FONTANA: o xerifão da zaga vascaina

                  José Anchieta Fontana nasceu dia 31 de dezembro de 1940, na cidade de Santa Teresa – ES.  Marcou época com a camisa do Vasco da Gama jogando ao lado do zagueiro Brito, de que foi companheiro na Copa de 1970, no México. Jogou também no Cruzeiro de Belo Horizonte, quando o clube mineiro montou um timaço que tinha simplesmente, Tostão, Dirceu Lopes, Natal, Piazza, Zé Carlos e tantos outros craques. Mas rescindiu seu contrato com o time mineiro dois anos antes do término e encerrou a carreira. Ele dizia que pararia de jogar para se casar, pois considerava impossível conciliar a vida de jogador com a vida de casado. Casou-se com a mineira Andréia Simão e voltou para sua terra natal, no Espírito Santo, onde adquiriu fazenda de gado, imóveis e comércio. Infelizmente o craque Fontana faleceu tragicamente em 1980, com apenas 39 anos, quando jogava futebol entre amigos. Fontana era o xerife da defesa, marcador duro que não se intimidava nem quando tinha que marcar a Pelé.  

VASCO DA GAMA

                Fontana iniciou sua carreira nas divisões de base do Vitória F.C., da capital do Espírito Santo. no ano de 1958, mas ficou pouco tempo no Vitória, onde na verdade era conhecido pelo seu outro sobrenome, Anchieta, já que Fontana era uma das formas como chamavam seu irmão mais velho, Goli, também ex-zagueiro do Vitória nos anos 1950. De 1959 a 1962, defendeu a camisa do Rio Branco, o maior rival do Vitória e por lá sagrou-se campeão capixaba no primeiro e no último ano em que permaneceu no clube. Depois foi jogar no futebol carioca. Permaneceu no Rio Branco até o dia 11 de setembro de 1962, quando foi contratado pelo Vasco da Gama.

               No time vascaíno, Fontana formou ao lado de Brito, uma das duplas mais famosas e temidas pelos atacantes do futebol brasileiro. Faturou a taça Guanabara de 1965 e 1967, além do Torneio Rio – São Paulo de 1966, embora tenha sido com mais quatro clubes, o Corinthians, o Santos e o Botafogo, por falta de datas, pois a Seleção Brasileira já estava começando seus preparativos para o mundial da Inglaterra, sendo assim, os quatro clubes foram declarados campeões do Torneio naquele ano em que o Vasco tinha o seguinte time; Amauri, Joel, Brito, Fontana e Oldair; Maranhão e Danilo; Luizinho, Lorico, Célio e Tião. Este foi o time que enfrentou o Corinthians no dia 2 de março de 1966 pelo Torneio Rio-São Paulo.

               O jogo foi no Pacaembu e marcava a estreia de Garrincha no Corinthians, que neste dia jogou com; Heitor, Jair Marinho, Ditão, Galhardo e Edson; Dino Sani e Nair (Rivelino). Garrincha, Flávio, Tales (Nei) e Gilson Porto. O jogo terminou com a vitória vascaína por 3 a 0, gols de Célio (2) e Maranhão. Portanto, não foi uma boa estreia de Garrincha com a camisa corintiana. Entre os anos de 1965 e 1966, o zagueiro Fontana foi um dos integrantes da quase interminável lista de jogadores convocada pelo técnico Vicente Feola visando o período de preparação para a copa da Inglaterra em 1966, onde fomos eliminados ainda na primeira fase.

               Duro, viril corajoso e até violento, Fontana formou com Brito uma das mais temidas parelhas de beques do Vasco da Gama e do Brasil de 1962 a 1969, mas nunca foi expulso de campo. Fontana possuía ótimas qualidades técnicas. Boa colocação na área, excelente impulsão e ótimo senso de cobertura. Porém, às vezes exagerava na pegada e no ímpeto de suas divididas, usando de força desproporcional em alguns lances. Os mais próximos diziam que nem nos treinamentos ele “aliviava”. Alto, forte e olhos verdes, Fontana sempre chamava a atenção do público feminino. Numa época em que a técnica era artigo em falta em São Januário, Fontana colocava o coração nas partidas e contagiava o time, que em várias ocasiões acabava se superando para alcançar viradas antológicas na base do entusiasmo.

               A ilustrar essa característica de Fontana está uma vitória na Taça Guanabara de 1967 sobre o Botafogo, que se tornaria o campeão da competição. Depois de estar perdendo por 2 a 0 até os 29 minutos do segundo tempo, o Vasco virou o jogo na raça, chegando à vitória com um gol de cabeça de Fontana. A exemplo de Brito, Fontana deixou o Vasco alguns meses antes da Copa de 1970, da qual participou como reserva de Piazza, seu novo companheiro de equipe no Cruzeiro. Com a camisa do Vasco da Gama, Fontana foi campeão da Taça Guanabara (1965/67) e campeão Carioca (1968).

FONTANA x PELÉ

               Fontana também é lembrado por suas atuações quando enfrentava o rei Pelé. Em uma dessas ocasiões, O Vasco vencia o Santos por 2×0 no Maracanã. Naquele dia, Pelé não fazia uma boa partida. Fontana resolveu cutucar o camisa dez perguntando ao colega Brito: “Não falaram que nesse time de branco jogava um rei?  “Pois é, parece que ele não veio hoje”, respondeu Brito. Os dois caíam na gargalhada repetindo a provocação constantemente. O rei ouvia tudo calado. Faltando pouco mais de cinco minutos para o término do jogo, Pelé, já irritado, marcou por duas vezes e empatou o jogo. No segundo gol, pegou a bola e a entregou educadamente para Fontana. Em seguida disse em tom cordial: “Tá vendo essa bola? Entrega para a sua mãe e diz que foi um presente do rei”. A título de curiosidade, Fontana e Pelé saíram expulsos juntos em pelo menos duas oportunidades.

CRUZEIRO

Fontana chegou no Cruzeiro em 1969 e uma de suas primeiras partidas pelo clube mineiro foi contra o Corinthians no dia 7 de dezembro de 1969. O jogo foi no Mineirão e o técnico Gerson dos Santos, do Cruzeiro, mandou a campo os seguintes jogadores; Raul, Lauro, Darci Menezes, Fontana e Neco; Wilson Piazza e Dirceu Lopes; Palhinha, Zé Carlos, Evaldo e Rodrigues. O jogo terminou com a vitória cruzeirense por 2 a 1. Marcaram para os mineiros; Evaldo e Dirceu Lopes, enquanto que Rivelino marcou o único tento corintiano. Vale lembrar, que este jogo era importantíssimo para o Corinthians, pois se ele vencesse, seria o campeão do Torneio Roberto Gomes Pedrosa daquele ano, no entanto, com a derrota ficou em terceiro lugar.

               Fontana jogou no Cruzeiro até o ano de 1972, quando o time mineiro formou um grande esquadrão, que o torcedor cruzeirense jamais esquecerá; Raul, Pedro Paulo, Fontana, Mário Tito e Vanderlei; Piazza, e Zé Carlos; Natal, Dirceu Lopes, Tostão e Rodrigues. Seu contrato com o Cruzeiro iria até dezembro de 1974, mas rescindiu seu contrato com o time mineiro dois anos antes do término e encerrou a carreira. Ele dizia que pararia de jogar para se casar, pois considerava impossível conciliar a vida de jogador com a vida de casado. Com a camisa do Cruzeiro, Fontana sagrou-se campeão mineiro em 1969 e 1972.

SELEÇÃO BRASILEIRA

               Em 1966, quando tivemos 47 jogadores convocados para a Copa da Inglaterra, o nome de Fontana também estava naquela longa lista. No entanto, como tantos outros, foi cortado e não participou daquele desastre que foi a Copa de 1966, onde fomos eliminados ainda primeira fase, depois de conquistarmos dois títulos mundiais seguidos (1958 e 1962). O número excessivo de jogadores convocados, foi devido a forte pressão dos dirigentes dos clubes, para o período de treinamento em Serra Negra-SP e Caxambu-MG, mas de nada valeu pois a desorganização foi muito grande e acabamos passando vexame em Londres. Mas chegou a Copa de 70 no México e novamente seu nome estava lá na lista feita por João Saldanha ainda em 1969 e mesmo com a mudança de técnico, pois Saldanha saiu e entrou Zagallo, seu nome continuou na lista e desta vez ele viajou com o grupo. Os zagueiros que defenderam nossa seleção naquele mundial foram; Carlos Alberto, Zé Maria, Brito, Fontana, Piazza, Baldochi, Marco Antonio e Everaldo.

Fontana disputou somente um jogo no mundial e foi contra a Romênia pelas oitavas-de-final. Voltou a formar a dupla de zaga com seu velho companheiro Brito, relembrando os bons tempos de Vasco da Gama. Dois anos depois, voltaram a jogar juntos no Cruzeiro, onde conquistaram juntos, o campeonato mineiro de 1972. Neste jogo contra a Romênia o Brasil jogou com, Felix, Carlos Alberto, Brito, Fontana e Everaldo (Marco Antonio); Piazza, Clodoaldo (Edu) e Paulo César Caju; Jairzinho, Tostão e Pelé. O Brasil venceu por 3 a 2, gols dois gols de Pelé e um de Jairzinho. Ao final da partida, Fontana trocou camisas com o atacante Dumitrachje. A camisa do artilheiro romeno está hoje em poder de um dos filhos de Fontana, a qual guarda com muito orgulho por seu pai ter disputado uma Copa e o principal, ter sagrado-se campeão. Pela Seleção Brasileira, Fontana disputou 11 partidas, sendo 8 vitórias, 2 empates e uma derrota. Não marcou nenhum gol.

               Fontana foi mais um daqueles zagueiros durões que habitaram o nosso futebol nos anos sessenta e setenta. Não que fosse exclusivamente e unicamente violento. Apesar do apelido de Xerife, o zagueiro não era um jogador desleal. Depois de abandonar o futebol, Fontana foi traído pelo mesmo coração que era uma de suas grandes virtudes como jogador. Durante uma pelada na sua terra natal, no Espírito Santo, teve um ataque cardíaco e morreu no dia 9 de setembro de 1980, aos 39 anos. Fontana deixou três filhos (Sabrina, Bernardo e Fabrício) e uma neta (Luana), filha de seu filho Fabrício. Fontana era conhecido como Xerife, em função da forma corajosa, dura e viril, mas não desleal com que atuava.

Em pé: Lévis, Joel, Brito, Maranhão, Fontana e Barbosinha    –     Agachados: Joãozinho, Lorico, Célio, Mário e Zezinho
1966 – Em pé: Djalma Santos, Bellini, Manga, Edson, Fontana e Dudu   –    Agachados: Nado, Fefeu, Alcindo, Tostão, Edu e Pai Santana
Em pé: Neco, Raul Fernandes, Moraes, Piazza, Fontana e Raul   –    Agachados: Natal, Zé Carlos, Tostão, Dirceu Lopes e Rodrigues
Em pé: Vanderlei, Fontana, Pedro Paulo, Piazza, Mário Tito e Raul    –     Agachados: Nocaute Jack, Natal, Zé Carlos, Tostão, Dirceu Lopes e Rodrigues
Em pé: Vanderlei, Fontana, Pedro Paulo, Piazza, Mário Tito e Raul    –    Agachados: Nocaute Jack, Natal, Zé Carlos, Tostão, Dirceu Lopes e Rodrigues
1966 – Em pé: Fidélis, Zito, Brito, Gilmar, Fontana e Paulo Henrique    –    Agachados: Jairzinho, Lima, Alcindo, Pelé e Amarildo
1970 – Em pé: Carlos Alberto, Brito, Fontana, Piazza, Felix, Everaldo e Admildo Chirol    –    Agachados: Jairzinho, Clodoaldo, Tostão, Pelé e Paulo Cesar
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