CÉSAR – um maluco por futebol

                   César Augusto da Silva Lemos nasceu dia 17 de maio de 1945 em Niteroi (R). Polêmico como Serginho Chulapa, Casagrande, e tantos outros, César pertence ao grupo de jogadores que sentia imenso prazer com o romantismo que caracteriza o futebol entre as décadas de 60 e 70.  No íntimo, o jogador que certa vez roubou a bola e interrompeu um clássico no Morumbi, não consegue entender porque não existem mais atletas capazes de promover uma partida com frases polêmicas, mas incapaz de ofender alguém ou gerar brigas entre torcedores.

                  César que para muitos era “maluco”, era mestre em irritar adversários. Mas também fazia gols como poucos no Brasil. Hoje tudo mudou. E até César Maluco não quer mais saber do apelido que era sua marca registrada nos tempos em que vestia a camisa 9 do Palestra Itália, como os mais velhos chamam o time alviverde. Hoje, César acredita que ser chamado de Maluco, prejudicou a sua carreira.     

                 César começou sua carreira no Flamengo do Rio de Janeiro em 1962, com 17 anos de idade, nas categorias de base. Apesar da categoria, a pouca idade não permitiu ao atacante desenvolver todo o seu futebol nos gramados cariocas. No entanto, jogou por dois anos com a camisa rubro negra da Gávea. Realizou 68 partidas. Venceu 32, empatou 18 e perdeu 18. Marcou 38 gols com a camisa do Flamengo. Sem muito alarde, chegou ao Palmeiras no final de 1966 para cumprir contrato de empréstimo firmado entre os dois clubes.  No primeiro treino que realizou no Palmeiras, fez uma de suas brincadeiras costumeiras que fazia no Flamengo. Servílio simplesmente parou o treino, chamou-lhe a atenção e perguntou se ele havia esquecido que não estava mais no Rio de Janeiro.  A partir daí, ele começou a entender porque o futebol paulista é bem diferente do carioca.

                  Com apenas dez dias no alviverde, seu futebol explodiu. Desbancou Tupãzinho, então titular da posição. A diretoria do Verdão agiu rápido, e as boas atuações renderam à César um contrato melhor. Seu passe era adquirido pela equipe paulista. César ainda era um garotão acostumado com o calor e às praias do Rio de Janeiro. De repente, estava em uma cidade enorme e jogando por um time maravilhoso, cheio de feras, como por exemplo, aquele time que venceu o Corinthians por 2 a 1 no Pacaembu dia 9 de março de 1967; Valdir, Djalma Santos, Djalma Dias, Minuca e Ferrari; Zequinha e Ademir da Guia; Gildo, Servílio, César e Rinaldo. 

                  Até hoje o nome de César é sempre associado a partidas maravilhosas que o Palmeiras realizou na década de 70. Além disso, ele conquistou muitos títulos com a camisa alviverde, ou seja, três Campeonatos Paulistas (1966, 1972 e 1974), dois Torneios Roberto Gomes Pedrosa (1967 e 1969), a Taça Brasil de 1967, Ramon de Carranza na Espanha em 1969 e ainda dois Campeonatos Brasileiros (1972 e 1973). Foi realmente um jogador que marcou época no alviverde de Parque Antártica.  Mesmo convivendo com jogadores espetaculares e de nível de seleção, nunca se acomodou e muito menos se intimidou, porque confiava em seu potencial e estava sempre marcando gols, o que levava a torcida palmeirense a loucura.

                  O que não faltam, são histórias sobre este atacante tão polêmico, mas muito querido por todos os palmeirenses, principalmente histórias que envolvem o rival Corinthians.  César passava a semana provocando os adversários. Prometia gols e fazia apostas por meio de programas de rádio e dos jornais. Esbanjava confiança na vitória do Palmeiras, mesmo que o time estivesse desfalcado. Tudo o que César falava servia apenas para irritar a equipe adversária. Por isso, é de se imaginar que César Maluco era odiado pelos oponentes.

                 Quando o domingo chegava, os zagueiros do outro time estavam irritadíssimos com o atacante palmeirense, dispostos a tudo para não deixar o jogador sequer andar em campo. Mas César entrava em campo e se dirigia ao suposto desafeto sem nenhum arrependimento do que havia dito durante a semana. E com seu jeito simples, perguntava ao zagueiro, com estava sua família, e aquilo desmanchava completamente todo aquele ódio que sentia por César a instantes atrás. Costumava gesticular muito, o que fazia com que o torcedor lá da arquibancada pensasse que estava provocando o zagueiro. Puro engano, como se vê, César não tinha mesmo muita coisa de maluco, como muitos pensam.

                 Houve um certo Palmeiras e Corinthians, talvez o mais pitoresco de todos os confrontos entre os dois rivais envolvendo César. O time do Palmeiras vencia por 1 a 0, mas tomava sufoco dos corintianos. Durante o disputadíssimo primeiro tempo, uma das duas únicas bolas permitidas em campo foi chutada para a torcida e nunca mais voltou.  Logo no começo da segunda etapa, o Corinthians empatou. Confusão, empurra-empurra e César tratou de catimbar para dar nova saída. O árbitro ficou irritado e o expulsou de campo.  César não hesitou. Colocou a bola que restava debaixo do braço e saiu de campo para o vestiário.  Jogadores, comissão técnica e representantes da Federação Paulista de Futebol ficaram malucos da vida com César, que foi obrigado a devolver a bola para o reinício do clássico. Mas muito tempo depois.  Como curiosidade: Contra o Corinthians, César marcou 14 gols durante o tempo que vestiu a camisa do Palmeiras.

                   César jogou no Palmeiras de 1967 a 1974, neste período jogou 324 jogos. Ganhou 170, empatou 91 e perdeu 63. Marcou 180 gols com a camisa palmeirense. É o segundo maior artilheiro da história do Palmeiras e fez parte da segunda Academia, que era formada por; Leão, Eurico, Luiz Pereira, Alfredo e Zéca; Dudu e Ademir da Guia; Edu, Leivinha, César e Nei.   Em 1975, César deixou o Palmeiras como parte da reformulação do elenco proposta pela diretoria que comandava o clube na época. Um pouco chateado, o atacante fechou contrato com o Corinthians. Mas a pressão de defender o maior rival do Verdão pesou e César permaneceu apenas oito meses no Parque São Jorge. 

                    Sem o mesmo arranque, o centroavante esteve muito longe de ser o mesmo jogador dos tempos de Palestra Itália. Chegou no Corinthians em janeiro e no dia 2 de março de 1975, fazia sua estreia com a camisa alvinegra, numa partida em que o Corinthians empatou com o XV de Piracicaba por 1 a 1. Não foi uma boa estreia, principalmente porque perdeu um pênalti no último minuto da partida. Um mês depois, César perderia mais um pênalti, desta vez contra o Santos.

                   Alguns dias depois contra o América de São José do Rio Preto, novo pênalti para o Corinthians, mas desta vez seus próprios companheiros não deixaram ele bater.  Nesta época o time do Corinthians era o seguinte; Sérgio, Zé Maria, Baldochi, Ademir e Wladimir; Tião, Ruço e Basílio; Vaguinho, Lance e César. O técnico era Silvio Pirilo.  Com a camisa do Corinthians, César jogou 37 partidas. Venceu 21, empatou 10 e perdeu 6. Marcou 8 gols.  Em 1976 jogou algum tempo na Internacional de Limeira, depois jogou no Santos F.C. Em 1977 começou a jogar em diversos clubes, como; Fluminense de Feira de Santana (BA), Botafogo de Ribeirão Preto, Rio Negro (AM), Universidad Católica, do Chile, e Salônica, da Grécia, até encerrar sua carreira em definitivo.

                   Com suas boas atuações, principalmente no Palmeiras, César conseguiu também um lugar na Seleção Brasileira e foi um dos convocados para a Copa do Mundo de 1974, na Alemanha. Mas pela seleção, também não conseguiu repetir o sucesso dos tempos de Verdão. Atuou com a amarelinha em 11 partidas (6 vitórias, 3 empates e 2 derrotas) e fez apenas 1 gol.  O futebol como o conhecemos não permite mais a presença de sujeitos como César Maluco. Jogasse atualmente, sob as regras do chatíssimo profissionalismo, um dos maiores atacantes da história do Palmeiras teria abandonado o esporte e nunca disputado uma Copa do Mundo com a camisa da seleção brasileira.

                   Até hoje a sede social do Palmeiras costuma lotar no verão e, no meio daquelas crianças correndo de um lado a outro, encontramos antigos torcedores que ainda relembram com alegria dos bons tempos que o clube tinha verdadeiros esquadrões e o que não falta também nestas conversas, são os inúmeros casos envolvendo César, que era uma atração a parte em cada partida do Verdão.  Atualmente, César mora na zona oeste de São Paulo, acompanha sempre as partidas do Palmeiras e trabalhou em revendedora de veículos. 

                  César passou um momento delicado em 2006, quando sofreu um acidente de carro, que ocorreu na avenida Heitor Penteado, na zona oeste de São Paulo. Na ocasião, o ex-atacante também fraturou a perna.  Já sofreu três cirurgias no estômago, uma no quadril e por um bom tempo caminhou com auxílio de andador. A cirurgia no quadril foi necessária por causa do acidente de carro, o qual muitos dizem que só escapou por um milagre.

                   Pai de três filhas e avô de dois netos, César ainda hoje é lembrado com muito carinho pelo torcedor palmeirense, que acostumou a vibrar com seus gols e suas brincadeiras provocantes para com o adversário daquela semana.  Se ele era maluco eu não sei, só sei que era um grande atacante e honrava a camisa do Verdão como poucos, pois durante o tempo que jogou no alviverde de Parque Antártica, conquistou vários títulos, inclusive dois Campeonatos Brasileiros (1972 e 1973).

Cesar recebendo das mãos do repórter Gerdi Gomes, o prêmio de melhor em campo
Em pé: Eurico, Leão, Nelson, Luiz Pereira, Dé e Dudu – Agachados: Edu, Hector Silva, César, Ademir da Guia e Pio

 

Em Pé: Eurico, Leão, Luiz Pereira, Alfredo, Dudu e Zéca Agachados: Edu, Leivinha, César, Ademir da Guia e Nei
Em pé: Djalma Santos, Perez, Baldochi, Minuca, Dudu e Ferrari Agachados: Dario, Servilio, César, Ademir da Guia e Tupãzinho
INTERNACIONAL DE LIMEIRA – 1976

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