JAÚ: depois que encerrou a carreira virou Pai de Santo

                Euclydes Barbosa nasceu dia 17 de dezembro de 1909, na cidade de São Paulo. Era um jogador que tinha uma grande impulsão e por isso recebeu o apelido de Jaú, nome do primeiro hidroavião brasileiro a fazer a travessia do Oceano Atlântico entre 1926 e 1927. Foi um jogador muito polêmico, pois quando jogava pelo Corinthians, foi denunciado publicamente ter recebido um suborno de um diretor do Palestra Itália para entregar um jogo, e aquela fama de “vendido” ele carregou até o final de sua carreira. Mas deixou o Parque São Jorge somente cinco anos depois, após ajudar a equipe a conquistar o título paulista de 1937, alias, o primeiro título profissional da história do Corinthians. Outro motivo da polêmica em torno de seu nome, é que depois que encerrou a carreira de jogador de futebol, virou um Pai de Santo, o Pai Jaú, que inspirou a criação do personagem corintiano do programa humorístico Show de Rádio, levado ao ar pelas rádios Jovem Pan (1967 a 1982), Bandeirantes (1982 a 1989) e Gazeta (1992).  

CORINTHIANS

               Começou sua carreira no Corinthians. Sua estreia aconteceu dia 22 de maio de 1932, quando o alvinegro derrotou o Atlético Santista por 5 a 1. Neste dia o técnico José de Carlo mandou a campo os seguintes jogadores; Onça, Grané e Jaú; Abate, Guimarães e Munhoz; Aparício, Geró, Carlito, Rato e Staffen. Este jogo foi no Parque São Jorge e válido pelo Campeonato Paulista, que teve que ser interrompido por 4 meses, devido a Revolução Constitucionalista. Em pouco tempo o zagueiro já era ídolo da torcida corintiana, destacando-se como um dos principais jogadores da equipe, mas às vésperas de um clássico contra o Palestra Itália pelo Campeonato Paulista, resolveu declarar publicamente que havia recebido uma oferta de suborno, não aceita, feita pelo diretor palestrino Roque Di Lorenzo.

               O diretor acabou sendo punido pela Liga Paulista de Futebol (LFP); Jaú por sua vez, entrou em campo normalmente, no dia 6 de novembro de 1932, no Estádio do Parque Antártica. No final do jogo, o placar marcava 3 a 0 para o Rival. Mesmo com a derrota, Jaú continuou negando veementemente ter aceitado o suborno, mas nunca se livrou da imagem de “vendido”.

               Jaú foi campeão paulista pelo Corinthians em 1937. Era o primeiro título na era profissional. Em uma espécie de final antecipada com o Palestra Itália, o alvinegro de Parque São Jorge venceu por 1 a 0, gol de Teléco. Este jogo foi no Parque Antarctica no dia 14 de novembro de 1937. Sua última partida pelo Corinthians aconteceu dia 6 de fevereiro de 1938, quando o alvinegro perdeu para o Botafogo da Bahia por 2 a 0, num jogo amistoso realizado em Salvador. Neste dia o Corinthians jogou com; José II, Jaú e Carlos; Jango, Brandão e Gasperini; Lopes, Carlito, Daniel (Teléco), Carlinhos e Wilson.

               Apesar da derrota este jogo foi muito bom para o Corinthians, pois na equipe baiana jogava um meia direita chamado Servilio, que jogou tão bem aquele dia, que o Corinthians logo após o jogo o contratou. Com o passar dos anos, Servilio virou um grande ídolo da torcida corintiana, sagrando-se campeão paulista em 1938, 39 e 41. Marcou 201 gols, sendo um dos maiores artilheiros e ídolos da história do clube paulista.  

               Pelo Corinthians, Jaú disputou 143 partidas. Venceu 84, empatou 17 e perdeu 42. Não marcou nenhum gol, mas fez um contra. Depois que deixou o Corinthians, Jaú foi jogar no Vasco da Gama, onde permaneceu por três anos e conquistou o título carioca de 1939, depois jogou no Madureira, do Rio de Janeiro, na Portuguesa de Desportos e no Santos Futebol Clube, onde encerrou a carreira em 1944.

             Jaú sempre evitava falar de sua vida e das mulheres que sempre povoaram sua existência de alegrias e muitos dissabores. Apenas dizia que, como filho de Ogum, estava seguindo à risca os ensinamentos de seu pai. De fato, o cidadão Euclydes Barbosa, que ficou conhecido como Jaú, sempre foi um líder, desbravando territórios que ainda não haviam sido tocados por nenhum outro brasileiro. Outra coisa que ele sempre dizia “Sou uma pessoa que tem três pesos e três medidas: sou da raça negra, umbandista e corintiano.” Sábias palavras de quem tinha pouco conhecimento das letras, mas um infinito instinto de sobrevivência e de garra para não se deixar derrubar por nada neste mundo.

            Suas façanhas no futebol foram cantadas em versos e prosa. Mesmo sem jogar, continuou fazendo, no Pacaembu, toda a vez que o timão fosse jogar, suas “mandingas” no campo para dar sorte aos jogadores. O radialista Estevam Sangirardi imortalizou a figura de Jaú nos programas que eram apresentados após cada jogo e ninguém reclamava, pois realmente era uma homenagem merecida ao grande guerreiro.

SELEÇÃO BRASILEIRA

               Jaú foi um dos titulares na posição pela Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1938, no jogo em que o Brasil derrotou a Checoslováquia por 2 a 1, gols de Leônidas da Silva e Roberto. Este jogo foi no dia 14 de junho e neste dia o técnico Ademar Pimenta, mandou a campo os seguintes jogadores; Walter, Jaú e Nariz; Brito, Brandão e Argemiro; Roberto, Luizinho, Leônidas, Tim e Patesko. Vale lembrar que a Itália foi a campeã daquele mundial e o Brasil ficou em terceiro lugar, ao derrotar a Suécia por 4 a 2. Pela Seleção Brasileira, Jaú disputou 10 partidas, sem ter marcado nenhum gol.

PAI DE SANTO

               Sua espiritualidade, como a de todos os seres que são contemplados com este tipo de missão, surgiu nos primeiros anos de sua vida, mas a visita a algumas benzedeiras da época retardou a explosão espiritual, que se deu após encerrar sua brilhante carreira como jogador de futebol. Tudo começou quando Jaú, em uma dividida de bola, acabou tendo um ferimento grave na cabeça. Sua presença era essencial para que o time conseguisse vencer o adversário. Foi nesse instante que recebeu, pela primeira vez, uma mensagem espiritual, e a levou a sério. Jaú estava deitado na maca, fora das linhas do campo, o médico dizendo ao técnico que ele não poderia voltar ao jogo, pois o sangue não parava de jorrar e, provavelmente, ele havia sofrido uma convulsão cerebral; somente um milagre faria com que ele se levantasse.

               Quando olharam para o lado, Jaú estava de joelhos, olhando para o infinito, como se estivesse ouvindo instruções, e passou a mão no gramado, arrancou um chumaço de grama, colocou no ferimento, e, ainda seguindo as instruções, enfaixou a cabeça. Depois, solenemente encostou a testa na terra e levantou-se, como que impulsionado por uma mola, entrando vitorioso no campo, sob os aplausos da torcida e a perplexidade do médico e do técnico.

               Mais tarde, este gesto de tocar o solo do gramado com a testa passou a ser marca registrada do grande jogador e tinha tanta influência entre os colegas que ninguém se atrevia a colocar os pés no gramado sem que houvesse o toque da sorte, como passou a ser conhecido. Quando Jaú pendurou as chuteiras e passou a dedicar-se inteiramente à sua missão religiosa, teve realmente de ter o mesmo espírito de luta que sempre lhe acompanhou nas disputas espor­tivas. Na religião, não teve tanto reconhecimento, ao contrário, foi o mais discriminado, o mais criticado e o mais perseguido pela polícia, que juntava a bronca de Jaú ter sido grande jogador corintiano com o fato de sua magia ainda ajudar nas grandes partidas.

               Foi preso diversas vezes, sob alegação de estar praticando feitiçarias. Certa noite, Pai Jaú estava fazendo seu trabalho espiritual, quando seu pequeno terreiro foi invadido por policiais, que alegaram ter recebido uma denúncia de que no local estavam promovendo uma orgia pela vitória do Timão. Pai Jaú foi arrastado para o camburão e levado para a delegacia, não na mesma de sempre, o que dificultou aos filhos localizarem prontamente e pedirem sua soltura. Até que fosse encontrado, na noite seguinte, Pai Jaú passou pela humilhação de ficar no “pau-de-arara”, levando choques e foi jogado entre marginais de outros times, que o espancaram.

               Passou por muitas torturas, como ficar horas ajoelhado no milho; dias e noites sem comer, recebendo apenas goles de água. “Se ele recebe mesmo espíritos, não precisa comer nem beber”, satirizavam os carrascos. Por fim, acabavam libertando-o, pois os filhos-de-santo se aglomeravam defronte à delegacia e pediam a libertação de Pai Jaú. Os policiais foram afastados a bem do serviço e nunca mais Pai Jaú foi perseguido pela polícia. No período de maior jejum de títulos da história do Corinthians, entre 1954 e 1977, começaram a se multiplicar explicações para a seca e soluções.

                O mais difundido motivo dos sucessivos fracassos foi um sapo que teria sido enterrado no gramado do Parque São Jorge em uma das versões, pelo próprio Jaú, que passou a vida inteira dizendo-se corintiano e negando qualquer ato contrário à felicidade do time. Conta-se que, em um treino de 1968, o bicho foi encontrado por acaso e chutado por Diogo, gesto repetido por Lula. Os dois goleiros caíram em desgraça pouco depois, vendo Ado ganhar seu espaço.

               Euclydes Barbosa, o “Pai Jaú”. Foi zagueiro do Corinthians e do Vasco da Gama e participou da Copa do Mundo de 1938, na França. Morreu dia 26 de dezembro de 1988, aos 82 anos, de insuficiência respiratória, em São Paulo. Seu filho Jair, que nunca havia participado de sua vida, proibiu qualquer cerimonial umbandista e, no dia seguinte ao enterro, sua filha evangélica desmontou o congá, jogou tudo na rua e colocou fogo, sob os olhos atônitos dos vizinhos, que não puderam ou não quiseram interferir. Terminava assim a trajetória de um homem que honrou seu tempo, seus amigos e seus filhos espirituais, mas que recebeu muito pouco ou quase nada em troca, a não ser sua própria luz na eternidade. Ao Velho Pai Jaú, por seu Dia de Glória, Oxalá o abençoe e guarde hoje e sempre. Sua benção Pai Jaú.

Em pé: Jaú, José I, Ovidio, Brandão, Munhoz e Carlos     –    Agachados: Teixeira, Tedesco, Teléco, Rato e De Maria

 

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