ENÉAS: um craque que nos deixou prematuramente

               Enéas Camargo nasceu dia 18 de março de 1954, na capital paulista. O nome dele era Enéas, e jogava demais. Para alguns, o meia-atacante era um jogador que às vezes “dormia” em campo. Mas todos sabiam que Enéas era talento. Era ótimo finalizador e capaz de jogadas geniais, que muitas vezes decidiam uma partida. A carreira de Enéas começou nas quadras, em 1963, quando tinha apenas nove anos e jogava na categoria dente-de-leite da Portuguesa. Principal característica do futsal, o drible curto foi levado pelo jogador para o campo. Depois foi jogar no infantil da Portuguesa, mas desistiu e ficou um ano afastado, exercendo a profissão de office-boy.

PORTUGUESA DE DESPORTOS

               Voltou pela insistência do técnico dos juvenis Nena, e lá profissionalizou-se em 1972, lançado pelo técnico Cilinho.  Seu  início  foi  irregular,  e  ele  chegou  a entrar  em uma possível lista de dispensas do clube, mas, rápido e driblador, passou a ser um dos melhores jogadores do time durante o Campeonato Paulista de 1973, quando o técnico Otto Glória resolveu colocá-lo na posição de Basílio, que foi deslocado para o meio-campo. “Quando vi Enéas treinando na Portuguesa, eu tive quase certeza de que era um craque”, explicou Glória. ” Depois da vitória por 2 a 0 sobre o Corinthians no dia 15 de agosto de 1973, gols de Enéas e Wilsinho, ele infernizou a defesa adversária e seu nome passou a ser cogitado para a seleção brasileira”. Foi campeão paulista naquele ano, na final em que o árbitro Armando Marques errou a contagem de pênaltis, o que acabou fazendo com que o título fosse dividido entre Lusa e Santos.

                Foi campeão também da Taça São Paulo e em 1971, conquistou o Torneio de Cannes, na França. Em 5 de dezembro de 1971, foi convocado para o Pré-olímpico da Colômbia, no qual o Brasil sagrou-se campeão. Dia 11 de dezembro de 1971, Enéas marcou o gol na vitória de 1×0 sobre o Peru. Em 1972, quando mal tinha se profissionalizado na Portuguesa, formou o ataque da seleção brasileira ao lado de Zico, na conquista do Pré-olímpico da Argentina. Era a primeira vez que o jogador vestia a camisa canarinho. Sua primeira convocação para a Seleção dar-se-ia em 18 de fevereiro de 1974. Ele estreou aos 18 minutos do segundo tempo na partida contra o México, em 31 de março, ao substituir Mirandinha.

                 Não se destacou e não teve outras chances de conseguir uma vaga no grupo que foi para a Copa do Mundo de 1974. Voltaria a ser convocado em 1976, para o jogo contra o Paraguai pela Taça Atlântico. Foi titular e marcou o único gol do Brasil, aos 31 minutos do primeiro tempo, no empate de 1 a 1. Mas sua atuação não agradou, sendo substituído por Palhinha. Foi convocado para o jogo seguinte, contra o Uruguai, que começou como titular, mas foi substituído logo no começo do segundo tempo por Roberto Dinamite. Nunca mais foi convocado. Ao todo foram sete convocações e marcou apenas dois gols.

                 Como jogador profissional, seu primeiro gol que marcou no Campeonato Paulista foi em 22 de julho de 1972, na vitória da Lusa por 3×2 sobre o São Bento. Pelo Brasileiro, seu primeiro gol foi em 21 de setembro de 1972, no empate de 1×1 contra o São Paulo. Em 1973, conquistou a Taça São Paulo, marcando um dos gols na final contra o Palmeiras, 3 a 0. Depois veio aquele título que até hoje é comentado, devido ao erro matemático do árbitro Armando Marques. O ano de 1976 foi um ano pródigo, que começou com a conquista da Taça Governador do Estado de São Paulo, em fevereiro. Seu último gol pela Portuguesa aconteceu em 2 de julho de 1980, na vitória de 1 a 0 sobre o Marília, em Marília. Sua última partida pela Portuguesa de Desportos, foi em 13 de julho de 1980, no empate de 1 a 1 contra a Internacional de Limeira.

                 Enéas jogou na Portuguesa de Desportos de 1971 até 1980, clube do qual foi o segundo maior artilheiro, com 179 gols, em 376 partidas, só perdendo para Leandro Amaral. Mas em campeonato brasileiro, Enéas está em primeiro lugar com 47 gols. Enéas deixou seu nome gravado na equipe do Canindé através de seus dribles, seu faro de gol e sua irreverência dentro e fora do campo. A diretoria da Portuguesa sempre criou vários obstáculos para negociá-lo, por isso, talvez, Enéas não tenha tido mais chances na seleção brasileira.  Irrequieto, provocador e abusado, Enéas sempre foi alvo da imprensa, que o acusava de passar grande parte do jogo desatento, dormindo em campo. Porém, quando seu futebol aparecia, os torcedores tinham certeza de espetáculo e gols.

                Depois de obter relativo sucesso no Brasil, Enéas foi mostrar sua arte na Europa. Mas ficou pouco tempo por lá. Em 1980, no auge da carreira, transferiu-se para a Itália, tornando-se um dos primeiros jogadores a atuar naquele país. Lá permaneceu pouco mais de um ano. Jogou primeiro no Bologna, que pagou pelo seu passe Cr$ 62,5 milhões, mas acabou se desentendendo com o técnico Luigi Radicce e deixou o clube, onde realizou 17 partidas e marcou 3 gols. No ano seguinte foi jogar na Udinese, onde também não permaneceu por muito tempo, retornando ao Brasil no ano seguinte.

PALMEIRAS

                Quem então apostou no seu futebol foi o Palmeiras, que o contratou em 1981 por 50 milhões de cruzeiros. Contratado como uma das esperanças da equipe alviverde para colocar um ponto final na escassez de títulos que duraria 16 anos, Enéas não conseguiu mostrar a mesma arte de antes. Nesta época, o time palmeirense era formado por; Gilmar, Nenê, Luiz Pereira, Deda e Pedrinho; Vitor Hugo, Freitas e Aragones; Reginaldo, Enéas e Esquerdinha. O técnico era Jorge Vieira. Vitimado por uma série de contusões que o obrigaram a operar o joelho direito, o jogador começou a entrar em decadência. Em dois anos, Enéas jogou menos de 20 partidas pela equipe de Parque Antarctica.

               Após desentendimento com o técnico Carlos Alberto Silva, começou sua decadência no futebol, pois perdeu todo o entusiasmo que ele tinha pelo futebol, com isto, o ciclo do jogador no Palmeiras estava encerrado. Teve o azar de pegar uma época de “vacas magras” no Palestra Itália, o que o impediu de brilhar como nos tempos de Canindé. Jogou no Palmeiras de 1981 até 1983 e  com a camisa do alviverde, Enéas disputou 93 partidas, sendo 38 vitórias, 35 empates e 20 derrotas. Marcou 28 gols e não conquistou nenhum título pelo Verdão. Com vistas a uma possível valorização de seu passe, foi emprestado sem custo para o XV de Piracicaba em 1984. Seus salários eram pagos pelo Palmeiras, embora oficialmente fosse divulgado que ele recebia uma fração dos vencimentos, mais a hospedagem no melhor hotel de Piracicaba.

A DECADENCIA

               Após partida do XV de Piracicaba contra o Marília pelo Campeonato Paulista de 1984, Enéas foi sorteado para o antidoping, mas arranjou confusão. O jogador recusou-se a fazer o exame e ainda quebrou os vidros disponíveis para a coleta da urina. Como conseqüência, foi suspenso pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) por 90 dias. Enéas também vestiu as camisas do Juventude (RS), Atlético Goianiense, Desportiva (ES), Operário de Ponta Grossa (PR) e a Central Brasileira de Cotia (SP), na terceira divisão paulista, onde também era dirigente. Este foi seu último clube antes de morrer. Mas, definitivamente, seu melhor momento foi no Canindé. Ele é sempre lembrado como um dos maiores jogadores da Associação Portuguesa de Desportos em todos os tempos.

TRAGÉDIA

                Após encerrar a carreira, o destino marcou o ex-jogador como nenhum zagueiro conseguiu.  Na noite de 22 de agosto de 1988, Enéas passava pela avenida Cruzeiro do Sul, em São Paulo, ao volante de um Monza, quando perdeu o controle do carro e bateu violentamente na traseira de um caminhão. O veículo ficou totalmente destruído e Enéas foi conduzido para o hospital, onde ficou em estado de coma por mais de quatro meses. Em 27 de dezembro do mesmo ano, então com apenas 34 anos, Enéas faleceu, deixando esposa e dois filhos. Foi enterrado com o rosto desfigurado devido ao acidente. De acordo com o atestado de óbito do jogador, a causa da morte foi broncopneumonia e luxação na coluna cervical.

                Enéas foi um meia-atacante classudo, extremamente hábil e inteligente, grande finalizador, Muitas vezes era acusado de “dormir” em campo, assim como acontecia com outros craques, como Ademir da Guia, Alex e até mesmo Servílio, todos jogadores que defenderam a Sociedade Esportiva Palmeiras e deixaram muita saudade aos torcedores do alviverde. Jogadores como Enéas, que tem uma extensa história, marcada por alegrias, glórias, tristezas e decepções, jamais podemos deixa-la cair no esquecimento, por isso, nossa coluna “Memória do Futebol”, hoje vem resgatar um pouco da história desse que estará para sempre nos corações de todos os Lusitanos, pois foi um dos maiores ídolos da Associação Portuguesa de Desportos de todos os tempos.

1970   – Em pé: Pescuma, Zecão, Isidoro, Raimundo, Helinho e Cardoso   –    Agachados: Antonio Carlos, Enéas, Tatá, Basílio e Wilsinho
Em pé: Badeco, Mendes, Alexandre Pimenta, Moacir, Bolívar e Calegari   –    Agachados: Antonio Carlos, Enéas, Tata, Alexandre Bueno e Alcino
Campeã Paulista de 1973    –   Em pé: Pescuma, Zecão, Badeco, Isidoro, Calegari e Cardoso   –   Agachados: Xaxá, Enéas, Cabinho, Basílio e Wilsinho
Em pé: Mendes, Zecão, Badeco, Calegari, Santos e Cardoso    –    Agachados: Antonio Carlos, Enéas, Tatá, Dicá e Wilsinho
Seleção Paulista – Em pé: Gilberto, Leão, Zé Maria, Luiz Pereira, Alfredo e Clodoaldo – Agachados: Vaguinho, Leivinha, Enéas, Ademir da Guia e Rivelino
6-4-1975 – Jogo no Pradão – Independente 2×2 Portuguesa    –   Em pé: Arengue, Miguel, Badéco, Isidoro, Calegari e Cardoso    –   Agachados: Xaxá, Tatá, Enéas, Dicá e Wilsinho

 

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