiro turno do campeonato paulista. O jogo foi em Piracicaba e o dono da casa venceu por 2 a 1, gols de Moreno e Lula, enquanto que para o Timão, Colombo marcou de pênalti o único tento. Neste dia o Corinthians jogou com; Cabeção, Newton e Belfare; Idário, Touguinha e Hélio; Castro, Luizinho, Baltazar, Nelsinho e Colombo. O técnico era Achiles Gama Malcher.

TÍTULOS PELO CORINTHIANS

                 O primeiro título de sua carreira, veio no ano seguinte, quando o Corinthians montou um grande time e sagrou-se campeão paulista. Ainda no primeiro turno, o goleiro Gilmar assumiu a posição de titular, no entanto, no dia 25 de novembro de 1951, debaixo de muita chuva, o Corinthians não resistiu ao forte ataque da Portuguesa, que na época era a base da seleção paulista, formada por Julinho, Renato, Nininho, Pinga e Simão, e assim o Timão perdeu por 7 a 3. Naquele dia a torcida corintiana elegeu um culpado, o goleiro Gilmar, que acabou ficando afastado do clube por cinco meses. Com isto, Cabeção retornou a meta alvinegra, jogando todas as partidas até o final do campeonato, com vitórias espetaculares, como aquela sobre o Juventus por 7 a 2, sobre o São Paulo por 4 a 1, sobre o Santos por 4 a 2, sobre o Guarani por 4 a 0, até que chegou na última rodada no dia 27 de janeiro de 1952, quanto enfrentou seu maior rival, o Palmeiras.  E o que pode ser melhor para um corintiano, que conquistar um título em cima do Palmeiras. E a tabela marcava justamente para a última rodada, Corinthians x Palmeiras.

                  O jogo foi no Estádio Municipal do Pacaembu, era um domingo a tarde. Neste dia o técnico Rato do Corinthians mandou a campo os seguintes jogadores; Cabeção, Murilo e Julião; Idário , Touguinha e Lorena; Cláudio, Luizinho, Baltazar, Jackson e Carbone.  Logo aos 4 minutos de jogo, Carbone abriu o placar, aos 25 Jackson fez 2 a 0 e Luizinho aos 28 ainda do primeiro tempo fez o terceiro gol do alvinegro de Parque São Jorge, sendo que este gol foi  de letra. Somente aos 41 minutos do segundo tempo, que o alviverde marcou seu gol de honra através de Rodrigues.  No ano seguinte, quando o Corinthians conquistou o bicampeonato, Gilmar que foi sua grande sombra dentro do Parque São Jorge, voltou a vestir a camisa nº 1 do Corinthians e com isto, Cabeção só assistiu os jogos do banco de reserva.

                   O ano de 1953, foi um ano maravilhoso na carreira de Cabeção, pois disputou todos os jogos do Torneio Rio-São Paulo e sagrou-se Campeão. Depois, no segundo semestre, o Corinthians disputou um Torneio Internacional, onde estavam; Barcelona (Espanha), Seleção de Caracas (Venezuela), Roma (Itália), Olímpia (Paraguai), Sporting (Portugal), Vasco (Brasil) e o Corinthians. Cabeção jogou todos os jogos e ajudou o Timão a conquistar seu primeiro título internacional. No ano seguinte, o Corinthians sagrou-se bicampeão do Torneio Rio-São Paulo e também conquistou um de seus maiores títulos da história, foi Campeão do IV Centenário e novamente em cima do Palmeiras.  Neste título paulista de 1954, Cabeção foi o reserva de Gilmar, mas participou de vários jogos, sempre honrando a camisa alvinegra.  Por tudo isso, Cabeção foi convocado para a Copa do Mundo de 1954. Pelo Corinthians, o ex- goleiro jogou de 1949 até 1966, incluindo as ida e vindas e nesse período atuou em 323 jogos, venceu 188, empatou 70 e perdeu 65.  Sofreu 419 gols.

SELEÇÃO BRASILEIRA

                    Com a camisa da nossa seleção, Cabeção foi campeão sul-americano em 1951, no Chile e disputou a Copa de 1954, na Suíça. Foi o reserva de Castilho naquele mundial e como o Brasil foi eliminado precocemente, Cabeção não teve chance de disputar nenhuma partida. Ao todo disputou somente uma partida pela seleção, foi no dia 9 de maio de 1954, quando o Brasil venceu o Milionários da Colômbia por 2 a 0, num jogo amistoso realizado no Maracanã, quando entrou no lugar do goleiro Veludo.

PORTUGUESA DE DESPORTOS

                     Em 1955, foi jogar na Portuguesa de Desportos, que naquele ano formou um grande time; Cabeção, Djalma Santos, Floriano, Nena e Zinho; Brandãozinho e Edmur; Julinho Botelho, Airton, Ipojucan e Ortega. Com este time sagrou-se campeã do Torneio Rio-São Paulo no dia 29 de maio de 1955, quando a Lusa do Canindé venceu o Palmeiras por 4 a 2. Depois disso, Cabeção jogou em vários clubes, como Bangu, Comercial de Ribeirão Preto, depois retornou ao Corinthians, em 1967/68 jogou no Juventus e em 1969 jogou na Portuguesa Santista, onde veio encerrar sua carreira.

TREINADOR

                      Depois que encerrou a carreira como jogador, passou a viver outras emoções no futebol, agora fora das quatro linhas. Foi treinador das categorias de base do Sport Club Corinthians Paulista por 18 anos, sendo campeão Dente-de-Leite, Dentão e Juniores. Jogadores revelados neste período. Goleiros: Rafael, Alexandre, Solito, Solitinho, Décio e Ronaldo. Zagueiros: Darcy, Zé Eduardo, Mauro, Marcelo e Wladimir. Meio-campistas: Eli, Vicente e Nobre. Atacantes: Pitta, Casagrande, Paulo Sérgio, Carlinhos, Genildo, Ataliba, Pita e Amauri.  Foi treinador profissional ainda nos times do Osvaldo Cruz, Cruzeiro (Vale do Paraíba), Ponta Grossa (PR), Pinhalense, Matonense e Guaratinguetá. Dirigiu uma única vez o time principal do Timão. Foi no dia 8 de agosto de 1976 contra o São Paulo, com vitória corintiana por 1 a 0, gol de Ivan. O time jogou com: Sérgio; Zé Maria, Darcy, Zé Eduardo e Wladimir; Ruço, Tião, e Adilson; Ivan, Genildo e Cláudio Marques.

                    Cabeção faz questão de dizer que é sócio do Sport Clube Corinthians Paulista desde 1942, com o número 2.051. Lembra também que foi o primeiro goleiro que trocou a cor da camisa preta para a cinza. Foi ainda o primeiro goleiro que introduziu as luvas, isto em 1957, enquanto que o goleiro Gilmar foi o primeiro a descartar as joelheiras em 1958. Em relação a sua altura ele lembra que goleiros como Aymoré Moreira, Jurandir, Barbosa, Castilho, Veludo, Gilmar e Joaquim de Moraes, todos tinham altura entre 1,75m e 1,80m, todos com excelentes atuações, todos com passagem pela seleção brasileira e que não tinham treinadores de goleiros. O que acontece hoje é que os treinadores de goleiros são preparadores físicos, treinam muito, mas não sabem corrigir os erros.

                   Quanto aos jogos inesquecíveis de sua carreira, ele diz que são muitos, mas o jogo do dia 3 de maio de 1953, quando o Corinthians goleou o Flamengo do Rio de Janeiro por 6 a 0 ele jamais esquecerá. Foi pelo Torneio Rio-São Paulo e o jogo foi no Pacaembu. Foi uma exibição primorosa do Corinthians, sendo que aos 38 minutos do primeiro tempo, Cabeção defendeu um pênalti. O goleiro do Mengão chamava-se Garcia, então a Fiel torcida gritava “O que começa com G e termina com A?” e o povão respondia: “Garcia”. Isto o deixava furioso, e quanto mais ele se irritava, o Corinthians ia aumentando o placar. Esta é uma pequena história do querido e inesquecível Cabeção, um goleiro que por onde passou deixou a imagem de um grande ser humano.

Em pé: Augusto, Oreco, Cabeção, Cássio, Eduardo e Ari Clemente     –    Agachados: Bataglia, Silva, Nei, Rafael e Ferreirinha
Em pé: Cabeção, Walmir, Oreco, Olavo, Ivan e Roberto Belangero    –    Agachados: Bataglia, Paulo, Zague, Rafael e Tite
Em pé: Augusto, Oreco, Cabeção, Cássio, Eduardo e Ari Clemente    –   Agachados: Bataglia, Silva, Nei, Ferreirinha e Lúcio
Em pé: Cabeção, Idário, Goiano, Homero, Olavo e Julião     –    Agachados: Cláudio, Luizinho, Carbone, Mário e Balazar
Da esquerda p/direita: Cabeção, Baltazar, Touguinha, Jackson, Lorena, Murilo, Idário, Carbone, Julião, Luizinho, Cláudio e o técnico Rato
Em pé: Cabeção, Hélvio, Djalma Santos, Brandãozinho, Bauer e Olavo    –   Agachados: Julinho, Antoninho, Baltazar, Pinga e Rodrigues
Em pé: Cabeção, Murilo, Touguinha, Lorena, Julião e Idário     –    Agachados: Cláudio, Luizinho, Baltazar, Jackson e Carbone
Em pé: Cabeção, Idário, Julião, Murilo, Cassio e Roberto Belangero    –    Agachados: Cláudio, Luizinho, Baltazar, Carbone e Mário
Em pé: Oreco, Ari Clemente, Olavo, Egidio, Cabeção e Roberto Belangero    –   Agachados: Lanzoninho, Luizinho, Joaquinzinho, Rafael e Guimarães
Em pé: Cabeção, Djalma Santos, Nena, Floriano, Ceci e Zinho   –    Agachados: Julinho, Zé Amaro, Airton, Edmur e Ortega
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