DIAS: o craque que conseguia parar Pelé

                     Roberto Dias Branco nasceu dia 7 de janeiro de 1943, na capital paulista. Foi o único jogador que arrancava suspiros de alegria da torcida do São Paulo na década de 60, uma época de escuridão na história do tricolor. O jejum de títulos experimentado pelo clube por ocasião da construção do Morumbi, só era atenuado pela genialidade de um zagueiro, Roberto Dias.  Sua fama se fez por suas excelentes partidas diante do Santos, na época o melhor time do mundo, pois amantes do futebol daquela época, são unânimes em afirmar que Dias era o único zagueiro capaz de parar Pelé. 

                   Roberto Dias atuou pelo São Paulo durante pouco mais de doze anos. Chegou dia 1 de maio de 1961 e saiu dia 26 de setembro de 1973, nesse período jogou 523 partidas com a camisa tricolor, venceu 242, empatou 143 e perdeu 138 vezes. Marcou 76 gols. Foram doze anos de muita alegria para o torcedor são-paulino.

                  Roberto Dias jogou na Seleção Olímpica de 1960, em Roma, formando o meio de campo com Gerson. Integrou diversas vezes a seleção brasileira. A maior injustiça de sua carreira, foi não ter disputado a Copa de 66 na Inglaterra. Ele foi cortado por Vicente Feola, que preferiu levar o então veterano Zito do Santos F.C., que voltou machucado sem ter feito uma partida sequer. Na Copa de 70, Dias não foi convocado devido a uma forte contusão que o tirou dos gramados por algum tempo.  Quando Dias começou a jogar pelo São Paulo, seu primeiro clássico foi contra o Corinthians que venceu aquela partida por 3 a 2, no dia 24 de maio de 1961, e neste dia o tricolor jogou com; Suli, Deleu, Vilásio e Riberto; Roberto Dias e Vitor; Faustino, Amauri, Baiano, Benê e Ailton. O técnico era Flávio Costa, o mesmo técnico da nossa seleção na Copa de 50.

                  Assim como o clube, Dias amargou os anos sem títulos com cautela e paciência. A diretoria do São Paulo havia embarcado no projeto de construir o maior estádio particular do mundo. E assim, num distante bairro da Zona Sul de São Paulo, o clube tricolor dava início ao sonho de construir o Cícero Pompeu de Toledo, estádio que passaria a ser conhecido pelo nome do bairro que o abrigava: Morumbi.  Só depois de treze anos sem ganhar um título, a torcida tricolor voltava a sorrir.  Depois do título de 1957, somente em 1970 o tricolor voltou a ser campeão paulista.

                  Nestes anos de jejum, o São Paulo entrava em campo, digamos, sem pretensão de conquistas. O time era modesto, sem estrelas, e cabia a Roberto Dias os poucos momentos de alegria da torcida. E dessa forma, o São Paulo atravessou uma década inteira até chegar o ano de 1970.   Naquele ano, o São Paulo formou uma de suas melhores equipes da sua história. A equipe era assim formada; Sérgio, Forlan, Jurandir, Dias e Gilberto; Edson e Gerson; Paulo, Terto, Toninho Guerreiro e Paraná. 

                   Nessa época, Dias era famoso por marcar Pelé e mesmo sendo um dos maiores zagueiros da história do futebol brasileiro, nunca perdeu a humildade, sempre adotava um discurso: “Eu não fui tudo isso que vocês falam não.” No entanto, Pelé sempre disse: “Dias era um grande jogador, que costumava fazer grandes partidas contra o Santos. Ele era chato pra caramba na marcação, mas era um jogador muito bom e que jogava na bola. Eu tive grandes jogadores me marcando, entre eles o Beckenbauer da Alemanha, mas o Dias foi realmente o melhor.”

                    Já no início da década de 70, começou o pesadelo na vida de Roberto Dias. Os problemas entre Roberto Dias e seu coração começaram em 1971, justamente quando o jogador vivia o melhor momento de sua carreira. Bicampeão Paulista, o volante sabia que aquele time do São Paulo poderia ainda dar muitas alegrias aos torcedores.  O problema aconteceu, justamente em um clássico contra o Santos. A partida que Roberto Dias, talvez, mais gostasse de atuar. 

                    Mas infelizmente não voltou para o segundo tempo depois de uma forte indisposição e falta de ar.   Os problemas o acompanharam até 1973. Quando voltou a jogar, a diretoria são-paulina concedeu passe livre para o craque solitário.  Dias fechou contrato com o Jalisco e depois jogou também no Guadalajara, ambos do México.  Logo voltou ao Brasil, onde ainda tentou se aventurar durante uma temporada pelo CEUB do Distrito Federal e no Dom Bosco de Cuiabá. Mas encerrou a carreira de maneira prematura jogando pelo Nacional da capital paulista.

                   O primeiro enfarto de Roberto Dias aconteceu quando o jogador tinha apenas 28 anos. Neste mesmo ano, o craque são-paulino também sofreu com as surpresas do destino. Com apenas dez dias de vida, seu primeiro filho, Rogério, morreu.  Dias ainda amargaria a perda de outra filha, Fernanda, também por causa de insuficiência pulmonar logo nos primeiros dias de vida.  A carreira do jogador acabou em 1978 após sofrer um acidente vascular cerebral. Um ano depois, Roberto Dias sofreu mais um infarto. A aposentadoria não foi fácil. O ex-ídolo são-paulino vivia com o pouco dinheiro a que tinha direito pelo falido INPS.  

                   Nesta época, descrente da vida, o craque começou a beber e se separou da esposa.  A vida que parecia no fim ganhou nova dimensão com a ajuda de amigos que o colocaram de volta aos gramados. Desta vez para orientar crianças em escolinhas de futebol. Era tudo o que ele precisava, voltar a sentir o cheiro da grama e da bola.  E foi dessa maneira que Dias resolveu emprestar a sua genialidade para formar garotos. E lá, de volta aos gramados tratava os meninos com a mesma simplicidade que, em muitos duelos, serviu para anular o Rei do futebol.  Foi contratado para trabalhar no São Paulo nas categorias de base, onde exerceu sua profissão até o dia 25 de setembro de 2007, quando teve um novo infarto.  No dia seguinte, Roberto Dias foi vítima de seu maior rival e acabou falecendo no Hospital das Clínica na capital paulista, aos 64 anos de idade.  Roberto Dias deixou duas filhas: Roberta e Samantha. Suas maiores paixões eram os dois netos: Rodrigo e Matheus.

                     Ainda hoje está na memória daqueles garotos que tiveram o privilégio de aprender com Roberto Dias o bê-á-bá do futebol, o senso de espaço, o tempo da bola, como bater na bola, como cabecear, cobrar um pênalti, uma falta, pois tudo isso era muito fácil para ele, afinal, aquele senhor de bigode branco teve uma carreira brilhante jogando pelo São Paulo entre 1961 e 1973.  Dias comeu grama literalmente por viver a fase das vacas magras de um Morumbi que se erguia.  Dinheiro, só para as obras. Ainda assim, dois títulos paulistas (70 e 71) tiveram a honra de serem entregues a ele.

                     Mas além de todo aquele ensinamento nas categorias de base, Roberto Dias ensinou àquela garotada como ser um homem.  Não no sentido viril ou machista da palavra.  E sim no contexto humano da expressão. Respeito, determinação, humildade, caráter e conduta. Uma lista que se estende pela formação de uma criança.  E funcionava muito bem. Uma vez, Dias tirou um garoto do treino porque ele usara de força excessiva em uma jogada. E no fim do rachão, um olhar fixo, olho no olho daquele menino. Um afago nos cabelos molhados do garoto e um recado: “Não pode fazer isso, e se você machuca seu companheiro? Ele tem aula amanhã, tem outros compromissos. E na próxima aula, pode fazer parte do seu time.  Vá, pense, na semana que vem a gente se vê de novo”. E aquela lição de moral naquele garoto, foi tudo que ele precisava, pois daquele dia em diante, ele nunca mais foi o mesmo e passou a trata-lo como um pai, tal foi o carinho e respeito que teve por parte daquele treinador conselheiro, que um dia já foi um dos maiores ídolos da torcida tricolor.

                     Por isso hoje, nós brasileiros e amantes do futebol, nos rendemos a este homem que dignificou o futebol brasileiro e deixou um belíssimo exemplo de vida, onde sua humildade sempre falou mais alto, pois mesmo sendo considerado um verdadeiro craque, o único que conseguia marcar Pelé, inclusive dando-lhe chapéus, ele sempre dizia; “Eu não fui tudo isso que vocês falam não.” Mas nós que sempre soubemos admirar e amar este esporte que mexe com as multidões, podemos afirmar que ele foi tudo isso sim e muito mais, pois deixou a todos nós uma lição de vida que jamais esqueceremos. Por isso, dizemos do fundo do coração, descanse em paz e muito obrigado Roberto Dias.

Em Pé: Nenê, Dias, Bellini, Celso, Fábio e Renato      –     Agachados: Faustino, Prado, Baba, Fefeu e Paraná
Em Pé: Eurico, Leão, Baldochi, Dé, Dias e Dudu      –     Agachados: Buião, Terto, Leivinha, Paraná e Ademir da Guia
SELEÇÃO BRASILEIRA = 1966  – Em pé: Murilo, Manga, Brito, Fontana, Oldair e Roberto Dias      –     Agachados: Garrincha, Alcindo, Silva, Fefeu e Rinaldo

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