RUÇO: o beijinho doce da torcida corintiana

                 José Carlos dos Santos nasceu dia 3 de junho de 1949, na cidade do Rio de Janeiro. No meio futebolístico ficou mais conhecido por Ruço, com “Ç” e não com dois “S”. Sem dúvida alguma, o momento mais marcante de toda sua carreira, foi o gol que fez contra o Fluminense no dia 5 de dezembro de 1976, quando a Fiel Torcida Corintiana invadiu o Rio de Janeiro, dividindo a arquibancada com a torcida do tricolor carioca. Ruço marcou o gol de empate daquela partida, levando para os pênaltis aquela decisão da semifinal do Campeonato Brasileiro daquele ano. Uma das cobranças de pênalti foi feita por Ruço, que não perdoou o goleiro Renato e marcou um dos quatro gols do alvinegro de Parque São Jorge, naquela tarde de muita chuva no Rio de Janeiro. No ano seguinte, lá estava Ruço novamente dando alegria ao torcedor corintiano, quando sagrou-se Campeão Paulista de 1977, depois de vinte dois anos e oito meses de jejum.

CORINTHIANS

                  Ruço começou sua carreira no Madureira, do Rio de Janeiro. Em 1975 foi contratado junto ao Corinthians. Sua estréia aconteceu dia 1 de fevereiro daquele mesmo ano. Neste dia o Corinthians enfrentou o San Lorenzo, da Argentina, num jogo amistoso realizado no estádio do Morumbi. O alvinegro venceu por 1 a 0, gol de Lance aos 11 minutos do segundo tempo. Neste dia o Corinthians jogou com; Paulo Rogério, Zé Maria, Laércio, Ademir e Wladimir; Ruço (Tião) e Pita; Vaguinho, Adilson (Lance), Arlindo e Daércio. O técnico foi Silvio Pirilo.

               O primeiro gol que Ruço marcou com a camisa corintiana, foi no dia 3 de maio de 1975, quando o Corinthians venceu o América de São José do Rio Preto por 2 a 0 pelo Campeonato Paulista. Este gol foi de pênalti e ele tem uma história; César Maluco, o mesmo que brilhou no Palmeiras, havia perdido um pênalti no último minuto contra o XV de Piracicaba, bem no dia de sua estréia no Corinthians e o jogo terminou empatado em 1 a 1.  Depois ele voltou a desperdiçar outro contra o Santos e o jogo terminou empatado em 0 a 0. Aí veio o jogo contra o América. Aos 32 minutos do segundo tempo, foi marcado um pênalti a favor do Corinthians.

               Vaguinho bateu duas vezes e o goleiro defendeu as duas, mas o juiz mandou voltar, pois alegou que o arqueiro havia se adiantado nas duas oportunidades. Quando Vaguinho já estava pegando a bola para bater pela terceira vez, todos os jogadores do Corinthians não deixaram ele cobrar. Foi aí que surgiu Ruço e converteu para alegria da Fiel. Ruço saiu correndo para a torcida, jogando beijinhos e esta ficou sendo sua marca registrada. Com sua vasta cabeleira vermelha, parecendo o jogador colombiano Valderrama, em pouco tempo Ruço caiu na simpatia da torcida, por sua raça e pela forma de comemorar seus gols, o que lhe rendeu o apelido de “Beijinho Doce”.

GOL DE MEIA BICICLETA   

               O Corinthians vivia ainda a época do jejum de títulos, desde a conquista do Paulista do IV Centenário. Depois de perder a final de 74 para o Palmeiras o Timão fez excelente campanha no Brasileiro de 1976 e avançou às semifinais do torneio, o adversário era o Tricolor Carioca, de Rivelino. O Timão esbanjava raça, força e determinação, mas o Fluminense esbanjava técnica e qualidade. Foi então que um fato começou a mudar a história desta épica partida, o então presidente do Fluminense Francisco Horta ligou para Vicente Matheus presidente do Corinthians e conversaram sobre a possibilidade de promover a partida.

                Durante a conversa Matheus perguntou quantos ingressos poderiam ser cedidos ao Timão, Francisco Horta respondeu de forma “jocosa” que metade dos 140 mil ingressos poderiam ser adquiridos, obviamente sem acreditar na empreitada por parte dos alvinegros, mas Matheus não só aceitou a carga de ingressos cedido pelos Tricolores Cariocas, como comprou e pagou antecipadamente pelos 70 mil ingressos que lhe cabia, segundo afirmou o próprio Horta à Juca Kfouri mais tarde em entrevista. A partir daquele momento os dois presidentes começaram a divulgar a partida em programas esportivos de rádio e televisão.

                 Reza a lenda que Rivelino chegou a orientar o presidente do Fluminense para que não provocasse a torcida alvinegra, o “Reizinho” sabia o que estava falando. A Fiel estava sedenta por um título, ano após ano de derrotas e insucessos que mexiam com os brios do torcedor, que comprou literalmente a aposta feita pelos presidentes de ambos os clubes. Assim aquela partida, que seria apenas uma semifinal, começava a se transformar numa das maiores partidas de futebol de todos os tempos. Em São Paulo as caravanas começavam a se organizar, a Fiel se preparava para transformar o Rio de Janeiro em “Recreio dos Bandeirantes”.

                A invasão se daria pelas rodovias, em ônibus e mais ônibus, 1.000 segundo as estimativas, aviões fretados e comerciais, a Fiel foi de carro, foi de bicicleta, foi a pé para empurrar o Corinthians. A Fiel ensandecida rumou para o Rio de Janeiro, lotou as praias cariocas e esbanjou confiança na madrugada que antecedeu a partida, era o Corinthians e mais nada, a Fiel dividiu palmo a palmo o estádio do Maracanã com a torcida do Fluminense, houve ainda quem diria que a torcida alvinegra era superior à tricolor, até mesmo os jogadores se surpreenderam ao subir os túneis do maior do mundo e ver as bandeiras corintianas tremulando nas arquibancadas.

               Dentro de campo, além da igualdade nas arquibancadas, os donos da casa esbanjando técnica, mas os alvinegros esbanjando raça e apoiados por uma legião de torcedores ensandecidos, regados pela chuva que caiu sem trégua no Rio de Janeiro. A partida começa truncada, o campo pesado favorecia o Timão, mas era o Fluminense que pressionava e assim abriu o placar. A parte tricolor do estádio festejou, mas a parte alvinegra fez ecoar o grito da Fiel pelo Maracanã, a parte que não desiste nunca e acredita sempre. Como se soubesse do final daquela história a Fiel canta e acredita, empurra o Timão pra cima do Fluminense, assim aos 29 minutos do primeiro tempo a estrela de Ruço brilharia naquela tarde chuvosa do Rio de Janeiro.

                Vaguinho cobra escanteio pela esquerda do ataque, Geraldão sobe de cabeça e desvia, Ruço de costas para o gol salta numa meia bicicleta que entraria para a história do futebol Brasileiro, o Maracanã assistia a um dos mais belos gols feitos e também a um espetáculo de alegria, euforia, êxtase e felicidade incontida, demonstrando todo o Amor desta torcida Fiel, e Ruço? Ah Ruço cobria a Fiel de beijos pelo Maracanã. Fluminense 1×1 Corinthians.

                 E Rivelino que anos antes reinara no coração da Fiel e conhecia como ninguém a força da torcida avisou o Presidente Horta, quem avisa Amigo é, Presidente, empurrado pela torcida o Timão segura o empate em 1×1 e então a semifinal do Brasileiro de 1976 seria disputada em cobranças de pênaltis. Para o Corinthians converteram Neca, Ruço e Moisés, enquanto que a estrela de Tobias brilhava defendendo os pênaltis de Rodrigues Neto e Carlos Alberto Torres. A torcida do Fluminense incrédula viu Pintinho marcar o único gol tricolor na disputa de tiro livre, para em seguida Zé Maria proclamar a redenção alvinegra e transformar a invasão corintiana numa festa sem limites de fronteira, nos pênaltis Fluminense 1×4 Corinthians.

                 A festa que havia começado ainda durante a partida dos mais de 1.000 ônibus que partiram de São Paulo, agora chegava ao seu ápice, era muita alegria para o coração da Fiel, uma festa em preto e branco dentro do Maracanã, a recepção aos jogadores em São Paulo não foi menos emocionante, a Fiel carregava o Time nos braços e recebia beijos, de Ruço, o herói daquela inesquecível invasão.

CAMPEÃO PAULISTA DE 1977

                 No ano seguinte, Ruço voltou a dar muitas alegrias à torcida corintiana. O time já estava há vinte e dois anos e oito meses sem um título estadual e sua torcida aguardava ansiosamente para soltar o grito de “É Campeão”. Até que chegou a grande final do Paulistão de 77 contra a poderosa Ponte Preta de Campinas, um time maravilhoso que analisando friamente, era melhor que o time corintiano. Por determinação da Federação Paulista de Futebol todos os jogos da fase decisiva foram disputados no estádio do Morumbi, a primeira partida realizada em 05 de outubro de 1977 o Timão venceu por 1×0 gol de Palhinha.

                 A segunda partida foi no dia 9 de outubro e a Ponte venceu por 2 a 1. A terceira e decisiva partida aconteceu dia 13 de outubro e o Corinthians venceu por 1 a 0, gol de Basílio. Com isto sagrou-se Campeão Paulista de 1977. Neste dia o técnico Osvaldo Brandão mandou a campo os seguintes jogadores. Tobias, Zé Maria, Moisés, Ademir e Wladimir; Ruço e Luciano; Vaguinho, Basílio, Geraldão e Romeu. Durante os três anos em que Ruço jogou no Corinthians, disputou 201 partidas. Venceu 107, empatou 46 e perdeu 48. Marcou 22 gols. Sua última partida pelo alvinegro foi no dia 23 de julho de 1978, quando o Corinthians empatou com o Cruzeiro em 1 a 1 pelo Campeonato Brasileiro.

                Volante que não era técnico tão pouco brilhante com a bola nos pés, se destacou nos anos em que defendeu o Corinthians graças a sua raça e entrega dentro de campo. Ruço era um jogador muito querido pela Fiel, pois a cada gol anotado saia correndo em direção as arquibancadas jogando beijos para a torcida, daí o apelido de Beijinho Doce. Ruço faleceu dia 2 de setembro de 2012, aos 63 anos vítima de um AVC (acidente vascular cerebral).

Campeão Paulista de 1977  –  Em pé: Zé Maria, Tobias, Moisés, Ruço, Ademir e Wladimir     –   Agachados: Vaguinho, Basílio, Geraldão, Luciano e Romeu
1979  –   Em pé: Perivaldo, Ubirajara, Milton, Renê, Ruço e China   –    Agachados: Cremilson, Dé, Wescley, Renato Sá e Ziza
Em pé: Zé Maria, Paulo Rogério, Darcy, Cláudio Marques, Ademir Gonçalves e Ruço    –    Agachados: Vaguinho, Basílio, César, Adãozinho e Daércio
Em pé: Zé Maria, Sérgio, Darcy, Zé Eduardo, Ruço e Wladimir   –    Agachados: Ivan, Genildo, Adilson, Tião e Cláudio Marques

Em pé: Zé Maria, Tobias, Moisés, Zé Eduardo, Givanildo e Wladimir    –   Agachados: Vaguinho, Neca, Geraldão, Ruço e Romeu
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