EUSÉBIO: campeão paulista pelo Santos em 1973

                Carlos de Jesus Eusébio nasceu dia 6 de novembro de 1951, na cidade de Santa Bárbara d´Oeste – SP.  Começou sua carreira no time da cidade natal, o União Agrícola Barbarense. Em 1972 foi contratado pelo Santos, após um mês de testes no Vasco da Gama, do Rio de Janeiro. Já havia jogado um ano antes em outro Vasco, o de Americana, hoje extinto. No ano seguinte teve a honra de fazer dupla de área com Pelé e juntos conquistaram o titulo paulista, título este que foi dividido com a Portuguesa de Desportos, depois de um erro matemático cometido pelo árbitro Armando Marques. No ano seguinte deixou o Brasil e foi jogar no México, onde ficou por dez anos. Infelizmente teve sua vida abreviada, quando no dia 11 de março de 2010, sofreu um acidente de automóvel, quando seu carro perdeu o controle e bateu numa mureta de um viaduto da estrada que liga Piracicaba a Santa Bárbara d´Oeste. Devido ao seu nome, era sempre confundido com o atacante português, um dos maiores ídolos do futebol mundial e artilheiro da Copa de 66.

INFÂNCIA

               Euzébio jogava bola desde menino. Todo mundo praticava futebol naquela época, porque era o único esporte. O chão de terra batida da Usina Santa Bárbara, onde nasceu, tinha muitos meninos bons de bola, mas nenhum como ele. Não jogava sempre, afinal era o filho do meio em uma família de oito irmãos, sem contar os cinco que sua mãe perdera durante a gravidez, no parto ou nas primeiras semanas de vida. Dona Lázara cuidava da casa e dos filhos com dedicação, cabendo ao seu Benedito e aos mais velhos a tarefa de ganhar o suado pão de cada dia. Euzébio começou a ir junto com o pai aos sete anos, já que os mais novos não tinham idade para trabalhar, embora soubessem que logo chegaria a hora deles. A família vivia do corte da cana quando era época de cana; da venda de frutas, quando era época de frutas.

              Perto de sua casa havia um cinema que funcionava três noites por semana. Euzébio ia todas as noites, mas nunca entrou para ver um filme. Para ajudar na mirrada renda familiar, engraxava os finos sapatos dos ricos empresários que vinham da cidade. Nos poucos meses quando não havia trabalho, pescava e brincava com seus irmãos. Apanhava quase todo dia do seu Benedito, já que a culpa de todas as brigas caía sobre ele, mesmo quando nem sabia do que se tratava. Mais tarde, foi estudar num seminário e era constantemente repreendido pelas rigorosas freiras e suas compridas palmatórias de madeira por não prestar atenção na aula. Estava viajando no pensamento, para as peladas no campo de terra batida, para as brincadeiras com os irmãos, para o terço que rezava toda noite, exigência de seu religioso pai.

SANTOS F.C.

           A estreia e o primeiro gol de Eusébio pelo Santos, aconteceu no dia 4 de abril de 1973, quando o Santos goleou o Juventus por 6 a 0. O jogo foi válido pelo Campeonato Paulista e foi disputado na Vila Belmiro, que neste dia recebeu um público de 8.035 pagantes. O árbitro foi Dulcídio Wanderlei Boschilia e neste dia o técnico Pépe mandou a campo os seguintes jogadores; Cejas; Hermes, Marinho, Carlos Alberto e Murias; Pitico, Brecha e Nenê (Claudio); Manoel Maria, Pelé e Edu (Euzébio). Os gols foram marcados por: Pelé (2), Brecha (2) Eusébio e Manoel Maria. No jogo seguinte, mais um gol de Eusébio, desta vez diante da Portuguesa de Desportos e isto fez com que os olhos da torcida santista se voltassem para ele. Ainda em 1973 sagrou-se campeão paulista jogando ao lado de Pelé.

             Isto aconteceu dia 26 de agosto e neste dia o Santos jogou com; Cejas; Zé Carlos, Carlos Alberto, Vicente e Turcão; Clodoaldo e Léo; Jair da Costa, Euzébio, Pelé e Edu. Euzébio fizera uma excursão com o Santos até o Chile e marcara três gols numa goleada sobre a seleção chilena. Mal sabia Euzébio que aqueles gols longe de casa o levariam mais longe ainda, cruzando a América que ele tinha estampada no quadro de seu escritório. Como muitos dos jogadores chilenos da seleção atuavam no México, a partida amistosa foi televisionada no país e os empresários ficaram loucos com o futebol de Euzébio. Não demorou muito para que o fosse contratado.

MÉXICO

               O título paulista de 1973 e as boas atuações em 1974 atraíram a atenção dos times mexicanos, em especial do Universidad Guadalajara, clube recem-promovido à primeira divisão do campeonato nacional e que contava com um treinador brasileiro. Euzébio desembarcou no aeroporto da Cidade do México com as malas cheias e o coração repleto de esperança de obter sucesso. Sua esposa Nilza, grávida de sete meses da primogênita Vanessa, enfrentou a viagem de avião com coragem e surpreendeu-se com tão calorosa recepção por parte dos mexicanos. O idioma não era problema e o jovem casal conseguia se comunicar com os vizinhos, sempre muito solícitos.

              As longas jornadas fora de casa deixavam Euzébio apreensivo com sua esposa na iminência de entrar em trabalho de parto em uma terra estranha, longe de casa, mas que seria sua casa por sabe-se lá quanto tempo. Naqueles dois primeiros meses, Euzébio sofria quando tinha um jogo em outra cidade nos finais de semana. A equipe hospedava-se em um hotel na noite da sexta-feira, viajava no sábado e jogava no domingo. Euzébio só revia a esposa na segunda. Telefonemas eram trocados constantemente.

              Euzébio fez seu nome no Universidad Guadalajara. A equipe, conhecida por “leões”, mudou de apelido. Agora eram “leões negros”, pois além de Eusébio havia mais dois negros. O time, que havia subido de divisão naquele ano, goleava todos os adversários e o atacante brasileiro que era confundido com o goleador português homônimo fazia sucesso. No México havia o chamado “dia do clube”, uma data escolhida pelo time para, uma vez no ano, dobrar o preço do ingresso. E toda rodada, quando os leões negros visitavam a cidade, era dia do clube. Euzébio, ao percorrer as ruas das cidades mexicanas com o sempre animado ônibus da equipe, via campos de várzea onde os peladeiros vestiam uma camisa única, mas que se tornara muito conhecida a partir daquele ano: o vermelho, amarelo e preto do Universidad Guadalajara atraía o olhar das pessoas da mesma maneira que o futebol apresentado pelo time.

               Dia 6 de novembro de 1974, o Universidad fez o clássico da cidade contra o Atlas. Naquele dia, Euzébio completava 23 anos. Estádio Jalizco lotado. Um a zero para a Universidad. Jogo duro. Euzébio recebe a bola atrás do meio campo e sai com ela dominada. Dribla um. Outro. A torcida vai se levantando e começa a gritar. Dribla mais um. Dá uma meia-lua em Albert, zagueiro argentino que fora titular da seleção. Euzébio era rápido e, na hora em que Albert virou-se, já estava na cara do gol. O goleiro Gato Vargas saiu para fazer a defesa. Euzébio deu outra meia-lua e a torcida já vibrava, barulho ensurdecedor no estádio.

               Euzébio estava sozinho, cara-a-cara com o gol. O goleiro, batido fora da área. Com um toque na bola, o atacante ficou de frente para o gol. Naquele momento, todos estavam paralisados esperando pela conclusão. Muitos já comemoravam. Os rojões começavam a ser acesos. Euzébio pensou: “vou meter lá no ângulo”. Na hora do chute, ele escorrega e chuta completamente torto, e a bola acabou saindo pela linha lateral. O Jalizco emudeceu. Euzébio, caído, não teve coragem de olhar à sua volta. Ninguém acreditava que aquilo havia acontecido. Gato Vargas levantou-se, esticou a mão para Euzébio que não reagiu, atônito. A Universidad Guadalajara ganhou do Atlas por 1 a 0.

               No jogo seguinte, Euzébio marcou três gols na vitória por 5 a 2 sobre o León, sendo um deles um chute quase sem ângulo. Foi artilheiro isolado durante mais da metade do campeonato. Mas não importava. No dia seguinte ao jogo contra o Atlas, os jornais estampavam em letras garrafais com uma foto de página inteira: “A falha do século”. Após oito anos de muito sucesso no Universidad, teve uma passagem rápida pelo Monterrey e chegou ao León em 1984.

DE VOLTA AO BRASIL

                Voltou ao Brasil e foi jogar no clube que o revelou, o União Barbarense. Jogou lá até o final de 86, quando decidiu novamente parar e, novamente, voltou atrás. Um convite da Francana fez a família toda sentir a falta do pai por mais algum tempo. Antes de um jogo amistoso de preparação para o Campeonato Paulista, Euzébio foi ao vestiário. Cumprimentou o roupeiro, colocou sua mochila de roupas no armário, fez um breve aquecimento e foi beber um copo de água. Ao lado do bebedouro, duas garrafas de café. Euzébio perguntou então ao roupeiro: “Por que tem duas garrafas de café?”. “Porque uma é da boa”. “Ah é?”. “É”. “Dá isso aqui”.

                Ele segurou a garrafa e foi em direção ao ralo do banheiro. O roupeiro largou a sacola com os uniformes e falou: “Vai fazer o quê?”, ao que Euzébio respondeu: “Fica vendo”. Desrosqueou a tampa, virou a garrafa e jogou todo o líquido preto e quente pelo ralo. Um grupo de jogadores se rebelou contra ele. Queria bater em Euzébio. A garrafa de café “boa” à qual o roupeiro se referira continha drogas estimulantes, as chamadas “bolinhas”, que um grupo de jogadores usava em dia de jogo. Euzébio comprou a briga com todos e até os que não usavam a substância ficaram contra ele.

                Depois que encerrou a carreira, passou a trabalhar numa cooperativa de reciclagem num bairro modesto de Santa Bárbara d’Oeste, onde vivia com sua esposa e os três filhos, Vanessa, Rodrigo e Christian, sendo que Rodrigo, para orgulho de Eusébio, ordenou-se padre. Eusébio foi um atacante habilidoso, jogou em todas as posições durante sua carreira. Ficava orgulhoso por ter jogado trinta minutos no gol do Universidad Guadalajara sem ser vencido pelos atacantes adversários. Aprendeu a jogar também com a perna esquerda por exigência do futebol. Nos anos de Santos, o treinador Pepe gritava furioso, que jogador de futebol tinha que saber chutar com as duas pernas. “Se for pra chutar com uma perna só, coloco o Saci pra jogar”, brincava Pepe. Infelizmente Eusébio nos deixou muito cedo, com apenas 58 anos de idade, mas nos deixou belos exemplos e escreveu seu nome com letras douradas dentro do futebol, por isso esta nossa humilde homenagem.

Em pé: Cláudio, Marinho Peres, Hermes, Vicente, Clodoaldo e Zé Carlos     –     Agachados: Manoel Maria, Brecha, Eusébio, Pelé e Edu
Em pé: Cejas, Marinho Peres, Carlos Alberto, Vicente, Clodoaldo e Turcão     –    Agachados: Jair da Costa, Brecha, Eusébio, Pelé e Edu

UNIÃO BARBARENSE DE 1971    –    Em pé: Xisto, Brandão, Luiz Alberto, Wilson, Araújo e Ademir  Gonçalves     –     Agachados: Eusébio, Zé 21, Careca, Tata e Carlinhos
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