URUBATÃO: o xerife da zaga santista na década de 50

                    Urubatão Calvo Nunes nasceu dia 31 de março de 1931, na cidade do Rio de Janeiro-RJ.  Jogou no Santos na década de 50 e foi bicampeão paulista em 1955 / 56. O título de 55 foi muito comemorado pela torcida santista, pois desde 1935 o Peixe não conquistava este título. Foi um ano em que o Santos formou um grande esquadrão e realmente mereceu o título. Neste ano o time peixeiro era formado por; Manga, Helvio, Ivan, Ramiro e Formiga; Urubatão e Vasconcelos; Tite, Del Vecchio, Alvaro e Pépe. No ano seguinte o time foi quase o mesmo, entraram somente Jair da Rosa Pinto, Pagão e Dorval.  O técnico destas e outras conquistas foi Luiz Alonso Perez, mais conhecido por Lula. Urubatão foi um craque dentro e fora de campo, pois era querido por todos, inclusive de Pelé, que chegou na Vila em 1956 e recebeu muitos conselhos de Urubatão.

                   Começou sua carreira no Bonsucesso do Rio de Janeiro, depois veio para São Paulo e foi contratado junto ao Santos F.C.  Chegou na Vila Belmiro em 1954 e seu início não foi nada fácil, pois precisou disputar a posição com Formiga e Zito, que na época eram titulares absolutos. Mas com o passar do tempo, Urubatão foi tomando conta da situação, fazendo grandes partidas quando entrava no time e com isto foi adquirindo a confiança de todo o elenco. Já no ano seguinte, passou a titular da equipe e para fechar o ano sagrou-se Campeão Paulista, um título que o torcedor santista não comemorava há 20 anos. O jogo final foi contra o Taubaté e o Peixe venceu por 1 a 0, gol de Álvaro de cabeça. Foi uma campanha maravilhosa da equipe praiana, pois disputou 26 partidas, venceu dezenove, empatou duas e teve cinco derrotas. Marcou 71 gols e sofreu 40. O artilheiro da equipe e de toda a competição foi Del Vecchio com 23 gols.

                    No ano seguinte chegava na Vila Belmiro, um garoto trazido pelas mãos de Valdemar de Brito, o menino Pelé, de 15 anos, que deu um novo impulso à história do Santos, levando-o a conquistas que enalteceram o futebol brasileiro no planeta. Mas no ano seguinte, ainda sem Pelé, o Peixe chegava ao bicampeonato paulista. O jogo que garantiu o título foi realizado no Pacaembu dia 3 de janeiro de 1957 e o alvinegro venceu por 4 a 2, com dois gols de Del Vecchio, um de Feijó e um de Tite, enquanto que para o São Paulo, os dois gols foram marcados por Zézinho. Neste ano o Santos também fez uma excelente campanha, ou seja, 36 jogos, com 29 vitórias, 4 empates e 3 derrotas. Marcou 98 gols e sofreu 36.

                Com jogadores de personalidade tão forte e tão decididos, como Urubatão, Zito, Pelé, Coutinho, Mauro, não é de se admirar que o Santos tenha sido um time tão forte também no aspecto psicológico, que acreditava na vitória mesmo nas piores circunstâncias e diante das torcidas adversárias. E foi ao lado de Pelé, Pagão, Pepe, Dorval e outros tantos, que Urubatão fez partidas memoráveis com a camisa do Peixe, como aquela do dia 30 de janeiro de 1955, quando o Santos goleou o Corinthians por 4 a 1 na Vila Belmiro.

                 A vitória era importantíssima para o alvinegro de Parque São Jorge, pois era anti-penúltima rodada do campeonato e depois iria enfrentar o Palmeiras e o São Paulo. Neste dia o Corinthians jogou com; Gilmar, Homero e Alan; Olavo, Goiano e Roberto Belangero; Cláudio, Luizinho, Baltazar, Nardo e Simão, enquanto que o Peixe jogou com; Manga, Hélvio e Ivan; Zito, Formiga e Urubatão; Del Vecchio, Valter, Alvaro, Vasconcelos e Tite. O Santos abriu o placar aos 29 minutos de jogo através e Urubatão, depois Tite e Alvaro ampliaram o marcador. Cláudio diminuiu, mas Alvaro marcou o quarto gol do Peixe. Neste jogo o Corinthians teve dois jogadores expulsos, Goiano e Baltazar. Mas na rodada seguinte o Corinthians se recuperou ao empatar com o Palmeiras em 1 a 1 e com este empate sagrou-se Campeão do IV Centenário.

                  Urubatão chegou na Vila em 1954, pouco antes de completar 23 anos, e jogou no Alvinegro Praiano até 1961, vivendo toda a fase de formação do melhor time que o Santos já teve em todos os tempos, onde ganhou praticamente todos os títulos que disputou, não só aqui no Brasil, como também pelo mundo a fora. Era um time que treinava no avião, como diziam na época, tantas eram as viagens que o time fazia. Edu disse certa vez, que ao olhar para o globo terrestre, era mais fácil ele ver um país que já havia jogado do que um que ainda não havia, tal era o número de excursões que o time fazia naquela época de ouro do Santos F.C.

                   Urubatão fez 322 jogos com a camisa do Santos e marcou 24 gols. Era um líder nato, fez somente um jogo pela Seleção Brasileira, foi no dia 7 de julho de 1957, quando o Brasil enfrentou a Argentina pela Copa Rocca e perdeu por 2 a 1. O único gol brasileiro foi anotado por Pelé. Este jogo entrou para a história do futebol brasileiro, pois foi nesta partida, que Pelé fez sua estreia na Seleção Brasileira. Pelé entrou no segundo tempo no lugar de Del Vecchio. Mesmo perdendo o jogo, Pelé foi muito elogiado e seu nome nas próximas listas de convocações passou a ser obrigatória. O técnico que o convocou pela primeira vez foi Silvio Pirilo, que na época foi muito contestado, pois Pelé tinha na época, apenas 16 anos, mas com o passar dos anos, Pirilo mostrou que estava absolutamente certo em convocá-lo.

TREINADOR

                    Após encerrar sua carreira de jogador, passou a viver fortes emoções fora das quatro linhas, e como treinador deixou uma das frases que ficou registrada nos anais do futebol; “A história não fala dos covardes”.  Em 1963, trabalhando a lado de Sebastião Lapolla na Ponte Preta de Campinas, viu seu time perder o acesso para a primeira divisão, ao ser derrotada para a Portuguesa Santista por 1 a 0, com um gol de Samarone. Como técnico, um de seus feitos memoráveis foi levar o América de São José do Rio Preto às finais do Campeonato Paulista de 1975. Venceu o Santos, em São Paulo, e com isto, impediu seu ex-clube que tinha na época Cláudio Adão e Carlos Alberto Torres, de decidir o título com o São Paulo, que enfrentou a Portuguesa de Desportos e assim o Tricolor sagrou-se Campeão Paulista daquele ano. Mesmo quando comandava times menores, Urubatão pregava a disposição para a vitória. Isso deu muito certo no América de São José do Rio Preto, que passou um bom tempo ganhando de todos os grandes que jogavam em seu campo.

                    Urubatão trabalhou também nos clubes paranaenses como; Coritiba, Colorado (atual Paraná Clube) e Londrina Esporte Clube, pelo qual  conquistou o Campeonato Estadual de 1980, vencendo o Grêmio Maringá no mais emblemático clássico do Café da história, logo após campanha vitoriosa do alvi-celeste que resultou na conquista da Taça de Prata, em 1979, quando o treinador era Jair Bala. Uma época era de ouro para o Tubarão. Apesar de na capital paranaense ter conquistado apenas amizades e espaço em contos folclóricos, foi no interior que Urubatão realizou seu maior feito em território estadual. 

                   Quando comandou o Colorado no Campeonato Brasileiro de 1983, trouxe jogadores como o goleiro Marola, do ano seguinte. “Ele era acima de tudo um motivador, que gostava de ver o time forte na marcação”, recordou Caxias, ex-zagueiro do Colorado, onde aprendeu com Urubatão um lema que carregou durante parte de sua carreira na hora de dividir bolas: “primeiro chora a mãe deles, depois a minha”.  No Coritiba, em 1986, Urubatão criou polêmica em torno de suas superstições. Alguns jogadores diziam que o então treinador não os deixava tomar banho antes dos jogos, “para não atrapalhar no aquecimento”.

TRISTEZA

                   Urubatão foi internado por conta de um tumor no cérebro. Chegou a ser submetido a uma cirurgia, a qual foi bem sucedida, para retirada de um coágulo, pela equipe médica liderada pelo doutor Rubens Garrido, responsável pela operação.  Mas infelizmente, no dia seguinte veio a falecer aos 79 anos de idade. Deixou a esposa Maria de Lourdes Fernandes Nunes, três filhos (Fátima Lúcia, Maria Lúcia e Janderson) e também três netos (Bruna, Camila e Leonardo).  Deixou também uma legião de amigos, entre eles; Zito e Coutinho, que fizeram questão de dizer; “Foi  uma pessoa muito séria, um excelente jogador e um grande amigo, em uma época boa do Santos” disse Zito seu companheiro de clube na década de 50. 

                   O ex-centroavante Coutinho foi outro que também rendeu homenagens a Urubatão. “Para resumir: o Urubatão era um cara sensacional. Um amigo para todas as horas. Foi uma perda irreparável”, disse.  Outro que rendeu homenagens à Urubatão foi o presidente do Santos, Sr. Luiz Alvaro de Oliveira Ribeiro, que lamentou a morte daquele que foi um de seus primeiros ídolos e disse que foi uma perda inestimável, por isso o Santos estava de luto. O velório aconteceu na Beneficência Portuguesa, em Santos, e depois o corpo foi levado até o cemitério do Saboó, onde foi enterrado o nosso grande Urubatão Calvo Nunes, que defendeu o alvinegro de Vila Belmiro por sete anos e ajudou o clube a conquistar títulos importantes. Por isso, nossa homenagem à este grande craque do passado. Urubatão faleceu dia 24 de setembro de 2010.

Em pé: Zito, Ramiro, Manga, Urubatão, Getúlio e Dalmo      –     Agachados: Dorval, Jair Rosa Pinto, Pagão, Pelé e Pepe
Em pé: Ivan, Cássio, Urubatão, Barbosinha, Paschoal e Hélvio      –     Agachados: Carlinhos, Leal, Álvaro, Vasconcelos e Tite
Em pé: Hélvio, Urubatão, Fioti, Ramiro, Manga e Ivan      –     Agachados: Dorval, Jair Rosa Pinto, Pagão, Del Vecchio e Tite
Em pé: Dalmo, Zito, Urubatão, Formiga, Getúlio e Laércio      –     Agachados: Dorval, Jair Rosa Pinto, Coutinho, Pelé e Pepe
Em pé: Getúlio, Manga, Urubatão, Jorge, Ramiro e Fioti Agachados: Alfredinho, Álvaro, Pagão, Vasconcelos e Dorval
Da esquerda p/direita: Barbosinha, Hélio, Wilson Francisco Alves, Formiga, Urubatão, Ramiro, Ivan, Pepe, Álvaro, Vasconcelos e Tite

Postado em U

Deixe uma resposta