AMILCAR: primeiro jogador corintiano a defender nossa seleção

                   Amilcar Barbuy nasceu dia 29 de abril de 1893, na cidade de Rio das Pedras – SP. Foi ao lado de Neco, o primeiro grande ídolo corintiano. Foi também o primeiro jogador do Corinthians a ser convocado para defender a seleção brasileira, para disputar o campeonato Sul-Americano, de 1916, na Argentina. Sua família sempre esteve ligada ao Corinthians desde a fundação. Um de seus irmãos, Hermógenes, era litógrafo e foi ele quem desenhou o primeiro distintivo alvinegro. Depois de trocar o Botafogo, um time da várzea do Bom Retiro, Amilcar começou a jogar entre os titulares do Corinthians no fim do Campeonato Paulista de 1913.

                   No ano seguinte, já se sagraria campeão, tornando-se também o capitão da equipe. Como capitão, destacava-se pelo forte espírito de liderança e pela alta técnica. A partir do Campeonato Paulista de 1917, trocou a posição de centroavante pela de centro-médio, onde se consagrou definitivamente. Quem o viu jogar, diz que ele foi o mais perfeito centro-médio do futebol brasileiro de todos os tempos.

CORINTHIANS

                  Sua estréia com a camisa do alvinegro aconteceu dia 7 de setembro de 1913, quando o Corinthians derrotou o Germânia por 2 a 0, gols de Amilcar e Peres. No ano seguinte sagrou-se campeão paulista com uma rodada de antecedência. O jogo foi contra Campos Elyseos e o Timão venceu por 4 a 0, gols de Apparício, Neco, Peres e Police. Neste dia o técnico Casemiro Gonzales que também era jogador da equipe, mandou a campo a seguinte formação; Aristides, Fulvio e Casemiro Gonzales; Police, Bianco e Cesar Nunes; Américo, Peres, Amilcar, Apparício e Neco. Este foi o primeiro título da história do S. C. Corinthians Paulista e foi de forma invicta, pois dos dez jogos que disputou, venceu todos.

                  No ano seguinte o Corinthians não participou do Campeonato Paulista, mas em 1916 voltou e sagrou-se campeão novamente. Dia 1 de dezembro de 1918, aconteceu o primeiro confronto entre as equipes das duas maiores torcidas do País, também foi o primeiro confronto interestadual do Timão. O Corinthians saiu-se vitorioso por 2 x 1 com gols de Neco e Amilcar para o Timão, e Carlos Araújo para o Flamengo. Em 1922, quando se comemorava o primeiro Centenário da Independência do Brasil, o Corinthians conquista o título vencendo o forte Paulistano na final por 2 a 0. Em 1923 sagra-se bi campeão paulista.

                 Depois, por motivos pessoais que nunca ficaram bem explicados, resolveu trocar o Corinthians pelo Palestra Itália, mas voltaria posteriormente como treinador. Como jogador, disputou 208 partidas com a camisa do alvinegro de Parque São Jorge. Venceu 153, empatou 25 e perdeu 30. Marcou 89 gols. Sua última partida pelo Corinthians aconteceu dia 14 de outubro de 1923, quando já havia conquistado o título daquele ano e perdeu para o Sírio por 3 a 2. Neste dia o Corinthians jogou com; Colombo, Rafael e Del Débbio; Gelindo, Amilcar e Ciasca; Peres, Neco, Gambarotta, Tatu e Rodrigues. O técnico foi Guido Giacomelli.

PALESTRA ITÁLIA 

                  Como o Corinthians não disputou o Campeonato Paulista de 1915, Amilcar e outros jogadores foram emprestados para outros clubes. Coincidentemente neste ano, Amilcar participou da primeira partida da história do Palestra Itália, vitória de 2 a 0 contra o Savóia. Este jogo aconteceu na cidade de Sorocaba, no Castelões.  Como Amilcar tem origem italiana, tornou-se sócio do Palestra Itália, por um deve de italianismo. Isso fez com que participasse deste famoso jogo que entrou para a história do clube esmeraldino.

                 Quanto ao motivo de Amilcar ter deixado o Corinthians para jogar no Palestra Itália, muitos anos depois foi revelado o verdadeiro motivo, que foi o seguinte; Amilcar era extremamente honesto e amoroso ao quadro que ele jogava. Quando eles construíram o estádio do Corinthians na Ponte Grande em 1918, seu pai se tornou concessionário de um bar. Em 1922, um daqueles diretores que todo quadro tem, que só deseja nepotismo e prejudicar os outros pra ajudar os amigos em benefício próprio, tirou-lhe o bar. A reação de Amilcar foi também sair do Corinthians.

                 No Palestra-Itália Amilcar foi bicampeão paulista em 1926 e 1927, acumulando a função de capitão e técnico, o que já fazia no Corinthians. Para a diretoria do Palestra-Itália ele foi bem vindo, porque era um grande jogador, duas vezes Campeão Sul-Americano, um cartaz a mais para o Palestra. Assim ele foi levando até 1930, quando começou a se tornar técnico já remunerado, porque passou a treinar o Antarctica Futebol Clube. No Antarctica ele levou diversos jogadores para o futebol, como o nosso Jaú e o Petronilho, que marcava gols de bicicleta antes de Leônidas. Com a camisa do Palestra Itália, Amilcar disputou 100 partidas. Venceu 68, empatou 15 e perdeu 17. Marcou 11 gols pelo alviverde.

LÁZIO DA ITÁLIA

                 Em 1931 aconteceu a primeira grande leva de jogadores do futebol brasileiro para o exterior, mais precisamente pra Itália, no time da Lázio. Começou na verdade, no final de 1930, por imposição do Senhor  Benito Mussolini, que praticamente o dono da Lázio, pedindo ao Senhor Luiz Fabbi, que foi inclusive quem marcou o primeiro gol da história do Corinthians, que contratasse jogadores que aprimorassem o quadro da Lázio. Ele levou perto de oito ou nove  jogadores, como Del Debbio, Pepe, Seraphini, Tedesco, Rato, De Maria, Filó e os dois Fantoni de Belo Horizonte (Ninão e Nininho).

                 Isso fez começar um grande êxodo de jogadores brasileiros, que aliás, foram os primeiros a serem exportados, no que ocasionou um fato muito interessante depois que eles embarcaram pra Itália, que não era de avião, mas de navio, levando 13 dias. O Mappin tinha uma loja na Rua 15 de Novembro, com vitrines enormes, sendo que  numa dessas, eles colocaram a foto da Seleção Brasileira, fazendo com que o povo arrebentasse a vitrine rasgando esta fotografia como uma revolta à esta ida para a Itália.

                 O que ocasionou esta ida para o futebol italiano foi uma declaração de Amilcar dizendo que, infelizmente, eles estavam indo embora porque os clubes daqui se apropriavam de todo o dinheiro, não repassando pra benefício dos jogadores. Na Itália começaram como profissionais, ocasionando o nascimento do Profissionalismo do futebol aqui no Brasil em 1933. Foi nesta ocasião que Amilcar voltou ao Brasil e trabalhando como treinador.

TREINADOR

                 Depois que encerrou a carreira de jogador em 1930, passou a viver fortes emoções fora das quatro linhas. Chegou a comandar a Lázio, de Roma, mas por conta da contusão de alguns jogadores, voltou aos gramados em mais algumas ocasiões, exibindo seu maravilhoso futebol. Seu primeiro clube no Brasil foi o Palestra. Como treinador do Verdão dirigiu o time em 144 jogos com 93 vitórias, 24 empates e 27 derrotas.  Foi técnico do Corinthians em situações diferentes. Inicialmente, quando não havia um profissional específico para a função e coube a ele escalar o time. Depois, entre os anos de 1930 e 1940. No total, foram 192 jogos com 135 vitórias, 18 empates e 39 derrotas. Dirigiu o São Paulo em 19 jogos, com 12 vitórias e sete derrotas.Também comandou Portuguesa de Desportos, Portuguesa Santista e Atlético Mineiro.

SELEÇÃO BRASILEIRA

                 Em 1916, foi convocado para disputar o Campeonato Sul-Americano, na Argentina. O Brasil realizou quatro partidas. Venceu 1, empatou 2 e perdeu 1. Marcou 4 gols e também sofreu 4 gols. Em 1919, Amilcar disputou outro Sul-Americano, desta vez no Brasil. Foi o primeiro título importante que a nossa seleção conquistou. Vencemos o Chile por 6 a 0, a Argentina por 3 a 1, empatamos com o Uruguai em 2 a 2 e na final vencemos o Uruguai por 1 a 0, gol de Friedenreich na prorrogação. Na vitória sobre a Argentina, Amilcar marcou um gol antológico. O goleiro argentino foi até a linha da grande área e deu um chutão.

                 A bola caiu no pé de Amilcar, que ao ver o goleiro adiantado, chutou do meio de campo encobrindo o arqueiro e fazendo o segundo gol brasileiro. Foi o gol que Pelé tentou e não conseguiu na Copa de 70. O time do Brasil Campeão Sul-Americano de 1919 era formado por Marcos, Píndaro e Bianco; Sérgio, Amílcar e Fortes; Millon, Neco, Friedenreich, Heitor e Arnaldo Silveira. Depois da grande conquista do Sul-Americano de 1919, o futebol brasileiro passou a ser levado à sério pela primeira vez, porque antes não tinha o espaço que tem nos jornais de hoje. Dizia-se, inclusive, que nos jornais, outros esportes como o cricket tinham páginas maiores que o futebol.

                 Com a camisa da nossa seleção, Amilcar disputou 19 partidas. Venceu 10, empatou 5 e perdeu 4. Marcou 4 gols. Amilcar era um excepcional jogador que morreu bestamente, depois de uma bolada no nariz que infeccionou, morrendo depois. Amilcar faleceu dia 24 de agosto de 1965. Morava no bairro da Aclimação, centro de São Paulo, quando faleceu e foi enterrado com a camisa do Palmeiras. Cerca de vinte e cinco anos após sua morte, Amilcar Barbuy empresta seu nome a uma rua no bairro do Parque São Domingos, zona noroeste de São Paulo, próximo à Rodovia Anhanguera.

Palestra Itália de 1915   –  Amilcar está em pé e é o terceiro da direita para a esquerda
Corinthians de 1914    –    Em Pé: Américo, Peres, Amilcar, Apparício e Neco    –   Agachados: Police, Bianco e César    –     Sentados: Fúlvio, Sebastião e Casemiro Gonzales
Corinthians de 1922     –     Da esquerda para a direita: Mário, Peres, Amílcar, Rafael, Del Débbio, Gelindo, Neco, Ciasca, Tatu, Gambarotta e Rodrigues
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