DOMINGOS DA GUIA: o Divino Mestre

                 Domingos Antonio da Guia nasceu dia 19 de novembro de 1912 no Rio de Janeiro e faleceu dia 18 de maio de 2000. Portanto, se estivesse vivo, na última quarta feira estaria completando 96 anos de idade.  Domingos da Guia foi o primeiro zagueiro clássico e um dos mais habilidosos do futebol brasileiro. Evidências não faltam para constatar que essa afirmação é verdadeira. Foi campeão nos três principais centros do futebol da América do Sul (Argentina, Uruguai e Brasil).  Numa época em que os zagueiros se notabilizavam pela truculência e falta de técnica, Domingos da Guia deixava os torcedores com frio na espinha ao preferir driblar adversários dentro da grande área, do que dar chutões para frente após um desarme. O pioneirismo de Domingos fez escola apesar da desconfiança inicial. Muitos beques da época tentaram imitá-lo, mas poucos tinham a elegância e a técnica natural do mestre. Quando um zagueiro enfeitava  a  jogada,  logo  diziam  que  ele  havia  feito  uma “domingada”, termo até hoje utilizado em lambanças de beques brasileiros.

                 Em 1929, foi descoberto em peladas na zona rural carioca e logo passou a defender o Bangu. Em 1930, pela primeira vez foi convocado pela seleção brasileira e no ano seguinte já estava jogando pelo Vasco da Gama.  Já conhecido por suas características de um zagueiro habilidoso, logo chamou a atenção dos uruguaios e, em 1933, teve uma passagem vitoriosa pelo Nacional de Montevidéu, pois no ano seguinte foi campeão. E foi lá no Uruguai que recebeu o apelido de “El Divino Mestre”, inclusive recebeu uma proposta para se naturalizar uruguaio e defender a seleção celeste na Copa de 1934.  Mas o amor pelo Brasil falou mais alto e não aceitou o honroso convite. Voltou ao Brasil e veio jogar novamente no Vasco, onde ainda em 1934 sagrou-se campeão carioca naquele ano.  Mesmo sendo um ídolo da torcida cruz-maltina, o Divino Mestre recebeu um convite para jogar no Boca Juniors da Argentina. Como sempre gostou de desafios, mais uma vez atravessou a fronteira e garantiu o título argentino em 1935, mostrando que era um jogador destinado a títulos.

              Assim como em Montevidéu, sua passagem por Buenos Aires foi curta e no ano seguinte ele estava de volta ao Rio de Janeiro, mas desta vez para vestir a camisa rubro negra do Flamengo. Na melhor fase de sua carreira, defendeu o Mengão de 1936 até 1943.  Nesse período foi campeão carioca nos anos de 1939, 42 e 43.  Neste último ano, o Flamengo tinha um grande esquadrão, que era assim formado: Jurandir, Newton, Domingos da Guia, Biguá e Artigas; Jaime e Zizinho; Valido, Pirilo, Perácio e Vevé.

             Pelo Flamengo disputou 223 jogos. Venceu 138, empatou 46 e perdeu 39.  Mesmo veterano com 32 anos, resolveu deixar o futebol carioca e jogar em São Paulo. O time escolhido foi o Sport Clube Corinthians Paulista, onde jogou de 1944 até 1948. Neste período sagrou-se campeão da Taça Cidade de São Paulo em 1947. Ficaram em primeiro lugar, Corinthians, São Paulo e Portuguesa, então foi preciso jogar entre si para definir o campeão. O Corinthians venceu o São Paulo por 3 a 2 e quatro dias depois, ou seja, dia 1 de maio de 1947 venceu a Portuguesa por 2 a 1.

              O time corintiano deste dia foi o seguinte; Bino, Aldo, Domingos da Guia, Pellicciari e Aleixo; Hélio e Nenê; Cláudio, Baltazar, Servílio e Ruy.  O técnico era Armando Del Débbio. Pela terceira vez o Corinthians conquistava este título. Pelo Corinthians Domingos da Guia jogou 116 partidas. Venceu 77, empatou 17 e perdeu 22 vezes.   Em 1948 voltou a jogar no Rio de Janeiro e justamente no clube que iniciou sua carreira, o Bangu Atlético Clube. E foi lá no alvirubro de Moça Bonita, que ele encerrou sua carreira. E demonstrou tanto amor pelo Bangu, que chegou até ser homenageado no hino do clube.

              Sua família tem raízes no Bangu, pois Domingos da Guia começou e encerrou sua carreira no clube, seu filho Ademir da Guia que ainda é um dos maiores ídolos do Palmeiras, também começou a carreira no clube e seu irmão, Ladislau da Guia, foi o maior artilheiro da história do Bangu com 215 gols.

SELEÇÃO BRASILEIRA

              Domingos da Guia vestiu a camisa da seleção brasileira em trinta partidas. Disputou vários campeonatos Sul-Americanos e teve a honra de disputar a Copa de 1938 na França, como titular absoluto. Foi uma Copa que o mundo ficou encantado com o brasileiro Leônidas da Silva, que foi o artilheiro com 8 gols.  Mas seria injusto atribuir apenas a Leônidas o sucesso da campanha brasileira naquela Copa, pois o técnico Adhemar Pimenta havia levado 22 jogadores de alto nível, entre eles estavam, Romeu, Tim, Hércules e Domingos da Guia.  

              O Brasil foi eliminado da Copa, num jogo disputado com a seleção italiana, por um placar de 2 a 1, sendo que o segundo gol italiano foi de pênalti. Este lance foi muito discutido na época.  Domingos da Guia levou um pontapé do italiano Piola e de imediato, Domingos revidou.  O árbitro só viu quando Domingos da Guia estava chutando o adversário e marcou pênalti. O placar foi de 2 a 1 para a Itália. Com essa derrota o Brasil ficou fora da grande decisão que seria contra a Hungria, e o Brasil acabou em terceiro lugar naquele mundial, ao vencer a Suécia por 4 a 2.  Domingos nunca se conformou com o lance e lamentava a falta de critério do árbitro.

             Comenta-se que a Itália foi favorecida pela arbitragem durante toda a competição, principalmente porque o líder fascista Benito Mussolini estava presente em todas as partidas e usou a vitória italiana como propaganda do regime totalitário.  O gol de pênalti marcado pela Itália, foi anotado por Giuseppe Meazza. Com este gol ele se tornou um herói em seu país e o estádio do Milan em Milão ganhou o seu nome. Esta foi uma das inúmeras curiosidades daquela Copa disputada na França em 1938.  Pela seleção brasileira, Domingos da Guia disputou 30 partidas. Venceu 19, empatou 3 e perdeu 8 vezes. Foi campeão na Copa Rocca em 1945 e da Taça Rio Branco em 1931 e 1932.  

              Domingos da Guia foi o único jogador que conseguiu ser campeão em três paises diferentes, ou seja, no Brasil pelo Flamengo, Vasco e Corinthians, no Uruguai pelo Nacional e na Argentina pelo Boca Juniors. Era um jogador simplesmente espetacular. Jogou no Corinthians apenas quatro anos, mas até hoje é considerado o melhor zagueiro que já vestiu a camisa alvinegra de Parque São Jorge.  Jogava de cabeça erguida, tinha uma perfeita noção de colocação e se destacava pela antecipação nas jogadas. Por seu futebol quase perfeito, tinha o apelido de Divino Mestre. 

              Foi o maior e mais reverenciado jogador da história do futebol brasileiro. Foi um zagueiro como pouquíssimos na história do esporte. Fazia o que queria com a bola. Era um defensor inovador. Jogava com muita elegância, antevia os lances, fazendo com que a missão de dribla-lo, fosse quase que impossível. Sempre saia jogando com classe e categoria, e não cometia muitas faltas, coisa rara para um zagueiro daquela época.  Obdulio Varela, da seleção uruguaia, campeã de 1950, sempre conta que na época que Domingos da Guia foi contratado pelo Nacional do Uruguai, muitos disseram; “Para que contratar esse brasileiro, se já temos o melhor do mundo (o próprio Obdulio)”. No entanto, quando viram Domingos da Guia jogar, tiveram que se render ao seu estilo clássico e à sua enorme categoria. Até hoje Domingos da Guia é um ídolo no Uruguai, tanto é que foi lá que lhe deram o apelido de “Divino Mestre”.

              Domingos da Guia também é protagonista de um dos casos de pedigree mais bem sucedidos do futebol brasileiro. Pai de Ademir da Guia, o zagueiro viu o filho jogar e tornar-se um dos principais jogadores da história do Palmeiras, pois até hoje o torcedor palmeirense recorda com alegria das vezes que Ademir desfilou pelos gramados brasileiros com a camisa do alviverde de Parque Antártica. E também herdou de seu pai, o carinhoso apelido de “O Divino”.

              Domingos da Guia faleceu dia 18 de maio de 2000, aos 87 anos, vítima de derrame cerebral. Como legado, deixou a certeza de que um zagueiro pode ser sinônimo de estilo clássico, categoria, tranqüilidade e elegância, como também provaram um dia; Djalma Dias, Luiz Pereira, Franz Beckenbauer, Figueroa, Maldini, Mauro Ramos de Oliveira, Roberto Dias e tantos outros.  Só nos resta então, agradecer à Domingo da Guia, pela alegria que proporcionou à todos que tiveram o privilégio de vê-lo jogar, pois com certeza, cada exibição sua, era um colírio para os olhos dos amantes do futebol.

Em pé: Norival; Ruy; Domingos da Guia; Oberdan; Biguá; Jaime de Almeida e o técnico Flávio Costa    –    Agachados: Tesourinha; Zizinho; Heleno de Freitas; Ademir de Menezes e Jorginho Ceciliano.
Seleção Brasileira 1939    –     Da esquerda para a direita: Thadeu; Domingos da Guia; Perácio; Brandão; Zezé Procópio; Florindo; Carrero; Romeu Pellicciari; Leônidas da Silva; Afonsinho e Adílson
Em pé: Jango, Pellicciari, Zalmer, Begliomini, Cyro e Domingos da Guia    –     Agachados: Jerônimo, Servílio, Paulo, Rui e Hércules
Em pé: Pelliciari, Hélio, Aldo, Bino, Domingos da Guia e Aleixo     –     Cláudio, Baltazar, Servílio, Nenê  e Rui
Em pé: Jango, Cirol, Zalmer, Begliomini, Ciro e Domingos da Guia    –     Agachados: Jerônimo, Servílio, Paulo, Rui e Hércules
Ademir da Guia e seu pai Domingos da Guia
Em pé: Rubens, Arlindo, Yustrich, Domingos da Guia, Artigas e Newton    –   Agachados: Valido, Zizinho, Pirilo, Nadinho e Vevé.
Foto inédita – Seleção Brasileira com o uniforme da Seleção Paulista e o losango da bandeira brasileira
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