DANILO: titular da nossa seleção na Copa de 1950

                 Danilo Faria Alvim nasceu dia 3 de dezembro de 1920, na cidade do Rio de Janeiro – RJ. No meio futebolístico recebeu o apelido de “O Príncipe” e era mesmo um apelido perfeito, pois tinha técnica refinada, que se expressava em dribles curtos, passes precisos e lançamentos majestosos. Mas tudo isso quase que não veio acontecer, pois quando começou a jogar futebol, em 1941, ao descer de um ônibus, na Praça da Bandeira, e tentar pegar um bonde em movimento, foi atropelado por um automóvel. O boletim de uma das enfermarias do Hospital de Pronto Socorro, que depois mudou o nome para Hospital Souza Aguiar, informava que o paciente Danilo Faria Alvim, de 19 anos, jogador do América, havia fraturado as duas pernas em 39 lugares, ficando com a tíbia exposta. Danilo ficou 18 meses engessado. Somente no segundo semestre de 1942, é que voltou a fazer exercícios de recuperação muscular. Mesmo com dificuldades, sua paixão pela bola era tão grande que nunca o deixou perder as esperanças de voltar a jogar futebol.

AMÉRICA CARIOCA

                Pouco tempo depois do acidente que quase o tirou do futebol, lá estava Danilo em campo novamente. Voltou exibindo tanta classe e categoria que logo recebeu o apelido de Príncipe. Sua oportunidade surgiu quando o técnico Flavio Costa levou uma seleção carioca para treinar no campo do América. O centro médio Rui se machucou e Flavio colocou Zazur em seu lugar. Para completar o time reserva, pediu ao treinador dos juvenis do América que indicasse um jogador do clube para terminar o treino. Danilo que estava nas arquibancadas foi chamado e entrou para treinar contra os cobras com muita naturalidade. Terminado o treino, Flavio Costa convocou Danilo. Antes de se transferir para o Vasco da Gama, ainda jogou no Canto do Rio em 1943. Foi para lá por empréstimo, dispensado pelo técnico do América, Gentil Cardoso. Percebendo a mancada que deu, Gentil o trouxe imediatamente de volta para o América.

               Na última rodada do torneio (Torneio Relâmpago de 1945), teríamos mais um Vasco e América decisivo. Mas naquele dia, não brilhou nem a estrela de Lelé, nem a de Isaías, muito menos a de Chico, ídolos do Vasco, quem acabou com o jogo foi Danilo Alvim. Com uma atuação impecável, o craque levou a equipe americana a virar o marcador adverso de 1 a 0 e levantar o troféu com uma bela vitória por 2 a 1, com gols de Maneco. A diretoria vascaína não deixou barato e no ano seguinte levou Danilo para São Januário, mantendo a tradição de que quem arrebentasse contra o Vasco não poderia mais fazê-lo, já que teria que passar rapidamente para o lado da nau vascaína. E o Príncipe, como foi carinhosamente chamado pela torcida, seria um dos grandes ídolos do clube em bem pouco tempo.

VASCO DA GAMA

               Danilo foi para o Vasco através do treinador Ondino Vieira, que foi pessoalmente contratá-lo por 90 contos de luvas e 2 contos mensais. Ganhou seu primeiro titulo de campeão carioca em 1947. Repetiu a dose em 1949, 1950 e 1952. Também foi campeão dos clubes campeões em 1948 no Chile. No dia 14 de março de 1948, o torcedor vascaíno pode dizer: no futebol brasileiro, não há nada que se compare ao Vasco. Nem time de clube nem time de Seleção. Porque neste dia o Vasco realizava um feito inédito: o incrível Expresso da Vitória trazia de Santiago do Chile o primeiro título internacional conquistado pelo futebol brasileiro no exterior.

               A equipe que contava com Augusto, Barbosa, Rafagnelli, Danilo, Jorge, Eli, Djalma, Maneca, Friaça, Lelé e Chico, era quase que imbatível. O Vasco tornava-se campeão dos campeões sul-americanos, competição que, anos mais tarde, seria chamada de Taça Libertadores de América. E isso seria pouco, se o principal adversário não fosse o River Plate, o time argentino que o mundo chamava de “La Máquina”. Danilo foi também Campeão brasileiro pela Seleção Carioca em 1950 e campeão sul-americano em 1949. Foi vice campeão mundial em 1950, quando sofreu a maior decepção de sua carreira.

               Vasco x Bangu, domingo de manhã, no Maracanã: o goleiro Barbosa cobrou tiro de meta e correram para alcançar a bola Danilo e Zizinho. Danilo chegou à frente e, com um leve toque com o peito do pé, encobriu o adversário. Ou seja, Danilo deu um lençol no Mestre Ziza, que maravilha! Mas no segundo tempo, Zizinho daria o mesmo lençol em Danilo. Eram dois jogadores fantásticos.

              Num Vasco x Fluminense, o ponta-esquerda tricolor, Joel, que não era craque, mas chutava com incrível violência, disparou uma bola que, se tivesse a velocidade medida, deve ter atingido algo em muito próximo dos 200 quilômetros por hora. Sei que Danilo, a mais ou menos 10 metros do chute, levantou a perna, a bola percorreu-a toda (imaginem onde parou) e o nosso Príncipe saiu com ela como se tivesse recebido o passe de um companheiro. Depois do jogo um repórter lhe perguntou com que parte do corpo matara aquela bola. “Com a cabeça”, respondeu Danilo sorridente, expressão que se traduz: “com a inteligência”. Mas até hoje, não se sabe onde a bola bateu. Se fosse no local para onde ela se dirigia, Danilo deveria ter saído direto do Maracanã para o pronto-socorro.

               Juntamente com Barbosa, Ademir Menezes e Roberto Dinamite, Danilo forma um grupo restrito de ex-jogadores vascaínos que figurou em todas as eleições de “melhor time do Vasco de todos os tempos”. Com a camisa cruzmaltina, Danilo fez 310 jogos e marcou 11 gols.

COPA DO MUNDO DE 1950

               Danilo foi convocado para disputar o mundial de 50 realizado aqui no Brasil e foi titular em todas as partidas, com exceção da segunda que foi realizada em São Paulo, pois, para fazer média com os paulistas, o técnico Flávio Costa escalou vários jogadores do São Paulo F. C.  O Brasil estreou dia 24 de junho goleando a seleção mexicana por 4 a 0 na abertura do mundial.  Quatro dias depois de sua estreia, a seleção brasileira voltou a campo. Desta vez, em São Paulo, para enfrentar a Suíça. O estádio do Pacaembu ficou lotado com 45.000 espectadores que viram o Brasil, com a linha média do São Paulo (Ruy, Bauer e Noronha) no lugar dos jogadores cariocas do primeiro jogo, tropeçar no empate de 2 a 2.

               No dia 1 de julho, Brasil e Iugoslávia se enfrentaram no Maracanã, que estava quase lotado, a final, este seria um jogo muito importante, pois quem vencesse estaria classificado para a próxima fase. A equipe brasileira se mostrou em grande forma e encantou seu imenso público, mostrando-se superior em todos os momentos do jogo e assim, o Brasil venceu por 2 a 0. Veio então o quadrangular final. No dia 9 de julho goleamos a Suécia por 7 a 1. Dia 13 de julho nova goleada, desta vez sobre a Espanha por 6 a 1. Estávamos na final e o adversário era o Uruguai. Era o dia 16 de julho de 1950 e o Brasil entrou em campo com a seguinte formação; Barbosa, Augusto, Juvenal, Bauer e Bigode; Danilo e Jair da Rosa Pinto; Friaça, Ademir de Menezes, Zizinho e Chico. O Brasil saiu na frente do marcador, mas o Uruguai virou o placar e venceu por 2 a 1. Foi a maior decepção na vida de Danilo e certamente dos brasileiros.

FINAL DE CARREIRA

               Em 1953, transferiu-se para o Botafogo e em 1956, de passe livre, assinou com o Uberaba, acumulando as funções de jogador e técnico. Reza a lenda que, no ano seguinte, quando Danilo Alvim queria ser só treinador, o Santos foi jogar um amistoso em Uberaba. O então bicampeão paulista tinha nada mais, nada menos, que Jair Rosa Pinto na meia-esquerda. Mas em campo, de maneira surpreendente, o Uberaba findou a primeira etapa empatado com o time da baixada santista. Então, durante o intervalo, no vestiário, antes das instruções, Alvim calçou as chuteiras e disse: “Vou fazer esse segundo tempo”. Foi, fez e ajudou o Uberaba a vencer.

              No final, parabenizado por Jair, teria dito ao ex-companheiro de seleções e do Vasco que aquela fora a sua última partida como jogador profissional. Estava chegando ao fim uma das mais brilhantes carreiras de um jogador de futebol. Depois de quinze anos correndo atrás da bola, Danilo entregava os pontos. Logo depois virou técnico. Em 1963 trabalhou como treinador da seleção da Bolívia e ajudou a conquistar o seu único título sul americano.

TRISTEZA

               Segundo o ex-zagueiro Pavão, que foi treinado por Danilo no Uberaba no final dos anos 50, o “Príncipe” contou que havia perdido praticamente tudo o que havia ganho como grande jogador que foi e que só restava uma casa no Rio de Janeiro em seu nome. Pediu para que não jogassem dinheiro pela janela e evitassem desperdícios, pois a carreira de jogador é bem curta. Infelizmente, as suas lições não o livraram de um destino triste, pois findou os dias em um asilo de velhos no Rio de Janeiro. Danilo Alvim que chegou a ser o “O Príncipe do futebol brasileiro”, passou seus últimos de dias na rua da amargura.

               Vivendo com uma aposentadoria de salário mínimo, morava em um pequeno apartamento no centro do Rio de Janeiro. Depois da morte de sua mulher, a solidão tomou conta de Danilo. Com a memória desgastada pelo tempo morreu de pneumonia em 16 de maio de 1996. Danilo era alto, magro e tinha estilo clássico e técnica refinada, com absoluto controle de bola, com passes e lançamentos precisos. Foi um dos jogadores mais técnicos do futebol brasileiro. No Vasco demonstrou toda a sua categoria na fase áurea do mitológico Expresso da Vitória e foi titular de todas as Seleções, inclusive a vice-campeã da Copa de 1950. Por tudo isso, nossa humilde homenagem a este extraordinário jogador, que merecidamente recebeu o apelido de “O Príncipe”.

Em pé: Gérson, Gilson, Nilton Santos, Danilo Alvim, Ruarinho e Orlando Maia    –     Agachados: Garrincha, Dino da Costa, Carlyle, Paulinho e Vinicius
SELEÇÃO CARIOCA   –   Em pé: Johnson (massagista), Luís Borracha, Eli, Augusto, Jorge, Danilo Alvim e Haroldo    –     Agachados: Pedro Amorim, Maneco, Heleno de Freitas, Ademir de Menezes e Chico 
SELEÇÃO BRASILEIRA NA COPA DE 1950  –   Da esquerda para a direita: Barbosa, Augusto, Danilo Alvim, Juvenal, Bauer, Ademir, Zizinho, Jair, Chico, Friaça e Bigode
JOGADORES DA NOSSA SELEÇÃO DA COPA DE 1950   –    Em pé: Barbosa, Augusto, Danilo Alvim, Juvenal, Bauer e Bigode   –     Agachados: Friaça, Zizinho, Ademir, Jair, Chico e Mário Américo
Em pé: Mirim, Ernani, Haroldo, Jorge, Danilo Alvim e Augusto    –     Agachados: Sabará, Maneca, Ipojucan, Pinga, Chico e Mário Américo
Em pé: Eli do Amparo (que aparece cortado na imagem), Augusto, Wilson Francisco Alves, Barbosa, Danilo Alvim e Noronha   –     Agachados: massagista Mário Américo, Tesourinha, Zizinho, Octávio Moraes, Jair Rosa Pinto e Simão
Na primeira fila estão: o massagista Mário Américo, um integrante da comissão técnica, Sampaio, Augusto, Barbosa, Wílson, Laerte e dois membros da comissão técnica. Na segunda fila estão: Jorge, Alfredo II, Amílcar Giffoni (comissão técnica), o técnico Flávio Costa, Oto Glória (então membro da comissão técnica), Danilo e Eli. Na terceira fila: Nestor, Maneca, Ademir de Menezes, Lima, Ipojucan, Heleno de Freitas, Chico e Mário
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