LOCUTORES ESPORTIVOS: os olhos dos ouvintes

                 A missão de narrar o esporte mais amado do país não é fácil. O narrador tem que ser os “olhos do ouvinte” e através da fala mexer com a imaginação do torcedor, levando até ele a descrição exata do jogo com emoção, informação e alegria. O narrador ainda sofre com a mística no futebol, quando o time vence o narrador é “acusado” de ter transmitido com muita alegria, empolgação e que estava torcendo para aquele clube. Em caso de derrota o profissional é criticado, pois estava “desanimado, sem ritmo e não motivou o ouvinte”. Da mais simples pessoa até o mais culto, o futebol tira a razão e vira puro coração e mesmo o narrador tendo se esforçado ao máximo pela melhor transmissão nunca vai agradar a todos. A expectativa de narrar um jogo é sempre emocionante, esperar por fazer o melhor, estudar, criar, corrigir sempre e vibrar na hora da abertura de uma jornada e transmitir emoção durante 90 minutos é sempre gratificante.

A PRIMEIRA TRANSMISSÃO

               Acredito que no dia 22 de janeiro de 1927 em uma tarde de inverno em Londres no Highbury Stadium, o primeiro narrador da história, Teddy Wakelan não imaginava que estava dando início a uma das mais emocionantes profissões. Ele transmitiu o jogo Arsenal 1×1 Sheffield United pela rádio estatal inglesa BBC. Curiosamente, como os ouvintes não tinham ainda noção de espaço do campo quando estavam ouvindo, já que aquela transmissão era pioneira, Wakelan e seu comentarista C. A. Lewis tiveram a idéia de formular em um papel um campo de futebol dividido em 8 setores numerados. A equipe de esportes da BBC imprimiu vários folhetos com o esquema e os distribuíram à população. Ela foi usada para facilitar a localização dos jogadores e da bola em campo quando fossem passar a informação aos ouvintes. Ex: “Buchan está com a bola dominada pelo setor 5 do campo de jogo…”.

               No Brasil a primeira transmissão de futebol aconteceu no dia 19 de julho de 1931 por Nicolau Tuma. Foi a primeira narração integral de um jogo de futebol. Antes eram feitos boletins que informavam os lances principais. Antes do jogo começar, Tuma foi aos vestiários do Campo da Floresta para fixar as características físicas dos atletas das seleções de São Paulo e do Paraná, pois à época os uniformes não tinham números às costas. Como o futebol ainda não era muito conhecido, Tuma se preocupou em explicar as regras durante a transmissão. Foi um sucesso no Vale do Anhangabaú pela Confeitaria Mimi, que pôs auto-falantes para reproduzir a transmissão. Tuma narrava tão rápido que ganhou o apelido de “speaker metralhadora”.

               Na primeira transmissão, narrou 10 gols e o jogo foi vencido pelos paulistas por 6 a 4. As transmissões de Nicolau Tuma ganharam tantos ouvintes que, em 1937, ele foi proibido de entrar no estádio para narrar um jogo entre Palestra e DCB porque temia-se perder público. Transmitiu o jogo de cima de uma escada de 14 metros, fora do estádio. O rádio desde as primeiras transmissões sempre levou muito mais emoção para o torcedor e continua sendo assim. Vamos agora lembrar de alguns locutores esportivos dos quais jamais esqueceremos.

HAROLDO FERNANDES  –  O ex-narrador esportivo Haroldo Fernandes, “o homem da camisa 10″ da equipe 1.040 da Rádio Tupi de São Paulo, está aposentado – também como advogado, e alterna sua vida mansa em dois endereços: no bairro do Campo Belo em São Paulo e na bela São Lourenço em Minas Gerais. “Quem ganhou, ganhou, quem não ganhou, não ganha mais”. Quem não se lembra? Haroldo Fernandes, defendeu também os prefixos das rádios Bandeirantes, Difusora, Record e Pan-Americana.

ÊNIO  RODRIGUES  –  Famoso narrador esportivo, veio de Araraquara, onde iniciou sua carreira na Rádio Cultura local. Ênio trabalhou por 27 anos na Rádio Bandeirantes AM ao lado de verdadeiras feras do rádio esportivo brasileiro. Sua estréia foi num Ferroviária 3×3 Corinthians, no dia 23 de outubro de 1963, na cidade de Araraquara. Quando saiu da Rádio Bandeirantes foi para a Tupi, onde trabalhou, em 1991 e 1992, ao lado de Barbosa Filho. Em seguida foi para a Rádio Gazeta, onde era chefe da equipe de esportes e narrador da emissora. Ficou por lá até 1996, quando a direção da emissora optou por mudar radicalmente sua programação e desfez a equipe de esportes. Como narrador Ênio Rodrigues esteve em oito copas do mundo. Seu bordão era “O que vale é bola na rede”.

FIORI GIGLIOTTI  –  Natural de Barra Bonita, interior do Estado de São Paulo, Fiori Gigliotti nasceu no dia 27 de setembro de 1928. Sua carreira começou em 1947, na Lins Rádio Clube, onde apresentava o programa “Alô Gurizada”. Mas foi como narrador esportivo que se destacou e marcou história no Rádio. Em toda sua carreira, cobriu 10 Copas do Mundo e participou de outras 3 como comentarista. Passou pelas Rádios Jovem Pan, Bandeirantes, Record, Tupi de São Paulo e Capital. Quem não se lembra de seus bordões; Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo, o teeeempo passa…, é fogo torcida brasileira, agüenta coração, tenta passar mas não passa, uma beleeeeeza de gol. Fiori Gigliotti faleceu dia 8 de junho de 2006, um dia antes de começar a Copa que foi disputada na Alemanha.

OSMAR SANTOS  –  Nascido em Osvaldo Cruz em julho de 1949, Osmar Santos, o “Pai da Matéria”, transformou-se ao longo de sua carreira, no mais popular locutor esportivo do Brasil. Seu início de carreira foi em 1963, aos 14 anos, na Rádio Clube de Osvaldo Cruz, destacando-se mais tarde na Rádio de Marília, até ser contratado pela Jovem Pan (SP) em 1972. Em São Paulo, Osmar Santos foi o pivô de uma revolução no Rádio esportivo, tendo introduzido uma forma diferenciada e criativa nas transmissões esportivas. Em 1977, aceitou o desafio de comandar o Sistema Globo de Rádio, na época ainda Rádio Nacional, onde transmitiu a histórica final de 77, cujo campeonato marcou o fim da agonia corintiana de quase 23 anos sem títulos.

                Osmar Santos foi ainda, a voz das Diretas em 1984, num dos momentos mais importantes da “História do Brasil”. Fenômeno de comunicação, atuou também com destaque na TV. Sua trajetória vitoriosa foi interrompida bruscamente no dia 22 de dezembro de 1994, quando foi vítima de um grave acidente na BR 153, trecho que liga Marília a Lins. Esse acidente calou a voz do maior locutor esportivo do rádio brasileiro, um verdadeiro ANIMAAAAL da comunicação. Quem não se lembra de; Ripa na chulipa e pimba na gorduchinha, no caroço do abacate, e que gooool…

FLAVIO ARAUJO  –  Maravilhoso narrador esportivo da Rádio Bandeirantes AM, durante quase 25 anos nos tempos do “Scratch do Rádio”, era o locutor que andava em cima da bola. Natural da cidade paulista de Presidente Prudente, Flávio trabalhou também na Rádio Gazeta-AM, de São Paulo, e na Rádio Central de Campinas-SP (de propriedade do ex-governador de São Paulo Orestes Quércia). Ele teve quatro filhos (um deles morreu no trágico acidente da TAM no Jabaquara em São Paulo em 1996) e tem nove netos. Flávio militou no Rádio esportivo e na imprensa esportiva de São Paulo durante 30 anos. Foi locutor da Rádio Bandeirantes de 1957 a 1982 e encerrou suas atividades em São Paulo na Fundação Cásper Líbero como superintendente de esportes da Rádio e TV Gazeta.

PEDRO LUIZ   E  EDSON LEITE  –  Pedro Luiz estava lá, ao lado de Edson Leite na Suécia, em 1958, ambos da Rádio Bandeirantes. Na época formavam a dupla dos melhores narradores esportivos, considerados  mestres na arte. Passou pelas mais importantes emissoras de rádio de São Paulo, foi considerado o mais perfeito narrador de todos os tempos. Como comentarista esportivo atuou ao final da carreira na Radio e TV Gazeta. Pedro Luiz faleceu dia 12 de julho de 1998. Edson Leite, inesquecível voz que em 1958 transmitia pela Rádio Bandeirantes, desde a Suécia, a nossa primeira Taça do Mundo. Brasil campeão com placar de 5×2 em cima dos anfitriões. Este grande narrador esportivo nascido em Bauru, passou por várias emissoras de rádio e televisão na capital paulista. Edson Leite, falecido em 22 de julho de 1983, foi uma das maiores expressões no rádio brasileiro.

WALDIR AMARAL –  Waldir Amaral, foi um dos pioneiros na transformação das jornadas esportivas do rádio num verdadeiro show. Criou bordões que atravessaram todo o Brasil e tornaram-se referência nacional como “indivíduo competente”, “o relógio marca”, e “tem peixe na rede”. Criou também o apelido “Galinho de Quintino” que acompanha Zico até os dias de hoje. Vindo de Goiânia, foi para o Rio de Janeiro onde trabalhou em várias emissoras de rádio. Faleceu em 7 de outubro 1997, aos 71 anos

EDMUNDO SILVA  – Nasceu dia 21 de abril de 1946 na cidade de Rio Claro. Começou em 1961 na Rádio Clube de Rio Claro. Sua primeira transmissão foi no jogo Velo x São Bento, em 1972 no estádio Benitão. Trabalhou ainda nas rádios; Clube, Cultura e Itapoã FM e TV Claret em Rio Claro, Rádio Jornal de Limeira, Rádio Difusora e Educadora de Piracicaba e Rádio Brasil, em Campinas. Atualmente trabalha na Rádio Excelsior Jovem Pan de Rio Claro das 9 às 11h, na Rádio Educadora AM das 15 às 17h e na Estereosom FM de Limeira das 17 às 18h.  Sua maior emoção ao transmitir uma partida de futebol, foi no dia 3 de setembro de 1986, quando a Internacional sagrou-se Campeã Paulista ao vencer o Palmeiras por 2 a 1 em pleno Morumbi. Edmundo Silva ainda é um dos locutores que possui a voz mais bonita do rádio, tanto é, que é conhecido por “A voz metálica do rádio”

               Infelizmente nosso espaço não é suficiente para falarmos de todos os locutores que marcaram época no rádio brasileiro. Fica aqui o nosso agradecimento a todos eles pelas emoções que passaram à nós através de suas transmissões, foram momentos que jamais sairão de nossa memória, pois mesmo não estando lá no estádio, nos sentíamos presente, tal era a perfeição da narrativa. Nossos sinceros agradecimentos a todos que ainda estão entre nós e àqueles que já partiram, como por exemplo: Ary Barroso, Aurélio Campos, Darcy Reis, Edson Leite, Fiori Gigliotti, Geraldo José de Almeida, José Italiano, Milton Peruzzi,  Oduvaldo Cozzi, Pedro Luís e tantos outros.

FIORI GIGLIOTTI
ÊNIO RODRIGUES
FLÁVIO ARAUJO
JOSÉ SILVÉRIO
ARY BARROSO
OSMAR SANTOS
EDSON LEITE
PEDRO LUIZ
SILVA JUNIOR
EDMUNDO SILVA

 

EDMAR FERREIRA DA SILVA
MILTON PERUZZI
JOSÉ ITALIANO
JOSEVAL PEIXOTO
WALDIR AMARAL
HAROLDO FERNANDES
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