TERTO: um nordestino que venceu no futebol paulista

                Tertuliano Severino dos Santos nasceu dia 29 de dezembro de 1946, na cidade de Recife – PE. Foi um dos destaques da linha de ataque tricolor formada por ele, Gerson, Pedro Rocha, Toninho Guerreiro e Paraná. Era fantástico aquele ataque pela diferença de atitudes. Terto era um jogador raçudo que sempre procurava a vitória. Quando Pedro Rocha jogava pela meia-esquerda sempre colocava a bola em seu pé. Daí, o zagueiro vinha por trás, trombava com ele e rebatia. Um belo dia, ele encostou em Pedro Rocha e disse: – Olha, gringo, não me dê mais a bola no pé. Você joga em cima do zagueiro que eu atropelo e vou para o gol”. Esta é uma das inúmeras histórias de Terto, um jogador que chegou no Tricolor do Morumbi em 1967, uma época em que o São Paulo já estava há dez anos sem conquistar um título, pois a diretoria fazia todo investimento no estádio que estava construindo. Mas depois de sua chegada,  a história do Tricolor mudou, pois sagrou-se bicampeão paulista em 1970 e 1971.

SÃO PAULO

                Terto começou sua carreira no Santa Cruz, do Recife, onde jogava como segundo atacante. Pelo clube pernambucano sagrou-se campeão do Torneio Hexagonal Norte-Nordeste em 1967. Lá no Santa Cruz, ficou conhecendo o famoso “Flexa Negra”, um ponta que jogava em alta velocidade e determinação, sempre em busca do gol. Aquilo inspirou o jovem pernambucano que procurou imitá-lo. E sua garra em busca da vitória fez com que olheiros do São Paulo se interessasse por seu futebol, e em 1967, o Tricolor o contratou.

               Sua adaptação em São Paulo foi muito difícil, foram dois anos em que não conseguia se encontrar. Sentia falta de sua mãe e de seus irmãos. Lá em Pernambuco, ele passava necessidade, mas a família era muito unida. Além disso, sentia muito frio e estranhou o rítimo da cidade grande. Chorava muito de saudade da família. Quando chegou em São Paulo foi morar no Hotel Normandie, na Av. Ipiranga. Ficava completamente perdido. Não gostava de nenhuma comida que era servida no hotel. Segundo ele, era uma comida estranha. Sentia falta do arroz e feijão. A situação só melhorou em 1969, quando o São Paulo fez uma excursão à Europa.

              O diretor do São Paulo o chamou para perguntar por que ele não rendia o que podia e, sabendo de seus problemas, resolveu trazer sua mãe e seus irmãos para morarem com ele. Aí, sim, sua carreira começou. Aos 20 anos de idade Terto entrou numa boate pela primeira vez, depois de muita insistência por parte dos amigos, pois era muito profissional e não queria atrapalhar sua carreira em noitadas.

               Aos poucos foi se adaptando à cidade e ao clube. Até que Zezé Moreira o colocou para jogar como ponta, para explorar sua velocidade, pois até então, jogava como meia direita. Quando Gerson chegou no Morumbi, acolheu Terto e o orientou como um verdadeiro pai. Deu conselhos e o aprimorou nos treinos. Gerson lançava e Terto corria até linha de fundo, depois cruzava na área para Toninho Guerreiro marcar. Foram inúmeras vezes que este lance aconteceu e que a torcida são-paulina jamais esquecerá.

               Era uma jogada ensaiada pelo técnico Zezé Moreira, que, segundo Terto, foi um dos  melhores treinadores com quem trabalhou. O melhor na sua opinião foi Oswaldo Brandão, pois além de saber tudo de futebol, era um verdadeiro amigo para com os jogadores. Era disciplinador, mantinha o respeito mas, principalmente funcionava como um pai que só quer o bem para seus filhos.

               Segundo Terto, sua maior alegria com a camisa do Tricolor, foi a conquista do título paulista de 1970, pois o time estava há 13 anos sem conquistar um título, mas naquela noite de 9 de setembro de 1970, quando o Tricolor derrotou o Guarani em pleno estádio Brinco de Ouro, em Campinas, aquela agonia acabou. Neste dia o São Paulo jogou com; Sérgio; Forlan, Jurandir, Dias e Gilberto (Tenente), Edson e Nenê; Paulo, Terto (Benê), Toninho e Paraná. O técnico era Zezé Moreira. No ano seguinte a dose se repetiu e o Tricolor sagrava-se bicampeão paulista. A final foi contra o Palmeiras e o jogo foi no dia 27 de junho de 1971. O Tricolor venceu por 1 a 0, gol de Toninho Guerreiro.

               A grande frustração de Terto foi a perda do título brasileiro para o Palmeiras em 1973. O São Paulo jogou contra o América no Rio de Janeiro, um time morto no campeonato, e para o São Paulo bastava uma vitória para conquistar o título antecipadamente. O Tricolor perdeu o jogo e, então tinha que ganhar do Palmeiras na última rodada. O jogo terminou empatado em zero a zero e o Palmeiras sagrou-se campeão naquele ano. Uma outra grande frustração de Terto com a camisa do São Paulo, foi na Libertadores de 1973. Na primeira partida o São Paulo venceu o Independiente da Argentina por 2 a 0 no Pacaembu e, na Argentina, perdeu por 1 a 0. Neste jogo Terto brigou com o lateral esquerdo Carrasco e foi expulso.

               Com isto, ficou de fora da terceira partida, quando o Tricolor perdeu o jogo e o título. Ainda sobre a Libertadores, Terto diz que hoje a coisa é bem diferente, “naquela época era uma verdadeira guerra, não tinha televisão e os times faziam o que podiam para vencer”. Terto lembra um jogo na Argentina, em que os jogadores do São Paulo tiveram que ficar no campo até duas horas depois do final da partida. Tudo para evitar de apanhar dos torcedores. “Nos hotéis ninguém dormia. Era buzinaço, música num volume altíssimo, enfim, era uma tortura jogar uma partida da Libertadores em qualquer país. E o Brasil não tinha essa malícia, por isso que demorou para que ganhasse esse torneio”.

               Terto jogou no São Paulo por dez anos. Em 1977 foi vendido ao Botafogo de Ribeirão Preto, tudo porque o treinador Rubens Minelli foi contratado e resolveu fazer uma renovação. Mas antes disso, Terto conquistou mais um título paulista, foi no ano de 1975. O que conformou Terto, foi que junto com ele também foram embora, Nelsinho, Gilberto Sorriso, Pedro Rocha, Arlindo e tantos outros. Para o lugar deles foram contratados, Antenor, Hermínio, Neca, Zequinha e mais alguns.

               Terto nunca entendeu direito aquela transformação, mas não saiu magoado com o clube, tanto é, que o presidente Henry Aidar, deu todo dinheiro da venda do seu passe para ele, como um prêmio por tudo que Terto fez pelo clube durante aqueles dez anos que lá permaneceu. Terto disputou 498 partidas pelo São Paulo, venceu 241, empatou 151 e perdeu 106. Marcou 84 gols. É o sexto jogador que mais vezes vestiu a camisa do Tricolor. Na sua frente estão somente De Sordi com 501, Teixeirinha com 533, Poy com 565, Waldir Perez com 617 e em primeiro lugar está Rogério Ceni que ainda continua jogando pelo São Paulo e dificilmente outro jogador irá ultrapassá-lo.

FINAL DE CARREIRA 

               Depois do São Paulo, Terto jogou ainda no Botafogo de Ribeirão Preto, no Ferroviário do Ceará, onde foi campeão cearense em 1979. Jogou também no Catanduvense (apenas uma partida) e no Fortaleza. Ao longo de sua carreira, Terto não sabe ao certo quantos gols ele marcou, calcula que foram em torno dos 150, sendo que só no São Paulo foram 84. Encerrou a carreira em 1982, aos 36 anos de idade.

               Depois que aposentou, passou a dedicar-se totalmente ao São Paulo. Deu aulas de fundamentos durante mais de cinco anos. Sempre que fala do São Paulo, só tem elogios a fazer, pois considera o clube sua segunda casa. Estava sempre apresentando novos projetos ao clube, pois sempre achou que todo atleta que almeja ser um grande jogador de futebol, tem que treinar muito os fundamentos. Franzino, caminhando meio desengonçado pelo campo, ele mantinha aquele espírito guerreiro do tempo que jogava, pois não parava um só instante, estava sempre gritando com a garotada “pega aqui, vai ali, passa rápido”. Na fisionomia, a alegria de estar passando para as crianças tudo aquilo que aprendeu quando chegou na cidade da garoa, onde ele sofreu muito no início, mas depois se apaixonou pela cidade.

               Sempre que perguntam à ele qual foi o melhor time que jogou, ele prefere dividir a resposta em duas etapas. Diz que o melhor foi o time de 1970, onde jogavam; Sérgio, Forlan, Jurandir, Roberto Dias e Gilberto Sorriso; Edson, Terto e Gerson; Paulo, Toninho Guerreiro e Paraná. O técnico era Oswaldo Brandão. No entanto, o time de 1975 também era muito forte, onde jogavam; Sérgio, Nelsinho, Paranhos, Arlindo e Gilberto Sorriso; Chicão, Muricy Ramalho e Pedro Rocha; Terto, Serginho Chulapa e Zé Carlos. O técnico desse time era José Poy.

               Terto sempre foi um jogador muito querido pelos companheiros, talvez pela sua simplicidade. Chegou a jogar pelos veteranos do São Paulo e sempre que jogava contra um time do nordeste, fazia questão de ir no hotel onde estavam hospedados os jogadores para matar a saudade dos amigos que lá deixou e aproveitar para atualizar-se sobre as novidades da sua terra natal. Esse é Tertuliano Severino dos Santos, o Terto, que brilhou na equipe do São Paulo na década de 70 e que foi mágico ao utilizar sua velocidade para receber os lançamentos de Gerson e, através dos cruzamentos, criar gols para a alegria da torcida tricolor.

1970 – Em pé: Adailton, Sérgio, Gilberto, Edson, Jurandir e Forlán   –    Agachados: Paulo, Terto, Pedro Rocha, Gérson e Paraná
Em pé: Nenê, Roberto Dias, Celso, Edilson, Eduardo e Picasso    –     Agachados: Miruca, Terto, Babá, Benê e Paraná
Em pé: Wilson Campos, Manoel, Aguillera, Mário Maguila, Ângelo e Ney Roz    –     Agachados: Terto, César, Sócrates, Lorico e Genau
Em pé: Roberto Dias, Cláudio Deodato, Tenente, Nenê, Edson  e Picasso    –     Agachados: Osvaldo Sarti, Nicanor, Gérson, Toninho Guerreiro, Terto e Paraná
Em pé: Gilberto Sorriso, Sérgio, Roberto Dias, Edson, Jurandir e Forlan   –     Agachados: Paulo, Terto, Toninho Guerreiro, Gérson e Paraná
1970. Em pé: Gilberto Sorriso, Sérgio, Roberto Dias, Edson, Jurandir e Forlan   –    Agachados: Paulo, Terto, Pedro Rocha, Gérson e Paraná
Seleção Paulista de 1969.   Em pé: Eurico, Leão, Baldocchi, Dé, Dias e Dudu    –     Agachados: Buião, Terto, Leivinha, Paraná e Ademir da Guia
1971 – Em pé: Jurandir, Sérgio, Gilberto, Arlindo, Edson e Forlan     –   Agachados: Terto, Pedro Rocha, Toninho Guerreiro, Gérson e Paraná
Em pé: Gilberto Sorriso, Sérgio, Samuel, Edson, Arlindo e Forlan    –     Agachados: Paulo, Terto, Toninho Guerreiro, Pedro Rocha e Paraná
Em pé: Waldir Peres, Gilberto Sorriso, Amaral, Paranhos, Nelsinho Baptista e Chicão    –    Agachados: Terto, Leivinha, Geraldão, Pedro Rocha e Nei
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