PREGUINHO: autor do primeiro gol brasileiro em Copa do Mundo

                   João Coelho Neto nasceu dia 8 de fevereiro de 1905, na cidade do Rio de Janeiro – RJ. Com certeza muitos dos leitores nunca ouviram falar neste jogador, que era conhecido por “Preguinho”, mas ele foi um dos atletas mais completos que o Brasil já teve até hoje. Praticou nove modalidades de esporte, entrando, como jogador de futebol, para a galeria dos grandes ídolos do Fluminense e do Brasil. Foi ele o autor do primeiro gol brasileiro em Copas do Mundo, no Uruguai, em 1930 – o gol de honra na derrota para a Iugoslávia por 2×1.  Além de ser também o primeiro capitão do time, no jogo contra a Bolívia, marcou dois gols na vitória por 4×0.  Preguinho e o Fluminense nasceram quase juntos no início do século XX. 

FAMÍLIA

                  Preguinho é filho do escritor Henrique Maximiliano Coelho Netto (1864-1934), fundador da cadeira número 2 da Academia Brasileira de Letras, aristocrático “príncipe dos prosadores brasileiros”. Foi Coelho Netto quem inventou a expressão “Cidade Maravilhosa”. Era um torcedor fanático do Fluminense Football Club, tendo inclusive composto um hino para o clube. Somente esta descrição já bastaria para alçar Coelho Netto a um posto ilustre na História do Brasil. Porém, falta ainda examinar uma outra característica, que lhe acrescenta uma dramaticidade épica: Coelho Netto teve 14 filhos. E não foram quatorze quaisquer. Entre eles, estava João Coelho Netto, o Prego, o Preguinho, o Super-Homem Brasileiro.  Seu pai, um dos mais importantes intelectuais brasileiros, queria fazer do filho um atleta. Resolveu começar pela natação: pegou o garoto com as mãos e o atirou numa piscina. João “afundou como um prego”. Nascia ali o apelido Prego, que depois se transformaria em Preguinho

FLUMINENSE

                  Aos onze anos, Preguinho já figurava nos quadros infantis do Fluminense. Estreou na equipe principal de futebol em 1925, aos vinte anos. Mas Preguinho não era só um jogador de futebol: era um super atleta, brilhando em nada menos que nove esportes (futebol, basquete, vôlei, atletismo, natação, hóquei sobre patins, saltos ornamentais, remo e pólo aquático). O dia de sua estréia no futebol, 19 de abril de 1925, ilustra e exemplifica esse fato. Naquela tarde, Preguinho ajudou o Fluminense a conquistar o tricampeonato estadual de natação, nadando na categoria dos 600 metros. Ainda com a medalha no peito, pegou um táxi e se dirigiu até as Laranjeiras, para conquistar no gramado o Torneio Início do Rio de Janeiro, ao vencer o São Cristóvão na final.

                  Começava ali uma vitoriosa jornada como jogador de futebol no quadro principal do Fluminense. Foram ao todo 172 jogos (98 vitórias, 28 empates e 46 derrotas), com 184 gols marcados pelo Tricolor. Preguinho foi o artilheiro do Fluminense nos certames de 1928, 1929, 1930, 1931 e 1932. Em 30 e 32, foi também o artilheiro geral do Campeonato Carioca.

                  Em 1933, o profissionalismo se implantava no futebol brasileiro: os jogadores passariam a receber para jogar. Mas Preguinho se recusou a ganhar dinheiro com o futebol. Continuou atuando pelo Fluminense, sem receber um tostão, por puro amor à camisa.  Ao todo, Preguinho contabilizou para o Fluminense, incríveis 387 medalhas e 55 títulos, participando das equipes de nove modalidades esportivas. No basquete, é até hoje um dos maiores cestinhas da história do clube, tendo anotado 711 pontos.  O Fluminense surgiu apenas dois anos, seis meses e 17 dias antes de Preguinho. Um dos jogos inesquecíveis de Preguinho foi o Fla-Flu de 1928. O goleiro Amado o desafiou, na semana do clássico, com um telegrama: “Amanhã será canja. Não farás nenhum gol”.

                 Preguinho entrou em campo enraivecido e aos 2 minutos de partida fez o primeiro, de longa distância. O segundo foi de calcanhar, depois que a bola escorregou das mãos de Amado. O Fluminense venceu por 4 x 1 e Preguinho saiu de alma lavada. O gol de sua vida, ele dizia sempre, foi marcado em 7 de dezembro de 1930, no dia em que o Botafogo sagrou-se campeão da cidade.  Preguinho recebeu a bola na sua intermediária e, ao ver o goleiro adversário adiantado, encobriu-o como Pelé tentou fazer na Copa de 1970 contra a Checoslováquia.                    

                 Preguinho foi campeão carioca de basquete em 1924, 25, 26, 27 e 31; de atletismo em 1925; e de voleibol em 1923.  Tais façanhas fizeram dele o mais festejado herói tricolor e, em 1952, recebeu o título de Grande Benemérito Atleta, título que mais o orgulhou até sua morte, em 1979. Preguinho como jogador de futebol, jogou unicamente no Fluminense (RJ), de (1925 a 1935 e 1937 a 1938), clube ao qual se dedicou toda a sua vida, já que sua família era uma das mais influentes do clube, já antes dele nascer, tendo sido matriculado como sócio número 20 do Tricolor.  Um busto na sede do clube lhe presta merecida homenagem. 

SELEÇÃO BRASILEIRA

                  Em 1930, Preguinho integrou a Seleção Brasileira em sua primeira Copa do Mundo. Mais: fez o primeiro gol do escrete na história dos campeonatos mundiais, na derrota por 2 a 1 para a Iugoslávia, em 14 de julho, no Parque Central, em Montevidéu. No segundo jogo, ainda marcou mais dois tentos, na vitória por 4 a 0 sobre a Bolívia.  O Brasil jogou estas duas partidas com o seguinte time; Joel, Brilhante, Itália, Hermógenes, Fausto e Fernando; Poly, Nilo, Araken, Preguinho e Teóphilo. O Brasil chegou ao Uruguai dividido e sem força para lutar pelo título mundial. A briga entre paulistas e cariocas acabou provocando um enfraquecimento no grupo de atletas que foi ao país vizinho.

                  A disputa começou quando a CBD, essencialmente carioca, não convidou membros da Associação Paulista de Esportes Atléticos (Apea) para tomar parte da comissão técnica que iria ao Uruguai. Em retaliação, a Apea não permitiu que clubes de São Paulo liberassem jogadores à seleção. Sem contar com craques como Friedenreich e Del Debbio, a seleção brasileira fez uma campanha medíocre no primeiro Mundial de todos os tempos. Logo na primeira partida, o Brasil foi derrotado pela Iugoslávia por 2 a 1, reduzindo suas chances de classificação. No segundo jogo, mesmo a goleada por 4 a 0 sobre a Bolívia não foi capaz de levar a equipe à segunda fase.

                 Na partida contra os iugoslavos, no Parque Central, em Montevidéu, o Brasil sofreu dois gols no primeiro tempo e ainda conseguiu descontar na etapa final, com Preguinho, mas não teve forças para buscar o empate. O rigoroso inverno uruguaio pareceu congelar o ânimo dos brasileiros. Ao saber da derrota dos “cariocas” para a seleção iugoslava, uma pequena multidão aglomerou-se em frente aos jornais paulistas para comemorar a provável desclassificação do Brasil no Mundial, tamanha a rivalidade entre os dois Estados.

ADEUS AO SUPER ATLETA

                   Preguinho era casado com dona Linda e não tiveram filhos. No dia 30 de setembro de 1979, ela acorda no meio da noite e sente que alguma coisa está errada. A madrugada é fria, o silêncio pesa sobre aquele velho, modesto apartamento da Rua das Laranjeiras, nº 382, no Rio de Janeiro. Seu marido, ela verifica, não está na cama. Preocupada, levanta-se e caminha lentamente até a sala – só então respira aliviada. Alto e forte, apesar de seus 74 anos, ele está lá, parado no escuro, olhar fixo numa parede onde está pendurado aquele que considera o mais precioso de todos os seus guardados: um quadro de vidro, emoldurado em madeira, contendo um certificado expedido pelo Fluminense Futebol Clube, em seu nome. Em letras góticas, vem escrito: “João Coelho Neto, o Preguinho, Grande Benemérito Atleta”. E, mais embaixo, a data: 22 de janeiro de 1952. Dona linda fica imóvel, emocionada, a contemplar a cena à distância. E vê o marido enxugar, com as costas da mão direita, as lágrimas que lhe rolam pelo rosto enrugado.

                   Impossível saber que pensamentos cruzavam a mente daquele homem. Saudade, é provável, pois a saudade é o sentimento mais comum aos velhos que têm o privilégio de olhar para trás e contemplar com orgulho, um passado repleto de glórias.  Dona Linda, decididamente, não sabe ao certo porque ele chorava naquela madrugada fria, na escuridão da sala. Abraçou-o suavemente e o fez voltar para a cama. Mas Preguinho não tornaria a contemplar aquele tesouro: no dia seguinte ele morreu. O futebol perdia um de seus mais notáveis artilheiros. E entrava para a história o mais completo atleta que o Brasil já produziu. Ao todo, suas conquistas como campeão em cada esporte foram: 12 no futebol; 8 no basquete; 14 na natação; 14 no water polo; 3 no remo; 1 no salto ornamental; 1 no atletismo; 1 no vôlei; 1 no hóquei sobre patins.  As únicas homenagens à sua altura estão na sede do Fluminense Football Club: um ginásio com seu nome, e um busto. Muito pouco para uma história tão gloriosa. Preguinha faleceu dia 1 de outubro de 1979.

Seleção Brasileira de 1930    –    Em pé vemos o técnico Píndaro de Carvalho, Brilhante, Fausto, Hermógenes, Itália, Joel e Fernando   –    Ajoelhados: Poly, Nilo, Araken, Preguinho e Teóphilo
Seleção Brasileira de 1930    –    Em pé: Brilhante, Fernando, Hermógenes, Nilo, Carvalho Leite, Itália, Fausto e Santana   –    Ajoelhados: Teóphilo, Benevenuto, Benedito, Velloso, Doca, Russinho e Preguinho
Postado em P

Deixe uma resposta