JAGUARÉ: primeiro goleiro do mundo a marcar um gol

                    Jaguaré Bezerra de Vasconcelos nasceu dia 14 de maio de 1905, na cidade do Rio de Janeiro. Foi um goleiro que entrou para a história por ser o primeiro a marcar um gol e também pelas molecagens que fazia durante o jogo. Com suas maravilhosas defesas, ele irritava os adversários. Com suas irreverências, ele ganhava todas as torcidas. Foi ídolo do Vasco, e um dia, trocou o futebol brasileiro pela Europa. Lá, seu gênio brincalhão não mereceu tantos aplausos. Quando voltou, estava sem um tostão, e teve um triste fim. Estivador por necessidade e goleiro por vocação, Jaguaré foi o primeiro jogador brasileiro a cortejar a publicidade.

                    Durante os anos que defendeu o Vasco da Gama, e mesmo depois de sua transferência para a Europa, sempre foi noticias nos jornais. Os jornais inventavam muita coisa sobre Jaguaré. Mas, ele era um bom sujeito, uma criança crescida. Antes de chegar ao Vasco, Jaguaré carregava sacos de farinha no Moinho Inglês, lá no Rio de Janeiro. Teve também uma curta passagem pelo Corinthians em 1934, fazendo apenas 15 partidas.

INÍCIO DE CARREIRA

                   Ainda na adolescência começou a trabalhar de estivador no cais do porto. Foi dessa época, antes mesmo de se tornar jogador de futebol, que surgiram os primeiros fatos ou lendas em torno de seu nome. Diziam que cada vez que estufava o peito para segurar com apenas uma mão, sacos de 50 kg de farinha de trigo, destinadas ao Moinho Inglês, de quem era empregado, havia sempre uma enorme assistência para bater palmas. Nas horas de folga Jaguaré gostava de jogar peladas nos campos de várzea do bairro da Saúde, onde era conhecido pelo apelido de “Dengoso”.               

                  Também jogou no Atlético Santista, time amador, de 1926 a 1927. Antes de se projetar no cenário futebolístico como goleiro, Jaguaré foi goleiro, ponta, meia, centroavante e tinha um chute fortíssimo. Nas peladas do Cais do Porto, lugar em que trabalhava, foi descoberto pelos jogadores Espanhol e Peixoto que o levaram para jogar pelo extinto Pereira Passos, mais tarde ambos foram para o Vasco e Espanhol levou Jaguaré com ele em 1928.

VASCO DA GAMA

                  Primeiro treino e ele abafou como goleiro. Tinha uma auto-confiança dos que realmente sabiam o que queriam. O técnico Welfare implicou com o desleixado Jaguaré, mas terminou aceitando o goleiro como ele realmente era, relaxado, moleque, brincalhão e genial no gol. Aprovado pelo técnico, foi imediatamente inscrito na Liga. Mas antes o Vasco teve que contratar um professor particular para lhe ensinar a assinar o próprio nome nas súmulas, pois era analfabeto. Valente e abusado, Jaguaré em pouco tempo se tornou um dos primeiros ídolos da torcida vascaína. A partir daí teve uma carreira fulminante.

                   No mesmo ano de 1928, em que estreou no Vasco, tornou-se titular da seleção brasileira, pela qual participou de três jogos, com três vitórias, em 1928/29. Em 1929 foi campeão carioca. O time do Vasco faturou o título de forma incontestável. Em 23 jogos, ganhou 15, empatou 7 e perdeu apenas um. Foi tão fácil que na partida final o time vascaino bateu o América por 5 a 0. A equipe cruz de malta era formada por; Jaguaré, Tinoco, Brilhante, Itália e Mola. Fausto e Oitenta e Quatro; Pascoal, Russinho e Santana.

                  Não demorou muito, Jaguaré tinha uma legião de fãs. A cada partida inventava uma jogada nova, sempre para desmoralizar o adversário. Torcedores lembram que num jogo Vasco e Bangu, Jaguaré havia prometido que iria driblar Ladislau (tio de Ademir da Guia) que já entrou em campo irritado. Na primeira jogada, o goleiro deu um tapinha na bola encobrindo Ladislau, e quando o atacante voltou o corpo, Jaguaré deu outro lençol e saiu girando a bola na ponta do dedo.

                 Jaguaré não queria saber de “sombra” no Vasco, onde era titular absoluto. Mesmo assim não admitia a presença de outro goleiro que pudesse tomar seu lugar. Ele tinha um chute fortíssimo, sendo assim, quando alguém se apresentava para fazer testes, logo ele o chamava para treinar tiro livre. Assim que o pretendente a arqueiro ficava no centro da meta, Jaguaré desferia um tremendo chute botando-o a nocaute. Mas um dia o feitiço virou contra o feiticeiro.

                 Num certo jogo contra o Corinthians, ele desafiou o zagueiro Grané, dono de um dos chutes mais potentes do futebol brasileiro. Para se ter uma ideia do chute de Grané, quando ele ia bater um tiro de meta dentro da pequena área, os companheiros pediam-lhe que chutasse devagar, porque se ele chutasse com força a bola atravessava o campo e ia perder-se atrás do outro gol. Grané colocou a bola na marca do pênalti e os torcedores aos gritos pediam que Grané chutasse para fora, pois poderia matar o goleiro.

                 Jaguaré saiu do gol e cuspiu na bola, como sempre fazia, o que servia para descontrolar o cobrador. Quando o juiz apitou muitas pessoas viraram o rosto para não assistir a cena que poderia ser trágica. O chute partiu, Jaguaré pulou e segurou a bola. Defendeu, mas largou a bola e foi cair meio desacordado e com um braço fraturado no fundo das redes. 

                 Contra o América, Jaguaré quase mata Alfredinho de raiva. Primeiro defendeu um chute do atacante americano somente com uma das mãos. Depois atirou a bola na cabeça de Alfredinho para fazer nova defesa. Com tantas molecagens, nada mais natural que os estádios enchessem e a fama de Jaguaré inchasse. O Vasco da Gama foi o campeão carioca de 1929. Como prêmio, o time realizou uma temporada em Portugal. Jaguaré ficou encantado com o profissionalismo.

                Terminou ficando pela Europa, junto com Fausto, jogando no Barcelona, para depois se transferir para o futebol francês. De vez em quando, aparecia no Brasil e era um sucesso. Um dia, anunciou que iria treinar no Vasco. São Januário encheu. Jaguaré apareceu de terno branco e chapéu chile pendido de lado. Trocou de roupa e ficou igualzinho a um goleiro europeu, de boné e luvas. Foi o primeiro goleiro brasileiro a usar luvas.

CORINTHIANS

                 Sua estreia aconteceu dia 11 de março de 1934, num jogo amistoso em que o Corinthians derrotou o XV de Jaú por 3 a 0, com dois gols de Mamede e um de Brito. Neste dia o Corinthians jogou com; Jaguaré, Jaú e Jarbas; Brito, Guimarães e Jango; Carlinhos, Baianinho, Mamede, Tedesco e Rato. O técnico foi Pedro Mazzulo.  Seis meses depois a diretoria resolveu substituí-lo pelo goleiro José Hungarez, o primeiro estrangeiro a vestir a camisa do Corinthians. A última partida de Jaguaré com a camisa do alvinegro foi no dia 9 de setembro de 1934, quando o Corinthians perdeu para o Ypiranga por 3 a 2. Este jogo foi no Parque São Jorge. Pelo Corinthians, Jaguaré  disputou somente 15 partidas. Venceu 9, empatou 3 e perdeu 3. Sofreu 13 gols.

EUROPA

                  Em 1936 Jaguaré foi jogar na Europa, mas as molecagens que fazia no Brasil não eram aceitas por lá. Num jogo pela Copa da França, contra o Racing, fez uma defesa de bicicleta. Não foi mandado embora porque o Olympique venceu. Na Inglaterra, depois de uma defesa, atirou a bola na cabeça do adversário. O juiz parou o jogo, chamou o capitão do Olympique para adverti-lo que não iria admitir outra jogada como aquela, e puniu o time francês com um tiro livre indireto.

                  Mas, o grande momento da sua curta carreira se deu na decisão da Copa da França, em junho de 1938, quando o Olympique jogava com o Metz. Seu time perdia por 1 x 0 quando aconteceu um pênalti a favor do Olympique. O lance foi assim descrito pela revista “Sport IIustrado”, em sua edição de 22 de junho de 1938. “Aos 22 minutos, Laurent, zagueiro do Metz, fez um pênalti. Com surpresa de todos os assistentes, Jaguaré abandonou o seu posto e encaminhou-se para o gol adversário. Jaguaré colocou-se diante da bola , e quando o árbitro apitou, bateu o pênalti. Ouviu-se uma exclamação da assistência.

                  Jaguaré enviou a bola a um canto e marcou o gol de empate. Foi o primeiro goleiro a fazer um gol de que se tem notícia”. O Olympique fez 2 x 1. Mas Jaguaré não se tornou o heroi do jogo apenas pelo gol que marcou. Fez mais: aos 28 minutos do segundo tempo, garantiu a vitória do Olympique ao defender “com um salto formidável” a cobrança de pênalti feita pelo jogador Donzelle. Pela sua atuação na decisão, após o término da partida, o presidente da França foi cumprimentá-lo.

DE VOLTA AO BRASIL

                 Um dia, Jaguaré voltou ao Brasil para ficar. Voltou com medo da guerra. Chegou sem um tostão. O dinheiro que ganhou, e não foi pouco, gastou tudo pelas esquinas da vida. Lamentavelmente, não soube guardar o dinheiro que ganhou no Velho Continente. Ao encerrar a carreira no pequeno São Cristóvão, já era um jogador decadente. Voltou a ser estivador e quando falava do seu passado, todos riam e não acreditavam em Jaguaré. Depois, desapareceu. Jaguaré caiu em decadência ao entregar-se ao vício da bebida.

                 Perambulando sem eira nem beira, ele acabou ficando demente. Sabe-se que foi para a cidade de Santo Anastácio no Oeste Paulista. Em 1946, Jaguaré voltou a ser noticia dos jornais. Em um canto de página policial, estava a noticia de que o antigo goleiro do Vasco, Jaguaré tinha se envolvido em uma briga com policiais, que o espancaram muito. Em sua passagem na prisão ele acabou batendo com a cabeça na parede da cela. O diretor da prisão que o conhecia, vendo que o coitado apresentava um quadro de problemas mentais mandou transferi-lo para o Manicômio Judiciário de Franco da Rocha (mais conhecido como Juqueri).

                  Assim que chegou ao departamento foi imediatamente hospitalizado, mas devido ao seu estado precário, Jaguaré, um dos maiores goleiros da história do futebol veio a falecer semanas depois, mais precisamente no dia 27 de agosto de 1946, na cidade de Santo Anastácio – SP aonde Jaguaré foi enterrado como indigente. Por tudo que Jaguaré fez pelo nosso futebol e pelas alegrias que proporcionou aos torcedores brasileiros, só nos resta pedir à Deus Pai, que lhe dê o descanso eterno.

Postado em J

Deixe uma resposta