BEIJOCA: folclórico herói do E. C. Bahia

                     Jorge Augusto Ferreira de Aragão, mais conhecido como Beijoca, nasceu em Salvador (BA) no dia 23 de Abril de 1954. Foi um dos maiores atacantes da história do futebol da Bahia. Beijoca foi um dos grandes ídolos do Esporte Clube Bahia.

                    Beijoca, apelido que ganhou por mandar beijinhos nas comemorações dos gols que fazia, também era reconhecido por ser um jogador polêmico e controverso. Beijoca passou sete anos no Bahia (69, 70, 75, 76, 77, 78 e 84), quando conquistou seis títulos baianos (70, 75, 76, 77, 78 e 79 não foi até o final mais participou da campanha) e marcou 106 gols, o que fazem de Beijoca o 11º maior artilheiro do Bahia em todos os tempos.

                    A paixão de Beijoca pelo futebol começou cedo. A mãe, Elisabeth Pereira de Aragão, era capixaba, porém torcedora apaixonada de um time do qual Beijoca se acostumou a ser carrasco, o Vitória da Bahia. Ele era muito garoto. Sua mãe levava Beijoca e seus irmãos para o estádio para ver o Vitória. Ela era torcedora ferrenha. Mas creio que Deus já sabia que eu não seria conhecido como o Beijoca do Vitória, e sim como o Beijoca do Bahia. E esse clube que tanto ama.

E.C. BAHIA

                  Com talento reconhecido desde cedo, Beijoca se tornou profissional com 16 anos. Em seu primeiro e único jogo pelo time de juniores, marcou quatro gols e, como prêmio, foi promovido a profissional. A missão de Beijoca não era fácil. O jovem soteropolitano, nascido no Pelourinho, o mais baiano dos bairros de Salvador, chegava para atuar em um time que contava com ninguém menos do que José Sanfilippo, argentino ídolo do Bahia e maior artilheiro da história do San Lorenzo da Argentina.

                 Mas, ainda no começo do campeonato, Beijoca mostrou que tinha estrela. Em uma partida pelo Torneio Roberto Gomes Pedrosa de 1970, o Bahia perdia por 2 a 0 para o Corinthians, em Sergipe. O Tricolor empatou a partida e, nos minutos finais, o garoto Beijoca marcou o primeiro dos seus mais de cem gols com a camisa do Tricolor da Boa Terra.

                 No Bahia, Beijoca fez parte da geração 70, que conquistou o hepta campeonato baiano, entre 1973 e 1979. Ele participou de cinco dessas conquistas. Beijoca atuou ao lado de grandes ídolos da história do Bahia: Sanfilippo, Baiaco, Elizeu Godoy, Perivaldo, Sapatão, Jésum, Douglas. Este último, considerado por Beijoca o maior parceiro com quem já jogou. Dentro de campo, não poderia deixar de ser Douglas. Ele foi responsável por 50% do sucesso de Beijoca. “Jogar com ele foi um prêmio de Deus. Para mim, Douglas foi um grande fenômeno do futebol mundial. Eu digo sem medo: Não teria sido o Beijoca sem o Douglas” disse Beijoca.

                Dentro de campo, apesar de toda raça, dedicação e talento em prol do Bahia, Beijoca era do tipo que não levava desaforo para casa. Socos e pontapés fizeram parte do repertório do artilheiro. Beijoca diz que bateu muito, mas também apanhou bastante.

               Fora das quatro linhas, mais confusão. Durante toda a carreira, Beijoca acumulou 14 processos devido às confusões que causava. O álcool era outro parceiro constante. Apesar de tudo isso, a autoconfiança sempre fez de Beijoca um ser diferenciado.

               Essas coisas marcam a nossa vida. Lógico que foi uma situação em que não condiz com a carreira de um jogador profissional. Houve uma polêmica muito grande porque ele tinha saído no sábado. Não seria correto ele jogar, mas os jogadores se reuniram e pediram para que ele jogasse, e os presenteou com aquele gol que deu o título de campeão baiano bem em cima do seu maior rival. Frase de Beijoca “Não nasci para jogar futebol, nasci para fazer gol. Deus me deu o dom de fazer gols”.

FLAMENGO

               Em 1979, Beijoca chegou ao Flamengo para atuar ao lado de craques como Zico, Adílio, Carpegiani, Júnior, Raul e companhia. A primeira confusão não demorou a acontecer. Poucos dias após a sua chegada, Beijoca arrumou problemas no avião que transportava a equipe em uma excursão pela Europa.

              Mas foi no Maracanã que Beijoca se tornou um vilão rubro-negro. Ele entrou em campo nos minutos finais da partida contra o Palmeiras, pelo Campeonato Brasileiro daquele ano. O jogador foi chamado pelo treinador Cláudio Coutinho quando o Flamengo perdia por 4 a 0. No primeiro lance, Beijoca atingiu duramente um jogador adversário e foi expulso. No vestiário, o atacante ainda discutiu com o treinador. Em pouco mais de um ano, Beijoca estava de volta ao seu time do coração.

              Mesmo assim ele considera uma passagem maravilhosa. Chegou no fim de 1978 para 1979. Foi campeão da Taça Guanabara, tricampeão carioca e campeão do troféu Ramón de Carranza, na Espanha. Em um ano, conquistou três títulos. E naquela época, para jogar no Flamengo tinha que ser craque. Jogar no Flamengo foi muito bom, mas nada comparado a jogar no Bahia, ele sempre dizia. Pelo Mengão atuou em apenas nove partidas (seis vitórias, um empate e duas derrotas) e marcou um gol.

              Dispensado pelo Mais Querido do Brasil, Beijoca iniciou uma escalada e passou por diversos clubes incluindo Catuense, Vitória, Fortaleza e Sergipe. De vida bastante desregrada, o habilidoso ex-atacante já não mais apresentava boas atuações desde os trinta anos, no entanto, encerrou a carreira apenas no ano de 1990, jogando pelo decadente Camaçari.

              Se a passagem pelo Flamengo foi rápida e com problemas, Beijoca viveu no Bahia uma era de glórias. Com muitas idas e vindas, o ex-atacante sabe que está eternizado no coração dos tricolores. Sua história foi, inclusive, mostrada pelo filme “Bahêa Minha Vida”, que conta a história do clube baiano através dos seus principais ídolos e, principalmente, torcedores. Herói, folclórico, amado. Beijoca sabe que, toda vez que um camisa 9 vestido com as cores do Bahia balançar as redes adversárias, vai ecoar uma velha estrofe na cabeça de quem o viu em campo: “Eu quero ver Beijoca jogando bola, eu quero ver Beijoca bola jogar.”

CONFUSÕES

              Poucos jogadores são tão identificados com um clube como Beijoca é com o Bahia. Em três passagens pelo Tricolor, conquistou seis títulos e marcou 106 gols. Mas ficou marcado pelas confusões com adversários, farras, bebedeiras e prisões. No “Arena”, o ex-jogador relembrou um caso que o coloca na lista dos “bad boys” do futebol, quando estava no Flamengo. “Quando eu fui vendido para o Flamengo (em 1979), eu estava em Salvador e ia viajar para o Rio de Janeiro já para encontrar o time do Flamengo e viajar para a Espanha. Disputaríamos o Torneio Ramón de Carranza. E uma semana antes eu me envolvi em um episódio aqui em Salvador e fui preso aqui na área da Montanha, que é uma área de prostituição.

              Aí pegamos um vôo Rio-Madri, direto. Eu nem conhecia direito os jogadores, a comissão técnica, e eu comecei a beber no avião. Passava aquelas aeromoças bonitas. E aí, se não me engano, o Cláudio Adão virou e disse: “Essa loira é muito bonita, você tem coragem de passar a mão na perna dela?” Não só peguei na perna, como peguei nas nádegas dela. E aí foi um reboliço – prosseguiu Beijoca, contando a história sobre o maior time da história do Flamengo.

              Em 2010, em entrevista à Revista Placar, Beijoca relatou o problema que enfrentou em sua carreira por conta do alcoolismo. Em 1976, jogando pelo Bahia, na final do Campeonato Baiano contra o Vitória, Beijoca chegou às 4:00hs da madrugada na concentração, alcoolizado. Deram um banho nele, comida e glicose. Beijoca acordou no ônibus, a caminho do estádio e no caminho pediu para tomar uma cerveja. Entrou em campo contra a vontade do treinador, Orlando Fantoni, mas fez o gol da vitória, que deu o título ao Bahia.

MUDANÇA DE VIDA

              Por incrível que pareça, o truculento ex-jogador não é nem sombra daquele homem que cansou de causar confusões inimagináveis dentro de campo. Depois de perder praticamente tudo o que tinha e se ver dominado pelo vício do álcool, Beijoca foi buscar na religião a força para mudar de vida. Tornou-se evangélico e atualmente prega em várias igrejas de Salvador.

              No passado de atleta, o baiano de Salvador sempre foi muito querido pelos torcedores do Bahia, onde começou a carreira nos juvenis do Bahia, onde foi campeão baiano em 1970/71, 1978, 1981/82.
Além do Bahia, ele atuou no São Domingos, Fortaleza, Sport, Flamengo, Catuense, Vitória, Londrina, Leônico, Sergipe, Mogi-Mirim e Guará.

              O ex-artilheiro agora é funcionário das Divisões de Base do Bahia. Em 2004, quando completou 50 anos, foi homenageado pelo Bahia. Entrou em campo com a camisa 9 que o consagrou, antes de uma partida na Fonte Nova, e foi ovacionado pela galera. Em 2008, ele concorreu a vereador de Salvador nas eleições municipais.

              Beijoca virou pastor evangélico, mas não deixou as polêmicas de lado. Recentemente, declarou ao jornal “Lance” que foi mais jogador que Ronaldo, do Real Madrid. “Eu chutava com as duas pernas, era habilidoso, apesar de forte, e fatal nas finalizações, além de ser um exímio cabeceador. Fui, portanto, mais completo e melhor que ele [Ronaldo].

              Beijoca deixou em campo marcas que fizeram dele um atacante único. Irreverente, brigão, polêmico, falastrão, herói e anti-herói. Durante seus mais de 20 anos de carreira, Beijoca foi personagem de histórias que o transformaram em lenda do folclore do futebol.

              Hoje é um homem de fala mansa, olhar sereno: Beijoca é um homem tranquilo. Há 11 anos, o eterno ídolo do Bahia se tornou evangélico. Com a religião, veio o arrependimento por muitos erros cometidos durante a carreira. O ex-atacante não tem vergonha de abrir o coração a cada entrevista e relembrar suas histórias: brigas, dopings, infiltrações, noitadas, e outras situações lamentadas pelo baiano.

              Em toda história do Bahia, poucos jogadores simbolizam tão bem o clube como Jorge Augusto Ferreira Aragão, o Beijoca. Entre muitas idas e vindas, o atacante passou três vezes pelo Tricolor. Em sete anos de clube, Beijoca ganhou seis títulos e marcou 106 gols.

Em pé: Rafael, Sapatão, Roberto Rebouças, Baiaco, Romero e Ubaldo   –    Agachados: Tirson, Douglas, Beijoca, Fito Neves e Marquinhos
O primeiro em pé é o goleiro Ronaldo Passos, Sapatão é o quinto e o penúltimo é Baiaco. Agachados: o terceiro é Beijoca, seguido por Fito Neves e Jésum
Fortaleza 1982 – Em pé: Clésio, Pedro Basílio, Nélson, Salvino, Chagas e Alexandre   –    Agachados: Adílton, José Eduardo, Beijoca, Assis e Edimar
Em pé: Gilberto, Samuel,Nelsinho, Marcos, Tovar e Cardoso   –    Agachados: Hamilton Rocha, Édson, Mauro, Beijoca e Darcy
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