CORINTHIANS 4×3 PALMEIRAS – Dia 25 de Abril de 1971

                Naquela tarde fria e garoa, do dia 25 de abril de 1971, o público que compareceu ao estádio do Morumbi, assistiu um dos maiores espetáculos de futebol proporcionados por Corinthians e Palmeiras em toda sua história. Para fazer parte da lista de jogos históricos, não precisa necessariamente ser uma final de campeonato. Esse, sem dúvida alguma, foi um dos jogos mais emocionantes da história, não só do Corinthians, mas do futebol brasileiro. O jogo foi válido pelo primeiro turno do Campeonato Paulista, campeonato este que teve seu início dia 27 de fevereiro, com o Corinthians derrotando o São Bento de Sorocaba por 2 a 1, gols de Mirandinha e Tião, enquanto que Adilson marcou o único tento da equipe da Manchester Paulista. Era a décima primeira rodada do Paulistão de 1971 e a tabela marcava para aquele domingo gelado na capital paulista, um dos clássicos mais acirrados do futebol brasileiro, ou seja, Corinthians x Palmeiras. O Corinthians vinha mal no Campeonato Paulista e iria enfrentar o Palmeiras de Leão, Luís Pereira, Dudu, Ademir da Guia, etc. A torcida, no fundo, sabia que a vitória era muito difícil, mas mesmo assim foi ao Morumbi, afinal não é por acaso que ela é chamada de Fiel. Mal sabia o que os esperavam.

               Para esta partida o técnico Francisco Sarno, do Corinthians, mandou a campo os seguintes jogadores; Ado, Zé Maria, Luís Carlos, Sadi e Pedrinho; Tião e Rivelino; Lindóia, Samarone, Mirandinha e Perí. Do outro lado, o técnico Rubens Minelli escalou a seguinte equipe; Leão, Eurico, Baldochi, Luís Pereira e Dé; Dudu e Ademir da Guia; Fedato, Héctor Silva, César e Pio. O árbitro da partida foi Armando Marques. Neste jogo tivemos um público pagante de 60.445 torcedores, o que proporcionou uma arrecadação de Cr$ 405.279,00.

PRIMEIRO TEMPO

               O jogo começou de uma forma alucinante, principalmente por parte da equipe de Parque Antarctica. Nem mesmo o mais otimista torcedor palmeirense imaginava um início tão arrebatador. Logo aos 35 segundos de jogo, o Palmeiras abriu o placar através do centroavante César. A torcida esmeraldina foi a loucura.

               Aos 9 minutos, novamente Cesar aumenta o placar. Festa na arquibancada onde se encontrava a torcida palmeirense, enquanto do outro lado, a torcida corintiana já começava a se preocupar, temendo uma goleada histórica, principalmente por ter um time cheio de estrelas como Leivinha, Ademir da Guia, Leão, Luis Pereira entre outros todos acharam que aquela tarde não seria do Corinthians que sentiu o gol logo no começo de jogo e demorou pra se encontrar na partida. Se aproveitando desse apagão do Corinthians o Palmeiras marca o segundo gol, Palmeiras 2 x 0 Corinthians, com menos de 10 minutos de jogo. O Corinthians, após o segundo gol, conseguiu segurar o ímpeto palmeirense e não tomou mais gols no primeiro tempo e assim terminava a primeira etapa daquele clássico de tanta rivalidade, Palmeiras 2×0 Corinthians.

SEGUNDO TEMPO

              Para o segundo tempo, o técnico corintiano faz duas substituições. Entrou Natal que havia chegado do Cruzeiro de Belo Horizonte e saiu o ponta direita Lindóia. Entrou também Adãozinho, um jovem que estava despontando no time de cima, no lugar de Samarone. O técnico Rubens Minelli também faz uma alteração, entrou Leivinha no lugar do uruguaio Hector Silva. E assim o árbitro apita o início da segunda etapa. Na volta do intervalo o Corinthians voltou com outra postura e logo aos 5 minutos marcou o seu primeiro gol no jogo, com Mirandinha após cobrança de falta de Rivelino. O gol corintiano reanimou a partida com jogadas perigosas para os dois lados, até que aos 24 minutos Adãozinho recebeu a bola com carinho antes da grande área, dominou com estilo e com um chute preciso no ângulo esquerdo de Emerson Leão fez um golaço. Era o gol do empate em 2 a 2 contra o arqui rival Palmeiras. Adãozinho correu para a ovação da massa corintiana.

               Adãozinho, que na época era ainda um garoto de 19 anos e que tinha entrado no decorrer da partida. Foi sem dúvida o gol mais bonito e importante de toda sua carreira. Só tinha um problema: para sua posição, o Corinthians contava com Rivelino. Por isso, Adãozinho nunca conseguiu se firmar como titular. Era um craque, seu problema era que as seguidas contusões que eram consequências, em grande parte, de infecções causadas por focos dentários, forçaram várias interrupções ao longo de sua carreira. Mesmo assim, Adãozinho permaneceu no elenco a tempo de conquistar o histórico título paulista de 1977. A última partida de Adãozinho pelo Corinthians aconteceu dia 24 de junho de 1978, quando o Corinthians perdeu para o Sport por 3 a 0 pelo Campeonato Brasileiro. Adãozinho faleceu dia 12 de junho de 2011 devido a insuficiência renal.

              Mas voltemos ao jogo. Um minuto depois do gol de Adãozinho, o atacante Leivinha acertou um chute de fora da área desempatando a partida aos 25 minutos para a equipe de Parque Antarctica, 3 a 2 para o Verdão. Aí que o verdadeiro espírito corintiano veio à tona e aquelas coisas que só o Corinthians pode fazer aconteceu. Antes mesmo do time do Palmeiras conseguir comemorar o seu terceiro gol, o árbitro Armando Marques apita o reinicio do jogo e Tião pega a bola e vai levando até chegar diante do arqueiro Leão que também é driblado e com o gol aberto, Tião faz o terceiro gol corintiano empatando a partida aos 26 minutos. Tudo igual novamente, 3 a 3 e festa alvinegra nas arquibancadas. O público presente ao Morumbi naquela tarde fria de 8 graus, não acredita naquilo que está vendo. Em três minutos tivemos três gols, o que levou as duas torcidas a loucura e sem imaginar o que poderia acontecer até o final daquela partida, pois tudo era inacreditável naquele jogo, o qual já estava se transformando no jogo do ano e que certamente iria entrar para a história.

               Mas o melhor de tudo ainda estava por vir. Aos 43 minutos do segundo tempo em um contra ataque do Corinthians, Mirandinha recebe a bola já entrando na área, dribla o marcador e bate pro gol, a bola bate num zagueiro palmeirense e volta para Mirandinha, que novamente chuta pra marcar o quarto gol do Corinthians no jogo e dar números finais a essa que é uma das viradas mais espetaculares da história corintiana. Como dissemos, o árbitro da partida foi o Sr. Armando Nunes da Castanheira Rosa Marques, que não poderia ficar de fora daquele grande espetáculo sem também aparecer. Sendo assim, resolveu expulsar de campo os jogadores Rivelino e Leivinha, mesmo com o tempo regulamentar esgotado. Logo depois, ele levantou os braços e apita o final do jogo, com o placar do estádio apontando Corinthians 4×3 Palmeiras. Festa alvinegra!!

               O Corinthians mostra por que é o time da virada, da raça, da garra, da determinação!!! Uma virada inesquecível em cima do arqui-rival Palmeiras. Tudo o que o torcedor corintiano mais gosta! Esse, sem dúvida alguma, foi um dos jogos mais emocionantes da história, não só do Corinthians, mas do futebol brasileiro. Para o torcedor corintiano, todo jogo do Timão já é especial por si só. Porém, há aqueles que ultrapassam os limites da razão. É onde entram a raça, a superação, as lágrimas… Quando a torcida corintiana se identifica com algum determinado jogador o motivo certamente é devido a representação do corintianismo em campo.

              Determinação, persistência e respeito a história do Corinthians são qualidades que sublima o operário-jogador ao vestir a camisa alvi-negra. Não ter bola perdida significa para muitos jogadores risco a integridade física, para aquele que assumi o corintianismo é a estrutura do triunfo. Naquele dia 25 de Abril de 1971 estivemos diante da comemoração de um dos exemplos mais dignos do ser Corinthians. Quase cinquenta anos se passaram, poucos daqueles que vestem a camisa corintiana hoje jamais ouviram falar sobre esta partida marcada pela luta e determinação. Ainda em tempos de “jejum” a vitória sobre o arqui-inimigo representou o orgulho de torcer para o Corinthians o time do povo!

               O jogo não valeu título, mas dificilmente sai da memória de qualquer um dos mais de 60 mil que compareceram ao Morumbi naquele dia chuvoso. Depois de ver César Maluco marcar duas vezes, os corintianos foram para o vestiário perdendo de 2 a 0. Aos 24 minutos do segundo tempo, porém, tudo estava empatado. Até Leivinha, um minuto depois, colocar o Palmeiras novamente à frente. Aos 27, para matar qualquer um do coração, Tião empatou. Tudo parecia encaminhar para o empate, mas Mirandinha não quis assim. Aos 43 minutos, ele marcou o gol da vitória daquela que seria a virada mais inesquecível da história do clássico paulista envolvendo Corinthians e Palmeiras.

               Foi um jogo que além das reviravoltas no placar e as fortes emoções vividas pelas duas torcidas, também foi recheado por grandes craques que certamente jamais sairão da memória dos torcedores. De um lado tínhamos Rivelino, Natal, Samarone, Mirandinha, Luiz Carlos, Zé Maria, Ado e do outro simplesmente Ademir da Guia, Dudu, Leão, Baldochi, tínhamos também o saudoso Fedato, que nos deixou em 20 de janeiro de 2000, tínhamos Hector Silva, outro extraordinário jogador uruguaio, César que chamavam de “maluco” pela sua irreverência, Leivinha que dispensa qualquer comentário e Luiz Pereira, um dos maiores zagueiros deste país. Enfim, não foi um jogo qualquer, foi um jogo que entrou para a história por diversos motivos e quem ganhou com isto foi o torcedor que ama o futebol, aquele que chora com a derrota de seu time e vibra com sua vitória. Este é o futebol brasileiro, que tantas glórias tem dado ao torcedor, mas que infelizmente nos dias de hoje não vê um espetáculo como este, pois os jogadores de hoje não tem mais aquele amor pelo clube que ele defende. Por tudo isso, esse clássico entre Corinthians e Palmeiras, jamais sairá de nossa memória e já faz parte dos jogos históricos do nosso futebol.

S. C. CORINTHIANS PAULISTA – 1971      –     Em pé: Luiz Carlos, Tião, Sadi, Ado, Zé Maria e Pedrinho       –     Agachados: Lindoia, Samarone, Rivelino, Mirandinha e Peri
SOCIEDADE ESPORTIVA PALMEIRAS – 1971      –     Em pé: Eurico, Leão, Nelson, Luiz Pereira, Dé e Dudu      –     Agachados: Edu, Hector Silva, César, Ademir da Guia e Pio

 

 

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