IDÁRIO: o Deus da raça

                Idário Sanches Peinado nasceu dia 7 de maio de 1927, na cidade de São Paulo. Foi um dos mais aguerridos jogadores da história do Corinthians, por isso, recebeu o carinhoso apelido de “Sangue Azul”, tal era sua raça e vontade de vencer. Só por isso já caiu nas graças da Fiel Torcida, que sempre amou os jogadores que davam a vida pelo Corinthians. Jogou de 1949 até 1959, realizando 468 partidas com a camisa do alvinegro de Parque São Jorge. Nesse período conquistou inúmeros títulos, sendo que o principal foi o Campeonato Paulista de 1954, quando sagrou-se campeão do IV Centenário. Foi um lateral direito de muita raça, venceu alguns duelos contra grandes pontas dos anos 50, entre eles Canhoteiro, do São Paulo e Rodrigues, do Palmeiras, uma época de ouro do futebol brasileiro. Quem teve a honra de assistir estes duelos pode-se dizer que foi um privilegiado, pois os jogadores jogavam por amor a camisa de seus clubes.

CORINTHIANS

                Começou a carreira no aspirante do Corinthians em 1949 e logo que subiu para o time de profissionais foi logo identificado pela sua garra e determinação. Descendente de espanhóis, Idário passou a ser chamado pela torcida corintiana de “Sangue Azul” e de “Sangre” (sangue em espanhol), mas para as torcidas adversárias era considerado um carniceiro. Ele se superava pela valentia, insuflado pelos gritos que vinham das arquibancadas. “Pega ele, Idário”. Pedia a massa, colocada ao alambrado do Pacaembu. E ele ia e pegava, a bola ou o adversário. Em seus 468 jogos pelo alvinegro de Parque São Jorge, marcou época. Foram 290 vitórias, 101 empates e 77 derrotas. Marcou 6 gols com a camisa do alvinegro.

               Conquistou 6 títulos pelo Timão e até hoje é lembrado pela torcida alvinegra, pois foi um verdadeiro Deus da raça. Sua primeira partida no time titular foi no dia 11 de dezembro de 1949, quando o Corinthians empatou com o São Paulo em 3 a 3. Neste dia o alvinegro jogou com; Bino, Newton e Belfare; Idário, Touguinha e Hélio; Cláudio, Luizinho, Baltazar, Nelsinho e Noronha. Os gols corintianos foram marcados por: Cláudio (2) e Luizinho, enquanto que para o Tricolor marcaram: Friaça (2) e Leônidas da Silva.

               Depois desse jogo, tomou conta da posição por dez anos. Nesse período foi três vezes campeão paulista (1951, 1952 e 1954), mas se consagrou mesmo, em 1954, quando sagrou-se Campeão Paulista, conquistando assim, o título do IV Centenário, formando a defesa ao lado do goleiro Gilmar e dos zagueiros Alan e Olavo. Este jogo aconteceu dia 6 de fevereiro de 1955 e o adversário era o arqui-rival Palmeiras. Durante este jogo, Idário recebeu uma bolada desferida por um chute forte de Jair da Rosa Pinto e chegou a perder os sentidos, mas ainda no gramado recobrou a consciência e disse ao médico Aroldo Campos, “Doutor, o senhor não é louco! Ninguém vai me tirar deste jogo, nem deste e nem de nenhum outro”.

               O médico ainda tentou segura-lo, mas Idário se desvencilhou e voltou ao gramado do Pacaembu para continuar o duelo com o ponta Rodrigues, do Palmeiras e da Seleção Brasileira. Idário sabia que não tinha substituto e desejava com toda sua força conquistar aquele título pelo Corinthians. Lutou bravamente dentro de campo, e o dia 6 de fevereiro de 1955 ficou marcado na história alvinegra, o Corinthians empatou com o Palmeiras em 1 a 1 e sagrou-se Campeão do IV Centenário da cidade de São Paulo, um título que todos os clubes de São Paulo cobiçavam em ganhá-lo, mas coube ao S. C. Corinthians Paulista esta façanha.

               Dois dias depois, Idário chegou ao Parque São Jorge com lágrimas nos olhos, então confidenciou ao seu amigo Carbone o porque uma dor de cabeça era pouco para tirá-lo de uma final tão importante como aquela. Depois, mostrando sua perna, estava em carne viva, corroída por uma eczema que Idário escondia do médico por medo de ser tirado do time. Tentava curá-la sozinho com aplicações de sulfa. Não fazia isto por dinheiro nem pela fama que nunca conseguiu em abundância, mas pelo amor que tinha pelo Corinthians. Idário assinava contratos com o clube em branco e era até criticado por esta atitude por seus companheiros, ao que sempre respondia: “Não jogo por dinheiro, jogo por amor ao Corinthians”.

               A história do Corinthians sempre esteve ligada à raça e determinação de seus jogadores, sua torcida apaixonada jamais deixou de acreditar no time dentro de campo e ao longo da história alguns jogadores se destacaram pela valentia, por se tornarem verdadeiros guerreiros de São Jorge defendendo o Timão, porém um deles em especial se destacou não só pela raça e determinação, mas também pelo amor que sentia pelo Corinthians, e este alguém sem dúvida foi Idário. Além dos títulos paulistas de 1951, 52 e 54, foi também campeão do Torneio  Rio-São Paulo em 1950, 53 e 54. Realmente foram os anos dourados do S. C. Corinthians Paulista.

               Sua última partida pelo alvinegro de Parque São Jorge aconteceu no dia 20 de maio de 1959, quando o Corinthians fez um amistoso na cidade da França e perdeu para o Stade Reims por 3 a 2. Neste dia o Timão jogou com; Gilmar, Idário e Olavo; Oreco, Goiano e Roberto Belangero; Bataglia, Paulo, Índio, Luizinho e Tite. O técnico era Silvio Pirilo, que se desentendeu com Idário, pois queria que ele marcasse por zona e aquilo foi o fim para o guerreiro, que se destacou justamente pelo contrário, por marcar em cima, por sufocar o adversário e com isto o jogador acabou deixando o Parque São Jorge e foi jogar no Nacional Atlético Clube, da capital paulista, onde encerrou sua brilhante carreira pouco tempo depois.

TRISTEZA 

               Parou de jogar com 33 anos de idade e ainda era jovem para ficar parado, sendo assim, foi trabalhar na Estrada de Ferro Santos – Jundiaí, onde permaneceu por 25 anos, onde se aposentou de vez, pois os problemas de saúde começaram a aparecer. Como não conseguiu fazer um bom pé de meia enquanto jogava, pois sempre jogou por amor ao clube sem jamais pensar no futuro, começaram a surgir as primeiras dificuldades financeiras, assim como os problemas de saúde, sendo assim começou a depender de outras pessoas.

                Somado seu rendimento ao da esposa, eram quatro salários mínimos, consumidos em boa parte na compra de medicamentos. Idário enfrentou uma inflamação crônica na próstata, artrose nos joelhos, problemas na bexiga e uma catarata, agravada por uma enfermidade nas pálpebras. Sem filhos, resistia com dificuldades, sem seguro de saúde. Numa certa entrevista, quando já estava com 81 anos de idade, disse que estava com problemas no coração, na vista, na audição e outros tipos de problemas, mas que estava recebendo uma ajuda do Corinthians, de alguns torcedores e alguns associados do clube.

                Sua esposa dona Natividade, falou que estava muito feliz com todo o apoio dado ao seu marido, também agradeceu a iniciativa de ajudar um grande ídolo da história do clube. E disse ainda “foi muito especial o que o Corinthians fez por nós. Nunca vou me esquecer disso, nunca. Agradeço a todos os corintianos por esse apoio. O Idário está internado e já não enxerga direito, mas essa ajuda do Corinthians é fundamental para nós. Muito obrigado” – agradeceu a Sra. Natividade.

               Depois dessa entrevista, muitos corintianos ficaram sensibilizados com a situação do ex- ídolo, mas será que os heróis dos grandes clubes não merecem o mesmo tratamento da época que davam o sangue pelo clube? Afinal, Idário foi um guerreiro obstinado, escondia as contusões para seguir defendendo o clube do coração. Como tantos outros de sua geração, Idário não fez fortuna com o futebol. Aos 81 anos de idade, vivia de maneira modestíssima num pequeno apartamento na Praia Grande, litoral paulista.

               Alguns jovens do site “Loucos por Ti” e de membros de uma comunidade corintiana do Orkut, levantaram fundos para auxiliá-lo na compra de alguns remédios. Também mandaram confeccionar uma placa comemorativa que resgatava o valor desse ídolo de várias gerações. Sempre ficou uma dúvida, como que o patrocinador do clube sendo uma das principais empresas de saúde privada, não estava ajudando-o? Acontece que dona Natividade nunca falava de suas dificuldades e com isso chegou a atrasar duas contas de telefone e um condomínio.

               Além disso, chegou a dever R$ 2.000,00 na farmácia. Pensou em vender o apartamento para pagar o tratamento de Idário. Ela tinha dispensado a enfermeira porque restavam apenas R$ 600,00 na conta bancária. E para completar sua tristeza, seu marido, o grande Idário, o Deus da raça, teve o AVC e foi parar num hospital público da cidade de Santos, onde veio a falecer num Pronto Socorro Público, no dia 18 de setembro de 2009 aos 82 anos.

               Idário Sanches Peinado, o Sangue Azul do alvinegro de Parque São Jorge, um jogador que sempre demonstrou seu imenso amor pelo Corinthians, quando saiu do clube foi jogar no Nacional, mas ficou pouco tempo por lá e resolveu encerrar sua carreira. Quando lhe perguntavam por que ele havia parado, sem pensar respondia, pois isto ele nunca escondeu: “Não me sinto bem vestindo outra camisa, que não a do Corinthians”.

1957 – Em pé: Alfredo Ramos, Oreco, Idário, Olavo, Valmir e Gilmar    –    Agachados: Cláudio, Luizinho, Índio, Rafael e Zague
Da direita para a esquerda: Gilmar, Zague, Benedito, Rafael, Olavo, Idário, Índio, Valmir, Oreco, Luizinho e Cláudio
1955 – Em pé: Oswaldo Brandão, Cherry, Olavo, Alan, Idário, Valmir e Goiano  –    Agachados: Nonô, Cláudio, Paulo, Nardo e Simão
1954 – Em pé: Goiano, Idário, Homero, Olavo, Roberto Belangero e Gilmar    –     Agachados: Cláudio, Luizinho, Baltazar, Rafael e Nonô
Em pé: Hélio, Bino, Touguinha, Idário, Newton e Belfare   –    Agachados: Cláudio, Luizinho, Baltazar, Nelsinho e Colombo
Da esquerda para a direita: Cabeção, Baltazar, Touguinha, Lorena, Murilo, Jackson, Carbone, Idário, Julião, Luizinho  e Cláudio
Em pé: Idário, Alan, Olavo, Goiano, Gilmar e Roberto Belangero   –    Agachados: Cláudio, Zague, Rafael, Paulo e Zezé
1954 – Em pé: Alan, Homero, Goiano, Idário, Roberto Belangero e Gilmar    –   Agachaos: Cláudio, Luizinho, Baltazar, Rafael e Nonô
1953 – Em pé: Idário, Julião, Alan, Olavo, Roberto Belangero e Gilmar   –    Agachados: Cláudio, Luizinho, Paulo, Baltazar e Jansen

Campeão do IV Centenário – 1954  –  Da esquerda p/direita: Gilmar, Rafael, Goiano, Homero, Idário, Alan, Nonô, Roberto, Simão, Luizinho, Cláudio e o técnico Osvaldo Brandão.
1951 – Em pé: Cabeção, Idário, Goiano, Homero, Olavo e Julião     –    Agachados: Cláudio, Luizinho, Carbone, Mário e Baltazar

 

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