LAÉRCIO: um reserva de luxo

                 Laércio José Milani nasceu dia 1 de março de 1931, na cidade de Indaiatuba – SP. Atuou em vários clubes paulistas, no entanto, se destacou jogando pelo Palmeiras de 1953 até 1957 e no Santos F.C. de 1958 até 1964. Conquistou inúmeros títulos nestas duas equipes, que na época eram as duas de maior força dentro do futebol brasileiro. Uma prova disto foi a final do Paulistão de 1959, quando se enfrentaram por três vezes para decidir o título. De um lado tínhamos, Laércio, Pelé, Pepe, Zito, Pagão, Jair da Rosa Pinto, enquanto do lado alviverde, ninguém mais que, Valdir, Djalma Santos, Zequinha, Julinho, Chinesinho, enfim, dois times que serviriam a nossa seleção para disputar uma Copa do Mundo se fosse necessário.

INÍCIO DE CARREIRA

                 Laércio começou a carreira defendendo o E.C. Primavera, time de sua cidade natal, Indaiatuba, interior do estado de São Paulo.  Transferiu-se para a Portuguesa Santista, em 1948, e chegou ao Palmeiras em 1953. Sua última partida pela Lusa santista, aconteceu no dia 8 de novembro de 1953, quando perdeu para o Corinthians por 2 a 1. O jogo foi no Estádio de Ulrico Mursa e neste dia a Portuguesa Santista jogou com; Laércio, Jair, Wilson, Cornélio e Procópio; Nilo e Mário; Alemão, Lanzoninho, Joel e Cláudio. O técnico era Osvaldo Brandão.

PALMEIRAS

                 Sua estréia com a camisa do alviverde de Parque Antártica, aconteceu no dia 5 de fevereiro de 1953, quando o Palmeiras fez um jogo amistoso com o Racing, da Argentina e venceu por 4 a 2.  Laércio chegou no Palmeiras para substituir Oberdan Cattani, que logo após a conquista da Copa Rio, em julho de 1951, começou a entrar em declínio. Assim como acontecera durante o próprio mundial interclubes. Oberdan já não era mais o titular absoluto da posição, sendo muitas vezes reserva de Fábio Crippa.  Ocorre, porém, que também este oscilava entre boas e más apresentações, o que fez com que a diretoria começasse a procurar, então, aquele que seria o real substituto do eterno camisa 1.

                Vários goleiros como; Rugillo, Furlan, Cláudio e Cavani foram tentados, mas nenhum se saiu tão bem quanto Laércio, contratado no comecinho de 1953 à Portuguesa Santista/SP. Embora tenha sido titular em praticamente todos os jogos que disputou pelo Verdão, começou 80 das 82 partidas que jogou. Laércio não conseguia encantar a torcida. Menos, até, por sua qualidade técnica, indiscutível, por sinal, e mais pela fase ruim e sem títulos que o time atravessava naquela primeira metade dos anos 50.

                E tudo piorou depois do dia 6 de fevereiro de 1955, quando o Palmeiras decidiu o título paulista de 1954 contra o arqui-rival Corinthians. Era um título que todos os clubes paulistas estavam cobiçando, pois seria o título do Quarto Centenário da cidade de São Paulo. Para esta partida o técnico do alviverde Aymoré Moreira mandou a campo o seguinte time; Laércio, Manoelito, Cação, Nilo e Dema; Waldemar Fiume e Jair da Rosa Pinto; Liminha, Humberto, Nei e Rodrigues. Este jogo foi no Estádio Municipal do Pacaembu e o árbitro da partida foi Esteban Marino, do Uruguai.  O jogo foi muito tenso desde o seu início, pois a rivalidade era muito grande entre as duas agremiações.

                O Corinthians saiu na frente logo aos 10 minutos de jogo através de Luizinho. O Palmeiras empatou aos 7 do segundo tempo. O empate já era o suficiente para o Corinthians, que segurou de todas as formas aquele empate. Ao final do jogo os jogadores palmeirenses saíram de campo muito triste com a perda daquele tão importante título, principalmente o goleiro Laércio, que já não estava agradando a torcida esmeraldina, embora ele não tivesse nenhuma culpa naquele jogo.

                 E foi justamente por isso que, em 1957, o goleiro foi negociado com o Santos. E, por ironia do destino, foi justamente atuando pelo Peixe que o goleiro entraria para a história do Palmeiras: em janeiro de 1960, era ele o goleiro do time da Vila Belmiro na decisão do Supercampeonato Paulista do ano anterior e, portanto, foi ele quem levou o gol de falta marcado por Romeiro, que garantiu tão importante conquista ao time de Parque Antártica.  A despedida de Laércio do Palmeiras, aconteceu no dia 4 de maio de 1957, quando o Palmeiras perdeu para o Fluminense por 5 a 1 pelo Torneio Rio-São Paulo. Com a camisa do Palmeiras, Laércio disputou 82 jogos. Venceu 50, empatou 13 e perdeu 19 vezes. Nesse período sofreu 134 gols.

SANTOS F. C.

                Laércio chegou na Vila Belmiro para substituir o goleiro Manga e já nos primeiros jogos que fez com a camisa do Peixe, teve que enfrentar novamente o Corinthians em outro jogo importantíssimo para o alvinegro de Parque São Jorge. O Corinthians precisava de um empate para conquistar em definitivo a Taça dos Invictos e este jogo aconteceu dia 3 de novembro de 1957, no Estádio Municipal do Pacaembu. Neste dia o Santos jogou com; Laércio, Fioti, Ramiro, Getúlio e Dalmo; Zito e Álvaro; Dorval, Pagão, Pelé e Tite. O técnico do Peixe era Lula. O Corinthians saiu na frente com um gol de Boquita. Pelé marcou dois gols virando o placar e Goiano empatou ainda no primeiro tempo.

                Pelé voltou a marcar logo aos 5 minutos da etapa complementar e parecia que o jogo iria terminar com a vitória santista e o Corinthians não iria conquistar a Taça dos Invictos, mas aos 44 minutos, o centroavante Paulo empatou a partida. Mais uma vez Laércio saiu de campo vendo a festa corintiana nas arquibancadas do velho Pacaembu. Depois desta conquista, o Corinthians ainda ficou mais dez jogos sem perder. Este jogo entre Corinthians e Santos entrou para a história, não só pela conquista corintiana da Taça dos Invictos, mas também porque depois deste jogo o time de Parque São Jorge ficou onze anos sem vencer o Santos em Campeonatos Paulista, vitória esta que só veio acontecer dia 6 de março de 1968, quando o Timão venceu por 2 a 0, gols de Paulo Borges e Flávio.

                 Muitos afirmam que o Corinthians ficou tanto tempo sem vencer o Santos em Campeonatos Paulista, devido a uma praga que Pelé jogou no Timão, depois de um amistoso que a nossa seleção fez com o Corinthians um mês antes da Copa de 58 quando o zagueiro Ari Clemente deu uma entrada violenta em Pelé tirando-o dos dois primeiros jogos daquele mundial. Então Pelé disse que o Corinthians só iria ser campeão paulista depois que ele parasse de jogar e foi exatamente o que aconteceu, pois Pelé parou dia 1 de outubro de 1977 jogando pelo Cosmos de New York e o Corinthians ficou campeão dia 13 de outubro de 1977, quando venceu a Ponte Preta por 1 a 0.

                 Dia 10 de janeiro de 1960, lá estava Laércio novamente no Estádio do Pacaembu em mais uma grande decisão. Desta vez com a camisa do Santos, enfrentando seu ex-clube, o Palmeiras. Era um jogo aguardado com muita expectativa, pois eram as duas melhores equipes do momento, tanto é que dos 22 jogadores, 13 já haviam vestido a camisa da seleção brasileira. Pelé abriu o placar aos 14 minutos de jogo. Julinho empatou aos 43 ainda do primeiro tempo. Aos três minutos da etapa final, falta para o Palmeiras, de meia-distância.

                 Romeiro batia forte e de três dedos, com um veneno incrível. E aquela batida de falta tornou-se imortal: por cima da barreira, a bola foi no ângulo do ex-palmeirense Laércio, que nem se mexeu. Golaço que garantiu a vitória por 2 a 1 e que rendeu inflamada invasão do gramado do Pacaembu pela torcida palmeirense ao término do jogo. Palmeiras era o grande campeão de 1959 e mais uma vez Laércio deixa o gramado do Pacaembu vendo a festa da torcida adversária.

                 Em 1961, o Santos contratou o goleiro Gilmar junto ao Corinthians e a partir daí, Laércio começou a ficar no banco de reservas. Permaneceu no Santos até 1964 e nesse período sagrou-se campeão da Taça Libertadores e Mundial Interclubes em 1962 e 1963, campeão paulista em 1958, 1960, 61, 62 e 64, e inúmeras vezes campeão em Torneios que o Santos disputava nas excursões que fazia pelo mundo a fora, sempre revesando com Gilmar. Assim como Cabeção foi reserva de Gilmar durante muitos anos no Corinthians, Laércio também foi seu reserva no Santos, inclusive, chegou a ser cobiçado por vários clubes brasileiros, mas Laércio sempre recusava, pois entendia que era melhor ser reserva do fantástico time santista do que ser titular em outros clubes.

                Certa vez, sentado num banquinho de um posto de gasolina lá na baixada santista, lá estava Laércio, cabisbaixo e triste. Perguntado à ele o que havia acontecido, ele respondeu que estava muito magoado com o Santos F.C. e o motivo era que sendo ele um campeão do mundo pelo time praiano, o seu nome não constava na placa perto do elevador. E realmente seu nome não está lá. Algum tempo depois um dos diretores do Santos, o Sr. Angelo Bartoloto, sabendo que Laércio estava muito doente, fez questão de acrescentar o nome de Laércio José Milani, bem ao lado de José Macia, o Pépe.

                Sabendo disso, o também ex-goleiro santista Lala, fez questão de levar Laércio para ver a placa e ao ler seu nome, chorou copiosamente e disse; “Enfim repararam esse erro. Uma semana depois desse acontecimento, Laércio veio a falecer sem mágoa do seu querido Santos Futebol Clube.  Faleceu dia 29 de agosto de 1985, ainda muito jovem, com 54 anos, vítima de câncer de próstata.  Teve dois filhos, sendo que um deles, Sérgio, morreu vitimado por um infarto.

1960   –   Em pé: Zito, Urubatão, Dalmo, Formiga, Getúlio e Laércio   –    Agachados: Dorval, Mário, Ney Blanco, Pelé, Pepe e o massagista Macedo
Em pé: Lima, Zito, Calvet, Olavo e Laércio   –    Agachados: Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe
Em pé: Joel Camargo, Zito, Olavo, Geraldino, Mauro Ramos de Oliveira e Laércio  –    Agachados: Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe
Em pé? Getúlio, Feijó, Ramiro, Mourão, Zito e Laércio   –    Agachados: Dorval, Jair Rosa Pinto, Coutinho, Pelé, Pepe e o massagista Macedo
Em pé: Dalmo, Zito, Urubatão, Formiga, Getúlio e Laércio   –   Agachados: Dorval, Jair Rosa Pinto, Coutinho, Pelé e Pepe
Em pé: Zé Carlos, Zito, Dalmo, Calvet, Mauro e Laércio   –   Agachados: Sormani, Mengálvio, Coutinho, Pelé, Pepe e o massagista Macedo
Em pé: Alfredo Ramos, De Sordi, Hélvio, Laércio, Djalma Santos e Roberto Belangero   –    Agachados: Julinho Botelho, Luizinho, Humberto Tozzi, Jair Rosa Pinto e Tite
Em pé: Lima, Zito, Dalmo, Calvet, Mauro e Laércio   –    Agachados: Dorval, Tite, Coutinho, Pelé e Pepe
Em pé: Formiga, Dalmo, Zito, Mauro, Dalmo, Getúlio e Laércio   –    Agachados: Sormani, Mengálvio, Ney Blanco, Pelé e Pepe
Em pé: Lima, Zito, Geraldino, Joel Camargo, Mauro Ramos de Oliveira e Laércio  –    Agachados: Peixinho, Mengálvio, Toninho Guerreiro, Pelé e Pepe
1958   –   Em pé: Waldemar Carabina, Laércio, Ismael, Maurinho, Gersio Passadore e Milton Buzzeto   –    Agachados: Renatinho, Ney Blanco, Tati, Ivan e Colombo
Em pé: Alfredo Ramos, De Sordi, Laércio, Hélvio, Djalma Santos e Roberto Belangero  –    Agachados: Julinho Botelho, Luizinho, Baltazar, Jair Rosa Pinto e Tite

          

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