JUNQUEIRA: um exemplo de amor ao Palmeiras

                   José Junqueira de Oliveira nasceu dia 26 de fevereiro de 1910, na cidade de Vargem Grande do Sul – SP. Foi considerado o melhor zagueiro que a Sociedade Esportiva Palmeiras já teve antes do famoso jogador Luis Pereira. Vestiu a camisa do alviverde de 1931 até 1945, conquistando diversos títulos. Começou no Palestra Itália e terminou no Palmeiras. Foi o único clube que defendeu em toda a carreira. Também foi capitão por diversas vezes da Seleção Paulista, além de ter feito algumas participações com a camisa da Seleção Brasileira na década de 1940.

                  Sua estréia no time de Parque Antarctica, aconteceu no dia 23 de agosto de 1931, quando o Palestra empatou em 0 a 0 num jogo amistoso com o Comercial de Ribeirão Preto. Depois desta, ainda viriam mais 325 partidas com a camisa do Verdão, sendo que foram 201 vitórias, 73 empates e 52 derrotas. Não marcou nenhum gol, pois naquela época os zagueiros dificilmente passavam o meio de campo, era quase que proibido.

                  Uma rápida olhada na ficha técnica de Junqueira, já serve para que todos entendam o motivo que o tornou um dos principais jogadores de toda a quase centenária história do Palmeiras. Além das 326 partidas que disputou, condição que o torna o 23º jogador a mais vezes ter atuado pelo alviverde, chama a atenção a quantidade de títulos expressivos que conquistou: nove, sendo sete deles do Campeonato Paulista, o que o faz ser o recordista do Verdão neste quesito.

                  Mas é claro que o detalhe mais expressivo é o tempo que decorreu entre a sua estréia e a sua despedida do Parque Antárctica. Foram mais de 14 anos ininterruptos, o que por si só a deixa bem claro o amor que Junqueira sentia pelas cores verde e branco. Não à toa, foi dele o primeiro busto a ser erguido nos jardins palmeirenses, que hoje tem a companhia de Waldemar Fiúme e Ademir da Guia.

                  Dentro de campo, os que tiveram a sorte de vê-lo jogar dizem que se tratava de um zagueiro forte e viril, mas que esbanjava categoria e era incapaz de desferir um pontapé ou mesmo de dar uma entrada violenta nos atacantes. Aliás, durante muitos anos foi apontado como o melhor beque palmeirense em todos os tempos, condição que perdeu apenas após a chegada e a consagração de Luís Pereira.  Capitão do time durante todo o tempo em que o defendeu, Junqueira encerrou sua carreira no próprio Palmeiras, tendo sido o único clube que defendeu durante sua vida profissional.

                 Durante os 14 anos que defendeu o alviverde, Junqueira viveu momentos de glória, como por exemplo os Campeonatos Paulistas de 1932, 33 e 34, pois, com o passar do tempo, o futebol atingiu uma maturidade que exigia que fosse tratado de maneira mais séria no país. A solução para isso foi o início do profissionalismo desse esporte, que gerou o grande ‘boom’ de jogadores em busca de fama, já que o esporte atraía um número cada vez maior de interessados. Na época, não é difícil  de imaginar quem era a melhor equipe do país.

                Com o tricampeonato Paulista e o primeiro título do recém-criado torneio Rio/SP, símbolo da seriedade que o esporte atingia, o Palestra simplesmente não tinha rivais na época. As campanhas foram arrasadoras, sendo 11 vitórias em 11 jogos em 1932, e 12 vitórias em 14 jogos em 1934. Porém, o ano de 33 foi sem dúvida o mais importante dos três.

                Nesse ano, o Verdão foi campeão Paulista, campeão do Rio/SP e ainda conquistou a maior goleada do clássico contra o Corinthians, 8×0 pelo segundo turno do Paulistão (no primeiro turno, outra goleada, desta vez por 5×1). Para coroar a equipe, também em 1933 aconteceu a inauguração do estádio Parque Antarctica, palco de tantas glórias e conquistas futuras. Sendo duas vezes artilheiro nesses anos, o atacante Romeu Pelicciari foi considerado o maior destaque do time, cravando seu nome na memória do torcedor palmeirense, junto com outros craques como Junqueira (que ganhou um busto no Palestra) e Imparatto.   

               Dia 26 de agosto de 2017 o alviverde completou 103 anos de sua fundação, portanto muitos jogadores já passaram pelo clube, no entanto, lá nos jardins da sede social do Palmeiras há bustos de apenas três jogadores. Os privilegiados são Junqueira, Waldemar Fiúme e Ademir da Guia. O pequeno número de craques imortalizados tem uma explicação: segundo os estatutos palmeirenses, tal honraria só pode ser concedida a jogadores que, como profissionais, jamais tenham enfrentado o Verdão. No caso, Junqueira e Fiúme começaram e encerraram suas carreiras no Palestra/Palmeiras, e Ademir da Guia, embora tenha iniciado no Bangu-RJ, não chegou a jogar contra o Verdão pelo time carioca.

                Até hoje o goleiro Oberdã Catani, que defendeu as cores alviverde por 15 anos, luta para ter também uma estátua sua lá no Parque Antarctica, mas o estatuto do clube é muito rigoroso. Apesar de ter se dedicado ao Palmeiras por tantos anos, acabou encerrando a carreira no Juventus, por imposição do então presidente do Palmeiras, Pascoal Byron Giuliano, fato que impede que tenha um busto em sua homenagem no Parque Antarctica, pois ele fez uma única partida pelo time da Moóca contra o Palmeiras e este jogo lhe custou caro. A legislação do clube não permite conceder tal honraria a atletas que tenham atuado contra o Palmeiras, independente de sua importância histórica. Oberdã também viveu o drama da perseguição e troca de nome. Não era fácil jogar num time com nome italiano naqueles tempos difíceis de guerra.

               Junqueira foi um homem que ficará eternamente na história do Palmeiras, pois ele viveu aquela mudança do nome do clube que ocorreu em 1942 devido a Segunda Guerra Mundial. Dia 22 de agosto de 1942, o Brasil declarou guerra à Alemanha e à Itália, entrando no conflito. A partir daí, tudo tinha qualquer ligação com esses dois países, inclusive o Palestra Itália. Sendo assim, foi marcada para o dia 13 de setembro de 1942, uma reunião no clube para a escolha do novo nome.

               E foi do sócio Mário Minervino, a sugestão de “Sociedade Esportiva Palmeiras”, que foi aprovada por todos os demais. Esta difícil decisão foi tomada dias antes do jogo mais importante do clube naquele ano, ou seja, da decisão do Campeonato Paulista de 42.  O jogo seria contra o São Paulo F.C. no dia 20 de setembro.  O time do Palmeiras entrou no gramado do Pacaembu, carregando uma bandeira brasileira e, um dos jogadores que carregava esta bandeira era o zagueiro Junqueira. 

               O jogo foi tenso e violento, mas o Palmeiras sagrou-se campeão vencendo o tricolor por 3 a 1 com gols de Cláudio (que depois seria ídolo no S.C. Corinthians Paulista), Del Nero e Echevarrieta. Para o tricolor marcou Waldemar de Brito, aquele que anos mais tarde iria descobrir o maior jogador de futebol de todos os tempos, Pelé.  Portanto, a título de curiosidade, o primeiro gol marcado já com o nome de Palmeiras, foi de Cláudio, um jogador que até hoje é o maior artilheiro do Corinthians com 305 gols, mesmo jogando na ponta direita.

               E já no seu primeiro ano de Palmeiras, o alviverde conquistou seu primeiro título. A equipe que entrou para a história do clube foi a seguinte; Oberdan, Junqueira e Begliomini; Zezé Procópio, Og Moreira e Del Nero; Cláudio, Waldemar Fiume, Villadoniga, Lima e Echevarrieta. O técnico foi Del Débbio.  Com 40 jogos pela Seleção Brasileira, o zagueiro atuou por 14 anos no Palmeiras (1931-1945), o único clube de sua carreira. Na equipe, ganhou sete paulistas, um recorde no alviverde. Seus principais títulos foram: Campeonatos Paulista de 1932, 1933, 1934, 1936, 1938 (extra), 1940, 1942 e 1944; Torneio Rio-São Paulo de 1933; Taça de Campeões Rio-São Paulo de 1934 e 1942; Taça Estadual de Campeões de 1932 e Torneio Início de 1930, 1935, 1939 e 1942.

              O jogo de sua despedida aconteceu dia 30 de dezembro de 1945, quando o Palmeiras empatou com o Corinthians em 3 a 3 num jogo amistoso realizado no Estádio Municipal do Pacaembu e os gols do alviverde fora marcados por; Rolim, Waldemar Fiume e Oswaldinho, enquanto que para o Corinthians marcaram; Cláudio (2) e Palmer. O árbitro desta partida foi João Etzel Filho e neste dia o Palmeiras jogou com a seguinte formação; Aldo, Junqueira e Oswaldo; Og Moreira, Túlio e Valdemar Fiume; Oswaldinho, Gonzales (Dino), Rolin (Lima), Villadoniga e Canhotinho. O técnico era Osvaldo Brandão.

              Junqueira, o maior quarto-zagueiro dos primeiros 50 anos de alviverde, faleceu dia 25 de abril de 1985 em São Paulo. Poucos conhecem ou lembram dele, como não conhecem ou lembram de muitos craques do passado, pois o tempo vai passando e os homens que tiveram o privilégio de verem aqueles monstros sagrados jogarem, muitos deles também já não estão mais entre nós. Por isso, nossa coluna “Memória do Futebol” trás todo domingo um pouco da história que ficou num passado não tão distante, mas que infelizmente aos poucos vão se apagando das nossas memórias.

Seleção Paulista de 1943   –   Em pé: Del Débbio (técnico), Junqueira, Brandão, Zezé Procópio, Oberdan, Oswaldo e Dino   –    Agachados: Luizinho, Lima, Leônidas, Remo e Hércules
Em pé: o técnico Del Débbio, Zezé Procópio, Og Moreira, Junqueira, Oberdã Cattani, Clodô, Begliomini, Del Nero e dois integrantes da comissão técnica   –    Agachados: Cláudio, Waldemar Fiúme, Viladôniga, Lima e Echevarrieta
Em pé: Junqueira, Echevarrieta, Oliveira, Begliomini, Pancho e Del Nero    –   Agachados: Gijo, Waldemar Fiúme, Capelozi, Pipi e Lima
Em pé: Dacunto, Og Moreira, Waldemar Fiúme, Caieira, Oberdan Cattani e Junqueira   –    Agachados: Gonzáles, Lima, Bóvio, Villadoniga e Jorginho

           

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