DULCÍDIO: um dos árbitros mais polêmicos do nosso futebol

                Dulcídio Wanderley Boschilia nasceu em 4 de janeiro de 1938 e faleceu em 14 de maio de 1998, na cidade de São Paulo. Foi um árbitro de futebol, policial militar e advogado. Se destacou no meio esportivo como árbitro de futebol, onde sempre recebia críticas, mas era considerado imparcial pela maioria dos clubes, mesmo sem nunca ter negado ser são-paulino. Sempre era lembrado para apitar jogos que envolviam um clima tenso e põe jogos tensos nisso. Foram inúmeros, tanto na capital como no interior paulista, onde o clima esquentava mais que tampa de chaleira, principalmente na Segunda e Terceira Divisão, onde os mandantes achavam que o árbitro iria dar aquela forcinha e que a vitória seria certa. Mas com Dulcídio a coisa era diferente. A torcida, os jogadores e os dirigentes pressionavam para que ele inventasse um pênalti, mas só dava caso realmente tivesse acontecido.

                Certa vez num jogo entre Penapolense x Marília, em Penápolis, pela Terceira Divisão, o time da casa vendo que não venceria aquela partida, começaram  a  pressionar o Dulcídio para que ele marcasse um pênalti e gritavam la de fora do gramado “dá um pênalti para não morrer, depois o senhor muda tudo na súmula”. Mas ele recusou-se e depois, no vestiário, teve de usar a arma que carregava na mochila para assustar os mais exaltados. Assim como naquela partida, durante boa parte de sua carreira ia aos estádios armado, embora não entrasse em campo com as pistolas. Houve quem disse tê-lo visto apitando o segundo tempo de um jogo tumultuado em Americana, em 1973, com um revolver na cintura, o que ele também sempre negou.

INÍCIO DE CARREIRA

               Começou a carreira de árbitro profissional em 1964, depois de ser goleiro em um time de várzea, conhecido como Wand. Nessa época, quase foi levado por José Poy para o São Paulo. Quando era policial, apitou partidas de futebol na Casa de Detenção, em São Paulo, algumas vezes envolvendo detentos que ele tinha prendido, mas era respeitado por eles apesar disso. Até o cumprimentavam, dizendo que ele era gente. Isso, na linguagem da bandidagem, falando de um tira, é altamente significativo. Em 1973, foi chamado à Federação Paulista de Futebol para ser comunicado que seu nome tinha sido aprovado para os quadros da Fifa, mas, no dia seguinte, ele deu uma entrevista criticando o cartão amarelo e, coincidência ou não, seu nome foi retirado da lista pouco depois.

AS GRANDES DECISÕES

              Dulcídio Wanderley Boschilia apitou as decisões dos Campeonatos Brasileiros de 1975 e 1988, além das decisões dos Campeonatos Paulistas de 1974, 1975, 1977, 1981, 1983, 1986 e 1987 e do Campeonato Mineiro de 1985, entre outras decisões de estaduais. Foi ainda auxiliar no jogo que decidiu o Campeonato Paulista de 1971, quando o São Paulo derrotou o Palmeiras por 1 a 0, gol de Toninho Guerreiro. Neste jogo o atacante Leivinha do Palmeiras marcou um gol de cabeça e Dulcídio correu para o meio-campo para indicar que o gol foi legal, decisão que o árbitro da partida, Armando Marques, reverteu, alegando que foi com a mão. Na decisão do Campeonato Paulista de 1985 entre São Paulo e Portuguesa de Desportos foi vetado pela Portuguesa. “O presidente Osvaldo Teixeira Duarte não quis árbitros ‘velhos’, ironizou depois. Agora eu gostaria de saber como se explicou no Canindé o pênalti marcado a favor do São Paulo, num lance em que o ponta Sídnei pisou na bola”.

               Na decisão do Campeonato Paulista de 1987, quando o São Paulo foi campeão em cima do Corinthians, Dulcídio  apitou apesar de ter sofrido um grave acidente de carro dezoito dias antes, na Rodovia Castelo Branco, quando faleceu sua segunda esposa, Berenice Bialski. Ele voltava de Tupã, onde tinha apitado a final da Terceira Divisão Paulista, entre Tupã e Palmital, com a esposa e os bandeirinhas, e bateu na traseira de um caminhão.  Ele foi aplaudido pelas torcidas antes de a partida começar. Ao final, depois de levantar a bola e chorar, desmaiou de dor ao ser abraçado por um amigo justamente na costela fissurada no acidente. “Eu tinha duas opções: encarar a realidade ou me entregar”, disse, após o jogo. Ele dedicou sua arbitragem nessa final, além da esposa falecida, aos preparadores físicos do Corinthians, que em apenas dez dias ajudaram-no a se recuperar do acidente.  Não foi, entretanto, sua primeira partida depois do acidente: uma semana antes, apitou uma partida da Divisão Intermediária, entre Esportiva de Guaratinguetá e Ferroviário Ituano.

PARTIDAS POLÊMICAS

                Uma delas foi o jogo Bahia x Internacional na Fonte Nova pelo Campeonato Brasileiro de 1987. Um torcedor invadiu o campo e deu um tapa na nuca de Dulcídio, que em seguida aplicou uma rasteira no invasor e chutou-lhe várias vezes, tendo de ser contido por jogadores do Bahia. “Eu não vou sossegar enquanto não matar um torcedor”, disse Dulcídio depois do jogo.

               A partida mais polêmica de sua carreira foi a final do Campeonato Paulista de 1977, quando foi acusado de suborno por expulsar o atacante Rui Rei, da Ponte Preta, aos treze minutos do primeiro tempo, supostamente para favorecer o Corinthians. Rui Rei reclamara que o árbitro só estaria marcando faltas contra o time campineiro, ao que Dulcídio respondeu: “Não agita que eu te coloco para fora”. O jogador seguiu reclamando e o árbitro, tão nervoso que deixou um dos cartões cair no chão, mostrou-lhe primeiro o cartão amarelo e depois o vermelho. “Ele me mandou tomar no…   Se eu não o botasse para fora, ele passaria a mandar no jogo.

              Lá dentro, só eu mando.” Também por este jogo foi suspenso por 120 dias por agredir o zagueiro ponte-pretano Polozzi, que depois confirmaria que não foi Dulcídio que o agrediu. “Ouvi muita conversa de que eu havia sido comprado para facilitar o jogo ao Corinthians, mas eu juro por tudo que é mais sagrado nesta vida, que se alguém viesse me oferecer dinheiro para “ajudar” essa ou aquela equipe, eu mataria esse sujeito”. Se fôssemos falar de todas as partidas em que Dulcídio foi alvo de polêmicas, este espaço com certeza não seria suficiente, pois foram inúmeras as vezes em que ele apitando acabou em confusão.

FIM DE CARREIRA

               Encerrou a carreira em 1988, ao completar 50 anos. No total, apitou 240 partidas de Campeonato Brasileiro entre 1971 e 1987, sendo o sétimo árbitro com mais jogos apitados no torneio. Seu grande sonho era fazer parte do quadro de árbitros da Fifa, mas morreu sem realizá-lo, apesar de ter sido cogitado para assumir uma das vagas mais uma vez em 1986. Dulcídio morreu em 14 de maio de 1998, aos 59 anos, de um tipo raro de câncer, o lipossarcoma de retroperitônio, que se alastrou pelo corpo. Orgulhava-se de, em 26 anos apitando partidas de futebol, jamais ter tido padrinho que o ajudasse nas escalas. Talvez por isso, jamais chegou ao quadro da Fifa.

               Nos gramados, era muito respeitado pelos jogadores pela personalidade forte que tinha. A formação de policial militar o ajudava a conter o ânimo daqueles que ousavam reclamar de suas marcações. Nunca teve medo de enfrentar ninguém. Muito menos de cumprir à risca as regras do jogo. Certa vez, em um clássico entre Palmeiras e Portuguesa no Pacaembu, mandou voltar três vezes a cobrança de um pênalti a favor do time do Canindé alegando que o goleiro Leão havia se mexido. Mas também entrou para a história por situações curiosas. Certa vez, em 1983, interrompeu uma partida entre Atlético Paranaense e Campo Grande, do Rio de Janeiro, pelo Campeonato Brasileiro no final do primeiro tempo por causa de uma dor de barriga. Foi ao banheiro e minutos depois retornou ao gramado sob aplausos da torcida.

DEPOIMENTO

               Um mês antes de falecer, Dulcídio deu uma entrevista numa rádio da capital paulista, na qual desabafou “Eu tenho um pai que é diferente dos outros O meu pai era tão violento que, ao se aproximar de mim, eu fazia xixi nas calças e em função disso, pelo terror que foi minha infância, nos meus filhos eu não boto a mão. O velho está vivo, eu não gosto dele. Se ele está me ouvindo ele sabe disso, eu não gosto dele. Respeito como meu pai, mas não gosto dele, porque pela educação que ele me deu eu teria que… é que minha mãe é muito boa, minha mãe é a imagem da Amélia. (Samba composto em 1941 por Mário Lago e cantado por Ataulfo Alves, faz referência a uma mulher dedicada ao marido e que não ligava para os luxos da vida).

              Eu fiz foi uma briga com meu pai. Nós discutimos, eu briguei e eu disse assim: Eu vou levar seu nome onde ninguém nunca levou na sua família. E ele disse: Só se você matar alguém e sair publicado no jornal. Talvez  ele queria que eu vivesse na sarjeta, pedindo esmola, para ninguém me dar nenhum cigarro. Durante toda minha vida fui massacrado por uma coletividade, eu fui massacrado pela vida, eu fui massacrado pela família, fui massacrado pelo mundo de modo geral e consegui sobreviver, e isso para mim é muito importante. Eu quero viver a minha vida, eu quero ter um pouco de felicidade.

             Eu fui feliz, eu tive felicidades momentâneas e, para mim, eu com cinquenta e nove anos de idade, momentos que passaram foram muitos e momentos de tristezas foram muito maiores do que momentos de alegria. Eu posso me vangloriar disso, eu venci. Mesmo com todas as tragédias e as pedras que o destino colocou em meu caminho, eu consegui vencer. Graças a Deus eu venci”.

Dulcídio também já foi goleiro
Dulcídio com ar de admiração pela voleio de Pelé
Dulcídio entre dois craques do futebol brasileiro – Rivelino e Ademir da Guia

 

Postado em D

Deixe uma resposta