SANTOS 3×1 FLUMINENSE – Dia 5 de Março de 1961

                    Segundo consta, a expressão ‘gol de placa’ originou-se após uma partida disputada entre Santos e Fluminense, no Maracanã, em 5 de março de 1961, vencida pelos santitas por 3 x 1. No jogo, Pelé marcou um gol tão fantástico que Joelmir Betting, então jornalista esportivo, solicitou ao jornal “O Esporte” que encomendasse uma placa para ser fixada no saguão do estádio, em homenagem ao feito. E o jornalista foi atendido. A partir de então, a expressão entrou para o vocabulário futebolístico como sinônimo de gol bonito. Durante toda sua carreira, Pelé marcou 1.281 gols. Muitos foram importantes, outros nem tanto, muitos foram bonitos, outros nem tanto. Porem teve um gol que ele marcou que ficou na história, pois de tão bonito que foi, recebeu uma placa, a qual ainda hoje se encontra no saguão de entrada do estádio do Maracanã. E a placa diz: “Neste campo no dia 5-3-1961 PELÉ marcou o tento mais bonito da história do Maracanã”.

                   Por essas e outras é que a construção de um mito se fez nas vezes em que Pelé batia um lateral, nas vezes em que saudava a torcida, que confundia defesas e até mesmo saía de campo. Como se vê, o prazer de Pelé era fazer gols, o que acabou significando que fizesse história. No ano de 1961 por exemplo, Pelé marcou 111 gols em 75 partidas disputadas, sendo que 47 gols foram somente no Campeonato Paulista em que o Santos sagrou-se campeão.

                  Com relação ao jogo, podemos afirmar que, torna-se cada vez mais difícil encontrar adjetivos para traduzir o que jogava a equipe do Santos no início da década de 60. No mínimo, teríamos que repetir o chavão, frisando que era uma verdadeira máquina de jogar futebol. Máquina que se encontrava bem ajustada, engrenada e azeitada, peças perfeitas e que se ajustavam de forma incrível. Começaríamos por Pelé e Coutinho que, no futebol, repetem os fechos das histórias românticas: nasceram um para o outro. Quando um partia, o outro sabia o que fazer, como se tivessem estudado as jogadas dentro da pensão onde moravam, em Santos. Eles se juntavam aos demais jogadores que formavam um conjunto harmônico de futebol bonito, rápido e eficiente.

                 O Fluminense, antes de tudo, teve um comportamento técnico, disciplinar e exemplar. Jogou bem, mas o Santos estava numa forma esplendorosa. Era uma equipe difícil de ser vencida. O goleiro Castilho naquele dia realizou milagres e se tornou uma das grandes figuras da partida.

                 Para este jogo o técnico Luiz Alonso Peres, o popular Lula, mandou a campo os seguintes jogadores; Laércio, Fiotti, Mauro Ramos de Oliveira, Calvet e Dalmo; Zito e Mengalvio (Nei); Dorval, Coutinho, Pelé e Pepe (Sormani). Do outro lado o técnico Zezé Moreira escalou a seguinte equipe;  Castilho, Jair Marinho, Pinheiro, Clovis (Paulo) e Altair; Edmilson e Paulinho; Telê Santana (Augusto), Valdo, Jaburu e Escurinho. O árbitro da partida foi Olten Aires de Abreu. A arrecadação daquele dia foi de R$ 2.685.317,00.

O GOL DE PLACA

                 Eram decorridos 40 minutos do primeiro tempo, o Santos vencia por 1 a 0 gol de Pelé. Depois de uma defesa do goleiro santista, a bola sobrou para Dalmo que passou a Pelé na entrada de sua área. Ele controlou a bola e partiu para o gol do adversário. Numa velocidade extraordinária passou pela linha média e entrou na intermediária do Fluminense. Seus companheiros abriram para receber. Os deslocamentos de Coutinho, Dorval e Pepe confundiram a defesa adversária. Vejam os depoimentos de alguns jogadores do Fluminense que participaram da jogada. O zagueiro Pinheiro disse “Quando a bola veio para o “crioulo” a defesa naturalmente se postou para identificar onde seria seu passe. Porém, Pelé partiu em linha reta, numa velocidade extraordinária.

                Passou pelo meio-campo e chegou em nossa intermediária. Eu estava na sobra e quando dei o combate, pensando que ele iria passar a bola, ele driblou três jogadores ao mesmo tempo, com sua ginga de corpo. Ficamos preocupados ainda, onde ele daria a bola. Mas ele continuou e entrou na área deslocando o goleiro Castilho. Não foi uma jogada de dribles seguidos. O que houve foi uma velocidade em linha reta e quando o Pelé partia para o gol era terrível. Foi um gol bonito sem dúvida”.

               Outro jogador que participou da jogada foi o lateral esquerdo Altair, que disse; “Foi um lance muito rápido. Estávamos no ataque e quando olhamos Pelé recebeu no meio de campo e partiu em velocidade, pegando todo mundo de surpresa. Como era um contra-ataque a defesa estava mal postada. Eu estava voltando e fiquei preocupado com meu lado. Mas o negão era f… Ganhou de todos nós na corrida e fez o gol. Quando chegamos juntos, ele deu um corte, e aí não dava mais para segurá-lo”.

              Jair Marinho que foi o lateral direito do Fluminense naquela partida disse; “Eu voltei preocupado com o Pepe. Já era terrível marcar o Pepe. Quando vi o Pelé partindo para cima de nossa defesa, vi que a coisa tava preta. Foi um lance muito rápido. Se não me engano uma reposição de bola e ele recebeu no campo dele. Partiu em linha reta. É aquela coisa de matar o jogo. Tem de parar quando há este tipo de lance, sem machucar o adversário. Quando a defesa é pega do jeito que foi, a chance de sair o gol do adversário é muito grande, sendo mais Pelé com a bola. Fiquei preocupado da bola chegar no Pepe. Ele partiu, passou pelo meio de campo, saiu Pinheiro e aí Inês já era morta. Barbante”.

               Coutinho que fazia dupla de área com Pelé naquele dia falou; “O primeiro a ser driblado foi Valdo.  Depois veio Edmílson, que também não conseguiu tomar a bola. O próximo era Clóvis, que foi superado pela velocidade incomparável de Pelé. A quarta vítima foi Pinheiro. Pelé jogou para um lado e cortou para o outro, deixando o zagueiro desabado no chão. O quinto a tentar parar a jogada foi Jair Marinho, que também foi superado. Agora, só restava o goleiro Castilho entre Pelé e o gol. Mas não foi nenhum problema.  O Rei esperou o goleiro sair e tocou por baixo. A partir daí, a mágica tomou conta de todo o estádio. Era o gol mais bonito que alguém já havia marcado no “Maior do Mundo”.

               Até mesmo o árbitro da partida, Olten Aires de Abreu comentou sobre o gol; “Numa caminhada tortuosa e torturada, que durou mais de um minuto e meio de posse de bola, Pelé driblou sete adversários e acaba fulminando com um drible da vaca no goleiro Castilho e faz o gol. Os 130 mil que vaiavam passaram a bater palmas. As duas torcidas, em reverência, aplaudiram de pé por seis minutos. Eu não hesitei, Quando me dei conta, o estádio inteiro estava aplaudindo. O que eu ia fazer? Aplaudi também e quando o Pelé se aproximou, o cumprimentei. Foi uma honra!”.

               Atravessando todo o gramado sob a vigilância dos adversários. Já na área tricolor, Pelé driblou Pinheiro que estava ao seu encalço, se livrou do desesperado Jair Marinho e, diante de Castilho, tocou fora do alcance do goleiro que se atirou todo mas seu esforço foi inútil. Alguns mais exaltados, afirmavam que aquele gol teria que valeu por dois. De fato, o gol foi tão espetacular que arrancou aplausos de todos os torcedores que, de pé, esquecendo-se de suas paixões clubísticas e embora empunhando bandeiras tricolores, proporcionaram uma cena jamais vista no Maracanã. Foram quase dois minutos de palmas, contados a relógio, enquanto Pelé desaparecia debaixo dos abraços dos companheiros.

              O jogo terminou com a vitória santista por 3 a 1, gols. Para o Peixe marcaram, Pelé (2) e Pepe. Para o Tricolor Carioca Jaburu marcou o único tento. Fascinado, como todos os torcedores, jornalistas e radialistas que estavam no estádio, o jovem jornalista Joelmir Beting vibrou com o gol, ao lado do experiente cronista carioca Mário Filho – que hoje dá nome ao Maracanã. “Esse gol merece placa”, foi o comentário. Logo após o jogo Joelmir Beting voltou para São Paulo e tomou a iniciativa de mandar fazer, por conta própria, uma placa para imortalizar aquela obra prima. Com bom humor, costumava dizer que é o autor da “placa do gol” – o que é a mais cristalina das verdades.

               O jornalista Joelmir Beting, em início de carreira, trabalhava no tablóide paulistano ‘O Esporte’ e sugeriu que fosse feita uma placa de bronze, como maneira de homenagear o Rei do Futebol e aquele grande momento do futebol. Foi além: pagou a placa, que depois foi fixada na entrada principal do estádio. Os seus dizeres: “Neste estádio Pelé marcou no dia 5 de março de 1961 o gol mais bonito de sua carreira, dando origem à expressão ‘Gol de Placa’”.

               Palmeirense roxo, Joelmir Beting sempre brincou: “Nunca fiz um gol de placa, mas fiz a placa do gol. Eu não sou o autor da expressão ‘gol de placa’ no futebol, eu sou o autor da placa do gol e o Pelé o autor do gol que ganhou a placa. Eu que tive a ideia, eu que fiz a placa e paguei com o dinheiro do meu bolso e a instalei. A partir daquele dia, todo o pessoal dos jornais de rádio começou a utilizar a expressão e hoje é do vocabulário comum”.

               A placa foi descerrada uma semana depois no estádio, imortalizando o lance, o Rei e sua relação com o Maracanã. Desde então, todos os gols marcados com rara beleza são intitulados “gols de placa”. Em 2001, quarenta anos após o jogo, Pelé retribuiu a homenagem da mesma forma: deu ao jornalista uma carinhosa placa de agradecimento. Na placa, há os dizeres: Gratidão eterna ao Joelmir Beting. Gratidão eterna do autor do gol de placa ao autor da placa do gol.

               As imagens gravadas da jogada do gol foram perdidas. Assim, para passa-la no filme “Pelé Eterno”, o cineasta Aníbal Massaini Júnior teve de reproduzir a jogada no Maracanã. O então jovem Toró, fez no papel do Rei. O golaço virou música e chegou ao dicionário. Jorge Ben cantou, em Fio Maravilha: “foi um gol de anjo, um verdadeiro gol de placa”. E Aurélio Buarque de Holanda registra: “Gol de Placa: conceito criado a partir de um gol espetacular de Pelé (Edson Arantes do Nascimento), que lhe rendeu uma placa honorária”.

SANTOS FUTEBOL CLUBE – 1961      –    Em pé: Lima, Haroldo, Ismael, Geraldino, Gilmar e Mauro      –     Agachados: Dorval, Mengalvio, Coutinho, Pelé e Pepe
FLUMINENSE FUTEBOL CLUBE – 1961    –    Em pé: Clóvis, Jair Marinho, Edmilson, Altair, Castilho e Pinheiro     –    Agachados: Telê Santana, Paulinho, Humberto Tozzi, Jaburu e Hilton Oliveira

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