CASAGRANDE: o artilheiro da Democracia Corintiana

                     Walter Casagrande Junior nasceu na capital paulista em 15 de abril de 1963. Quem via aquele jovem cabeludo chegar ao Parque São Jorge para um treino dos anos 80, custava a acreditar que estava ali um dos ídolos do Corinthians. Mais que isso, um ídolo para a juventude da época, ainda tentando se libertar da vigilância dos tempos de ditadura. Casagrande nunca escondeu de ninguém o que era e o que pensava. Dentro de campo seus gols eram a resposta para quem duvidava do seu estilo de vida pouco comum para os mais velhos, na época.  Andava com calça desbotada, mochila cruzada no peito, um estilo meio hippie até. Saia várias vezes para tomar cerveja e ia a show de rock com Sócrates, porque gostava. Ele ficava surpreso ao saber que as pessoas pensavam que jogador não podia fumar, nem beber, só dormir e sem transar.

                      Casagrande começou a jogar bola nas categorias de base do Corinthians, aos 13 anos. Chegou ao profissional com um currículo de 22 gols desde o juvenil “C” até os juniores, incluindo dois gols em três jogos na Taça São Paulo. Na equipe principal do Timão, num dos treinos, deu dribles desconcertantes até em Sócrates. Não demorou para ser proibido de treinar entre os profissionais. Em 1981, o Corinthians emprestou Casagrande, um jovem de 18 anos, para a Caldense, de Minas Gerais. Lá assinou seu primeiro contrato como profissional e disputou o Torneio Seletivo e o Campeonato Mineiro atingindo a marca de 19 gols.

                     A boa campanha na equipe mineira fez o Corinthians chamar de volta seu menino prodígio. Casagrande retornou ao Corinthians ao lado de Sócrates, Zenon, Biro-Biro, Wladimir e companhia, viveu o melhor momento de sua carreira. A volta dele ao Timão foi com o pé direito. Aproveitou bem a chance dada por Mário Travaglini e logo na sua estréia marcou quatro gols contra o Guará (DF), na goleada alvinegra por 5 a 1, no Pacaembu. Este jogo aconteceu dia 3 de fevereiro de 1982 e o Corinthians jogou com; César, Zé Maria, Gomes, Wagner e Wladimir; Biro Biro, Paulinho e Zenon; Eduardo, Casagrande e Joãozinho.

                     A partir daquele dia Casagrande jamais deixou a posição de titular no ataque mosqueteiro.  Ainda em 82, além de ser campeão paulista pela primeira vez, então com 19 anos, foi o artilheiro da competição com 28 gols. Um dos gols mais bonitos dele naquele estadual foi marcado contra o Taubaté, no Pacaembu, no dia 10 de novembro de 1982, quando o Timão venceu por 4 a 0.  Em 1983, Casagrande voltou a brilhar e fez parte do time do movimento “Democracia Corintiana” , sagrando-se bicampeão paulista.

                    Mas naquele campeonato, o artilheiro corintiano foi Sócrates, autor inclusive do gol na final contra o São Paulo, no Morumbi, no empate por 1 a 1, uma vez que na primeira partida o Timão havia vencido por 1 a 0, também gol de Sócrates. A final aconteceu dia 14 de dezembro de 1983, e o Corinthians jogou com; Leão, Alfinete, Mauro, Juninho e Wladimir; Paulinho, Biro Biro, Zenon e Sócrates; Eduardo e Casagrande. O técnico do alvinegro foi Jorge Vieira.            

                     Os problemas de relacionamento com o técnico, e as suspeitas de ser boêmio, fizeram com que o Corinthians o emprestasse sem fixar o valor do passe, para o São Paulo, em 1984. Como o Tricolor do Morumbi já tinha Careca, centroavante contratado junto ao Guarani de Campinas, Casagrande atuou na meia direita na equipe são-paulina. Com a camisa do Tricolor, Casagrande jogou 23 partidas. Foram 10 vitórias, 7 empates e 6 derrotas. Marcou 11 gols. Após boa passagem pelo Morumbi, Casão voltou ao Parque São Jorge, onde ficou até 1987, ano que foi negociado com o time do Porto, de Portugal. 

                     Vendido por US$ 1 milhão, logo na estréia deixou sua marca: gol. Em sua primeira temporada no Velho Continente, a equipe portuguesa chegou ao título mais importante da Europa, o da Liga dos Campeões. Foram apenas oito meses, mas uma passagem muito boa. Devido as suas boas atuações, logo despertou o interesse do futebol italiano. Assim, foi jogar no Áscoli da Itália,  um time modesto e que havia acabado de disputar sua primeira temporada na primeira divisão italiana. Mas os bons tempos não se repetiram. O time foi rebaixado, mas Casagrande não abandonou o barco.

                    Cumpriu seu contrato de quatro anos até o final e deixou o clube de maneira triunfal, com o título da Série B e o retorno à primeira divisão. De quebra, ainda foi o artilheiro da competição. “Eu era capitão da equipe, um fato quase inédito na Itália naquela época, para um estrangeiro. Caí com o time e entendia que não deveria sair se não pudesse ajudar o time a voltar para a primeira divisão, onde eu o encontrei. Ser o artilheiro, então, foi o máximo”, lembra. Ficou no Áscoli até 1991.

                    Com a missão cumprida, Casagrande partiu então para uma equipe grande. Seu destino foi o Torino. Sua primeira dificuldade foi convencer os dirigentes de que estava bem fisicamente. Eles queriam vê-lo jogando um campeonato inteiro. Quando viram que estava bem no final do primeiro turno pelo Áscoli acertaram a transferência.  As contusões perseguiram o atacante no novo clube, mas não o impediram de atuar por dois anos na equipe titular e sagrar-se campeão da Copa da Itália. Em julho de 93 o jogador acertou seu retorno ao Brasil.

                    Seis anos depois, mais maduro, acostumado aos hábitos europeus, o não tão jovem, mas ainda cabeludo, estava de volta. O destino era o Flamengo. Na Gávea, Casagrande teve uma passagem rápida, mais prejudicada pelos joelhos inflamados. Um fato, no entanto, acelerou sua despedida do futebol carioca. No Campeonato Brasileiro de 93, Flamengo e Corinthians se enfrentaram no Pacaembu. Mal começou a partida, a Gaviões da Fiel cantou: “Volta, Casão. Seu lugar é no Timão” alternando para “Doutor, eu não me engano. O Casagrande é corintiano”.

                    O Corinthians venceu o jogo por 2 a 1 e o gol flamenguista, por ironia do destino, foi de Casagrande. “Eu me vi na obrigação de fazer um gol pelo Flamengo, que era o clube que eu estava defendendo. Mesmo assim, a bola só desviou em mim”, conta. “Mas eu me preparei a semana inteira para ser hostilizado de todas as formas possíveis. Meia hora depois do jogo eu ainda estava emocionado”, lembra. Com a camisa do Flamengo, Casagrande jogou 29 jogos. Venceu 12, empatou 8 e perdeu 9. Marcou 7 gols.

                    Em 1994 o Corinthians abriu suas portas novamente para Casagrande. Agora um homem de mais de 30 anos, experiente e chegando ao final de sua carreira. Ali atuou mais uma temporada ao lado de então promessas do clube como Marques, o irreverente Viola e o recém-contratado Marcelinho Carioca.               

                   Com a camisa do Corinthians, Casagrande disputou 256 partidas. Venceu 118, empatou 79 e perdeu 59 vezes. Marcou 103 gols e ainda hoje é muito lembrado pela Fiel Torcida Corintiana. Antes de encerrar a carreira de jogador, Casagrande jogou no futebol baiano e no Paulista de Jundiaí. Durante sua carreira, também participou da Copa do Mundo de 1986, disputada no México, quando o Brasil foi eliminado pela França na disputa de penalidades máximas, uma vez que no tempo normal a partida terminou empatada em 1 a 1.  Participou de toda a campanha das eliminatórias e fez, contra a Bolívia, o gol que classificou o Brasil para o Mundial. Chegou a ser tido como titular para a estréia na Copa, mas a contusão o afastou do time. No total fez 9 gols pela seleção em 19 jogos.             

                    Fora de campo o nosso Casão teve momentos tristes em sua vida. Teve problemas com a polícia.  Foi preso, acusado de portar entorpecentes. “Fiquei detido uma noite, depois fui liberado, por falta de provas. A cocaína não era minha”, diz. “Estava na porta da casa de um amigo na Penha, quando a Rota parou e enquadrou a gente. O cara veio revistar minha bolsa, saiu e voltou com um vidrinho: “Que é isso?”. Falei: “Cocaína, acho”. Aí me levou embora.”, conta. 

                   As contusões também atrapalharam bastante a carreira do atacante. Em 83, após o bicampeonato paulista, os joelhos não aguentaram tanta violência dos zagueiros. Uma delicada cirurgia no menisco o afastou dos gramados por um bom tempo. O Corinthians, então, emprestou-o ao São Paulo no início do ano seguinte. O Morumbi foi a casa do atacante por seis meses. Tempo suficiente para marcar 11 gols e ser querido pela torcida. 

                   Walter Casagrande Júnior, o Casagrande, ex-centroavante do Corinthians, de 82 a 84, 85 a 87 e 1994, trabalha como comentarista esportivo da TV Globo. Sofreu grave acidente de carro em 2007, no bairro da Lapa, e ficou afastado das transmissões. Em Abril de 2008, a revista Placar publicou extensa reportagem mostrando que o ex-jogador estava numa clínica lutando contra o pesadelo das drogas. Para isso, ele teve o amplo apoio da sua bela família, a esposa Mônica e seus filhos Ugo, Victor Hugo e Symon, também dos amigos e da Rede Globo de Televisão.

                   Deixou a clínica em julho do mesmo ano. Fora dos campos, o jogador se transformou em comentarista de futebol. Começou na TV Bandeirantes, depois na Record e ESPN Brasil até chegar à Globo, onde participou da Copa de 2002 como um dos principais comentaristas da emissora. “O legal, que eu não pensei que fosse assim, é que eles sempre me deram liberdade para falar o que bem quis. Hoje acho que faço o padrão Globo. Vou para a cabine, visto terno, gravata, mas tenho o meu jeito de comentar e de viver lá fora”, diz Casagrande, que conserva os cabelos longos e a língua afiada do jovem da década de 80.

1986   –   Em pé: Cacau, Casagrande, Carlos, Lima, Wilson Mano e João Paulo   –    Agachados: Édson, Biro-Biro, Aílton, Paulo e Edivaldo
Uma das seleções corintianas   –   Em pé: Zé Maria, Gilmar, Gamarra, Roberto Belangero, Wladimir e Luizinho    –    Agachados: Sócrates, Rivelino, Neto, Cláudio e Casagrande. Técnico: Oswaldo Brandão
Caldense    –   Em pé: Gilberto, Wagner, Armando, Paulo Roberto, Moacir e Edinho Mineiro    –    Agachados: Alfredinho, Cafuringa, Casagrande, Edinho e Alfredo
1986   –   Em pé: Jacenir, Paulo, Pinella, Wilson Mano, Carlos e Édson    –    Agachados: Casagrande, Cristóvão, Ricardo, Biro-Biro, João Paulo e o massagista Rocco
1983  –   Em pé: Leão, Sócrates, Casagrande, Eduardo, Biro-Biro e Zenon    –   Agachados: Mauro, Alfinete, Paulinho, Juninho e Wladimir
Em pé: Solito, De Leon, Serginho Chulapa, Casagrande, Luis Fernando, Paulo César e João Paulo    –    Agachados: Dunga, Édson, Mauro e Wladimir
Em pé: Carlos, Casagrande, Serginho Chulapa, Zenon, Dunga e João Paulo   –    Agachados: De Leon, Juninho, Édson, Biro-Biro e Wladimir
Em pé: César, Zé Maria, Wagner, Gomes, Paulinho e Wladimir   –   Agachados: Eduardo Amorim, Sócrates, Casagrande, Zenon e Biro-Biro

           

Postado em C

Deixe uma resposta