ELISA: torcedora símbolo do Corinthians

                   Elisa Alves do Nascimento nasceu em 1910, na cidade de Tietê-SP. Doméstica e cozinheira muito solicitada, era figura carimbada nas arquibancadas de todos os estádios onde o Corinthians jogava. Ganhou notoriedade no período entre 1954 e 1977, quando o alvinegro ficou sem conquistar um título se quer. Costumava dizer que não conseguia imaginar a existência de outra torcida como a do Corinthians. Amiga de Antonio Pereira, um dos fundadores do clube, tinha por norma pessoal apenas apoiar o time. Não se tem notícia de ataques verbais contra algum atleta que tenha vestido a camisa preta e branca.

                   Por tudo isso, seu nome está imortalizado em uma placa no Parque São Jorge. Sua imagem confundia-se com a do próprio Corinthians, a ponto de ter sido convidada por Milton Amaral para fazer parte do elenco de “O Corintiano”, filme rodado em 1966 em que o ator cômico Mazzaropi vive o papel de um barbeiro fanático pelo Timão que entra em conflito com os filhos e vizinhos palmeirenses.

                   Elisa nasceu junto com o nascimento do Corinthians, 1910. De família pobre, começou a trabalhar cedo. Como era difícil arrumar emprego na capital, com suas mãos afinadíssimas para a culinária, Elisa tornou-se cozinheira conceituada e muito procurada. Passou a se interessar por futebol e se envolveu no meio operário, que a levou a se tornar amiga de um dos fundadores do Corinthians. Elisa começou ir a todos os jogos e, por isso, passou a ser notada e admirada pela torcida e por dirigentes. Sua presença era sempre certa.

                   Elisa era uma torcedora fanática. Costumava acompanhar de perto todas as partidas do Corinthians, principalmente na época do jejum de título. Em uma ocasião, Elisa sofreu com a violência da torcida adversária. Foi em Piracicaba, quando teve sua bandeira do Corinthians queimada por torcedores do XV de Novembro. “Foi uma cena muito triste. Não só os corintianos, mas todos os esportistas ficaram decepcionados com a torcida do XV naquele dia”, revela o aposentado Waldemar Micheletti, que testemunhou a violência dos torcedores do Nhô Quin contra Elisa no final dos anos 50.

                  “Naquele tempo, eram poucas as mulheres que iam ao estádio. Eu era uma das únicas que sempre estava nos jogos. Eu sou realizada como mulher, e em relação ao Corinthians. Sempre amei o futebol e o meu clube. Os homens naquela época talvez não gostassem de mulher junto, mas sempre me respeitaram muito”, dizia Elisa.

A CARA DA FIEL

                  Negra, pobre e torcedora de futebol. Ninguém encarnou mais a alma corintiana do que uma mulher: Elisa Alves do Nascimento. “Minha alma é preta e branca. Sou toda Corinthians por dentro e por fora”, dizia. Sócia do clube desde 1941, sua figura era marca registrada nas arquibancadas, a ponto de ganhar uma permanente da Federação Paulista de Futebol. Considerada torcedora símbolo do time, chegou a ver o Corinthians quebrar o tabu de 22 anos com o título paulista de 1977. E ainda torceria mais uma década, até ser vitimada por um enfarte em agosto de 1987. Em Tietê, onde nasceu em 1910, mesmo ano da fundação do Corinthians, Elisa já torcia: na época, pelo Comercial, time local.

                  Deixou sua cidade ainda criança, aos 8 anos, para morar com uma família na Rua Vergueiro, em São Paulo. Tornou-se amiga de Antônio Pereira, um dos fundadores do Corinthians, time que adotou e no qual se tornaria uma lenda, sem nunca pertencer a nenhuma torcida uniformizada. Boa cozinheira, ganhou uma pequena casa do patrão para quem trabalhou durante 37 anos. Entre o trabalho e o futebol, casou-se, enviuvou. Teve dois filhos e cinco netos. Todos corintianos é claro.

                  Elisa Alves do Nascimento carregava o Corinthians não apenas em sua face serena, despojada e amorosa, com seus óculos que lhe escondiam as lágrimas quando falava de Corinthians. Elisa, a torcedora símbolo do Sport Club Corinthians Paulista carregava, com o amor de uma Mãe Preta, cozinheira rara, joia rara de ser humano, na alma, o próprio Corinthians. Costumava dizer que não conseguia imaginar a existência de outra torcida como a do Corinthians. Somos superiores em qualidade. Temos mais amor.

                  O Corinthians está logo depois de Deus, né?”, dizia ela em 1987, pouco antes de morrer. Tinha por norma pessoal apenas apoiar o time. Por tudo isso, seu nome está imortalizado em uma placa no Parque São Jorge. “Sou toda Corinthians, por dentro e por fora”, é a frase que celebra a placa que o Corinthians guarda em seus jardins, junto ao busto de Neco, e ao monumento à Torcida. Homenagem mais que justa; necessária.  Valente, doce, alegre, serena, corajosa. Era amiga de todos.

                 Nasceu no mesmo ano em que nascia o Corinthians. E para continuar as coincidências, foi uma criança peralta. Fugia pela janela, à revelia da mãe, para assistir jogo de futebol, nas várzeas da cidade.”Peralta”, como o Corinthians foi, em sua infância, desafiando os grandes clubes. De família pobre, começou a trabalhar cedo. Mudou-se para a capital paulista em 1918. Veio a conhecer o Corinthians em 1935, através de Antonio Pereira, um pintor de paredes, que se inseriu no movimento operário da época, e foi por aí que conheceu Elisa. Apenas em 1941 se tornou sócia, a muito custo financeiro mesmo, e com as próprias pernas. Antonio Pereira a chamava de “menina”.

                 Ela cresceu. Ia a todos os jogos e passou a ser notada, e rapidamente admirada pela torcida e por dirigentes. E pela torcida adversária, também. Sua presença era sempre certa. Viu Teleco, Servílio, Carlito, Belangero, Idário, Luizinho, Cláudio, Carbone, Baltazar, só para citarmos alguns e, com o perdão da omissão de tantos. É que se fôssemos citar todos os jogadores que receberam um beijo de Elisa, beijo de mãe, assim como a Fiel Torcida é mãe do Corinthians, precisaríamos de um livro só falando disso…

                 O neto de Elisa foi batizado pelo goleiro Gilmar dos Santos Neves, que para ela era mais que ‘menino’, era filho. Tinha uma bandeira branca, com o símbolo do Corinthians lavrado em lantejoulas e fios de seda. “Jamais ganhei uma camisa”. Não, não era uma queixa, apenas uma constatação. Elisa nunca precisou de camisa, e talvez por isso se manteve apenas com sua bandeira branca de lantejoulas, durante muito tempo. Trazia o Corinthians onde todos devemos trazer; no coração e na alma. E, claro, na cara. “Quem não viveu, nem imagina a emoção de ver o Corinthians campeão de 1977. Estava insuportável aguentar a gozação. Lavamos a alma. Nunca senti emoção igual. E a invasão no Rio em 1976 foi maravilhosa. Não se repetirá nunca mais” relembra Elisa.

                  Elisa entrava em campo, abençoava o Timão, e ia para seu lugar no estádio, para abençoar a Fiel. Como uma Mãe Preta. Faleceu aos 77 anos, no dia 1º de agosto de 1987, vítima de enfarte, poucas horas antes do Corinthians entrar em campo para enfrentar o Santo André, no Morumbi, pelo Campeonato Paulista. O jogo terminou empatado por 0 a 0, parecia que até o placar estava triste naquele dia. Quando a imaginamos ali, no Pacaembu já vazio, depois de um jogo do Corinthians, e a vemos naqueles antigos bancos de madeira que preenchiam metade do Pacaembu, sabemos que a Fiel tem mais que anjos da guarda. “Quando eu morrer, só quero uma coisa: que a bandeira do Clube cubra meu caixão. Minha alma pertence ao Corinthians. Eu ia ao Pacaembu quando ainda nem existia o Tobogã. Era muito gostoso. Sempre segui o Corinthians onde ele estivesse. No Pacaembu, no Morumbi e fora da cidade também”, dizia Elisa.

                 Elisa é do tempo que as torcidas adversárias assistiam aos jogos juntas. “Nossas bandeiras? Levávamos pedaços de pano preto e branco pregados em um cabo de vassoura”, diverte-se. Sobre as mulheres na arquibancada, Elisa acha que tudo mudou bastante. “Naquele tempo eram poucas as mulheres que iam ao estádio. Eu era uma das únicas que sempre estava nos jogos, porque ia com meu marido. Eu sou realizada como mulher e em relação ao Corinthians sempre amei o futebol e o meu clube”, garante. “Os homens naquela época talvez não gostassem de mulher junto, mas sempre me respeitaram muito. Eles conversavam entre si.

                 Depois que o meu marido faleceu, eu continuei indo ver o Corinthians jogar”. Passou a frequentar os jogos, era sempre presença certa, e despertou admiração por dedicar sua vida ao futebol, uma lição de dignidade também da Fiel Torcida, que sempre soube aceitar e conviver com o novo e o diferente, desde que exalasse amor alvinegro. No Parque São Jorge, existe uma placa em homenagem a ela, por sua dedicação, fé e lição de vida. Um marco na história do Corinthians e de toda a torcida. Uma mulher que, lá de cima, na arquibancada, também chorou, também sorriu e também lutou pelo Corinthians.

                 E em nome da saudosa Elisa que foi símbolo da torcida corintiana, queremos homenagear todas as mulheres que são apaixonadas pelo futebol. Elisa Alves do Nascimento, corintiana de alma e coração, certamente está lá no céu agitando sua bandeira preta e branca. Por toda sua dedicação e carinho ao Corinthians que ela tanto amou, só nos resta dizer; Descanse em paz querida Elisa.

Elisa ao lado do seu ídolo Sócrates
Elisa ao lado do seu carrasco Pelé
Elisa nas arquibancadas do Pacaembu
Elisa ao lado de Mazzaropi durante a gravação do filme “O Corintiano”
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