RAÍ: craque dentro e fora de campo

                   Raí de Souza Vieira de Oliveira nasceu dia 15 de maio de 1965, na cidade de Ribeirão Preto (SP).  Talvez tenha sido a responsabilidade do casamento pré-maturo, que o tenha levado a ver no futebol um futuro profissional. Se apresentou ao Botafogo de Ribeirão Preto apenas como Raí, em 1981, em uma das peneiras do clube. Mesmo sem a influência do irmão Sócrates, que na época já era um jogador consagrado, o garoto de 16 anos passou no teste. No ano seguinte continuou no clube, mas sem levar os treinos muito a sério.

                  Só aparecia às sextas-feiras e ainda não pensava em ser jogador. Entretanto, antes dos 18 anos, a vida lhe pregou uma peça; sua namorada de apenas 16 anos, Dirce Cristina, ficou grávida e Raí resolveu assumir a paternidade. Porém, antes de se casar, procurou o presidente do Botafogo e disse que se não conseguisse um salário mudaria de profissão. Então passou a ganhar um salário mínimo e viveu durante o primeiro ano de casado, na casa dos país.

                 Graças a esta decisão, em 1983 o futuro craque começa a se concentrar com os profissionais e integrar o banco de reservas, ainda como ponta esquerda durante algumas partidas. Em 1984, ele começa a se firmar no time titular. Pelo seu bom futebol, é convocado para a seleção paulista, em 1986, que excursionaria para o Japão, mas a Ponte Preta, após conseguir seu empréstimo por quatro meses, impediu sua integração à seleção.  Sua passagem por Campinas não foi muito feliz, sendo marcada por contusões.

                 Retornou à Ribeirão Preto e, em setembro, dá a grande cartada de sua carreira, é comprado pelo São Paulo F.C. por 24 milhões de cruzados. Até aquele momento a maior transação realizada entre clubes brasileiros.  Raí chegou ao Morumbi em setembro de 1987 como o irmão do Doutor Sócrates. Em princípio, com dificuldades de adaptação à cidade e se recuperando de uma contusão, o meia teve dificuldades para mostrar seu futebol no time de Cilinho.

                 Mas com o tempo, ele foi refinando sua técnica e aprendendo a usar seu físico avantajado como uma grande arma tanto na defesa quanto no ataque.  Em 1988, o São Paulo não consegue desenvolver boas campanhas no Paulistão e no Brasileiro. A única ressalva no time, muito criticado por torcedores e imprensa, é o craque Raí.  Mas no ano seguinte, a equipe apresenta uma grande recuperação e leva o caneco do Campeonato Paulista.

                Mas sua melhor fase começa no ano seguinte. Sob o comando de Telê Santana e com sua evolução técnica e de toda equipe, o Tricolor ganhou em 1991 dois importantes títulos; o Paulista e o Brasileiro. Naquele ano, como uma recompensa pela sua responsabilidade e espírito de liderança, Raí ganhou a braçadeira de capitão do time que tinha entre seus craques, Cafu, Zetti, Muller, Palhinha e Antonio Carlos.  No auge de sua forma, 1992 seria o ano de Raí. Depois de conquistar novamente o Paulista e a Libertadores, o meia fez dois gols na final do Mundial Interclubes contra o Barcelona e ajudou o Tricolor a conquistar o inédito título para o clube,  o de melhor time do mundo. 

                Os sucessos de Raí naquele ano não pararam por aí. Em seu ano como goleador, marcou cinco gols em um só jogo, que foi contra o Noroeste de Bauru. Na partida, o São Paulo venceu por 6 a 0. Raí só não fez o sexto porque permitiu que Muller batesse o pênalti que fechou o placar. Ao final da temporada de 92, Raí era visto como o símbolo da geração mais vitoriosa do São Paulo F.C. 

                Perder o jogador não foi fácil para a torcida. Mas ele seguiria para terras mais charmosas. O velho mundo o esperava. Mas antes de ir embora ele marca seu 100º gol com a camisa do Tricolor em uma partida contra o Corinthians.  Enfim, estava acertada a transferência de Raí para o futebol europeu. O clube felizardo era o Paris Saint-Germain. Na difícil despedida, nos vestiários após a goleada sobre o Santos, 6 a 1 em junho de 1993, Raí chorou.  Após a partida, entrou nos vestiários e em nome do grupo, Muller falou: “Valeu Raí, todos aqui temos a certeza que você será feliz na França”. E brincando e tentando disfarçar a emoção, Raí respondeu: “Dei muitos bichos para vocês”.

                Naquela noite, o passe de Raí foi bastante concorrido pela mídia, pois todos os canais de televisão queriam entrevista-lo. Um dos maiores elogios que Raí recebeu na despedida, veio de Tele Santana que disse: “Nem jogador e nem técnico são insubstituíveis, mas sempre que um profissional do nível de Raí sai, é certo que será muito difícil encontrar outro para o lugar, por causa das qualidades que tem como jogador e do homem que ele é. Sempre defendeu os companheiros e só deu bons exemplos à eles”.

PARIS SAINT-GERMAIN

               Raí chegou à Cidade Luz para defender a camisa do Paris Saint-Germain negociado por US$ 4,1 milhões. Logo em sua estréia, em setembro de 1993, o brasileiro mostrou a que veio e marcou o único gol da vitória de seu time sobre o Montpellier pelo campeonato francês. Mas o sucesso da estréia não se repetiria a curto prazo. Em seus primeiros meses no clube francês, Raí não conseguiu apresentar seu bom futebol. Amargou a reserva em alguns jogos e o PSG pensou até em dispensar o craque. Segundo a imprensa, Raí estava sendo utilizado de forma errada na equipe pelo técnico português Arhur Jorge.

               Da torcida parisiense ele só ouvia vaias. Chegou até a ser sondado pelo São Paulo para retornar, mas ele respondeu que só regressaria após ter retribuído o investimento do clube francês. E a imprensa estava certa, pois foi só trocar de técnico, que Raí se tornou um maestro dentro de campo e sua estrela voltou a brilhar. Após um ano em que quase sumiu do cenário do futebol, em maio de 1994, Raí faz sua partida considerada perfeita pelos cronistas esportivos. Foi contra o Dínamo de Kiev.

               Depois disso, o meia teve participações fundamentais em todas as conquistas do clube francês e o time chegou a ser considerado um dos melhores do mundo, conquistando a Copa da Liga da França em 1995 e 1998, a Copa da França em 1993, 1995 e 1998, o Campeonato Francês de 1994 e a Recopa Européia de 1996. Com a camisa do clube francês, Raí disputou 176 partidas e marcou 54 gols. O sucesso de Raí na França foi tão grande, que declarou amor ao país e, pouco antes de terminar seu contrato de três anos, renovou por mais três temporadas.

O RETORNO AO TRICOLOR

              Mas no final deste último acordo, seu coração tricolor não resistiu e ele voltou para trazer um pouco de alegria aos torcedores brasileiros, em especial ao torcedor são-paulino, pois no dia 10 de maio de 1998, o São Paulo fazia a final do Campeonato Paulista contra o Corinthians. O Timão tinha sérias pretensões de levar o título, mas Monsieur Raí vem direto da França para os gramados do Morumbi. Comandando em campo a equipe de Nelsinho Batista, o eterno ídolo leva o São Paulo ao título esquecido desde 1992, marcando o primeiro dos três gols são-paulinos na vitória de 3 a 1. Neste dia o São Paulo jogou com; Rogério Ceni, Zé Carlos, Capitão, Márcio Santos (Bordon) e Serginho; Alexandre, Fabiano, Raí (Aristizabal) e Carlos Miguel (Gallo); França e Denílson.  Seu retorno ao Brasil não poderia ser melhor.

SELEÇÃO BRASILEIRA

              A passagem de Raí pela seleção frustrou muitos brasileiros. Ele não foi nem sombra daquele craque que conquistou tantos títulos no São Paulo e no Paris Saint-Germain. Difícil explicar o mal desempenho de Raí, que de titular absoluto de Carlos Alberto Parreira nas eliminatórias de 1993, passou para o banco de reservas no meio da Copa dos Estados Unidos. No jogo de estréia, contra a Rússia, Raí entrou como titular da camisa 10, capitão da equipe, fez um gol de pênalti, mas não convenceu. As críticas da imprensa, dos torcedores e até do coordenador técnico Mário Jorge Lobo Zagallo, obrigaram Parreira a trocar Raí por Mazinho.

              Dunga passou a ser o capitão e com uma seleção medrosa, o Brasil conquistou o Tetra Campeonato Mundial. Raí só voltaria à seleção em 1998, mas Zagallo não o convocou para o Mundial da França.  Foram inúmeras as hipóteses levantadas para explicar o fracasso de Raí na seleção, como; excesso de pressão, síndrome da camisa 10, crise psicológica e incompetência de Parreira.  Porem, nenhuma é satisfatória. A má fase de Raí na seleção ainda permanece uma incógnita. Com a camisa da seleção, Raí fez 51 partidas e marcou 16 gols.

              Devido a um choque com o jogador Wilson Gottardo, Raí teve um rompimento dos ligamentos do joelho esquerdo o que obrigou o craque a ficar afastado dos gramados por vários meses. Com isto, o São Paulo ficou perdido sem o seu líder e por pouco não é rebaixado para a segunda divisão. Depois de alguns meses Raí retornou aos gramados e, em 2000 ajudou o Tricolor a ser campeão paulista ao vencer o Santos na final.  Aos 35 anos anunciou sua despedida do futebol.

              Com a camisa do Tricolor, Raí fez 300 jogos, marcou 113 gols e foi Campeão Paulista em 1987, 89, 91, 92, 98 e 2000. Campeão Brasileiro em 1991. Taça Libertadores em 1992 e 93 e Mundial Interclubes em 1992. Juntamente com outro ex-jogador, o Leonardo, Raí resolveu colocar em prática uma ideia acalentada durante muitos anos. E no dia 10 de dezembro de 1998, os dois lançaram a Fundação “Gol de Letra”, um projeto voltado para a educação de crianças menos favorecidas, de até 14 anos.

               Como presidente da diretoria da Fundação, Raí colocou sua esposa Cristina. Este projeto visa principalmente para que estas crianças saiam das ruas e quem sabe num futuro, sejam craques assim como eles foram no passado. Realmente foi um gol de letra que eles marcaram. Parabéns Raí, por tudo que você fez como craque pelo nosso futebol, e agora continua nos mostrando que realmente você é craque em todos os sentidos, principalmente como ser humano.

1991   –  Em pé: Zetti, Ronaldo, Leonardo, Ricardo Rocha, Zé Teodoro e Antônio Carlos   –   Agachados: Muller, Raí, Macedo, Bernardo, Cafu e o roupeiro Jairo
Em pé: Adílson, Gilmar, Vizolli, Ricardo Rocha, Nelsinho e Zé Teodoro    –    Agachados: massagista Hélio Santos, Mário Tilico, Bobô, Ney Bala, Raí e Edivaldo
Em pé: Moracy Sant´Anna (preparador físico), Zetti, Ronaldão, Cafu, Sídnei, Nelsinho e Antônio Carlos    –     Agachados: Hélio Santos (massagista), Muller, Suélio, Raí, Elivélton, Macedo e Altair Ramos (preparador físico)
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