SABARÁ: terceiro jogador que mais jogou pelo Vasco

                  Onofre Anacleto de Souza nasceu dia 18 de junho de 1931, na cidade de Atibaia – SP. Começou sua carreira na Ponte Preta de Campinas, em 1950, mas foi no Vasco da Gama que passou a maior parte de sua carreira, doze anos. Nesse período, disputou 576 jogos, uma marca que perdurou por décadas, sendo ultrapassada somente em 1979 por Roberto Dinamite com 1.110 jogos e anos depois pelo goleiro Carlos Germano com 632 jogos. Portanto, Sabará é o 3º jogador que mais vestiu a camisa do Vasco, pelo qual conquistou três títulos estaduais, um Torneio Rio-São Paulo e um torneio internacional.

                 Depois de muitos anos dedicados ao Vasco, foi dispensado em 1965, tendo como alegação que todo o elenco precisava passar por uma reformulação, sendo assim, foi jogar na Portuguesa do Rio de Janeiro. Magoado com a forma como saiu de São Januário, Sabará ansiava pelo confronto com o seu antigo clube. E finalmente chegou este dia, era o Campeonato Carioca de 1965 e a Portuguesa de Sabará venceu por 2 a 1.

PONTE PRETA

                O sol forte castigava o campinho onde a garotada jogava sua pelada nos arredores da cidade de Campinas naquela metade dos anos 40. Entre eles, um negrinho se destacava com suas fintas ousadas. Sua pele suada brilhava tanto que um pequeno grupo de torcedores o incentivava gritando “Vai jabuticaba Sabará”, numa comparação com a fruta que era abundante naqueles arredores. O apelido pegou rapidamente e poucas pessoas o conheciam pelo seu verdadeiro nome que era Onofre Anacleto de Souza. Depois de destacar-se nas equipes amadoras da região até meados de 1947, o habilidoso atacante foi levado para a A.A. Ponte Preta, onde assinou seu primeiro contrato profissional.

               A década de 50 se inicia com o Campeonato de Profissionais do Interior valendo pela Lei do Acesso e Descenso, instituída pela Federação Paulista em 1949 e que dava oportunidade aos clubes do interior de poder participar da Primeira Divisão de Profissionais. O primeiro clube a subir de divisão foi o XV de Novembro de Piracicaba e o primeiro a descer foi o Comercial da Capital. A Ponte Preta começa então a sua luta em busca do acesso. Em 1950 é comemorado o cinquentenário A.A. Ponte Preta, já sendo o clube mais antigo do Brasil em atividade. O campeonato foi vencido pelo Radium de Mococa, que em 1951 disputou a Primeira Divisão.

               Em 1950 a equipe da Ponte era formada por; Fla, Bruninho e Alcides; Nego, Gaspar e Rodrigues; Damião, Servilio, Pedrinho, Sabará e Oliveira. Esta foi a equipe que perdeu para o Corinthians por 3 a 2, no dia 8 de janeiro de 1950, num jogo amistoso realizado do estádio Moisés Lucareli. Os gols corintianos foram marcados por Cláudio (2) e Colombo, enquanto que para a Ponte, os dois gols foram assinalados por Damião. Pela equipe campineira, Sabará disputou as temporadas de 1950 e 1951 atuando nas duas extremas do ataque campineiro e logo chamou a atenção dos dirigentes do C.R. Vasco da Gama no ano de 1952.

VASCO DA GAMA

               O Vasco, que no início daquela década já tinha contado com o lendário Tesourinha, o famoso Friaça, Edmur e Noca como donos da camisa sete, tinha agora o sempre simpático, alegre e arisco Sabará, que chegou um tanto timidamente em São Januário. O ponteiro direito logo caiu nas graças da torcida cruzmaltina pela dedicação, oportunismo e facilidade para encontrar os companheiros nas jogadas em que chegava a linha de fundo. Nas três temporadas seguintes, o Flamengo dominou o cenário e o Vasco já não era mais o mesmo time do espetacular período do “expresso da vitória”. Agora, precisaria trabalhar muito para evitar o provável tetra-campeonato do Flamengo.

               A temporada de 1956 marcou a primeira conquista de Sabará com a camisa do time da colina. Longe de contar com uma formação de ataque que pudesse fazer os torcedores lembrarem dos tempos do expresso, o Vasco daquele período contava com atacantes voluntariosos e eficientes: Sabará, Livinho, Vavá, Valter e Pinga. Com o prestigio novamente em alta, os rapazes da colina excursionaram pela Europa em junho de 1957, obtendo ótimos resultados. Em 30 de junho, o Vasco sapecou a ótima formação do Benfica jogando em Lisboa pelo placar de 4×2, com tentos anotados por Válter (2), Sabará e Livinho. Mesmo não sendo um ponta capaz de fazer frente à Garrincha ou Julinho Botelho, Sabará foi convocado algumas vezes para jogar pela seleção brasileira.

               Sabará era um ponta que atacava e chutava como poucos. E ainda defendia com a mesma eficiência. Era mesmo um daqueles jogadores que davam a alma pelo time. Durante o período em que jogou pelo Vasco, Sabará foi um dos jogadores mais queridos da torcida cruzmaltina. É o terceiro atleta que mais jogos disputou com a camisa vascaína, perdendo somente para Roberto Dinamite e Carlos Germano. Foi campeão carioca em 1956, Supercampeão em 1958 e campeão do Torneio Rio-São Paulo de 1958, cujo título foi decidido na última rodada, quando o Vasco goleou a Portuguesa de Desportos por 5 a 1 em pleno Pacaembu.

               Este jogo aconteceu dia 6 de abril de 1958 e neste dia o técnico Francisco de Souza Gradim, do Vasco da Gama, mandou a campo os seguintes jogadores; Barbosa, Dario (Ortunho) e Bellini (Viana); Écio, Orlando (Barbosinha) e Coronel; Sabará, Almir, Vavá, Rubens e Pinga.  Os gols vascaínos foram anotados por Vavá (2) e Almir (3), enquanto que Ocimar marcou o único tento da Lusa.

               Em 1965, após uma reformulação no elenco vascaíno, Sabará foi dispensado e transferiu-se para a Portuguesa do Rio de Janeiro. Ainda em 1965, Sabará teve uma curta passagem pelo Desportivo Itália da Venezuela. Após isso, encerrou a carreira e ainda trabalhou como representante comercial. Jogou no Vasco de 1952 até 1964 e nesse período conquistou o Campeonato Carioca: 1952, 1956 e 1958, o Torneio Rio-São Paulo de 1958 e o Torneio Internacional de Paris em 1957. Com a camisa vascaína, Sabará disputou 576 jogos e marcou 165 gols. Sabará é o sétimo maior Artilheiro da história do Vasco da Gama.

SELEÇÃO BRASILEIRA

               Na época em que Sabará jogou, não era nada fácil chegar a vestir a camisa da Seleção Brasileira, pois em sua posição (ponta direita) só tinha fera, como por exemplo; Joel (Flamengo), Garrincha (Botafogo), Telê Santana (Fluminense), Canário (América), Calazans (Bangu), Dorval (Santos), Cláudio (Corinthians), Julinho Botelho (Portuguesa e Palmeiras), Jair da Costa (Portuguesa), Maurinho (São Paulo), entre outros. Mesmo assim, em 1956 foi convocado para defender a Seleção Brasileira em alguns jogos pelo Velho Continente.

               No dia 8 de abril derrotamos Portugal por 1 a 0, gol marcado por Gino Orlando (de bicicleta, o primeiro dos três gols que o atacante marcou com a camisa canarinho). Neste dia o Brasil jogou com; Gilmar, Djalma Santos, De Sordi, Zózimo e Nilton Santos; Roberto Belangero e Didi; Sabará, Walter, Gino Orlando e Canhoteiro. Ao todo, Sabará defendeu o selecionado em 10 jogos (7 vitórias, 1 empate e 2 derrotas) e marcou um gol, que foi contra a Seleção do Uruguai na Copa Oswaldo Cruz em 1955.

HOMEM  SIMPLES

               Na seleção brasileira, Sabará pagou caro por sua simplicidade quando apareceu justamente as cinco da tarde, somente de calção e chinelos no salão de chá do tradicionalíssimo Lane Park Hotel em Londres. Irritado, o técnico Flávio Costa recomendou a comissão técnica que nunca mais convocasse um jogador que não demonstrasse uma postura suficiente para atuar pela seleção brasileira nos gramados da Europa. Mas Sabará era assim, simples e ao mesmo tempo distraído. Em uma partida arbitrada pelo sempre formal Armando Marques, que tinha o hábito de chamar o jogador pelo nome, Sabará quase acabou expulso de campo ao virar as costas enquanto o desesperado Armando gritava: “Seu Onofre venha cá agora!”  Depois da partida, Sabará contou aos repórteres que a culpa daquilo tudo era da jabuticaba Sabará e sendo assim custou a entender que o referido Onofre era ele mesmo!

               Numa época em que o futebol brasileiro era pródigo de grandes pontas-direitas, Sabará foi um dos melhores pontas do país. Além de atacar e chutar como poucos, defendia com a mesma eficiência. Era daqueles jogadores que davam alma ao time e não hesitava dar bronca quando seus companheiros mereciam, naquele seu linguajar característico: “Suas mulherzinhas, como é que deixam aquele baixinho (Babá do Flamengo) cabecear na frente de vocês?”. Durante doze anos Sabará foi um dos jogadores mais populares entre os torcedores do Vasco e talvez o jogador que mais se identificava com a camisa cruzmaltina. Depois de Roberto e Carlos Germano, foi o jogador que mais vezes a vestiu. Mas também houve o final de carreira. Ele foi obrigado a encerrá-la na Portuguesa Carioca, para onde foi transferido após uma reformulação no plantel vascaíno.

               Sabará era um ponta-direita diferenciado, habilidoso e muito veloz. Sua versatilidade era primordial para a equipe, dependendo da necessidade ele sempre recuava para ajudar a defesa cruzmaltina. Logo conquistou a torcida com sua raça, se tornando um ícone do futebol brasileiro. Isso refletiu nos jovens jogadores negros que eram chamados de Sabará ao de destacarem. Em 1953 se tornou efetivo no time principal com a renovação do Expresso da Vitória. Em um jogo Vasco x Botafogo, Sabará foi protagonista de um lance belíssimo. O gênio Nilton Santos, com raiva de Sabará e a poucos metros deste, chutou a bola com muita violência para acertá-lo, Sabará então com extrema habilidade a matou no peito e colocou no fundo da rede. Sabará, que sempre incorporou seu apelido mais do que o próprio nome, faleceu em 8 de outubro de 1997, vitimado por uma crise renal.

1956  –   Em pé: Carlos Alberto, Paulinho, Bellini, Laerte, Orlando e Coronel    –   Agachados: Sabará, Vavá, Livinho, Walter e Pinga

Em pé: Barbosa, Paulinho, Bellini, Écio, Orlando e Coronel    –   Agachados: Sabará, Pacoti, Pinga, Roberto Pingo e Roberto Peniche
Em pé: Barbosa, Dario, Bellini, Écio, Orlando e Ortunho   –    Agachados: Sabará, Almir, Rubens, Vavá e Pinga
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