VELUDO: goleiro da nossa seleção que se entregou a bebida

                   Caetano da Silva Nascimento nasceu dia 7 de agosto de 1930, na cidade do Rio de Janeiro – RJ. Foi um grande goleiro dos anos 50, chegando a jogar em grandes clubes, como Fluminense, Santos, Atlético Mineiro, Nacional do Uruguai e outros clubes de menor expressão. Defendeu também nossa Seleção Brasileira, pela qual disputou a Copa de 1954, onde foi reserva de Castilho. Foi um grande ídolo do futebol brasileiro, mas como tantos jogadores, não soube aproveitar os momentos de glória e não pensou no futuro, pois enquanto estava bem só queria viver na boemia, beber todas e gastar tudo que tinha e, quando seu físico não aguentava mais para praticar o esporte, começaram as desilusões, as doenças e a falta de amigos, aqueles mesmos que estavam sempre ao seu lado nos momentos de alegria e boemia.

                 Morreu na miséria. Tinha tudo o que se espera de um bom goleiro. Grandão, muito forte, elástico e perfeito senso de colocação. Bolas alta, bolas rasteiras, nada era obstáculo para ele. Infelizmente esta é a realidade do nosso futebol.  Ainda hoje temos casos  semelhantes,  inclusive de  jogadores que até há pouco tempo defendia a seleção brasileira. É uma história comovente e muito bonita. Serve de exemplo para muitos jogadores de hoje que não se cuidam e também aos jovens em geral.

INÍCIO DE CARREIRA

                De origem humilde, começou a ajudar nas despesas da casa quando ainda era um menino. Pulava da cama às quatro da manhã e ia para o cais do porto. Sua composição física avantajada foi moldada no sol a sol, embarcando pesadas sacas de farinha ou café nos navios atracados. Aos domingos ele se divertia jogando suas peladas. A mãe de Caetano, que chamava-se Joana, sempre falava: “Domingo é dia pra descansar Caetano. Para com essa moda de bola senão teu corpo não aguenta trabalhar na segunda”. Todo final de semana era a mesma coisa e dona Joana ficava preocupada. Afinal, o garoto era um estivador e precisava de descanso, mesmo que fosse em um único dia. Mas não tinha jeito!

               Mal o domingo amanhecia e lá estava aquela figura engomadinha com brilhantina no cabelo e a voz estridente chamando no portão: “Caetano… Caetano… Caetano. Vamo logo”! E lá ia Caetano, muchilinha nos ombros e um pedaço de pão espremido na mão. A figura engomadinha chamava-se Armando Nunes Castanheira da Rosa Marques. E assim, caminhando a passos largos pelas ladeiras, os dois seguiam rapidamente para o campo do Harmonia, um time amador do bairro da Saúde. Com o passar do tempo, o tal Armando Marques, que era metido a dono do time, iniciou a carreira de árbitro e infiltrou-se definitivamente no meio do futebol. Até hoje, ele é conhecido como o lendário árbitro Armando Marques.

               Em 1947 foi o próprio Armando que deu um chacoalhão na vida de Caetano: “Vou te levar para fazer teste no Fluminense. Você precisa parar com aquela vida de cão que te consome lá no cais”. Em seu primeiro treino nas laranjeiras, Caetano não foi muito bem. O ex-jogador Preguinho incentivou Armando para trazer o garoto novamente. Em seu segundo treino, Caetano foi aprovado e integrado ao quadro de juvenis do tricolor. Em seu primeiro ano de clube, foi campeão juvenil em 1948. Nesse período deixou de ser conhecido como Caetano. Em razão da tonalidade e da viscosidade de sua pele aveludada, alguns jogadores dos aspirantes começaram a chamá-lo de Veludo, apelido que o acompanhou por toda a sua vida.

FLUMINENSE

                Em 1949, Veludo já atuava pelos aspirantes. Com a convocação do goleiro Castilho para a copa de 1950, Veludo ganhou a tão sonhada oportunidade. Elástico, ágil e arrojado, o jovem goleiro ganhou rapidamente a confiança dos companheiros e muita popularidade junto a torcida. Campeão carioca de 1951, Veludo foi convocado para a seleção carioca de novos e transformou-se na sombra do goleiro Castilho, que tinha o apelido de leiteria. Quando Castilho não podia jogar, lá estava Veludo praticando suas defesas impossíveis e fechando o gol da mesma maneira. A torcida tricolor dizia com orgulho que possuía a dupla “café com leite” para defender a meta do Fluminense. Mesmo jogando em algumas oportunidades, pois Castilho era titular absoluto, a torcida em coro acentuado sempre gritava o nome de Veludo nas arquibancadas. Em 1953, ganhou sua primeira chance de vestir a camisa canarinho.

                A glória só chegou em 7 de março de 1954 durante o jogo Brasil x Paraguai, em Assunção, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo que seria disputada na Suíça no mês de junho. Aos 19 minutos do primeiro tempo salvou um gol certo, defendendo um chute a queima-roupa do ponta direita Lugo. O bombardeio guarani não parou um só instante no primeiro tempo e Veludo não deixava passar nada. De trás do gol, os paraguaios atiravam-lhe pedaços de pau, pedras, ameaçavam matá-lo a facadas, mas ele não se importava. Uma das pedras atingiu sua cabeça tendo que atuar com ela envolta por uma bandagem. O Brasil ganhou de 1×0 gol de Baltazar aos 6 minutos do segundo tempo. Veludo voltou ao Brasil como herói e foi convocado para a Copa de 1954.

               A fama de Veludo era muito grande naqueles anos, goleiro do Fluminense, participou de uma Copa do Mundo, enfim, o sucesso começou a subir na cabeça daquele goleiro e com isto passou a seguir o caminho da boemia, o que muito lhe prejudicou. Mesmo consagrado, Veludo ainda dava suas escapadinhas para os bares do porto. Gostava de beber e bebia demais! Após um Flamengo e Fluminense no dia 18 de dezembro de 1955, onde o Mengão goleou por 6 a 1, a culpa da derrota caiu sobre seus ombros. Sofreu quatro frangos, que poderiam ter sido evitados facilmente. Num deles, colocou a bola pra dentro do próprio gol. Falaram que tinha se vendido. Mentira. Veludo estava bêbado. Ficou longe do técnico na hora da preleção, enganou todo mundo e foi dar vexame em campo. Após o jogo, ele desceu chorando para o vestiário e foi banido das Laranjeiras. Acusado de vender o jogo, o goleiro foi multado em 60% de seus vencimentos. Veludo caiu em desgraça com a torcida do Fluminense.

DECADÊNCIA

                Sem clima no Tricolor Carioca, começou sua peregrinação por vários clubes. Foi emprestado para o Nacional do Uruguai, em uma negociação que envolveu o atacante Ambrósio. Depois de seis meses, Veludo voltou ao Fluminense e foi negociado em definitivo junto ao Canto do Rio, onde permaneceu até 1957. Em 1958 chegou a oferta do Santos F.C. Era a sua grande oportunidade para ressurgir em um grande time. Mas teve o azar de ter o goleiro Manga em grande fase e com isto acabou na reserva, entrando na equipe em apenas algumas partidas. Mesmo como campeão paulista em 1958, deixou o clube depois de uma atuação, também questionada, contra a Portuguesa de Desportos no dia 6 de agosto, quando o Peixe venceu por 4 a 3. Corneteiros de plantão o acusaram de alcoólatra.

                Veludo se defendia e dizia que apenas tomava suas cervejinhas como todo mundo faz. Novamente viu as portas se fecharem e em seguida, no ano de 1959, foi vestir a camisa do Atlético Mineiro, onde atuou em apenas 16 oportunidades. Envolvido em uma série de problemas particulares, acabou dispensado do clube em 1960. Voltou ao Rio de Janeiro. Defendeu o Madureira nos anos de 1961 e 1962. Voltou novamente para Belo Horizonte e foi defender o time do Renascença, onde encerrou sua carreira nos primeiros meses de 1963.

TRISTEZA

                 Depois que encerrou a carreira, andava pelos cantos afastando-se das pessoas, cabeça baixa, usando óculos escuros para esconder os olhos vermelhos de muita cachaça. O grande goleiro foi vencido pelo alcoolismo e pela hipocrisia humana. No final de sua vida, encontrava-se abandonado e desamparado, pedindo esmolas e dormindo nas frias sarjetas da Av. Nossa Senhora de Copacabana. Transformara-se em mais um mendigo da grande cidade, aquele que fora jogador da Seleção Brasileira e um dos maiores goleiros do futebol brasileiro. Veludo não quis mais ouvir falar de futebol. Sua única boa recordação foi ser companheiro de um tímido menino chamado Pelé, na pensão de dona Jorgina em Santos. As glórias nada mais eram do que recortes amarelados de jornais velhos. Vivia de salário mínimo que lhe era dado pela FUGAP (Fundação de Ajuda e Garantia do Atleta Profissional).

                 Em 1963, sentindo dores, foi operado do pâncreas.  Fora dos gramados, a doença do alcoolismo continuou evoluindo. Abandonado pelos familiares, conheceu a triste realidade das ruas. Com apenas 39 anos e pouco mais de 40 quilos, aparentava o dobro da idade. Curtia as últimas cachaças, um vício que aniquilou sua carreira profissional. Tinha dificuldades em reconhecer as pessoas e mal sabia quem ele mesmo era. Depois de constantes crises no pâncreas e no fígado, além da diabetes, Veludo faleceu em 26 de outubro de 1979, no Hospital Olivério Pena, no Rio de Janeiro, aos 49 anos de idade.

                Depois que pendurou as chuteiras, foi vencido completamente pelo álcool. Bebia tudo o que ganhava. “Gostava de tomar minhas cervejas, gostava demais. Fora dos treinos, fora do clube, eu aceitava qualquer convite para tomar um copinho”, comentou certa vez, em uma reportagem da revista Manchete Esportiva. Menos famoso que Garrincha, o mais célebre dos jogadores bebuns, Veludo também enveredou pelo mesmo caminho. Se tivesse a cabeça no lugar, seria hoje lembrado como um dos craques da posição e serviria como um belo exemplo a todos, pois era bom demais no gol. Por tudo isso, fica aqui nossa lembrança a este grande goleiro que foi mais um que acabou de uma forma melancólica, morrendo na miséria como indigente. Por tudo isso, só nos resta dizer, descanse em paz Caetano da Silva Nascimento, nosso querido e inesquecível Veludo.

Em pé: Djalma Santos, Gerson, Brandãozinho, Nilton Santos, Veludo e Bauer    –    Agachados: Julinho, Humberto Tozzi, Baltazar, Didi e Maurinho
Em pé: Djalma Santos, Veludo, Édson, Zózimo, Formiga e Hélio    –     Agachados: Canário, Ilton Porco, Leônidas, Zizinho e Ferreira
Em pé: Brandãozinho, Paulinho, Veludo, Alfredo Ramos, Mauro e Bauer     –    Agachados: Julinho Botelho, Pinga, Baltazar, Humberto Tozzi e Maurinho
Em pé: Ramiro, Airton Pavilhão, Veludo, Geraldo Scotto, Dalmo e Zito    –     Agachados : Dorval, Jair Rosa Pinto, Pelé, Pagão e Pepe.
Em pé: Veludo, Brauner, Zito, Fioti, Wilson Francisco Alves e Mourão    –     Agachados: Tite, Pagão, Álvaro, Jair Rosa Pinto e Pepe.
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2 comentários em “VELUDO: goleiro da nossa seleção que se entregou a bebida

  1. NosSaudades, história incrível!!!
    Impossível não se emocionar!!!
    Parabéns pelo detalhado trabalho, ficou excelente a matéria!

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