FAUSTINO: um autêntico camisa 7

                Alcides da Cruz Faustino nasceu dia 2 de dezembro de 1941 na cidade de Araraquara – SP. Tinha o apelido de Linguiça, pois trabalhava num açougue e recebia de seu patrão, parte do seu salário em linguiça. Linguiça esta que diziam ser de primeira qualidade. Depois passou a jogar no juvenil da Ferroviária, onde chegou ao profissional e fez muito sucesso na equipe de Araraquara. Naquela época a Ferroviária era um clube muito forte do interior paulista, tanto é que dificilmente um time grande da capital saía de lá com uma vitória. Não trazia a vitória, mas geralmente trazia um jogador, pois a Ferroviária foi no passado um clube que revelou inúmeros craques e que depois fizeram muito sucesso jogando na capital. Exemplo disto podemos citar: Dudu, Bazzani, Nei, Fogueira, Pio, Téia, Rosan, e o próprio Faustino, que anos depois fez muito sucesso no São Paulo F.C. Chegou ao Morumbi numa troca com outro ponta direita, o Peixinho. Ambos marcaram época em seus novos clube. Infelizmente Faustino veio a falecer ainda jovem.

FERROVIÁRIA

               Faustino foi revelado pela Ferroviária de Araraquara no início dos anos 60. Na verdade, antes de explodir na Ferrinha, passou pelos juniores do São Paulo F.C. em 1959. Quando retornou a sua cidade natal, assinou um contrato ganhando três mil cruzeiros e lá integrou a melhor Ferroviária de todos os tempos ao lado de Rosan, Ismael, Antoninho, Rodrigues, Dudu, Osni, Itamar, Bazani, Pimentel, Baiano, Beni, entre outros. Tinha 1m64 de altura e sempre pesou 62 quilos. Estudou apenas até o 3º ano ginasial. O que ganhava no futebol era entregue ao pai Cacildo da Cruz Faustino e a sua mãe Amélia da Cruz Faustino.

               Sempre foi uma pessoa alegre e divertida e não podiam faltar casos curiosos envolvendo sua pessoa. Um dos casos curiosos de Faustino o “Linguiça” aconteceu antes da fama, quando trabalhava num açougue em Araraquara e recebia do patrão parte do salário em linguiça. Certo dia, houve uma grande gincana promovida pelo dono do açougue em que Faustino trabalhava. De repente, Faustino e  seu fusca verde desapareceram. Como estava sendo bastante útil no deslocamento atrás dos brindes e exigências da gincana, a preocupação com sua ausência ia aumentando à medida que as horas passavam. Até que reapareceu: “Onde cê foi, ‘Linguiça’?”. Resposta: “Estava duro, coloquei a placa de táxi em cima do carro, dei umas voltas, peguei três corridas e voltei com uns trocos no bolso. Encontrei com alguns amigos e fomos tomar cerveja!”.

               Em 1960, a Ferroviária formou um dos seus melhores times de sua história, raramente um time da capital saia de campo com a vitória. Exemplo disto foi no dia 30 de outubro, quando o Corinthians que tinha um bom time foi jogar em Araraquara. O alvinegro de Parque São Jorge jogou naquele dia com; Cabeção, Olavo, Egidio, Benedito e Oreco; Roberto Belangero e Rafael; Lanzoninho, Luizinho, Almir Pernambuquinho e Joaquinzinho. O técnico era Jim Lopes.  O técnico do time da Morada do Sol, era Bauer, o monstro do Maracanã na Copa de 50 disputada aqui no Brasil e neste dia ele mandou a campo os seguintes jogadores; Rosan, Zé Maria, Antoninho, Rodrigues e Pimentel; Valter e Dudu; Faustino, Baiano, Bazani e Eusébio. O Corinthians abriu o placar com um gol contra de Dudu, mas depois virou o placar com dois gols de Pimentel, sendo que o primeiro foi de pênalti.

               Assim era a Ferroviária dentro de seus domínios. Outro jogo que ficou marcado na história da Ferrinha, foi quando o poderoso Santos de Pelé foi jogar no Estádio Ademar de Barros, popularmente conhecido por Fonte Luminosa. O ano era também o de 1960, um domingo de agosto, dia 28, salvo erro, o Santos com Pelé, Coutinho, Pepe, Mengálvio, Dorval, Zito, Mauro, Gilmar, Dalmo etc… levou de 4 a 0, num jogo em que o nosso ponta direita Faustino desmoralizou o lateral santista Dalmo, homem de seleção brasileira, que só não era titular porque havia à sua frente valores da estirpe de Nilton Santos e Oreco. Que partida memorável! O Pelé até pediu para sair no segundo tempo, alegando uma contusão, eis que o grande zagueiro Rodrigues não o tinha deixado jogar nada.

               Foi no ano de 1960 também, que a Ferroviária fez uma excursão à Europa, onde enfrentou grandes times, mas que tiveram que se curvar diante da poderosa Ferroviária. No dia seguinte aos jogos os jornais não deixavam de exaltar o belíssimo futebol apresentado pela equipe brasileira. O jornal português “A Bola” por exemplo, colocou em sua manchete “Portentosa exibição do time grená”. Em 20 jogos, a Ferroviária venceu 17, empatou 2 e perdeu apenas um, diante do Sporting Clube de Portugal, num dia extremamente chuvoso, por 1 a 0, em gol obtido no último minuto de jogo. Na Espanha, a Ferroviária empatou em 1 a 1 no Estádio Vicente Calderón, contra o Atlético de Madrid, campeão nacional daquele ano. Ora, diria eu, quanto hoje não valeriam os passes daqueles jogadores grenás, no mercado internacional? Certamente, muitos milhões de euros renderiam o Bazani, o Dudu, o Faustino, o Beni, o Rosan, o Baiano, o Dirceu e tantos mais. Por isso que sempre digo, os jogadores de hoje me obrigam a ser saudosista.

A DESPEDIDA

               Na tarde do feriado de 21 de abril de 1961 a Ferroviária venceu o São Paulo FC, na Fonte Luminosa, por 3×1, encerrando as festividades comemorativas ao 11º aniversário do clube. Na oportunidade aconteceram as despedidas de Faustino e Pimentel, ambos contratados pelo São Paulo F.C. Os gols foram marcados por Dudu cobrando pênalti, Melão e Parada para o time grená, enquanto que Gino (em posição ilegal) marcou o único tento do Tricolor. Destaques especiais para Rodrigues (o melhor jogador em campo), Neste dia a Ferroviária jogou com; Fia, Ismael e Antoninho, Rodrigues e Jurandir; Dudu e Bazani; Faustino, Parada, Melão e Beni.

                O São Paulo jogou com: Suly; Ademar, Vilázio, Vitor e Riberto; Benê e Baiano; Paulo (Peixinho), Amaury (Celso), Gino e Canhoteiro. O árbitro foi Romualdo Arppi Filho. Este também foi o último jogo de Peixinho pelo Tricolor, pois foi uma transação que envolveu os dois ponta direita, Faustino que saiu da Ferroviária e foi para o São Paulo e Peixinho fazendo o caminho inverso. Foi um troca-troca de pontas e o time grená embolsou mais Cr$ 3 milhões de cruzeiros. Com a camisa da Ferroviária, Faustino disputou 202 jogos, sendo 51 vitórias, 134 empates, 17 derrotas. Marcou 25 gols

SÃO PAULO

               Ao chegar no Morumbi encontrou um time muito bom, mas que a diretoria não investia quase nada, pois sua meta era a construção do estádio. A equipe era formada por; Poy, Deleu, De Sordi, Vitor e Riberto; Benê e Baiano; Faustino, Gino, Gonçalo e Canhoteiro. Este foi o time que venceu o Corinthians no dia 19 de julho de 1961 pelo Campeonato Paulista. O único gol da partida foi anotado por Baiano. Ainda neste jogo, o ponta esquerda Neves do Corinthians chutou um pênalti para fora. Faustino jogou no Tricolor até 1966 e nesse período disputou 234 partidas. Venceu 125, empatou 46 e perdeu 63. Marcou 34 gols. A partida que mais marcou sua passagem pelo Tricolor, foi sem dúvida aquela do dia 15 de agosto de 1963, quando o São Paulo derrotou o Santos por 4 a 1 e o time santista abandonou o campo, no famoso cai cai, até que o árbitro Armando Marques teve que encerrar a partida por número insuficiente de jogadores santistas em campo.

TRISTEZA

               Faustino que sempre foi um grande driblador, não conseguiu driblar seu oponente mais terrível que enfrentou em sua vida. Isto aconteceu no dia 12 de fevereiro de 1988, quando trabalhava como motorista de táxi para melhorar sua renda, foi vítima de um assalto no bairro de Santo Amaro. Foi baleado e não resistiu. Deixou dois filhos. Nunca foi um homem triste, mas perdeu todo o seu bom humor na fase mais negra de sua carreira, no São Paulo, quando foi afastado do time. Era um ponta direita rápido e bom finalizador, aquele ponta que não existe mais, ia para linha de fundo e cruzava para  os atacantes completarem para as redes.

               Certa vez o jornalista Cláudio Carsughi, na noite de 14 de março de 1992 foi jantar no restaurante Paulista Grill, da Rua João Moura, nº 25, em Pinheiros, Capital, e lá estava um cantor da noite que garantia ser Faustino. Carsughi acreditou e encaminhou o assunto a Milton Neves. Com o aval do sério companheiro, Milton colocou o “cara” no ar, que contou muitas histórias do futebol, como se as tivesse realmente vivido. A entrevista já durava muitos minutos quando o comentarista Waldo Braga ligou para Milton e advertiu: “tira esse louco do ar porque Faustino morreu mesmo. Eu fui no enterro”. Já Carsughi dá de ombros e diz, “é eu me enganei”.

              Milton Neves confessa que no rádio já fez de tudo: até matou o Djalma Santos e ressuscitou o Faustino. Nós brasileiros adoramos o futebol, torcemos, gritamos, brigamos, xingamos, dentro dos noventa minutos de jogo. Depois do jogo, umas cervejinhas e vamos para casa. Até o próximo jogo. Mas nos esquecemos dos nossos ídolos do passado. Por isso hoje estou relembrando de um dos ídolos que já se foi para o outro lado da vida e já está pertinho de Deus, o nosso querido e inesquecível Faustino.

Em pé: Deleu, Jurandir, Penachio, Dias, Serafin e Suly    –     Agachados: Faustino, Zé Roberto, Del Vecchio, Bazaninho e Agenor
Em pé: Deleu, Serafim, Leal, Jurandir, Bellini e Suly    –     Agachados: Faustino, Marco Antonio, Prado, Bazaninho e Valdir Birigui.
Em pé: Vilásio, Poy, Deleu, Pimentel, Dario, Riberto e o mordomo Serrone    –     Agachados: Faustino, Amauri, Baiano, Benê e Canhoteiro
Em pé: Dário, Poy, Geraldo, Deleu, Luis Valente, Benê e o mordomo Serrone    –    Agachados: Faustino, Baiano, Gino, Canhoteiro e Ailton
Em pé: Dias, Penáchio, Serafim, Virgílio, Jurandir e Suly     –     Agachados: Faustino, Ademir Rodrigues, Zé Roberto, Bazaninho e Alcides
Em pé: Ilzo Neri, Jurandir, Bellini, Dias, Suly e Deleu    –     Agachados: Faustino, Cecílio Martinez, Benê, Pagão e Sabino
Em pé: Rosan, Porunga, Antoninho, Cardareli, Dirceu e Rodrigues    –     Agachados: Faustino, Dudu, Pimentel, Baiano e Beni
Em pé: De Sordi, Procópio, Deleu, Riberto, Suly e Benê    –     Agachados: Faustino, Prado, Baiano, Jair Rosa Pinto e Canhoteiro
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