OLTEN AYRES DE ABREU: o árbitro que mais apitou jogos do Pelé

                   Olten Ayres de Abreu nasceu dia 27 de setembro de 1928, na cidade de Mossoró – RN. Foi árbitro, treinador, professor de educação física e dirigente de futebol. Hoje é advogado, músico, jornalista e poeta. Filho de José Rosalvo de Abreu e Josefa Ayres. O nascimento de Olten ter acontecido em Mossoró deveu-se ao fato de seu pai, fiscal da Receita Federal, estar sempre trocando de estado a cada período exercendo sua função no Fisco. Olten viveu seus grandes momentos como árbitro de futebol, tendo apitado partidas memoráveis, como o jogo inaugural do Morumbi entre São Paulo e Sporting de Lisboa no dia 2 de outubro de 1960.  Apitou também o jogo entre Santos e Fluminense no dia 5 de março de 1961, quando Pelé marcou um gol tão bonito que o jornalista Mário Filho, um dos ícones da imprensa brasileira, resolveu fazer uma placa para homenagear o mais belo dos gols feitos no Maracanã.

                  E a placa dizia:  “Neste campo no dia 5-3-1961  PELÉ  marcou  o  tento  mais bonito da história do Maracanã”. O gol aconteceu aos 40 minutos do primeiro tempo, o Peixe vencia por 1 a 0, o Rei driblou sete adversários e tocou na saída do goleiro. As duas torcidas, em reverência, aplaudiram de pé por seis minutos. Olten não hesitou: “Quando me dei conta, o estádio inteiro estava aplaudindo. O que eu ia fazer? Aplaudi também e quando o Pelé se aproximou, o cumprimentei. Foi uma honra!”.

                 Formou-se em educação física e Direito, mas na verdade, o nome de Olten Ayres de Abreu chegou às alturas no noticiário esportivo, no período em que atuou como árbitro do quadro principal da Federação Paulista de Futebol e, posteriormente, da Fifa. Curiosamente, apesar de norte-rio-grandense, apitou apenas uma partida na capital, sua ausência no Rio Grande do Norte é pelo fato de não haver ainda Campeonato Brasileiro nos anos sessenta. Era raro um árbitro do Rio ou São Paulo atuar no Nordeste. Só é possível fazer uma análise da personalidade de Olten Ayres de Abreu, quem com ele conviver durante algum tempo. Voz firme, boa estatura para os padrões nordestinos (1,85m), ótimo biotipo para a prática do atletismo, Olten acabou optando pela arbitragem no futebol. Era o preferido da Federação Paulista de Futebol para os clássicos considerados quentes, sujeitos a muita tensão no gramado.

SÃO PAULINO DECLARADO

                 Olten Ayres de Abreu é são paulino declarado, porém uma vez apitando jogo do time da camisa tricolor, a paixão clubística era temporariamente arquivada. Certa vez, em 1943, numa reunião na sede da Federação Paulista estavam presentes diretores do Corinthians e do Palmeiras, alguém sugeriu que se jogasse uma moeda no chão: se caísse com a “cara” pra cima ia dar Corinthians, se caísse a “coroa”, dava Palmeiras. E aí Olten indagou: e o São Paulo, nada? Só se a moeda cair em pé, gozou um dos presentes. Jogada a moedinha, ela rolou, rolou e não virou. Ficou em pé. Coincidentemente, deu São Paulo naquele ano. Olten guarda essa moeda até hoje.

                 Embora sua carreira como árbitro seja marcada por uma relação estreita com o Santos, o coração de Olten bate pelo São Paulo, do qual é conselheiro vitalício. Ele apitou o jogo inaugural do Morumbi, dia 2 de outubro de 1960, na vitória tricolor sobre o Sporting (POR) por 1 a 0, gol de Peixinho. Guarda consigo diversas honrarias do clube e hoje mostra com orgulho a carteirinha de assessor pessoal do presidente Juvenal Juvêncio. Mas nem tudo são flores. Por conta da relação com o Santos, Olten é criticado até hoje por conselheiros do Sampa. Ele se defende: “Dizem que o São Paulo não ganhava comigo, só o Santos. E não ganhou mesmo. O time era muito ruim (risos)”.

SANTOS F.C.

                 Foi o árbitro que mais apitou jogos do Santos e o que mais apitou jogos do Pelé. “Eu nunca o expulsei. Ele era gênio, nunca mais terá outro. Eu ia expulsar gênio?”  Dentre os jogadores do Santos das décadas de 60-70, um em especial tinha motivos para se preocupar com a arbitragem de Olten: Zito, o capitão daquele esquadrão. “Eu o expulsei seis vezes”, conta o ex-árbitro, aos risos. Ele, no entanto, faz questão de ressaltar que as expulsões não foram por um carrinho ou qualquer outra entrada violenta. Zito era considerado um jogador muito disciplinado: “Era por reclamação, ele reclamava demais. Às vezes, no começo do jogo, eu apitava algo contra e ele chegava no meu ouvido e dizia: Já vai começar, né! Eu respondia: Já comecei! Pode sair! E mandava para a rua”.

                 Em 1962, Olten Ayres de Abreu foi o encarregado de apitar a estréia do Santos numa Taça Libertadores. O fato deu-se em La Paz, Bolívia, contra o Deportivo Municipal, representante boliviano. Naquela época era comum o visitante indicar o árbitro e o Santos o escolheu. O Santos venceu por 4 a 3. Foi o jogo mais histórico do Santos na Libertadores e também na carreira do árbitro Olten Ayres de Abreu. Quando o avião que levava o time do Santos e também o árbitro estava aterrizando no aeroporto, o povo boliviano invadiu a pista e veio na direção do avião. Todos acharam  que iriam morrer. Mas a polícia os retirou e os brasileiros foram para o hotel. Tudo isso para ver o Santos, ou melhor, ver Pelé. A federação boliviana abriu o estádio um dia antes para os torcedores. E serviram chá de coca para todos eles. Eles estavam loucos. Alguns cheiravam cocaína.

                Fizeram muita pressão, quiseram retardar o tempo do jogo, e com a vitória do Santos a fúria chegou, mas Olten resistiu. O Santos era muito melhor. Mas eles começaram a quebrar tudo, sobrou até para o Pelé. Tiveram que tirar os brasileiros em especial o árbitro Olten em caminhões do exército. Pelé teve de sair disfarçado do estádio. Dizem que Olten foi mandado para favorecer o Santos, mas segundo ele, se pudesse escolher iria para Paris e não para a Bolívia. Os brasileiros só tiraram as roupas do exército no hotel. Esse jogo entrou para a história, tanto para o Santos como também para Olten Ayres de Abreu.

CINEMA
                 Olten Ayres de Abreu também chegou a atuar em filmes brasileiros. No caso, teve uma curta participação em O Corintiano (1966) ao lado de Mazzaropi. No filme, Mazzaropi tenta subornar o juiz Olten para “facilitar para o Corinthians”, mas recebe uma bronca indignada do mesmo e se retira rapidinho.

MORUMBI

                 Olten Ayres de Abreu teve a honra de ser o árbitro do jogo que inaugurou oficialmente o estádio Cícero Pompeu de Toledo e isto aconteceu no dia 2 de outubro de 1960. Neste dia também tivemos o primeiro gol do Morumbi, que foi marcado por Peixinho, aos 12 minutos de jogo, diante de 56.448 pessoas que lotavam o estádio ainda inacabado, pois o objetivo era abrigar 120 mil pessoas, com renda de Cr$7.868.400,00, recorde em amistosos na época. O São Paulo jogou com: Poy; Ademar, Gildésio e Riberto; Fernando Sátiro e Vítor; Peixinho, Jonas (Paulo), Gino Orlando, Gonçalo (Cláudio) e Canhoteiro. O técnico era Flávio Costa, o mesmo que comandou nossa seleção na Copa de 50, que foi disputada aqui no Brasil.

O JOGO DO SÉCULO

                 Um dos orgulhos de Olten Ayres de Abreu é ter sido convidado para apitar o chamado jogo do século, envolvendo Santos do Brasil e Inter de Milão, no Yankee Stadium. Eram os dois times mais fortes naquela oportunidade. Os italianos abriram o placar, e foi aí que começou uma verdadeira guerra campal envolvendo os 22 jogadores. Até Olten levou um chute, mas deu o troco no agressor. Depois de muita discussão, o jogo foi reiniciado sem expulsões porque ninguém identificou ninguém. Ainda houve 20 minutos de jogo, terminando com vitória italiana por 1×0.

COPA DO MUNDO DE 1962

                Olten havia sido convocado para a Copa de 62, no Chile, como titular, mas numa jogada desleal de Paes Leme, acabaram jogando-o para suplente, abrindo uma brecha para o veterano João Etzel Filho, que apitou o jogo com o maior número de gols daquele mundial. O jogo foi entre Colômbia e Russia no dia 3 de junho de 1962 e o placar foi de 4 a 4. Naquele Mundial, Olten testemunhou a forma como João Etzel deu “sumiço” ao bandeirinha uruguaio Esteban Marino, que seria testemunha da agressão de Garrincha no julgamento do camisa 7 do Brasil por ter agredido o jogador Toro da seleção chilena. Etzel desapareceu de Santiago com esse bandeirinha, e na hora do julgamento, não havia testemunha ocular da agressão de “Mané”, que acabou absolvido. Falam em US$ 10 mil dólares. Com isso, Garrincha pode participar da final contra os tchecos, quando o Brasil venceu por 3 a 1 e sagrou-se bicampeão mundial. Recentemente, Olten voltou ao assunto dando uma entrevista à Rede Globo, com repercussão bem menor. Afinal, já se passam mais de 50 anos.

                 Olten Ayres de Abreu morou em São Paulo e foi presidente do SITREPESP (Sindicato dos Treinadores Profissionais do Estado de São Paulo) por 10 anos. Foi também advogado e conselheiro do São Paulo Futebol Clube. Olten Ayres de Abreu faleceu dia 24 de dezembro de 2015.

Jogo de Inauguração do Estádio do Morumbi em 2 de outubro de 1960 , que teve como árbitro Olten Ayres de Abreu
Dino Sani pelo Corinthians, Olten Ayres de Abreu jogando a moeda para o alto e Ditão pela Portuguesa
Esta foi uma das seis vezes que Olten Ayres de Abreu expulsou Zito de campo (1961)  –  OBS: Naquela época não havia os cartões amarelo e vermelho.
Da esquerda p/direita: Anacleto Pietrobom, Olten Ayres de Abreu e Airton Vieira de Moraes, o popular Sansão
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