POY: praticava o futebol como se dança um tango

                 José Poy nasceu dia 16 de abril de 1926, na cidade de Rosário, na Argentina. Protetor da linha do gol do São Paulo Futebol Clube por 14 anos, Poy viveu no futebol como quem dança tango; com decisão nos passos de sua carreira, com plasticidade e eficiência na execução da arte e uma inabalável paixão por aquilo que fazia. Foi sem dúvida um dos maiores goleiros que já jogaram no futebol brasileiro. Muito ágil e calmo, foi um goleiro tão seguro, que mesmo sendo argentino, teve seu nome cotado para defender a Seleção Brasileira de 1954, no mundial disputado na Suíça.  A imprensa pressionou, os dirigentes chegaram a consultá-lo sobre a eventual naturalização, mas a ideia acabou não dando certo.

              Como jogador sagrou-se campeão paulista  em 1948, 49, 53 e 57. Depois que encerrou a carreira, passou a trabalhar como treinador, e fora das quatro linhas  também teve  uma carreira  brilhante; campeão paulista em 1975, vice campeão brasileiro em 1971 e 1973,  vice  campeão  da  Libertadores  da  América  em  1974  e  vice campeão paulista em 1982, todos pelo São Paulo e, campeão paulista da segunda divisão em 1995, pelo XV de Jaú. A carreira do lendário José Poy mudou quando ele tinha 11 anos, ainda no tempo de escola. Estudava em um colégio de padres e nos campeonatos internos era um dos melhores na meia direita. Foi campeão infantil naquela posição.

              No ano seguinte ao título, um jogador de seu time foi expulso em uma partida. O técnico mandou Poy para o gol e, mesmo com dez em campo, seu time venceu e ainda foi considerado o melhor em campo. Nunca mais quis sair do gol. Sua vontade foi respeitada.  Foi assim que Poy chegou ao principal clube da cidade, o Rosário Central, da Argentina, em 1941. Destaque das categorias de base pelas quais passou, ele chegou precocemente ao primeiro quadro cinco anos depois, aos 16 anos. Logo se tornaria titular e despertaria o interesse de outros clubes. Entre eles, o São Paulo F.C.  Poy escolheu o Brasil pelo desafio de jogar no exterior.

             Pouco tempo depois, apaixonou-se pela nova terra. Chegou no Tricolor dia 1 de julho de 1948. Esperou mais de um ano para chegar a ser o titular da equipe, mas a fama o precedia. O então jovem goleiro começou a técnica de cobrir um canto com uma mão, ter o pé oposto esticado e outra mão reservada para espalmar caso o adversário tentasse encobri-lo. Técnica esta, muito utilizada pelos goleiros argentinos. Os goleiros brasileiros, anos mais tarde, buscariam imita-lo, no entanto, poucos conseguiram faze-lo com o mesmo sucesso.  O primeiro título sob as traves do gol são-paulino, foi como reserva, em 1948. No ano seguinte sagrou-se bicampeão paulista.

             O técnico da equipe era Vicente Feola. A conquista seguinte só viria quatro anos depois, em 1953, com o treinador Jim Lopes. Quatro anos mais tarde, adorado pela torcida tricolor, Poy venceu mais uma vez, mesmo com um de seus principais desafetos no clube, o técnico húngaro Bella Guttmann. Com ele no comando do time, Poy foi campeão paulista em 1957.

              A história dessa conquista é uma das que mais emocionavam José Poy. Com 31 anos e a aposentadoria se aproximando, o técnico Bella Guttmann articulou a saída do goleiro, que, apesar de querido pela torcida, era considerado o quarto goleiro do time. Quando Poy passava ao seu lado, o técnico o evitava. Apenas desviava o olhar, cuspia no chão e murmurava em italiano “Vecchio”, que quer dizer “velho”.  Mas Poy não se abalou com aquela atitude do treinador, pelo contrário, lhe deu fôlego e vontade para jogar por muito mais tempo se quisesse. 

             Ainda naquele estadual de 1957, Poy se recuperou. Treinou alucinadamente, conseguiu a posição de volta e fez na decisão contra o Corinthians, uma de suas melhores partidas com a camisa do São Paulo. Ao final da partida, ele não resistiu e foi até o treinador húngaro e disse; “O vecchio venceu de novo”.  Este jogo aconteceu dia 29 de dezembro de 1957, no estádio do Pacaembu e o placar foi de 3 a 1 para o Tricolor, sendo que o empate já daria o titulo ao alvinegro de Parque São Jorge.

             Neste dia o São Paulo jogou com; Poy, De Sordi e Mauro, Sarará, Riberto e Vitor; Maurinho, Amauri, Gino, Zizinho e Canhoteiro. O São Paulo começou melhor e fez logo 1 a 0, com Amauri, aos 17 minutos do primeiro tempo. Canhoteiro aumentou dois minutos depois. Rafael diminuiu para o Corinthians aos 21 minutos, aumentando o suspense no Pacaembu lotado. E foi aos 34 minutos do segundo tempo que Maurinho recebeu um lançamento e fechou o placar, 3 a 1. São Paulo campeão paulista de 1957. 

              Poy encerrou sua carreira de jogador de futebol dia 30 de abril de 1962 e no ano seguinte começou um novo desafio, a de treinador. A transição da carreira de goleiro para treinador não foi nada traumática para José Poy, que de 1963 até o ano de sua morte, passaria a ser conhecido entre seus jogadores como “Dom José”.  Nunca pensou em se distanciar da bola. Poy sempre dizia;  “É disto que eu gosto, do vestiário, do estádio, do grito da torcida, não sou do tipo de pessoa que se sentiria bem trancado num escritório.

              O futebol sempre foi meu vício e sem ele eu não viveria”. No banco de reservas, foi celebrado como um dos maiores descobridores de talentos da história do futebol brasileiro. Entre suas descobertas, estão jogadores como Serginho Chulapa e Muricy Ramalho.  Só no Tricolor paulista, José Poy foi campeão em todas as divisões de base do clube e criou a “Escolinha do Poy”, na qual futuros talentos do clube do Morumbi seriam revelados. Com os profissionais, ele venceria o Paulistão de 1975 e ainda seria vice-campeão da Taça Libertadores no ano seguinte.

              Em seguida, Poy dirigiria outros times profissionais como Corinthians, Palmeiras, Portuguesa de Desportos, Santa Cruz, Botafogo-SP, Atlético-PR, Santo André e Ponte Preta, sempre fazendo uso do estilo disciplinador e emotivo com seus atletas. No entanto, para ele, comparável às passagens que teve pelo São Paulo, somente houve a dos tempos em que viveu no XV de Jaú. Com a equipe do interior paulista, a qual dirigiu por cinco vezes, a passagem mais marcante aconteceu perto de sua morte.

              Em 1994, já abatido por uma trombose, evitou o rebaixamento do time para a terceira divisão do futebol paulista. Um ano depois, recuperou o grupo e venceu a divisão de acesso, apesar de já estar preso a uma cadeira de rodas nos últimos cinco jogos. “O importante é levar a equipe à elite”, declarou pouco antes da conquista. “Depois, eu descanso um pouco”, completou.  E foi exatamente isto que aconteceu. No dia 8 de fevereiro de 1996, quando ainda trabalhava como técnico, o nosso saudoso José Poy veio a falecer.  Encerrou a carreira de jogador em 1963 para se tornar técnico, onde continuou trabalhando com muito amor e dedicação.

             Todos os jogadores que tiveram o prazer de trabalhar com José Poy são unânimes em afirmar que ele era um paizão para os jogadores. Exemplo disto foi a declaração de Muricy Ramalho, que disse; “Poy era um técnico que sabia muito bem ser paizão quando era necessário. Eu aprendi muito com ele, e olha que era bronca todos os dias. Ele queria que eu cortasse o cabelo e eu não cortava. Sempre me dava conselhos. Hoje, eu sei que fazia isso porque gostava de mim. Era como um pai que cuidava de um filho”, conta emocionado o ex-meia, comandado por José Poy nos anos 70.

             E com esse mesmo discurso, vários jogadores que também passaram por suas mãos, completam; “Muitos jogos que vencemos, foi graças a garra que ele passava a todos nós antes de entrarmos em campo”. Assim disseram; Nilson (artilheiro do brasileirão de 88 pelo Inter de Porto Alegre), Toninho (ex-Lusa) e Wilson Mano (ex-Corinthians).  Como goleiro do São Paulo, José Poy fez 515 partidas. Venceu 291, empatou 107 e perdeu 117 vezes. Sofreu 723 gols nos 14 anos que vestiu a camisa do Tricolor.  Como técnico trabalhou em 421 jogos, sendo 211 vitórias, 130 empates, e 80 derrotas.

              José Poy sempre foi um apaixonado pelo São Paulo F.C. “Nasci e vou morrer no São Paulo. É aqui onde surgi e é aqui onde vou terminar” declarou em 1992. É considerado um dos maiores goleiros da história são-paulina, que já teve ídolos na posição como Waldir Perez, Zetti e, atualmente Rogério Ceni.  José Poy dedicou 38 anos e mais de 500 jogos em campo por amor ao Tricolor. O carinho era tamanho que ele chegou ajudar a erguer o Morumbi em meados da década de 50, vendendo cadeiras cativas e fazendo propaganda do projeto na praça Roberto Gomes Pedrosa. Daí mais uma vez se comprova a proximidade de Poy com o tango. A palavra não tem sua origem completamente esclarecida.

             Uns dizem que ela vem de línguas africanas. A maioria prefere atribuir a palavra à inspiração do verbo em português “tocar”, no sentido de emocionar. E se houve um sentimento que guiou a passagem desse homem pelo clube do Morumbi que ajudou a construir, ele foi a emoção em pessoa. Seu amor pelo Tricolor do Morumbi era tão grande, que costumava dizer; “Eu não nasci dia 16 de abril de 1926. Eu nasci dia 1 de julho de 1948, dia em que cheguei no São Paulo F.C. Sem dúvida alguma, foi uma das mais lindas história de amor que já houve entre um jogador e um clube de futebol.

Em pé: Turcão, Alfredo Ramos, Poy, Bauer, Dino e Mauro    –   Agachados: Alcindo, Durval, Lauro, Bibe e Luiz Marini
Em pé: De Sordi, Poy,Riberto, Ademar, Vitor e Mauro    –    Agachados: Cláudio, Peixinho, Gino, Amaury e Roberto
Em pé: De Sordi, Poy, Deleu, Riberto, Procópio e Benê    –   Agachados: Célio, Gonçalo, Gino, Baiano e Agenor
Em pé: Alfredo Ramos, De Sordi, Pé de Valsa, Poy, Vitor e Mauro     –   Agachados: Sastre, Dino Sani, Zezinho, Negri e Canhoteiro
Em pé: Djalma Santos, Poy, Fernando Sátiro, Gildésio, Riberto e Vitor    –   Agachados: Julinho, Almir, Gino, Gonçalo e Canhoteiro

 

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