PÉPE: o canhão da Vila

 

                  José Macia, o nosso querido Pépe, nasceu dia 25 de fevereiro de 1935 na cidade de Santos, litoral paulista. Pépe é o segundo maior artilheiro do Santos F.C., acima dele somente Pelé. E ele diz isto com muito orgulho, pois vestiu a camisa santista 750 vezes (Pelé 1.116) e marcou 405 gols (Pelé 1.281).

                 Seus pais, José e Clotilde eram espanhóis. Vieram para o Brasil no início do século XX. Aqui formaram sua família. Tiveram três filhos; Silvio em 1931, Mário em 1932 e José, o Pepe em 1935. Ambos foram criados sem muito luxo, sendo o futebol a principal diversão. No entanto, seu pai sempre tentou tirar o esporte da cabeça dos filhos, por entender que esta era uma ocupação para vagabundos. Como ele era dono de uma mercearia em São Vicente, seu desejo sempre foi ver os filhos seguindo seu caminho e assumindo seus negócios.

                Em 1938, uma tragédia. Silvio o irmão mais velho de Pepe, brincava no parapeito da janela, quando perdeu o equilíbrio e caiu, batendo a cabeça no chão. O garoto foi internado com fraturas nas costelas e com esmagamento do baço, o que causou hemorragia interna e, conseqüentemente sua morte.  Já nesta época, Pepe e seu irmão Mário, jogavam nos times da vizinhança, em São Vicente, onde Pepe era o meia esquerda do Continental F. C.

              Artilheiro do time, Pepe era sempre procurado para disputar todas as peladas da região. Sua importância para o Continental crescia cada vez mais. E com isso, crescia também seu amor pelo futebol.  Era cada vez mais difícil para seu pai segurar o futuro canhão da vila.  Pepe andava sempre com um boné na cabeça, inclusive quando estava em campo. Seu grande ídolo no futebol, era o ponta esquerda Canhotinho, que jogava no futebol pernambucano.

              Certo dia resolveu ir treinar no Santos F.C., onde começou como meia esquerda. Em pouco tempo já era ao lado do centroavante Del Vecchio, o grande destaque do time.  O time das categorias de base do Santos era comandado pelo treinador Luiz Alonso Perez, o Lula, que em 1954 assumiu a equipe principal e colocou Pepe na ponta esquerda.  Nessa época, o Santos não tinha muita expressão no futebol paulista, só havia sido campeão no estado em 1935.  Pepe estreou como profissional em um jogo do Torneio Rio-São Paulo, contra o Fluminense, no Pacaembu. Entrou nos 20 minutos finais, mas não evitou a derrota por 2 a 1. 

             O titular da ponta esquerda santista era Tite, que em 1955, estava discutindo a renovação de seu contrato e não viajou com a delegação para uma excursão no Peru. Foi a primeira viagem internacional de Pepe que foi como titular do alvinegro praiano.  Na primeira partida fora do Brasil, Pepe fez um gol na vitória do Santos por 4 a 2 sobre o Alianza.  Além disso, ainda foi eleito o melhor jogador em campo.  No Peru, o Santos disputou nove jogos e venceu oito. Pepe fez três gols durante a excursão. No mesmo ano, o peixe chegou a final do campeonato paulista. O time do litoral precisava vencer o Taubaté para levantar a taça e fez 2 a 1 fora de casa. O segundo gol foi marcado por Pepe.  Este era o primeiro de muitos títulos do Santos com a colaboração do canhão da vila, pois ainda hoje, Pepe é o maior campeão paulista de todos os tempos. Venceu 11 edições como jogador e uma como treinador em 1986, dirigindo a Internacional de Limeira.

              Pepe jogou mais de 15 anos como profissional, e nunca defendeu outra equipe que não fosse o Santos. Definitivamente ele é mais do que um dos maiores jogadores da história do peixe. Pepe é, antes de qualquer coisa, um dos maiores apaixonados pelo Santos F.C.  Além disso, Pepe ganhou todos os títulos possíveis para um jogador profissional de sua época.  Pepe costuma brincar; “Sou o maior jogador que já vestiu a camisa do Santos, pois o crioulo não conta. Ele não era desse planeta”. Marcaram mais gols que Pepe, somente Pelé, Zico e Roberto Dinamite.  Alem disso, outra virtude de Pepe, nunca foi expulso de campo.

              Quando Pelé chegou ao Santos, o time já era bicampeão paulista. Havia conquistado os campeonatos de 1955 e 1956. O grande destaque das duas campanhas foi o ponta esquerda Pepe.  O Santos teve o maior ataque de toda história do futebol mundial; Dorval, Mengalvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Uma linha ofensiva que dificilmente será esquecida, não só pelo torcedor do Santos, mas por todos os torcedores que admiram o futebol arte.  Era um dos ataques mais poderosos, apesar disso, Pepe garante que um dos segredos daquele time era a união.  “Tínhamos muito entrosamento, isso facilitava. Nem sempre os 11 jogavam bem, mas um sempre procurava ajudar o outro e correr por dois”.  Talvez por isso, o Santos de Pepe venceu 50 campeonatos em menos de 20 anos. Esta é uma das maiores provas de seu sucesso.

SELEÇÃO BRASILEIRA

              Infelizmente, Pepe não teve muita sorte na seleção brasileira. Com a camisa canarinho, disputou 34 partidas oficiais e marcou 16 gols. Uma média de 0,47 gols por jogo. Seu desempenho foi bastante elogiado.  Foi convocado para duas Copas do Mundo, a de 1958 e a de 1962. Apesar disso, se contundiu e não pode atuar em nenhuma delas.  Esta foi, segundo o próprio Pepe, a maior decepção de sua carreira como jogador.

COMO TREINADOR

              Depois que encerrou a carreira de jogador em 1969, resolveu seguir a carreira de treinador. E a coleção de títulos de Pepe não parou, ele passou a conquistar títulos do banco de reservas, como o Brasileiro de 86 com o São Paulo F.C. e também com times de menor expressão, como o Campeonato Paulista do mesmo ano com a Internacional de Limeira.

Ainda hoje, Pepe tem um amor muito grande pelo Santos F.C.  Mesmo quando está longe da Vila Belmiro, ele garante que o amor permanece em seu coração.  “Tenho um carinho muito grande pelo Santos. É um time muito especial. Ainda hoje, torço muito pelo sucesso deles. Ainda mais porque tenho muitos amigos lá dentro”.  Pepe revela ainda que em muitas oportunidades se sente como um jogador atual. “Assisto os jogos do Santos e me sinto dentro de campo. É como se a camisa 11 ainda fosse minha.  Me vejo participando de todas as jogadas, cruzando bolas para o Pelé”. 

              Muitas coisas do Pepe daquela época ainda permanecem. O ex-jogador continua mão fechada preserva um excelente bom humor e ainda é um péssimo motorista.  A maior diferença é a experiência adquirida com muito trabalho e muitos títulos.  Pepe ganhou 92 campeonatos como jogador e treinador.  Humildemente ele diz; “Acho que fiz e estou fazendo um pouquinho para escrever meu nome na história do esporte”.  Mas com toda certeza querido Pepe, eu posso lhe dizer, seu nome já está escrito, e diga-se de passagem, em letras garrafais.

VIDA

              José Macia, o Pepe, casou-se com Lélia Serrano Macia no dia 17 de julho de 1964 e, desta união tiveram quatro filhos; Alexandre, que é chamado de Pepinho. Maria Clotilde, que já foi até manequim internacional. Gisleine, que largou o jornalismo para associar-se a irmã num projeto e, o caçula Rafael que é publicitário.  “Todos estão bem encaminhados. Não sou rico, mas não posso reclamar de nada”, diz. Pepe conta que, nem mesmo no auge, mudou o comportamento simples e discreto. Nunca permitiu que a fama virasse sua cabeça. “Já vi muitos jogadores que se mascararam e perderam tudo aquilo que conquistaram. Mais tarde, caíram no esquecimento. É duro, mas é a realidade.

             No meu tempo, a gente não assinava contratos milionários como hoje. Fui ganhar alguma coisa como treinador. Dia 7 de março de 1958 por exemplo. Nós vencemos o Palmeiras no Pacaembu por 7 a 6, num jogo memorável. Eu já tinha um nome respeitável, já havia sido campeão paulista por duas vezes, no entanto, na volta à Santos, o nosso ônibus nos deixou na Vila Belmiro, depois tive que ficar de madrugada, mais de uma hora no ponto de ônibus para pegar um circular que me levasse até minha casa, pois não tinha dinheiro para comprar um automóvel. Darei outro exemplo: Pelé só começou a ganhar dinheiro no Cosmos de Nova York”, recorda Pepe, que aconselha aos novos craques a estudar e a se preparar para o futuro.

TÍTULOS COMO JOGADOR

Campeonato Paulista: 55, 56, 58, 60, 61, 62, 64, 65, 67, 68 e 69

Torneio Rio-São Paulo: 59, 63, 64 e 66

Taça Brasil: 61, 62, 63, 64 e 65

Torneio Roberto Gomes Pedrosa: 1968

Recopa Sul-Americana: 1968

Recopa Mundial: 1968

Taça Libertadores da América: 1962   e   1963 

Campeonato Mundial Interclubes: 1962   e   1963

Em pé: Zito, Urubatão, Dalmo, Formiga, Getúlio e Laércio    –    Agachados: Dorval, Mário, Ney Blanco, Pelé e Pépe
Em pé: Dalmo, Zito, Urubatão, Formiga, Getúlio e Laércio    –   Agachados: Dorval, Jair Rosa Pinto, Coutinho, Pelé e Pépe
Em pé: Zito, Olavo, Formiga, Getúlio, Zé Carlos e Gilmar    –   Agachados: Julinho, Pelé, Servilio, Chinesinho e Pépe
Em pé: Ivan, Ramiro, Formiga, Manga, Hélvio e Urubatão    –    Agachados: Alfredinho, Del Vecchio, Álvaro, Vasconcelos e Pépe

Em pé: Lima, Zito, Dias, Rildo, Eduardo e Gilmar   –   Agachados: Dorval, Mengalvio, Coutinho, Pelé e Pépe
Em pé: Ramiro, Airton, Barbosinha, Geraldo Scotto, Dalmo e Zito    –   Agachados: Dorval, Jair Rosa Pinto, Pelé, Pagão e Pépe
Em pé: Haroldo, Dalmo, Lima, Ismael, Gilmar e Mauro   –   Agachados: Dorval, Mengalvio, Coutinho, Almir e Pépe
Em pé: Lima, Zito, Dalmo, Calvet, Gilmar e Mauro    –    Agachados: Dorval, Mengalvio, Coutinho, Pelé e Pépe

 

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