ESPANHOL: brilhou no Flamengo e no Corinthians

                   José Armando Ufarte Ventoso nasceu dia 17 de maio de 1941, na cidade de Pontevedra, na Galícia da Espanha. Jogou no Flamengo, no Corinthians, no Racing Santander da Espanha e no Atlético de Madri, onde conquistou duas Copas do Rei. Também fez parte do elenco da seleção espanhola que disputou a Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra, onde a Espanha não passou da primeira fase. Em 1974 Espanhol encerrou sua carreira como jogador e começou a trabalhar como treinador.

                  Aos 14 anos, já era um adolescente quando o pai, um mecânico local, deixou o país com toda a família, atravessando o Atlântico até aportar no Rio de Janeiro, mesmo destino de tantos outros europeus na mesma época. Apaixonado por futebol, o jovem espanhol levava jeito na ponta direita ao ingressar nos juvenis do Flamengo, no final da década de 50. Exímio driblador e muito veloz, o garoto seguia a melhor tradição de ponteiros de seu país. Em 1961, o técnico paraguaio Fleitas Solich o lançou ao time de cima do Flamengo, pois via nele um futuro craque.

FLAMENGO

                  A estreia de Espanhol na equipe de cima do Flamengo, aconteceu no Torneio Rio-São Paulo de 1961, mais precisamente no dia 25 de março, quando o Flamengo derrotou a Portuguesa de Desportos por 2 a 0 no Maracanã, ao substituir o atacante Henrique. Quatro dias depois, fez sua primeira partida como titular, ajudando o Mengão a bater o América por 2 a 1. No entanto, essa experiência não durou muito. Para a mesma posição, o Flamengo havia trazido de volta Joel, tricampeão carioca pelo clube em 1953, 54 e 55 com o chamado “Rolo Compressor”, campeão do mundo em 1958 com a Seleção Brasileira na Suécia. Com isto, foi emprestado ao Valencia da Espanha, para adquirir experiência. Depois de alguns meses estava de volta ao Brasil e desta vez por empréstimo ao Corinthians. 

CORINTHIANS

                  Espanhol fez sua estreia com a camisa corintiana dia 10 de setembro de 1961, quando o Corinthians derrotou o Noroeste de Bauru por 2 a 1 pelo Campeonato Paulista daquele ano. O jogo foi no estádio Alfredo de Castilho, em Bauru e neste dia o técnico Martim Francisco do Corinthians mandou a campo os seguintes jogadores; Aldo, Jaime, Walmir, Ari Clemente e Oreco; Da Silva e Rafael; Espanhol, Manoelzinho (Adilson), Beirute e Gelson. Os gols do alvinegro foram marcados por Espanhol e Rafael, enquanto que Castelo marcou o único tendo do time interiorano.

                  No Campeonato Paulista de 1961 o Corinthians fez uma campanha ridícula e os rivais de brincadeira acabaram apelidando o time de “Faz Me Rir”, tanto é que perdeu as cinco primeiras partidas do campeonato. E para piorar a situação, sofreu uma goleada de 5 a 1 para o Santos no dia 16 de agosto e outra de 7 a 0 para a Portuguesa de Desportos dia 15 de novembro. Com isto, o Corinthians terminou o campeonato em 7º lugar com 33 pontos. Disputou 30 jogos, venceu 12, empatou 9 e perdeu 9. Marcou 49 gols e sofreu 48. O campeão foi o Santos e o artilheiro da competição foi Pelé, com 47 gols.

                 A última partida de Espanhol com a camisa corintiana aconteceu dia 01 de julho de 1962, quando o Corinthians goleou um combinado de Laranjal Paulista por 6 a 0, num jogo amistoso realizado no Estádio Municipal de Laranjal Paulista. Neste dia o técnico Fleitas Solich mandou a campo os seguintes jogadores; Cabeção, Augusto (Walmir), Eduardo (Raul Simões), Ari Clemente (Benites) e Oreco (Tôni); Cássio (Sidnei) e Rafael (Abib); Bataglia (Espanhol), Silva (Felício), Manoelzinho (Beirute) e Ferreirinha (Lúcio). Os gols foram marcados por Silva (2), Manoelzinho, Rafael, Felício e Sidnei. Com a camisa do alvinegro de Parque São Jorge, Espanhol disputou 38 partidas: venceu 21, empatou 12 e perdeu 5  –  Marcou 9 gols.

 DE VOLTA AO FLAMENGO  

                 Espanhol reestreou na abertura do segundo turno do Campeonato Carioca, vencendo o Madureira por 2 a 0 em Caio Martins, dia 30 de setembro de 1962. A afirmação veio em 1963, ano que conquistou a titularidade indiscutível e que retornou a seu continente de origem numa excursão de quase dois meses e 16 jogos do Flamengo pela Europa, onde a equipe enfrentou adversários (clubes, combinados e seleções) da Romênia, Polônia, Suécia, Dinamarca, União Soviética, França, Áustria e Checoslováquia. E a consagração chegou no final daquele ano, com o título carioca, o qual o clube não conquistava há oito temporadas.

                  Naquela campanha, Espanhol disputou todas as 24 partidas e, além de inúmeros passes precisos e cruzamentos na medida para o centroavante Aírton “Beleza” (artilheiro rubro-negro na competição com 15 gols), contribuiu com outros quatro, sendo dois de importância crucial para o título: o primeiro foi o da vitória por 2 a 1 sobre o São Cristóvão, no antigo campo botafoguense de General Severiano, em 11 de setembro. Sem Aírton, expulso ainda na etapa inicial, e contra um adversário fechado para segurar o empate com um jogador a mais, coube ao ponta marcar, aos 41 minutos do segundo tempo, o tento que garantiu dois preciosos pontos ao Flamengo.

                  O outro foi o segundo na vitória por 3 a 1 sobre o Bangu, um dos adversários diretos na briga pelo título, em 24 de novembro no Maracanã, a quatro rodadas do fim do campeonato. Graças a essas jogadas, o Mengo pôde chegar à decisão precisando só empatar com o Fluminense, o outro grande aspirante à taça. E Espanhol esteve em campo naquele jogo histórico. Os 194.603 espectadores presentes ao estádio naquele 15 de dezembro de 1963 viram um Flamengo heroico, que, em uma atuação espetacular do goleiro Marcial, segurou o ímpeto tricolor, garantiu o 0 a 0 e deu a volta olímpica. A equipe do Flamengo campeã carioca em 1963 era a seguinte; Marcial, Murilo, Ananias, Luiz Carlos Freitas e Paulo Henrique; Carlinhos e Nelsinho; Espanhol, Airton, Geraldo José e Osvaldo.

                  O ano seguinte seria o último de Espanhol na Gávea. Em maio, após terminar o Rio-São Paulo na quarta colocação, o Flamengo partiu para nova excursão ao exterior, dessa vez iniciada no continente africano. O time jogou na Costa do Marfim e em Gana; foi ao Oriente Médio enfrentar a seleção do Líbano; e finamente chegou à Europa, onde jogou na Itália (empate com o Milan no San Siro), nas Alemanhas Ocidental e Oriental, na Espanha e na União Soviética. E foi em sua própria terra que Espanhol levantou seu último caneco pelo Flamengo.

                 Em Valencia, os rubro-negros disputaram o tradicional Troféu Naranja, ao lado dos donos da casa e do Nacional do Uruguai, e que terminou em um tríplice empate. No primeiro jogo, o Valencia fez 4 a 2 nos uruguaios. No segundo, o Flamengo estreou perdendo para o Nacional por 1 a 0. Mas no terceiro, se recuperou batendo os valencianos por 3 a 1, com Espanhol marcando o terceiro gol, depois de Aírton e Paulo Alves terem aberto a vantagem. O ex-atacante do Fluminense Waldo descontou. Como critério de desempate foi adotado o “goal average”, a divisão dos tentos marcados pelos sofridos, bastante semelhante ao saldo de gols.

                 E o Flamengo levou a taça e deu a volta olímpica pelo gramado do estádio Mestalla graças ao gol de Espanhol contra os donos da casa, mas acabou perdendo o atacante. A atuação chamou a atenção dos olheiros do Atlético de Madri, e o time da Gávea não pôde recusar a proposta do clube espanhol. No dia 8 de julho de 1964, o jogador fez a última de suas 105 partidas pelo clube que o revelou, uma vitória de 3 a 2 sobre a seleção da Ucrânia – na época, um estado ainda parte da União Soviética. Com a camisa rubro-negra, Espanhol disputou 106 partidas, sendo 66 vitórias, 20 empates e 20 derrotas. Marcou 15 gols.

                  Espanhol jogou dez anos pelo clube madrilenho, atuando 323 vezes. Conquistou três Campeonatos (1966, 1970 e 1973) e duas Copas (1965 e 1972) nacionais, e fez parte do elenco que chegou à decisão da Copa dos Campeões da Europa em 1974, contra o Bayern de Munique. Fez ainda mais: chegou enfim a defender a seleção de seu país em 16 partidas entre 1965 e 1972, e vestiu a camisa 7 da Fúria no Mundial de 1966, na Inglaterra, competição a qual, aliás, foi crucial para a classificação da equipe, ao marcar o único gol da vitória sobre a Irlanda, em Paris, no jogo desempate pelas Eliminatórias.

                  Em entrevista à revista Placar em 1973, Espanhol revelou que sonhava em vestir novamente – pelo menos por uma vez – a camisa rubro-negra no Maracanã. Entretanto, acabou pendurando as chuteiras no Racing Santander três anos depois. Passou então a integrar a comissão técnica das divisões inferiores do Atlético de Madri. Em 2004, após a eliminação precoce da seleção espanhola na Eurocopa, seu ex-companheiro de clube Luis Aragonés assumiu o comando da Fúria. Espanhol era seu braço direito.

                  Juntos, levaram a equipe ao segundo título continental de sua história em 2008. O primeiro havia sido conquistado em junho de 1964, semanas antes de Espanhol deixar o Flamengo. Em janeiro de 2008, Espanhol esteve no Brasil e aproveitou para visitar a Granja Comary, em Teresópolis, onde o Flamengo fazia pré-temporada. O ex-jogador contou histórias de seu período no clube, tirou fotos e foi presenteado com uma camisa rubro-negra personalizada.

                  Em tempos como os de hoje, em que jogadores brasileiros deixam o país para embarcar num sonho europeu cada vez mais cedo, chegando aos clubes do Velho Continente ainda nas categorias de base, a história de Espanhol foi exatamente o inverso, ainda que levado pelo acaso.

1962   –   Em pé: Joubert, Fernando, Décio Crespo, Vanderley, Carlinhos e Jordan   –    Agachados: Espanhol, Nelsinho, Henrique Frade, Dida e Gérson
Em pé: Murilo, Marcial, Ananias, Luis Carlos, Carlinhos e Paulo Henrique   –   Agachados: Espanhol, Nelsinho, Airton, Geraldo José e Osvaldo
1962 – Em pé: Aldo, Augusto, Oreco, Ferreirinha, Eduardo e Ari Clemente    –   Agachados: o massagista Irineu, Espanhol, Manuelzinho, Beirute, Rafael e Neves

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