CHICÃO: um volante a moda antiga

                 Francisco Jesuíno Avanzi nasceu dia 30 de janeiro de 1949, na cidade de Piracicaba (SP). Craque é uma classificação que passa longe do potencial apresentado pelo volante Chicão em sua carreira. Mas todos queriam tê-lo em suas equipes por causa da eficiência, raça e vigor físico que chamavam a atenção dos adversários. O termo “pipocar” não fazia parte deste atleta, que marcou história principalmente com a camisa do São Paulo F.C. Por isso, recebeu apelidos como “El Matador de Rosário”, se referindo ao jogo contra Argentina na Copa de 78. E também “Monstro do Mineirão”, referente a decisão do Campeonato Brasileiro de 1977, quando o São Paulo sagrou-se campeão ao decidir nos pênaltis com o Atlético Mineiro. Muita gente pensa que naquele dia, foi Chicão que dividiu com Ângelo, quando ele fraturou a perna, mas na verdade quem dividiu com o jogador do Galo foi o meia Neca.  

                 O futebol esteve no sangue de Chicão desde a infância. Quando era menino, só pensava em jogar futebol. Dormia com a bola. Começou sua carreira no XV de Piracicaba, o popular “Nho Quim”, em 1968. Na época, o Cilinho, que era o técnico, viu três treinos de Chicão nos juvenis do XV, gostou e o levou para a equipe profissional. Antes de completar 20 anos, foi emprestado para o União Barbarense, antes de se transferir para a Ponte Preta.  Na Macaca, Chicão mais uma vez comandado pelo treinador Cilinho, destacou-se e, em 1973 teve seu passe negociado com o São Paulo F. C. Na época a transação entre Ponte Preta e São Paulo foi muito comentada.

                O Waldir Perez também foi para o São Paulo na mesma negociação.  No Tricolor do Morumbi, Chicão viveu sua melhor fase. Em 1974, ele teve sua primeira experiência na Seleção Brasileira e por pouco não disputou a Copa do Mundo da Alemanha. Chegou a ser convocado no grupo dos 22 jogadores e acabou sendo cortado pelo Zagallo, que preferiu levar Carpegiani. Chicão voltou a integrar a seleção em 1976, quando o Brasil disputou a Copa Atlântico. O técnico era Osvaldo Brandão e o Brasil sagrou-se campeão.  Chicão jogou todas as partidas como titular absoluto.

               Em 1975 sagrou-se campeão paulista pelo São Paulo e em 1977, ajudou o Tricolor a conquistar o seu primeiro título brasileiro. Na ocasião da decisão que aconteceu nos pênaltis, Chicão confessa que perdeu o pênalti que cobrou porque escorregou. O curioso é que ele tinha batido doze vezes nos treinos e só perdeu um. O técnico do São Paulo que era Rubens Minelli, já havia dito um dia antes que acreditava na decisão por pênaltis. O campo do Mineirão estava muito pesado devido a forte chuva que caiu desde a madrugada e, isso dificultou a equipe do Atlético, que era mais técnica. Neste dia o São Paulo entrou em campo com a seguinte formação; Waldir Perez, Getúlio, Tecão, Antenor e Bezerra; Chicão, Dario Pereira e Theodoro; Viana, Mirandinha e Zé Sérgio.

               Neste jogo, aconteceu um lance que ainda hoje é muito comentado. Chicão foi acusado de quebrar a perna do jogador Ângelo do Atlético Mineiro, propositalmente. Mas Chicão garante que tem a consciência tranquila. Nunca foi desleal, foi um jogador que sempre acreditava na chance de vencer a partida e sempre admitiu que jogava duro, mas sem violência.  Três anos mais tarde, foi contratado pelo próprio Atlético Mineiro, onde sagrou-se campeão estadual em 80 e 81 com a camisa do Galo mineiro. Pelo São Paulo, Chicão jogou 212 partidas. Venceu 142, empatou 11 e perdeu 59. Marcou 19 gols com a camisa do Tricolor.

                Antes dos jogos, Chicão gostava de incendiá-los. No jogo decisivo contra o Santos em 1978, que tinha na época “Os meninos da Vila”, Chicão numa entrevista que deu ao locutor Osmar Santos, disse; “Avisem esses garotos, que quem jogou no primeiro jogo foi o Francisco. No próximo será o Chicão que estará em campo”.  No dia do jogo, Chicão procurou o Pita que era o meia do Peixe e disse; “Aquilo que eu falei, era só para promover o clássico. Podem jogar tranquilo”. Se em 1974 aconteceu a frustração de ser cortado da seleção brasileira às vésperas do  mundial, em 1978 a situação foi diferente. Chicão teve oportunidade de fazer parte do time canarinho “Campeão Moral” na Argentina.

               O fato mais marcante na carreira de Chicão, aconteceu neste mundial. Começou a competição no banco de reservas. Só que, de forma surpreendente, acabou escalado no confronto da fase semifinal diante dos donos da casa, a poderosa Argentina. A alegação do técnico Cláudio Coutinho era que o titular Toninho Cerezo havia sentido uma lesão.  A verdade, no entanto, era a opção para intimidar os adversários na chamada “Batalha de Rosário”.  Chicão ficou sabendo que iria jogar depois do almoço, quando Cláudio Coutinho o chamou e comunicou-lhe que ele entraria jogando e, para que ele usasse o mesmo estilo que apresentava com a camisa do São Paulo.

               Também disse que ele não podia ser expulso de campo de jeito nenhum para não prejudicar a nossa equipe. Mesmo com o pedido do técnico, Chicão não economizou na violência. Em um diálogo transcrito pelo jornal “A Gazeta Esportiva” na edição de 5 de maio de 1985, Chicão deixou claro ao técnico Cláudio Coutinho que ia tomar conta dos adversários. “Se for preciso, eu mato um argentino”. O confronto terminou com empate de 0 a 0.  O Brasil acabou eliminado do mundial por causa do saldo de gols. Afinal, na última rodada, a Argentina ganhou de “forma estranha” do Peru por 6 a 0.

               Chicão nunca se conformou com a eliminação e sempre dizia; “Como pode uma equipe sair de uma competição sem perder e não ser campeã?” O Brasil terminou em terceiro lugar, ao vencer a Itália por 2 a 1, gols de Nelinho e Dirceu. Uma curiosidade desta Copa, foi que o Brasil utilizou 17 jogadores dos 22 inscritos. Apenas quatro jogadores disputaram todos os jogos; Leão, Oscar, Amaral e Batista.

               O Chicão do São Paulo e da Seleção Brasileira, encerrou a carreira de forma vitoriosa. Contrariando a trajetória mais comum para a maioria dos jogadores de futebol, o sucesso acompanhou o volante, mesmo que de maneira mais modesta, até 1986, ano em que levou o Mogi Mirim à primeira divisão do futebol paulista e pendurou as chuteiras.  Naquele ano o Mogi Mirim sagrou-se campeão juntamente com o Novorizontino. Já com 37 anos, cansado e sem os quatro meniscos, resolveu encerrar a carreira, sempre conhecido pela raça e por não dar moleza aos meias e atacantes adversários. Era um jogador raçudo e brigador, mas também era um líder em campo e mostrava personalidade nos momentos em que questionava os árbitros.

               E foi justamente por isso, que chegou a receber um cartão amarelo, antes mesmo da partida começar.  Isto aconteceu em 1976, quando o São Paulo enfrentou o Palmeiras. Chicão chegou próximo ao árbitro José de Assis Aragão e disse; “Vê se apita direito essa porcaria”.  O árbitro não teve dúvida e lhe deu o amarelo, antes mesmo do jogo começar.  Após o término da carreira, Chicão virou treinador do XV de Piracicaba e, na sequência, do Independente de Limeira. Manteve aberta uma loja de material esportivo em sua cidade por seis anos. Em 2001, voltou a trabalhar como treinador em uma nova equipe, o Clube Atlético Monte Negro, da cidade de Avaré, que já conseguiu subir para a Série B-3.

              Fora de campo, era um homem de grande, enorme coração. A ponto de ter medo, verdadeira fobia, de sapos, e por isso ser vítima frequente dos companheiros de concentração, que não cansavam de brincar com ele. “Chicão Gavião”. Era como o chamava Osmar Santos, o mais importante locutor esportivo paulista na época em que Francisco Jesuino Avanzi brilhou com a camisa do São Paulo de 1973 a 1979. Apelido inspirado no estilo determinado, raçudo, que Chicão sempre demonstrou, do início da carreira, em 1968, no XV de sua Piracicaba natal, até o final dela, em 1985, quando ajudou o Mogi Mirim a subir para a primeira divisão do futebol paulista.

              Chicão lutou contra um câncer no esôfago. Ficou internado tratando da doença, no Hospital Nove de Julho, que fica na Bela Vista, um bairro da capital paulista. Mas na madrugada do dia 8 de outubro de 2008, Chicão sofreu sua pior derrota, a morte venceu aquele homem de tanta raça, garra e que fazia os adversários tremerem quando iriam enfrentá-lo. Seu velório e sepultamento, foram realizados na cidade de Piracicaba (SP). 

              Quem tem mais de 30 anos, certamente se recorda das partidas feitas por Chicão, no São Paulo e na seleção brasileira. Lembrará também da final do campeonato brasileiro de 1977, quando ele foi um monstro naquela partida disputada debaixo de uma forte chuva. Quem não se lembra de Chicão na Copa de 78, quando enfrentamos a poderosa Argentina e ele conseguiu inibir os argentinos em sua própria casa no empate sem gols.  Chicão foi símbolo de raça, garra e determinação.

               Quando Cláudio Coutinho pediu para Chicão se preparar, Chicão respondeu; “Me preparar eu preciso é pra jogar aquelas partidas duras em Piracicaba. Pra jogar aqui eu não preciso me preparar”. O Xerife, então saiu jogando, e logo de cara impôs respeito, ao dar uma entrada dura no craque argentino Mário Kempes, que foi jogar o resto do tempo em seu campo de defesa, sempre o mais longe possível do nosso Chicão.  Se os jogadores de hoje, tivessem 10% da vontade, da garra e da raça que Chicão tinha, dificilmente perderiam uma partida.

Em pé: Waldir Peres, Chicão, Nelinho, Miguel, Amaral e Marinho Chagas    –     Agachados: Flecha, Geraldo, Palhinha, Rivelino e Lula
Em pé: Waldir Peres, Antenor, Tecão, Getúlio, Bezerra e Chicão   –    Agachados: Zequinha, Neca, Armando, Válter Peres e Edu Bala
Em pé: Waldir Peres, Antenor, Estevam, Chicão, Mário Válter e Bezerra. Agachados: Zequinha, Neca, Milton Cruz, Peres e Zé Sérgio
Em pé: Getúlio, Toinho, Antenor, Tecão, Chicão e Bezerra   –    Agachados: Zequinha, Neca, Serginho Chulapa, Teodoro e Zé Sérgio
Em pé: Waldir Peres, Galli, Araújo, Chicão, Marinho e Geraldo   –    Agachados: Paulinho, Pedro Paulo, Adílton, Serginho e Tuta.
Decisão do Brasileirão de 1977   –   Em pé: Antenor, Tecão, Getúlio, Chicão, Bezerra e Waldir Peres    –     Agachados: Viana, Teodoro, Mirandinha, Dario Pereira e Zé Sérgio
Em pé: Waldir Peres, Airton, Getúlio, Chicão, Marião e Bezerra   –    Agachados: Edu Bala, Teodoro, Serginho Chulapa, Dario Pereira e Zé Sérgio
Em pé: Suemar, Márcio, Marola, Chicão, Paulinho e Neto   –    Agachados: Claudinho, Elói, Nilson Dias, Pita e Osny
Em pé: Toninho Carlos, Gilberto Sorriso, Márcio Rossini, Marola, Mauro Campos e Chicão    –     Agachados: Paulinho Batistote, Cardim, Palhinha, Pita e João Paulo
Em pé: Gilberto, Waldir Peres, Chicão, Paranhos, Arlindo e Forlan    –     Agachados: Mauro, Zé Carlos, Mirandinha, Pedro Rocha e Piau
Em pé: Waldir Peres, Gilberto Sorriso, Amaral, Paranhos, Nelsinho Baptista e Chicão   –    Agachados: Terto, Leivinha, Geraldão, Pedro Rocha e Nei
Em pé: Protti, Carlos Antonio, Macalé, Roque, Joca e Ademir Gonçalves    –   Agachados: Nê, Carlos Frank, Careca, Chicão e Osvaldinho

        

Postado em C

Deixe uma resposta