POMPÉIA: o goleiro “Ponte Aérea”

                José Valentino da Silva nasceu dia 27 de setembro de 1934, na cidade de Itajubá – MG. Quando era pequeno gostava de desenhar a figura do marinheiro Popeye. Seus coleguinhas não sabiam pronunciar o nome do marinheiro e começaram a chama-lo de Pompéia. Ainda adolescente, começou a fazer gols atuando de centroavante no Itajubá, clube da segunda divisão do futebol mineiro extensão de lazer para funcionários da Fábrica de Itajubá. O artilheiro Pompéia mudou de vida e foi colaborar com as vitórias do São Paulo, clube da mesma cidade mineira e também da segunda divisão. Mas, foi numa partida que o São Paulo foi fazer na cidade de Três Pontas, que o goleiro titular adoeceu. Tal como se pensa hoje no futebol profissional, o treinador entendeu que seria melhor não tomar gols, que fazê-los. Resolveu arriscar, escalando Pompéia como goleiro. A ótima atuação do ex-centroavante como goleiro, não só assegurou a demissão do ex-titular que havia adoecido, como deu ao São Paulo e ao Brasil um dos melhores goleiros de todos os tempos.

BONSUCESSO

               O time mineiro começou a enfrentar dificuldades para manter Pompéia no elenco, tamanha era a procura de grandes clubes interessados na sua contratação. Um dia o Bonsucesso foi a Itajubá e o juiz que acompanhava o clube carioca fez o convite para Pompéia jogar no Rio. Era só aguardar uma carta. E essa carta chegou no dia 1º de abril de 1953. Um convite para jogar no Bonsucesso. E lá se foi o mineiro cheio de esperanças para a Cidade Maravilhosa. O técnico Alfinete tinha muita fé no goleiro e, muitas vezes, o levava para ver Barbosa e Castilho jogarem. Mas não copiou o estilo de nenhum deles. Construiu um perfil próprio, no qual a estética das defesas se sobrepunha às dificuldades dos chutes. Em qualquer bola desenhava uma cena entre o belo e o rocambolesco, lançando-se sobre a bola de maneira espetacular. Para uns, era presepeiro, para outros, excelente goleiro.

               Assinou o primeiro contrato de profissional com o Bonsucesso, ganhando 3.000 cruzeiros, moeda da época. Empolgou e chamou a atenção de vários clubes brasileiros. Portuguesa e São Paulo desejavam sua contratação. Mas Pompéia dizia que somente sairia da sua cidade para jogar no futebol carioca. E assim, finalmente, em 1954 teve seu passe adquirido pelo América Futebol Clube, do poético bairro do Andaraí, hoje com suas entranhas cortadas pelas linhas do metrô carioca. Passou a ganhar no “Mequinha” exatos 8.000 cruzeiros.

AMÉRICA

              Em 1957 o América tinha um time muito forte, tanto é, que no dia 28 de abril enfrentou o Corinthians pelo Torneio Rio-São Paulo e venceu o time alvinegro por 4 a 1, gols de Leônidas (2), Ferreira e Canário. O único gol corintiano foi anotado por Claudio, que fez um a zero, mas o time americano virou com uma goleada histórica. Neste dia o América jogou com; Pompéia, Edson e Rubens; Otto (Lúcio), Pacheco e Maneco; Canário, Romeiro, Leônidas, Alarcon e Ferreira. O Corinthians também tinha um bom time, tanto é que foi vice-campeão paulista naquele ano, mas neste dia perdeu para o América com a seguinte equipe; Gilmar, Olavo e Cássio; Idário, Oreco (Goiano) e Roberto Belangero; Cláudio, Luizinho, Paulo, Rafael (Zague) e Beni.

               Seis anos como titular absoluto, em poucas oportunidades Pompéia cedeu a vaga para Ari. Foi campeão carioca pelo América, em 1960, no então recentemente criado estado da Guanabara, com a seguinte formação: Pompéia (Ari); Jorge, Djalma Dias, Wilson Santos e Ivan; Amaro e João Carlos; Calazans, Antoninho, Quarentinha e Nilo. Notava a elegância de Amaro, a velocidade de Nilo, a classe de João Carlos. E o que falar da emoção dos gols de cabeça de Quarentinha, da calma de Djalma Dias ao desfazer, dentro da área, as jogadas dos adversários? Realmente era um time espetacular.

               Mas quem mais impressionava era o goleiro. Diferente do restante do time, que usava a camisa vermelha e o calção branco, Pompéia se vestia de negro ou de cinza e trazia no peito o escudo do América. Era esguio, alto, de uma flexibilidade ímpar. Sua elasticidade chamava a atenção. O torcedor não tirava os olhos dele, entusiasmado com os seus voos, as suas defesas mirabolantes que levaram o narrador esportivo Waldir Amaral a apelidá-lo de Constellation. Outros apelidos se seguiram: Ponte Aérea, Caravelle, Fortaleza Voadora. Todos cabiam como uma luva naquele homem simples, nascido em Itajubá, Minas Gerais.

               Esse extraordinário goleiro iniciou carreira no circo, onde desenvolveu sua capacidade de impulsão, experiência que deu a ele a condição de ser um goleiro acrobático. Suas defesas mexiam com a plateia e mereceram de Nelson Rodrigues uma crônica em um América e Bangu: “Foi, então, que surgiu Pompéia, como uma bastilha inexpugnável. Pompéia! Eis o que o América tem e os outros clubes, não:  um Pompéia. Que bela e emocionante figura! É o goleiro mais plástico, mais elástico, mais acrobático do mundo. Nada tem de simples: ele complica tudo. Em primeiro lugar, não sabe defender sem um salto ou, mais do que isso, sem um vôo. Pompéia voa, amigos. Pompéia voa! E enfeita, dramatiza, dinamiza tanto suas intervenções que o público tem a sensação de que todas as suas defesas foram geniais. (…) Ele é o espetáculo.”

               Quando Pompéia estava no seu dia, tomava conta do espetáculo e não tinha para ninguém, fazia das tardes de domingo o seu momento de fama e os comentários das resenhas do dia seguinte eram elogiosos. Com a estética do goleiro criada por ele, deixou como herança uma jogada, a ponte aérea. O nome vinha da novidade da época que era a ponte aérea entre Rio e São Paulo. Inventada por ele, hoje se tornou em jogada comum dos goleiros. Essa é apenas uma das contribuições de Pompéia. Porém, mais importante do que isso é a construção de uma nova forma de agarrar no futebol, trazendo para as partidas momentos de comédia de arte ou de tragédia cômica, subvertendo a forma tradicional de comportamento dos goleiros e alegrando a plateia, que ria e sofria com seus voos. Essa marca particular de Pompéia levou-o à consagração como goleiro titular do América Futebol Clube (campeão carioca de 1960), atuando também como titular, em 1957, pela seleção carioca.

               Diversas vezes ficava patente o racismo, quando associava-se sua elasticidade a dos macacos. Em seu primeiro jogo pelo América já despertou entusiasmo. O América jogava um torneio quadrangular em Lima, no Peru, do qual também participa o Santos F.C. e, no jogo final entre os dois clubes, Pompéia defendeu um pênalti batido por ninguém menos que Pepe, que assustava com a potência de seu chute todos os goleiros. Com essa apresentação de gala passou a dividir o gol do América com Ari em diversas jornadas, mas sendo o titular em 16 das 22 partidas disputadas pelo América no campeonato de 1960. Pompéia defendeu o América por onze anos, interrompidos apenas oito meses jogou por empréstimo pelo Botafogo de Ribeirão Preto.

SELEÇÃO

               Ainda defendendo as cores do América, Pompéia chegou à seleção brasileira, quando a CBD (Confederação Brasileira de Desportos) montou um combinado para defender a camisa canarinho em competições sul-americanas. Ali a seleção formou com: Pompéia; Djalma Santos e Edson; Formiga, Zózimo e Hélio; Canário, Romeiro, Leônidas, Zizinho e Ferreira. Outro ponto marcante na carreira do goleiro era o fato de ser um péssimo fisionomista e em razão disso, não conseguia decorar o nome da maioria dos próprios companheiros do América. Em uma partida pela seleção brasileira, o goleiro gritava mais ou menos assim com os companheiros: “Ei seis, orienta o quatro para não subir tanto ao ataque”. O quatro e o seis eram nada menos do que os já veteranos e bi-campeões mundiais Nilton Santos e Djalma Santos.

FINAL DE CARREIRA

               Seu nome era dito, cantado, anunciado nas bancas da cidade nas segundas e sua estética de goleiro ganhou fama. Vários Pompéias surgiram no Brasil e seus voos levaram-no longe. Pompéia ainda defendeu as cores do São Cristóvão do Rio de Janeiro; do Galícia de Salvador/BA; do Clube do Porto, de Portugal e do Deportivo Português, da Venezuela, onde encerrou carreira, sendo campeão venezuelano em 1967. Em 1969, num jogo entre o seu clube, o Desportivo Português, e o Real Madrid, depois de agarrar um chute difícil, que no rebote a bola foi novamente chutada contra a sua cabeça, perdeu uma de suas vistas, deixando a outra também prejudicada. O chute foi dado por ninguém menos que Di Stefano. Com isso, teve que abandonar o futebol.

TRISTEZA

               Com a impossibilidade de continuar a atuar, Pompéia perdeu a alegria. Seu colega Amaro ainda tentou levá-lo para o Bonsucesso como preparador de goleiros, mas nada mais deu certo na vida do grande Constellation. Na rua da amargura, sozinho e perdido, voltou-se para a bebida e morreu em um quarto de um manicômio, olhando para uma bola. Amargou na vida e na morte a sina dos goleiros, ditada na célebre máxima de autoria desconhecida: “o goleiro é tão maldito que onde ele joga não nasce nem grama”. Pompéia faleceu no Rio de Janeiro, no dia 18 de maio de 1996.

AMÉRICA JOGANDO NA ALEMANHA EM 1960  –  Em pé: Pompéia, Jorge, William, Carlos Pedro, Leônidas e Itamar   –   Agachados: Uriel, Paulo Leão, Zézinho, João Carlos e Abel
Em pé: Pompéia, Milton Paquetá, Djalma Dias, Wilson, Amaro e Ivan    –   Agachados: Danilo, Calazans, Fontoura, João Carlos e Sérginho

Em pé: Pompéia, Jorge, Wilson, Ranulfo, Carlos Pedro e Itamar    –   Agachados: Uriel, Paulo Leão, Fernando Cônsul, João Carlos e Abel
Em pé: Djalma Santos, Pompéia, Edson, Formiga, Zózimo e Hélio    –   Agachados: Canário, Romeiro, Leônidas, Zizinho e Ferreira
Em pé: Pompéia, Lúcio, Edson, Ivan, Ângelo e Hélio    –   Agachados: Canário, Romeiro, Leônidas, Genoíno e Ferreira
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