NATAL: o diabo loiro de B.H.

                 Natal Carvalho Baroni nasceu dia 24 de novembro de 1946, na cidade de Belo Horizonte – MG. Foi um ponta direita de porte físico privilegiado. Destacava-se mesmo pela velocidade, dribles e pelo chute forte. Foi dele o gol no Pacaembu, que selou a vitória da equipe do Cruzeiro por 3 a 2 sobre o Santos de Pelé na final da Taça Brasil de 1966, depois de ter vencido de forma extraordinária a primeira partida em Belo Horizonte por 6 a 2. Além do Cruzeiro, Natal defendeu também: Corinthians, Bahia, Vitória, América Mineiro, Londrina, Vila Nova e Valeriodoce de Minas Gerais, Deportivo Itália, da Venezuela e também a nossa seleção canarinho. Encerrou sua carreira em 1981, com 34 anos de idade. Sua melhor fase foi sem dúvida no Cruzeiro, quando em 1966 o clube ficou nacionalmente conhecido depois de derrotar o Santos duas vezes seguida e também por ter em seu elenco, jogadores de alto nível, como por exemplo, Tostão, Dirceu Lopes, Raul, Piazza, Zé Carlos e outros que anos depois fizeram muito sucesso tanto no Brasil, como também no exterior.

CRUZEIRO

               Após brilhar em um torneio entre escolinhas, quando atuava pelo Itaú, da Cidade Industrial de Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, o ponta direita Natal foi convidado por Orlando Vassali para jogar no Cruzeiro. Com apenas 13 anos, já demonstrava muita habilidade e, principalmente, velocidade. Natal, chamado de “Diabo Louro” conquistou alguns títulos nas categorias de base do Cruzeiro, atuando ao lado de Dirceu Lopes e Pedro Paulo. “Comecei no Itaú, buscando o meu espaço, para tentar virar jogador profissional. Fui convidado para um teste no Cruzeiro e consegui passar. Hoje, quando estou fazendo as peneiradas, lembro do meu momento, do número de jogadores que buscam realizar este sonho”, lembrou.

               Natal foi promovido para o profissional do Cruzeiro em 1965, quando venceu pela primeira vez o Campeonato Mineiro. Sua estréia aconteceu dia 23 de fevereiro de 1965, quando o Cruzeiro venceu o Casimiro de Abreu por 2 a 1. Natal fazia parte de um dos maiores elencos do Cruzeiro, com Dirceu Lopes, Pedro Paulo, Néco, Procópio, Zé Carlos, William, Raul, Piazza e Tostão, estrelas que deram ao clube a Taça Brasil de 1966 e o pentacampeonato mineiro, entre 65 a 69. O ex-atleta lembra com saudade e gratidão do grande time celeste, formado a partir de 1965. “Era um time que não tem o que contestar, o melhor da história. Tinha no grupo, 10, 11, 15 jogadores de grande qualidade. Quando um Piazza não estava bem, tinham outros seis para suprir, quando eu não estava bem, um Dirceu Lopes arrebentava. Era um grande time que formamos mesmo”, recordou.

               Boêmio assumido, Natal ganhou fama de romântico e “playboy”. Dava preferência a carros conversíveis, quase sempre ocupados por belas mulheres. Carismático, o Diabo Louro era querido pela torcida, principalmente, por atuar bem contra o Atlético. Sempre decisivo nos clássicos, não se importava com o sofrimento que causava a alguns parentes, como a própria mãe, uma atleticana assumida. O jogo que o consagrou, no entanto, foi a decisão da Taça Brasil de 1966, quando o Cruzeiro virou a partida diante do Santos, em pleno Pacaembu.

               O Peixe, de Pelé e Pepe, vencia por 2 x 0 quando os mineiros reverteram o marcador para 3 x 2, no segundo tempo. Natal marcou o terceiro e decisivo gol. Naquele dia 7 de dezembro de 1966, choveu muito e o gramado do Pacaembu ficou pesado. O time de baixinhos, que fazia a bola queimar a grama, complicou-se. E o Rei do Futebol abriu o placar aos 23. Dois minutos depois, Toninho Guerreiro fez 2×0. Raul ainda defendeu duas bolas nos pés dos dois artilheiros santistas antes de terminar o 1º tempo. Os atleticanos diziam: “Acabou! Acabou! Acabou!”

               No Pacaembu, Athiê Jorge Cury, presidente do Peixe, invadiu o vestiário celeste acompanhado de Mendonça Falcão, presidente da FPF. Propuseram: “Vamos jogar a negra no Maracanã?”  Mas o presidente do Cruzeiro os enxotou. Aírton Moreira, inspirado por Aymoré e Zezé, os irmãos famosos que estavam nas tribunas, exortou a rapaziada: “Não há recomendação especial alguma; pior não pode ficar, então, botem a cabeça no lugar, a bola no chão e tratem de jogar o que vocês sabem…”

               Os garotos voltaram dispostos a virar aquele placar e partiram para cima do Peixe. Se já haviam vencido por 4×3 e 6×2 os desafios anteriores contra o Santos, por que não repetir a dose no jogo mais importante da vida de cada um deles?  Piazza tomou pra si a responsabilidade de marcar Pelé, Tostão caiu pela direita, Dirceu pela esquerda, Natal não tinha mais posição fixa. A defesa do Santos perturbou-se. Aos 12, Oberdan derrubou Evaldo na área. Tostão bateu mal, Cláudio defendeu. E foi Tostão que, aos 18, bateu uma falta ao lado da grande área, à direita do ataque celeste. De curva, chute impossível para jogadores normais. E indefensável para goleiros, normais ou não.

               Aos 28, Dirceu gingou, Haroldo foi para um lado e ele pro outro. O gol ficou à mercê do Dez de Ouro. E, como era comum nessas ocasiões, o chute saiu certeiro, no canto: Cruzeiro 2×2. O Santos tremeu. Desmoronou. O time celeste poderia ter escolhido administrar a partida. Poderia ter colocado os maiores do mundo, os pentacampeões brasileiros, na roda. Poderia ter aplicado olé. Mas o Cruzeiro daqueles tempos era fominha. Do goleiro ao ponta-esquerda, só a vitória interessava. E ela veio aos 44. Tostão driblou Lima e Zé Carlos, foi à linha de fundo e cruzou. Natal entrou na área, como um daqueles bólidos que ele dirigia pelas madrugadas de B.H. e tocou firme, rasteiro: Cruzeiro 3×2. Belo Horizonte, Minas Gerais, o Brasil festejou. Da noite para o dia a segunda torcida de Minas passou a ser a primeira. Com sobras.

CORINTHIANS

               Natal chegou no Parque São Jorge em 1971 por empréstimo para jogar 14 meses, mas acabou ficando somente dois meses. Sua estréia com a camisa alvinegra aconteceu dia 9 de março de 1971, quando o Corinthians venceu o Marília por 2 a 1 num jogo amistoso. Logo na sua estréia marcou um gol de pênalti, alias, este foi o único gol que marcou pelo Corinthians. Neste dia o Timão jogou com: Ado, Zé Maria, Almeida, Luiz Carlos e Pedrinho (Sadi); Tião (Dirceu Alves) e Rivelino (Adãozinho); Natal, Paulo Borges, Benê (Mirandinha) e Aladim. O técnico era Aymoré Moreira e o segundo gol corintiano foi anotado por Rivelino, enquanto que Varlei marcou o único tento do Marília.

               Com a camisa alvinegra, Natal disputou apenas 10 partidas. Venceu 4, empatou 4 e perdeu 2.  Destas dez partidas, uma entrou para a história do Timão. Foi no dia 25 de abril de 1971, quando o Corinthians derrotou o Palmeiras por 4 a 3 numa sensacional virada. Sua despedida do alvinegro aconteceu dia 1 de maio de 1971, quando o Corinthians venceu o São Bento de Sorocaba por 1 a 0 pelo campeonato paulista, o gol foi anotado por Paulo Borges.  

FORA DAS QUATRO LINHAS

               Natal encerrou a carreira em 1981 aos 34 anos, quando jogava no Vila Nova de Minas Gerais.  Depois rodou muito pelo Brasil tentando concretizar sua carreira de treinador, mas não conseguiu se firmar. “É muito difícil ser treinador de futebol em times pequenos, não cumprem com o que prometem, jogadores não querem nada com a dureza e a torcida cobra resultados imediatos, é difícil”, lamentou. Natal teve passagens no comando de clubes do Nordeste, como Sergipe, ABC e Remo, entre outros clubes. Em Minas Gerais, o ex-jogador comandou Villa Nova e o Mamoré, de Patos de Minas, mas o ex-atacante não conseguiu grande destaque como treinador. “Aqui em Minas Gerais tem algo que é difícil de entender e de se aceitar.

               Os times do interior só querem vencer Atlético e Cruzeiro. Fazem o planejamento todo pensando em vencer os dois grandes. Foi assim na minha época no Mamoré e no Villa Nova. Se você consegue fazer uma boa campanha e não vence o Atlético e o Cruzeiro você não serve. Isso é muito estranho”, enfatizou.  Natal garante que não pensa em retomar a antiga carreira. “De forma alguma, longe disso, não quero mais ser treinador de nada. Estou muito feliz e realizado com o que faço hoje, com o que trabalho, não tenho menor vontade de voltar a sofrer com treinador”, frisou.

               Depois passou a trabalhar como olheiro para o Cruzeiro, observando jovens jogadores em condições de atuarem nas categorias de base do clube. “Viajo para torneios fora de Belo Horizonte, vou às peneiradas de clubes menores, trabalho procurando novos jogadores. Sou realizado com o que eu faço, até porque é o que eu sei fazer, que é trabalhar com futebol”.  O ex-ponta salientou as dificuldades em se “descobrir” grandes talentos para as equipes do Brasil. “Hoje tem muito mais quantidade do que qualidade.

               É muito difícil encontrar grandes jogadores. Você faz uma peneirada com 100 jogadores e tira dois ou três. Esta tem sido a minha principal dificuldade para revelar jogadores”, comentou. Pela Seleção Brasileira disputou 14 partidas e marcou 3 gols. Natal tem 3 filhos e 3 netas. Atualmente reside em Belo Horizonte, depois de ter morado por vários anos em João Pessoa, na Paraíba, onde se casou pela quarta vez.

Em pé: Zé Carlos, Neco, Darci Menezes, Pedro Paulo, Procópio e Raul    –     Agachados: Natal, Evaldo, Tostão, Dirceu Lopes e Rodrigues
Em pé: Buttice, Sapatão, Roberto Rebouças, Altivo, Baiaco e Ubaldo    –     Agachados: Natal, Douglas, Picolé, Fito e Peri
Em pé: Buticce, Odair, Onça, Mário Braga, Baiaco e Paulo Henrique    –     Agachados: Natal, Amorim, Picolé, Eliseu e Gílson Porto
Em pé: Vanderlei, Zé Carlos, Piazza, Pedro Paulo, Brito e Raul    –    Agachados: o massagista Nocaute Jack, Natal, Evaldo, Tostão, Dirceu Lopes e Hilton Oliveira
Em pé: Ditão, Luiz Carlos, Pedrinho, Tião, Ado e Zé Maria     –    Agachados: Natal, Samarone, Rivelino, Mirandinha e Aladim

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