LULA: o treinador que mais títulos conquistou no mundo

                  Sempre que se comemora o “Dia do Treinador de Futebol”, é lembrado o nome de Lula, o treinador que mais títulos conquistou no mundo.  Luiz Alonso Perez nasceu dia 22 de fevereiro de 1922, na cidade de Santos-SP. Teve o privilégio de comandar o melhor time que já existiu no planeta, um time que conquistou praticamente todos os campeonatos, Libertadores, Mundiais Interclubes e torneios que disputou. Lula (o primeiro Lula famoso no Brasil), trabalhou no Santos F. C. de 1954 até 1966 e nesse período conquistou 38 títulos, uma marca que dificilmente outro técnico irá alcançar, principalmente nos dias de hoje, que a mentalidade dos dirigentes não permite que um técnico perca três jogos seguidos, pois já estará dispensado.

                Depois que saiu do Santos, Lula teve outro grande  momento  de  glória,  não  foi  a conquista de um  título, mas  foi  comemorado  como  se  fosse,  quando  quebrou  o tabu de 11 anos que o Corinthians não vencia o Santos, tabu este que ele próprio começou em 3 de novembro de 1957 e que só veio terminar no dia 6 de março de 1968. Antes de se tornar treinador de futebol, Lula foi padeiro, trabalhava com o pai, e chofer de táxi. Mas amava o futebol e começou a trabalhar jovem como técnico de times da várzea santista, como o Palmeirinha e o Americana. Não demorou foi para a base da Portuguesa Santista, depois para o amador do Santos e acabou no profissional como interino.

SANTOS F.C.

               Em 1954 Lula assumiu o cargo de treinador do Santos F.C. Na época o time praiano era formado por; Manga, Hélvio e Feijó; Cássio, Formiga e Zito; Joel, Valter, Alvaro, Vasconcelos e Tite. Era um bom time, tanto é que no Torneio Rio-São Paulo daquele ano venceu o Corinthians por 2 a 0, dois gols de Vasconcelos. Esse mesmo Corinthians que naquele ano conquistaria o título de Campeão do IV Centenário, ou seja, Campeão Paulista de 1954. No ano seguinte Lula conquistaria seu primeiro título, o de Campeão Paulista. No outro ano, em 1956, conquistou mais quatro títulos e em 1959, outros cinco títulos. Realmente foram extraordinários seus primeiros anos como treinador.

               Não podemos negar que Lula teve a felicidade de ter em suas mãos, jogadores extraordinários, jogadores que jamais irão aparecer outros do mesmo nível. No gol tinha Gilmar, na zaga, Mauro Ramos de Oliveira, no meio de campo Zito e Mengálvio e no ataque, simplesmente Dorval, Coutinho, Pelé e Pepe. O meio campista Zito era o capitão do Santos. Ele tinha a liberdade de dar ordens aos jogadores dentro das quatro linhas, com isto, muitos diziam que Lula não tinha tantos méritos assim, mas Zito sempre discordou disso. O que muita gente não sabe, é que quando Pelé chegou na Vila Belmiro em 1956, Lula o orientou e muito, soube lapidar aquele diamante que ainda não brilhava e assim também o fez com o ponta Edu e outros craques que por lá passaram.

DEPOIMENTO DE PEPE

               Pepe, o canhão da Vila, conta uma história que mostra que Lula conhecia muito bem seus jogadores e tirava proveito disso com muita inteligência. ”Eu estava machucado, com uma distensão muscular na coxa direita e fui fazer um tratamento. Eram aqueles fornos que queimavam, infra-vermelho, e demorava uns 40 dias, era de 20 dias para cima com certeza. Fui fazer tratamento e o Santos estava concentrado porque ia jogar contra o Jabaquara, e o Lula me viu lá. O Lula tinha um pouco de preocupação com o Jabaquara, que era o clássico da cidade. A Vila Belmiro dividia. O Lula me viu lá, e perguntou como eu estava e eu disse que não estava bem, mal dava para andar. Então ele perguntou e para chutar dá?  Eu respondi que para chutar não tinha problema, então ele me disse, fica preparado que domingo vou te escalar. Levei um susto, mas quem escalava era o homem…

               Quando o alto falante anunciou o Pepe na ponta esquerda, o próprio torcedor ficou surpreso. O jogo estava 2 a 1 para o Jabaquara e naquela época só podia trocar um jogador até os 43 do primeiro tempo. Entrou outro e eu fiquei. O locutor da rádio falando “Como é que o Lula coloca o Pepe? Olha lá, tá parado!”. Fiquei lá, e quase no fim do jogo sobrou uma bola para mim chutar e eu empatei a partida, 2 a 2. Aí o Pelé sofreu um pênalti. O locutor falou: “Lá vai Pepe com distensão e tudo!” (risos) Aí bati, fiz 3 a 2 e saí carregado, porque eu não podia mais nem andar. Virei herói.” Realmente o Lula entendia e muito de futebol”. Como técnico que mais ganhou títulos, deveria estar no comando da seleção brasileira. Acontece que na época os treinadores do Rio de Janeiro tinham preferência. Deixou o clube praiano depois de um desentendimento com Pelé, boato nunca confirmado. Pouco valorizado nessa época (diziam que ele jogava as camisas para o ar no vestiário e os jogadores que as pegassem, jogavam), foi o responsável pelo lançamento de vários craques, tais como os ídolos santistas Pagão e Coutinho.

CORINTHIANS

               Lula chegou ao Parque São Jorge no final de 1967 e sua estréia como técnico do alvinegro aconteceu dia 26 de novembro, quando o Corinthians derrotou a Prudentina por 4 a 1 pelo segundo turno do Campeonato Paulista. Neste dia, Prado, Dino Sani, Rivelino e Benê marcaram para o Timão e o time corintiano jogou com; Marcial, Osvaldo Cunha, Ditão, Luiz Carlos e Edson; Dino Sani e Rivelino; Marcos, Prado, Flávio e Benê. Depois de alguns meses, Lula iria quebrar um tabu que ele próprio deu início, ou seja, o Corinthians derrotou o Santos depois de 11 anos sem vencer em Campeonato Paulista. Isto aconteceu dia 6 de março de 1968, quando o Timão venceu por 2 a 0 o Peixe, gols de Paulo Borges e Flávio.

              Um jogo que entrou para a história do futebol paulista. Lula ficou no comando técnico do alvinegro de Parque São Jorge até o dia 1 de junho de 1968, quando perdeu para a Ferroviária de Araraquara por 4 a 1, jogo válido pelo segundo turno do Campeonato Paulista. Nesse período comandou o time em 35 partidas, venceu 20, empatou 7 e perdeu 8. Não conquistou nenhum título pelo Corinthians. Antes de encerrar a carreira, Lula ainda trabalhou na Portuguesa Santista, Portuguesa de Desportos e Santo André.

HOMENAGEM 

               Uma das principais homenagens que Lula recebeu ainda foi em vida. Um desenho feito pelo famoso artista espanhol Pablo Picasso, com dedicatória e tudo. Picasso era fã do futebol do Santos e Lula chegou até a visitar a casa dele no sul da França, na década de 60. Foi uma bonita homenagem. Mas é pouco. Lula foi o técnico mais injustiçado da história do futebol brasileiro. Recebeu uma proposta para dirigir o Real Madrid no final da década de 60. Era muito dinheiro, mas recusou. Porque sonhava em voltar para o Santos. E aquele afastamento do Santos foi lhe matando aos poucos. No início da década de 70 a oposição santista venceu a eleição com a ajuda dele após prometer que ele seria o treinador se ganhassem. Mas ouviu no rádio o anúncio quando disseram que o treinador seria o Mauro (ex-zagueiro). Lula depois desse dia nunca mais foi o mesmo. A hipertensão se agravou e no dia 15 de junho de 1972 veio a falecer.

               Lula está eternizado no memorial de conquistas da Vila Belmiro. Há uma foto enorme em um local em que outros ídolos aparecem. É muito pouco para um profissional que trabalhou no clube por doze anos e seis meses e dezenas de títulos que ajudou conquistar. Lula está enterrado em Santos, cidade em que nasceu e brilhou. Sabia escolher os jogadores, dava 50 pra ele, ele escolhia os melhores. Mas em termos de preparação psicológica, se dependesse dele… Até tática, ele fazia o feijãozinho com arroz. Para Edu, o que ele falava era “Vai pra cima do lateral que ele é lento e pesadão”. Edu jogou com ele no infantil e no juvenil, e depois no profissional. Ele tinha esse dom de conseguir fazer um ambiente bom, e os jogadores respondiam à altura. Todo mundo chamava ele de professor. Falava o português totalmente incorreto, e os jogadores achavam graça. Chamava o Coutinho e dizia “Coutinho… você tem promoção para engordar”. E não era promoção, era propensão! Para o Pelé o que ele podia falar? “Negão, to contando contigo, vai lá e arrebenta com eles”. Esse era o Lula.

               Lula ganhou tudo: campeão paulista de 1955, 1956, 1958, 1960, 1961, 1962, 1964 e 1965. Bicampeão da Libertadores (1962 e 1963), Bicampeão Mundial Interclubes (1962 e 1963), Campeão da Taça Brasil de 1961 a 1965, Campeão do Torneio Rio-São Paulo de 1959, 1963, 1964 e 1966. Ganhou também outros torneios de verão, inverno, primavera e outono, pelo mundo afora. Luiz Alonso Perez, ou simplesmente Lula, morreu jovem. Tinha 50 anos quando teve infecção generalizada decorrente de um transplante de rim que foi prejudicado por causa de sua hipertensão. Mas foram 50 anos bem vividos. Alguém lamentaria ganhar 38 títulos no futebol e comandar talvez o maior esquadrão que já atuou junto? Se o ataque formado por Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe jogava por música,  o grande maestro era o técnico Luís Alonso Peres, o Lula.

Em pé: Técnico Lula, Feijó, Dalmo, Zito, Fioti, Urubatão, Manga, Laércio, Hélvio e Getúlio      –     Agachados: Dorval, Hélio, Álvaro, Afonso, Pagão, Del Vecchio, Pelé, Pepe e o massagista Macedo
SELEÇÃO DO SANTOS: Técnico Lula – Em pé: Carlos Alberto, Gilmar, Mauro, Alex, Léo e Zito – Agachados: Clodoaldo, Pelé, Robinho, Coutinho e Pepe   (faltou Neymar)
Em pé: Técnico Lula, Hélvio, Urubatão, Fioti, Ramiro, Manga e Ivan     –    Agachados: Dorval, Jair Rosa Pinto, Pagão, Del Vecchio e Tite
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