NORONHA: um verdadeiro artista da bola

                 Alfredo Eduardo Ribeiro Mena Barreto de Freitas Noronha nasceu dia 25 de setembro de 1918, em Porto Alegre (RS). Poucos são-paulinos atuais tiveram a oportunidade de ver em campo a famosa linha formada por Rui, Bauer e Noronha. No entanto, não há um torcedor tricolor que não cite com orgulho o nome do trio, responsável por uma das épocas mais vitoriosas do clube. Verdade seja dita: estes três jogadores não estão apenas na memória dos torcedores do time paulista, mas sim na memória de todos os amantes do futebol. A história de Noronha no São Paulo começou em 1942. Antes disso, o atleta, gaúcho, defendia as cores do Grêmio, onde foi campeão gaúcho em 1935, 37, 38 e 39.  O time fez de tudo para segurá-lo no sul, pois não queria perder um talento como aquele.  Mas  não  teve  jeito.  Depois  de  investidas  de  clubes por todo o  Brasil, teve que ser vendido para o Vasco da Gama. No futebol carioca, teve tudo para se firmar. Entretanto, não se deu bem, sendo reserva do seu posteriormente companheiro no Tricolor Paulista, Zarzur. Melhor para o São Paulo, que o contratou no ano seguinte.

SÃO PAULO F.C.

                 Noronha chegou ao Tricolor em 10 de julho de 1942, também fez parte da maravilhosa linha média descrita acima. Era um belo marcador, além de aliar fôlego e uma técnica refinada. Foi um grande líder dentro e fora de campo, fazendo até o gênio Leônidas da Silva, abaixar a cabeça. Sua estréia foi sem muito alarde, em um empate por 2 a 2 contra o SPR. Mas o melhor ainda estava por vir, com as conquistas dos cinco títulos paulistas, 1943, 45, 46, 48 e 49.

                 Noronha, que atuava mais pela ala esquerda, foi um dos principais jogadores do time nas cinco conquistas dos Campeonatos Paulista. O feito é especial: na época, dizia-se que Corinthians e Palmeiras (então Palestra Itália) jogavam “cara e coroa” para decidir o campeão do estado de São Paulo, dado o domínio das equipes no torneio. O São Paulo só seria campeão se a moeda caísse em pé. Com Rui, Noronha, Bauer, Leônidas da Silva, Teixeirinha, King, Luizinho, Sastre, Remo, Piolim e Virgílio, a moeda caiu de pé sucessivas vezes, fazendo do time um dos principais esquadrões da década de 40. Era a consagração do Tricolor, ainda recente no cenário do futebol brasileiro, mas que já começava a mostrar uma face vencedora nos campos.

                 O primeiro título de Noronha no São Paulo aconteceu no dia 3 de outubro de 1943, quando empatou com o Palmeiras em 0 a 0 na última rodada. O desfile da vitória na Avenida Pacaembu teve até carro alegórico: uma grande moeda prateada, em pé, na carroceria de uma caminhonete, se tornava o símbolo da campanha. O São Paulo sagrou-se campeão paulista de 1943, com King, Zarzur, Piolim, Virgilio, Zezé Procópio, Noronha, Luizinho, Sastre, Leônidas da Silva, Remo e Pardal.

                Dois anos depois, Noronha voltava a ser campeão pelo tricolor. O título Paulista de 1945 foi calmo e tranqüilo. De ponta a ponta, como um verdadeiro time grande, enterrando definitivamente as “esperanças” Palmeirenses e Corintianas, de que era mais fácil uma moeda cair em pé, do que o São Paulo ser campeão. Garantiu o título na antepenúltima rodada, com uma suada vitória sobre o Ipiranga por 3×2. No ano seguinte o São Paulo ganhou o título de maneira invicta, mas a luta foi bem mais árdua do que no ano anterior, já que o Corinthians ficou no páreo o tempo todo.

               Na Sexta rodada, São Paulo e Corinthians se enfrentaram, depois de terem obtido cinco vitórias cada um. Mas deu São Paulo por 2 a 1. Na última rodada, o São Paulo tinha um ponto na frente do Corinthians que iria fazer um jogo fácil contra um time pequeno, enquanto que o Tricolor iria enfrentar o Palmeiras. Foi um jogo difícil, mas o São Paulo venceu por 1 a 0, gol de Renganeschi. Este jogo aconteceu dia 10 de novembro de 1946. E o último título de Noronha com a camisa do São Paulo F.C. foi no ano de 1949, quando o Tricolor enfrentou o Santos na última rodada e venceu por 3 a 1. Este jogo aconteceu no dia 20 de novembro de 1949 e os gols do São Paulo foram marcados por Friaça (2) e Teixeirinha.

             Noronha foi um dos craques que teve participação importante na história do Tricolor Paulista nos anos 40. Formou com Bauer e Rui uma linha média inesquecível, uma das mais famosas do futebol brasileiro em todos os tempos. Além da técnica refinada e da voz de comando, deu também seu toque especial nos cinco títulos da década de 40 com inesquecíveis gols de cabeça. Noronha ficou no São Paulo até o dia 17 de outubro de 1951. Nesse período realizou 309 partidas e marcou 14 gols com a camisa do Tricolor Paulista. Antes de deixar o São Paulo, Noronha defendeu nossa seleção na Copa de 50, que foi realizada aqui no Brasil.

PORTUGUESA

              Noronha atuou depois na Portuguesa de Desportos, onde, em 1952, foi campeão do Torneio Rio-São Paulo. Neste ano, a Portuguesa tinha um grande time, tanto é que contribuiu com mais da metade dos jogadores para a Seleção Paulista daquele ano, cuja escalação era a seguinte; Muca, Djalma Santos, Elvio, Brandãozinho e Noronha; Bauer e Pinga; Julinho, Antoninho, Baltazar e Rodrigues. Desta seleção, seis jogadores defendiam a Portuguesa, pois a equipe da Lusa era assim formada; Muca, Djalma Santos, Nena, Ceci e Noronha; Brandãozinho e Pinga; Julinho, Renato, Nininho e Simão.

              Jogadores que depois vieram a fazer muito sucesso em outros clubes, como por exemplo; Djalma Santos e Julinho no Palmeiras, Pinga no Vasco da Gama do Rio de Janeiro, Simão no Corinthians e Noronha que já havia jogado no São Paulo e feito muito sucesso. Na conquista do Rio-São Paulo de 1952, a Portuguesa fez uma campanha maravilhosa. Venceu o Palmeiras por 3 a 2, o Santos por 5 a 1, o Corinthians por 3 a 2, o Bangu por 5 a 1, o Botafogo por 2 a 1 e empatou com o Vasco em 1 a 1.  Foi para a final decidir o título com o Vasco da Gama, pois os dois clubes fizeram a mesma campanha. O primeiro jogo foi realizado no Estádio Municipal do Pacaembu no dia 15 de junho de 1952.

             A Portuguesa venceu por 4 a 2, gols de Nininho (2), Julinho e Pinga. Para o Vasco marcaram Ademir de Menezes e Manéca.  A segunda partida foi realizada no Maracanã dia 19 de junho de 1952. Nesta partida deu empate de 2 a 2. Os dois gols da Lusa foram marcados por Pinga, enquanto que para o Vasco marcaram Ademir de Menezes e Manéca, os dois que já haviam marcado na primeira partida. Com a vitória em São Paulo, este empate foi suficiente para a Portuguesa de Desportos sagrar-se Campeã do Torneio Rio-São Paulo de 1952.  

CARREIRA ENCERRADA

              Noronha encerrou a carreira no Ipiranga, um clube também da cidade de São Paulo. Jogou nas seleções paulista e brasileira na Copa do Mundo de 1950. A linha com Rui e Bauer foi repetida na partida contra a Suíça, no Pacaembu, empate por 2 a 2. No restante das partidas, foi reserva de Bigode, que foi um dos crucificados pela derrota na final contra o Uruguai. Depois de abandonar a carreira como jogador de futebol, Noronha virou técnico. Tinha uma concepção totalmente diferente do futebol, e foi um crítico da forma como era administrado o esporte no Brasil. “É um absurdo que se cobre resultados de um técnico em quatro meses de trabalho. Acho que todos os contratos para treinadores deveriam ter dois anos”, disse, certa vez, para a reportagem de A Gazeta Esportiva, em 1976.

              Bem humorado, Noronha acreditava que o futebol brasileiro estava fadado a perder o seu posto de melhor do mundo se os campos de várzea, que ajudaram a revelar muitos talentos para o esporte no Brasil, continuassem desaparecendo. “Na nossa época, não tinha tanta diversão. A molecada ia era chutar bola na várzea. Eu até cabulava aula para jogar bola. Hoje, esses espaços estão diminuindo”, lamentava.  O atleta via o futebol como uma espécie de arte, por esse motivo considerava que a prática é que faria com que o talento surgisse. Aí se entende a defesa da várzea, onde começou a mostrar seu talento. Foi isso que ocorreu com o garoto de Porto Alegre, que ao lado de Rui e Bauer, fazia arte nos campos de futebol.

SAUDADE

              No domingo, dia 27 de julho de 2003, o futebol ficou mais pobre. Isso porque Noronha faleceu vítima de insuficiência cardíaca. Assim, dos “três mosqueteiros”, Rui, Bauer e Noronha, agora não resta nenhum para contar a história de uma das linhas mais espetaculares da história do São Paulo.  Rui, aliás, contava com orgulho que os três eram tão bem entrosados dentro de campo que costumavam trocar de posição durante as partidas para confundir o adversário e, assim, ajudar o time a conseguir as vitórias. Essa inversão era uma novidade tática na época, que confundia a marcação adversária. Noronha foi campeão sul-americano em 1949 e vice mundial em 1950 pela Seleção Brasileira.

Em pé: Rui, Savério, Mauro, Mário, Bauer e Noronha    –    Agachados: Friaça, Ponce de Leon, Leônidas da Silva, Remo e Teixeirinha
Em pé: Piolim, Zarzur, King, Zezé Procópio, Noronha e Florinho    –   Agachados: Luizinho, Sastre, Anito, Remo e Pardal
Em pé: Piolim, Rui, Zezé Procópio, King, Florindo e Noronha     –    Agachados: Bárrios, Sastre, Leônidas da Silva, Remo e Leopoldo

Em pé: Rui, Palante, Oberdan, Mauro, Bauer e Noronha    –     Agachados: Friaça, Pinga, Baltazar, Antoninho e Teixeirinha.
Em pé: Ruy, Barbosa, Augusto, Bauer, Noronha e Juvenal    –   Agachados: Alfredo, Maneca, Baltazar, Ademir de Menezes e Friaça
Em pé: Luizinho, Leônidas da Silva, King, Virgílio, Silva e Noronha   –   Agachados: Piolim, Waldemar de Brito, Lola, Remo e Pardal
Em pé: Ruy, Palante, Oberdan, Mauro, Bauer e Noronha    –   Agachados: Friaça, Pinga, Baltazar, Antoninho e Teixeirinha

 

             

Postado em N

Deixe uma resposta