JAIR BALA: jogou com os maiores craques brasileiros

                   Jair Félix da Silva nasceu dia 10 de maio de 1943, na cidade de Cachoeiro de Itapemirim – ES, terra do Rei Roberto Carlos. Foi um ponta de lança ofensivo e jogou em vários clubes, entre eles, Flamengo, Botafogo, Palmeiras, América Mineiro, Santos, Cruzeiro e muitos outros. O apelido “Jair Bala” surgiu da seguinte maneira; certa vez ele foi ao escritório das categorias de base do Flamengo atrás de um “bicho”, gíria no futebol para dinheiro. Chegando lá, encontrou o funcionário Willian, a quem fez o pedido.

                   Por brincadeira, fingindo tentar fazer o menino mudar de ideia, Willian empunhou uma arma de fogo que estava na gaveta da mesa da sala, de propriedade do dirigente Jaime de Almeida. Não imaginava que estivesse carregada e chegou a apontá-la para a cabeça de Jair. Ao abaixar o armamento, houve um disparo acidental. A bala ricocheteou no chão e foi entrar na coxa esquerda do jovem ponta de lança, parando na virilha. Felizmente, não atingiu  nenhuma  parte  vital.  

                   Anos  depois,  foi  jogar  no  Botafogo.  Também jogava no Fogão  naquela  época,  o  jogador Jairzinho (furacão da Copa de 70). Gerson que era muito gozador, gritava “Jair” e os dois olhavam, então Gerson completava, “Estou chamando o Jair da Bala”.  Posteriormente ficou Jair Bala.

INÍCIO DE CARREIRA

                  O próprio Jair nos conta como foi “Fui descoberto por “Seu Zezinho”. Era educador e também padeiro. Praticamente todos os jogadores formados em Cachoeiro passaram por suas mãos. Eu estava brincando de bola num campinho e quando olhei vi aquele senhor parado me olhando. Eu nem liguei e continuei brincando. Ele chegou perto de mim e me perguntou: você é filho de quem? Eu disse: sou filho do seu Batata.

                  Você é filho do cumpadre Batata e cumadre Conceição? O seu pai foi o maior atacante de Cachoeiro e é meu amigo. Ali começava minha carreira. Fui jogar no infantil do Estrela do Norte, o time da cidade, e numa festa tradicional que tinha com os times de Cachoeiro, o Flamengo tinha sido o convidado daquele ano e eu fiz o gol . O técnico deles era o Fleitas Solich que me convidou para ir jogar no Flamengo. Eu quase desmaiei, pois já era flamenguista e ia jogar no Rio de Janeiro”.

                  Jair chegou na Gávea em 1960 e lá atuou como juvenil, mas entrou na equipe principal por inúmeras vezes. Na época o Flamengo tinha um grande time, pois seu elenco era recheado de craques, como por exemplo; Joel, Moacir, Dida, Gerson, Carlinhos, Henrique Frade, Joubert, Jadir e outros de alta qualidade.

BOTAFOGO              

                  Em 1963, ele se transferiu para o Botafogo de Futebol e Regatas de Garrincha e Nilton Santos, onde assinou o primeiro contrato como profissional, ganhando cerca de Cr$ 4 mil de ordenado. A elegância e o fino-trato com a bola lhe valeram as primeiras crônicas do jornalista Nelson Rodrigues na coluna “À sombra das chuteiras imortais” naquele mesmo ano. Em um de seus textos, Nelson deu tom poético à bala que Jair carrega no corpo e no apelido: “se Jair fosse simplesmente Jair, estaria apodrecendo na obscuridade. À toda hora, em toda parte, nós esbarramos, nós tropeçamos num Jair qualquer. Contra o Madureira, o nosso Jair se disparou realmente como um tiro.

                  Desde o primeiro minuto, foi uma arma apontada para o peito do inimigo”. Jair também foi personagem em vários textos de Roberto Drummond, Fernando Brant e outros cronistas importantes. Jair teve a honra de jogar ao lado de grandes craques, pois o Botafogo naquela época tinha um time extraordinário; Manga, Joel, Paulistinha, Nilton Santos e Rildo; Gerson e Quarentinha; Garrincha, Arlindo, Jairzinho e Zagallo. Na época era o único time que enfrentava o Santos de Pelé de igual para igual.

COMERCIAL DE RIBEIRÃO PRETO

               Jair fala com carinho do tempo que jogou no Comercial, e com toda razão, pois o time conseguiu a proeza de marcar cinco gols no Santos de Pelé dentro da Vila, num jogo que muitos consideram um dos mais espetaculares de todos os tempos. Acabou com uma invencibilidade de 14 jogos do Palmeiras dentro do Palestra Itália. Venceu novamente o Palmeiras por 3 a 0 em Ribeirão, no dia 4 de fevereiro, na inauguração dos refletores do Palma Travassos (primeiro jogo noturno oficial na cidade Ribeirão Preto).

               Humilhou o Bragantino, de Bragança Paulista, jogando em casa, por 8 a 1. Terminou a competição com o quarto lugar, perdendo somente para o Palmeiras, o Corinthians e o Santos. Foi o campeão do Interior paulista. Na época o time era assim formado;  Rosan, Ferreira, Jorge, Piter e Piloto; Amauri e Jair Bala; Peixinho, Luiz, Paulo Bim e Carlos César.

UM CIGANO NO FUTEBOL

               A vida de desportista foi de cigano, mas sempre como destaque pelas equipes por onde passou. Jair Bala atuou pelo Comercial Futebol Clube de Ribeirão Preto/SP – onde é lembrado até os dias atuais como um dos maiores ídolos da história do clube, teve rápidas passagens pela Associação Atlética Ponte Preta de Campinas/SP e Cruzeiro Esporte Clube de Tostão e Dirceu Lopes. Fez parte da Sociedade Esportiva Palmeiras nos tempos da Academia de Ademir da Guia, do Santos Futebol Clube da Era-Pelé, do Esporte Clube XV de Novembro de Piracicaba/SP e finalmente no América-MG, onde alcançou a melhor fase de sua carreira, tendo sido o artilheiro do Campeonato Mineiro em 1964 (o último da Era-Estádio Independência) e em 1971 (quando o clube teve seu primeiro título na Era-Mineirão).

                Jogou também pelo Esporte Clube Bahia e encerrou a carreira como jogador no Paysandu Sport Club. No América, Jair Bala foi campeão mineiro em 1971, num plantel que é até hoje considerado o melhor formado pelo clube, ao lado de Pedro Omar, Juca Show, Misael, Cândido, Zé Carlos Generoso entre outros. Na década de 1990, ele foi eleito o maior jogador americano em todos os tempos por uma enquete do jornal Estado de Minas. O contorno de seus pés está gravado em cimento no hall da fama do estádio Mineirão, em Belo Horizonte.

               Outro grande momento na carreira de Jair foi atuando pelo Santos. Ele substituiu o “rei” Pelé após o milésimo gol na partida contra o Clube de Regatas Vasco da Gama no estádio do Maracanã em 19 de novembro de 1969. No jogo anterior, contra o Bahia, marcou o único gol santista no empate em 1 x 1, que poderia ter antecedido a festa. Na época, Pelé declarou que Jair era seu companheiro ideal para o ataque. Apesar do apoio, ele acabava entrando em campo (quando entrava) só depois do jogo começar. Jair Bala também fez carreira como treinador. Esteve à frente de diversas equipes do futebol mineiro (a estreia foi no Sete de Setembro Futebol Clube) e foi Campeão Brasileiro da Segunda Divisão (conhecida na época como Taça de Prata) dirigindo o Londrina Esporte Clube em 1980.

FORA DAS QUATRO LINHAS

                 Jair Bala é casado com Dona Sônia Albano, com quem teve três filhos. Um deles, Jair Albano Félix, é árbitro de futebol. Jair Bala é fundador e atua até hoje na Associação dos Ex-jogadores do América/MG, a primeira do país a representar atletas que pararam de jogar. Trabalha como funcionário público na Prefeitura de BH e faz participações eventuais no programa Alterosa Esporte, da TV Alterosa, emissora afiliada do SBT em Minas Gerais.

                 É um dos representantes do América na Bancada Democrática do programa. Ficou marcado pelo jeito “boleiro”, autor de frases engraçadas. Entre elas: “O amor é lorota: o que vale é la nota.” Jair Bala é daqueles ex jogadores que a torcida jamais esquecerá. Primeiro pelo futebol que apresentou, digno dos maiores craques do nosso futebol. Depois, porque jogou com os melhores jogadores da historia do futebol brasileiro como Garrincha, Nilton Santos, Gerson, Ademir da Guia, Djalma Santos, Pelé, Carlos Alberto entre outros. Portanto tem muita história pra contar.

                 E aí que entra a parte mais legal do ex jogador e do ser humano Jair Bala. Um cara sensacional, humilde e que alem de gostar de falar sobre o seu passado te recebe em sua casa como um velho amigo. Jair guarda seus troféus numa sala que é uma espécie de porão, num andar inferior  somente com suas relíquias entre elas diversos álbuns com inúmeros recortes de jornais da época. Quadros, bolas e dezenas de placas de prata compõe o cenário. Uma das maiores homenagens que Jair recebeu foi por parte do América Mineiro, que fez uma camisa na qual está escrito “O Atleta do Século”, por tudo que ele fez pelo clube, onde até hoje é considerado o maior ídolo do clube de todos os tempos.

                 Jair Bala jogou com tantos craques que somente entre eles daria para formar a seguinte seleção; Manga, Djalma Santos, Carlos Alberto, Djalma Dias e Nilton Santos; Clodoaldo, Dirceu Lopes e Ademir da Guia; Garrincha, Pelé e Edu. E ainda ficaram de fora muitos craques, como Tostão, Gerson, Zagallo, Quarentinha, Tupãzinho e tantos outros. Dá para encarara ou quer mais?

1967 – Em pé: Djalma Santos, Valdir, Minuca, Baldochi, Dudu e Ferrari    –     Agachados: Gallardo, Suingue, César, Jair Bala e Rinaldo
Comercial de R.P. em 1966   –   Em pé: Rosan, Píter, Jorge, Nonô, Amaury e Ferreira    –    Agachados: o massagista Glostora, Peixinho, Luiz Cai-Cai, Paulo Bin, Jair Bala e Carlos César
Em pé: Batista, Pedro Omar, Elcio, Juarez, Nilton e Misael    –    Agachados: Zé Carlos, Luisinho, Jair Bala, Samuel e Pedrinho
1971   –  Em pé: Nego, Oswaldo Cunha, Pedro Omar, Alemão, Vander e Cláudio Mineiro   –  Agachados: Hélio, Dirceu Alves, Jair Bala, Amaurí e Hilton Oliveira
Em pé: Rosan, Jorge, Nonô, Píter, Amaury e Ferreira   –    Agachados: Peixinho, Luiz Cai Cai, Paulo Bim, Jair Bala e Carlos César.
Em pé: Edson, Tanguinha, Ademir, Macalé, Ademir Gonçalves e Santos    –    Agachados: Celsinho, Chicão, Nicanor, Jair Bala e Piau
Em pé: Carlos Alberto, Aguinaldo, Ramos Delgado, Djalma Dias, Clodoaldo e Rildo    –     Agachados: Luís Carlos Feijão, Jair Bala, Edu, Pelé e Abel
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