CASTOR DE ANDRADE: um cartola que virou lenda

                   Castor Gonçalves de Andrade e Silva, famoso bicheiro carioca e patrono do Bangu, nasceu no Rio de Janeiro em 12 de fevereiro de 1926 e faleceu na mesma cidade em 11 de abril de 1997. Teve grande participação na conquista do título carioca pelo quadro banguense, que derrotou o Flamengo por 3 a 0 na decisão. Também comandou a escola de samba “Mocidade Independente de Padre Miguel’ até sua morte. Teve prisão decretada em 1994 por conta de sua atuação como contraventor. Devido a problemas cardíacos, a Justiça lhe concedeu o direito de cumprir a pena em prisão domiciliar.

                   Em 1997, quando jogava cartas na casa de um amigo, sofreu um ataque cardíaco fulminante que o matou. Até hoje é lembrado pela Comunidade de Bangu, como um grande homem, um verdadeiro pai para todos, em especial aos jogadores do Bangu, para quem ele não media esforços para vê-los sempre bem. Uma lenda para o nosso futebol, assim como para toda a torcida do Bangu, que até hoje o idolatra.

JOGO DO BICHO

                   Seu pai, Eusébio de Andrade, já fizera fortuna explorando o jogo do bicho, e Castor teve uma infância despreocupada. Estudou no tradicional Colégio Pedro II, mas era um aluno relapso que matava as aulas para nadar na praia do Flamengo. Isso não o impediu de se formar em Direito. Castor herdou a banca de bicho de seu pai e a transformou num império. Era considerado um bicheiro romântico, que não permitia que outros negócios escusos, como o tráfico de drogas, fossem explorados juntamente com o jogo. Com isto ele era sempre respeitado dentro da Comunidade e até mesmo na esfera militar.

                  Castor transitou com prestígio e desembaraço pelo poder. No governo militar diversos generais lhe dedicaram atenção especial, a ponto de um secretário de Segurança do Rio de Janeiro daquela época, o general Waldir Alves Muniz, ter recebido instrução para “evitar problemas com Castor de Andrade”. E o ex-presidente João Figueiredo quebrou o cerimonial certa vez, afastando-se do grupo de autoridades que o cercava e indo pessoalmente cumprimentar o bicheiro.

PRISÃO E MORTE

               Castor esteve foragido, mas foi reconhecido e capturado em 26 de outubro de 1994, quando visitava o Salão do Automóvel, em São Paulo, disfarçado com um bigode postiço e uma peruca preta. Recolhido à carceragem da Polinter, fez ali uma verdadeira revolução. As celas se tornaram suítes de hotel de luxo, com ar-condicionado, lavadora de roupa, frigobar, televisão e videocassete. As festas na prisão eram constantes e movidas à champanhe e caviar. Além de comprar mordomias, o contraventor financiou a reforma das instalações e o conserto de carros de polícia.

               Por problemas cardíacos, obteve da Justiça o direito de cumprir sua pena em prisão domiciliar no seu luxuoso apartamento na Avenida Atlântica. Mas saía às ruas com freqüência, sem ser incomodado. No fim da tarde do dia 11 de abril de 1997, desrespeitando pela enésima vez a ordem judicial, jogava cartas na casa de um amigo, no Leblon, quando sofreu um ataque cardíaco fulminante, que o matou. Seu corpo foi velado na quadra da Mocidade Independente de Padre Miguel.  No carnaval de 1998, público e foliões presentes ao sambódromo fizeram um minuto de silêncio em sua homenagem. Pouco antes de morrer, o chefão da contravenção carioca dividiu seu espólio em duas partes: o filho Paulo de Andrade tomaria conta do jogo do bicho, enquanto o genro Fernando Ignácio ficaria com os caça-níqueis e o videopôquer.

FUTEBOL E CARNAVAL

                Castor foi presidente de honra e grande financiador do Bangu Atlético Clube, sendo o grande responsável pela conquista do título de Campeão Carioca de Futebol de 1966 e pelo vice-Campeonato Brasileiro de 1985. Foi também patrono do GRES Mocidade Independente de Padre Miguel, escola de samba à qual ajudou a conquistar os títulos dos carnavais de 1979, 1985, 1990, 1991 e 1996. Mas sua participação no Carnaval não se limitava a esta escola de samba. Durante décadas colocou dinheiro na organização dos desfiles, numa época em que os demais contraventores não ousavam aparecer.

UM HOMEM RELIGIOSO

                Acabado o jogo contra o Flamengo, em que o Bangu sagrara-se campeão carioca em 1966, a torcida do Bangu já deixava sambando as arquibancadas do Maracanã em direção à zona norte do Rio. No gramado, apenas Paulo Borges, cercado por repórteres de rádio, uma entrevista emendada na outra, saboreando a glória. De repente, os olhos do artilheiro focalizam a figura esguia que abre caminho entre os repórteres. Paulo Borges corta a frase pelo meio, à espera da ordem que não tarda. “Vamos logo”. diz Castor de Andrade. “Só falta você para a gente rezar e liberar o vestiário.”

                Desde que Castor voltou a comandar o clube, ganhe ou perca o Bangu, o ritual é sempre o mesmo: antes e depois dos jogos, estranhos são mantidos fora do vestiário e o time reza em torno de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. A imagem foi doada por seu pai, o fazendeiro Eusébio de Andrade e Silva, o “seu” Zizinho, patrono do clube. A voz delicada de Castor de Andrade entoava a prece e o vestiário vivia um clima místico. Aquele bando de homens feitos, de calção e chuteiras, formavam um círculo com as mãos dadas, incluindo o treinador. Todos agradecem o milagre do titulo conquistado e não há dúvida entre eles sobre quem seria o santo.

ODIADO E AMADO

                Certa vez, ao chegar no estádio onde o Bangu iria enfrentar o Brasil de Pelotas, a torcida adversária gritava “bicheiro, mafioso, assassino” e Castor não movia um músculo sequer. No caminho para a tribuna, todos lhe abriam passagem, reverentes. Ele parece satisfeito, mas achava normal ser tratado como um ser especial, uma verdadeira lenda. Conta que certa vez no Sul, ganhou um jogo de facas de um admirador. No Nordeste, um rapaz lhe trouxe para benzer o filho de três anos, batizado com seu nome.

                Depois da vitória sobre o Brasil de Pelotas, Castor saiu do estádio cada vez mais venerado. Não se ouviam os gritos de “mafioso” ou “bicheiro” do início da noite. À sua passagem, o caminho se abria respeitosamente, as pessoas queriam tocá-lo, pedir autógrafos. Ele atendia a todos, e piscou um olho e disse: “Viu só? Hoje, existem poucos dirigentes que tem esse carisma”. No dia seguinte, quando tomava seu café em seu luxuoso apartamento de frente para o mar, os vidros com as iniciais C. A. mastigando uma torrada, ele dava ordens para o mordomo Hércules, um moreno gordinho que fazia mais do que servir a mesa e supervisionar o trabalho dos outros empregados. “Entregue 2 milhões àquele senhor daquela casa de caridade”, ordenou Castor.

                Depois disso, retirou-se para trocar de roupa e voltou à sala com uma capa de gabardine azul-marinho. Lá embaixo, onde o esperavam três seguranças, enfiou o chapéu italiano, da marca Borsalino, um dos dez de sua coleção, e rumou para Bangu, a 50 km dali. Num Opala, ele e o motorista Haroldo. Em outro carro, atrás, os seguranças.

FATOS PITORESCOS

               O lateral-esquerdo Marco Antônio Tri-Campeão mundial  em 1970 no final de carreira jogava no Bangu. Numa manhã ao entrar no campo, Castor viu o jogador sentado junto à linha lateral. Preocupado, perguntou: “O que houve, Marco?” Meio sem jeito, Marco Antônio respondeu: “Estou com uma baita dor na perna, doutor”. Castor não conversou: sacou da mala 007 seu 38 cromado e deu um tiro para o alto. Marco Antônio saiu correndo e foi se juntar a seus companheiros que faziam o aquecimento.

               Outra delas foi em um jogo contra o América, em que o Bangu ganhava por 2 a 1, e o árbitro marcou um pênalti para o América e Castor entrou com a arma na mão, e o goleiro Ubirajara pediu a Cabralzinho segurar o homem. Bateram o pênalti e fizeram o empate, minutos depois um jogador do Bangu caiu na área adversária e o árbitro de imediato marcou pênalti. Quando o juiz olhou para Castor na beira do gramado, ele estava guardando o revolver. E assim o Bangu ganhou por 3 a 2.

               E para fechar, certa vez o Bangu venceu uma partida e Castor para premiar os jogadores, levou-os até a melhor boate da cidade e foi logo falando para a dona: Por favor, peça para todos os homens que estão aqui se retirarem e feche a casa. Quero diversão da boa para os meus meninos. E eles ficaram lá até o sol raiar.  O Castor foi o maior mão-aberta do Rio de Janeiro. Se um jogador estava precisando de dinheiro emprestado, era só chegar nele. E o engraçado é que ele ficava louco de raiva quando o cara ia pagar: “Por acaso eu lhe pedi para devolver?”

               Castor de Andrade, uma lenda acima do bem ou do mal. Um homem arquimilionário, declaradamente fora da lei, na medida em que sua fortuna foi construída em torno do jogo de azar, que ele lamentava sinceramente não ser legalizado. Um homem que se define assim: “Tenho amigos de direita, de esquerda e de centro. Eu sempre estou com o governo, não tenho culpa se ele muda de lado”.  Enfim, Castor de Andrade, lutador pelo sucesso do Bangu, ainda hoje é querido pelos seus amigos e até pelos que não tiveram a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente, porque Castor, todos de Bangu conhecem, os elogios e os agradecimentos percorrem o bairro, e ainda hoje o “Bangu de Castor” agradece; “Obrigado ao nosso melhor amigo e salvador”.

Bangu de 1951 – Presidente Castor de Andrade    –    Da esquerda para a direita: Osvaldo, Rafanelo, Mirim, Vermelho, Ruy, Alaine, Mendonça, Zizinho, M. Bueiro, Djalma e Nivio
Castor de Andrade ao centro – O eterno presidente do Bangu
Castor de Andrade sempre elegante e seus seguranças
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