TUFFY: um goleiro que não podemos esquecer

‘               Tuffy Neugen nasceu dia 17 de outubro de 1898, na cidade de Santos – SP. Foi um personagem pitoresco, Tuffy recebeu o apelido de “Satanás”. Vestia-se de traje preto e ostentava grandes costeletas que contribuíam para sua figura singular. Protagonizou histórias incomuns, como a vez em que teria pedido emprestado um chapéu para que com ele defendesse um pênalti cobrado pelo jogador bugrino Lolico. Devolvia a bola para os atacantes adversários, como provocação. Era um exímio defensor de pênaltis; ou quando foi impedido de seguir sua carreira na A. A. Palmeiras no ano de 1918, pois se suspeitava de que tivesse recebido suborno numa partida contra o Corinthians. Morreu de pneumonia dupla em São Paulo, e conta-se que Tuffy foi enterrado com a camisa de goleiro do Corinthians. Tuffy teve uma  vitoriosa  passagem pelo Operário Ferroviário Clube.

PRIMEIROS CLUBES

               Tuffy começou sua carreira na Associação Athlética das Palmeiras, em 1917. Em 1919 jogou pelo Pelotas do RS. Em 1920 retornou à sua cidade natal e foi jogar pelo Santos Futebol Clube onde ficou dois anos. De 1922 a 1925 jogou pelo Sírio, e no final de 1925 fez duas partidas pelo Palestra Itália. Em 1926 retornou para o Santos Futebol Clube para mais duas temporadas.

CORINTHIANS

               Somente em 1928 chegou ao clube que mais marcaria sua longa carreira, o Corinthians. Sua estréia com a camisa do alvinegro entrou para a história, pois no dia 22 de julho de 1928, o Corinthians fez a inauguração do Estádio que levou o nome do presidente do Corinthians de 1930 até 1933, Sr. Alfredo Schuring, num jogo amistoso contra o América, que era o atual campeão do Rio de Janeiro. O placar foi de 2 a 2, com dois gols de De Maria para o Corinthians, enquanto que Sobral e Mineiro marcaram para o time carioca. E já no primeiro jogo, tivemos o gol mais rápido daquele estádio até os dias de hoje e ele aconteceu aos 29 segundos de jogo, através do ponta esquerda corintiano De Maria. Neste dia o Corinthians jogou com; Tuffy, Grané e Del Débbio; Nerino, Sebastião e Munhoz; Apparício, Neco, Rato, Guimarães e De Maria. O técnico foi Ângelo Rocco.  No ano que chegou ao Corinthians já conquistou o título paulista, fato que se repetiu em 1929 e 1930. Dessa forma o Corinthians conquistava seu segundo Tricampeonato, uma vez que já havia conquistado em 1922, 23 e 24.

               E foi neste ano de 1928, que o Corinthians deu uma nova arrancada para a conquista do seu segundo tricampeonato. Na partida que decidiu o título de 28, o Alvinegro bateu a Portuguesa por 3 a 2, em casa. Revoltado com a arbitragem, o dirigente Benedito Bueno da Lusa  invadiu o campo armado e foi agredido por Neco, que só não levou um tiro porque o cartola foi contido pela polícia. Após a Lusa deixar o gramado, o árbitro Enéas Sgarzi autorizou Neco a dar nova saída e marcar o último tento sem goleiro. No ano seguinte veio o bicampeonato em cima do arqui-rival Palestra por 4 a 1. Este jogo aconteceu no dia 1 de dezembro de 1929 e os gols foram anotados por: De Maria (2), Filó e Gambinha, enquanto que para o Palestra marcou Carrone.

              Este título foi de forma invicta. Este ano de 1929, também foi importante para o Corinthians, pois além de conquistar seu sétimo título estadual, venceu o Barracas da Argentina por 3 a 1 no primeiro amistoso internacional do Corinthians. Este jogo aconteceu dia 1 de maio de 1929 e foi realizado no Parque São Jorge. No dia seguinte estava estampado no jornal “A Gazeta” um texto do jornalista Thomaz Mazzoni que saudava a “fibra dos mosqueteiros”. Sendo assim, a partir daquele dia os jogadores do Corinthians passaram a ser chamados de Mosqueteiros e o time ganhou o mascote adotado até os dias de hoje como oficial.  Em 1930 veio o segundo tricampeonato e o jogo final aconteceu no dia 4 de janeiro de 1931, quando o Corinthians goleou o Santos por 5 a 2 em plena Vila Belmiro.

             Os gols foram marcados por: Gambinha (2), De Maria, Filó e Nápoli, enquanto que para o Peixe marcaram Feitiço e Vitor. Neste dia a torcida corintiana invadiu a Vila Belmiro. Foram 8 composições de trem com 10 vagões cada, todos de corintianos que saíram da Estação da Luz para verem o Timão conquistar seu segundo tricampeonato. Na volta muitos torcedores viajaram em cima dos vagões sem camisa comemorando o titulo, com isto, muitos vieram a morrer de pneumonia e tuberculose.

               A última partida de Tuffy na meta corintiana, aconteceu dia 17 de maio de 1931, (dia da fundação do jornal “GAZETA DE LIMEIRA”) quando o Corinthians perdeu para o Santos por 3 a 2. Marcaram para o Peixe, Feitiço (2) e Mário Seixas, enquanto que para o Timão, os dois gols foram anotados por Filó. Este jogo foi realizado no Parque São Jorge, num domingo a tarde e foi válido pelo segundo turno do Campeonato Paulista. Com a camisa do Corinthians, Tuffy jogou de 1928 até 1931 realizando nesse período 71 jogos. Venceu 48, empatou 11 e perdeu 12. Sofreu 115 gols.

EMPRESÁRIO

               Além de talentoso sob as metas, hábil nas palavras e dono de um coração bondoso, Tuffy também era um homem de negócios. Após encerrar sua carreira no Corinthians, foi proprietário do cinema Penha Teatro (alguns sites dizem ele ter sido bilheteiro de um cinema no centro, mas ele foi na realidade dono), vendendo depois, por razão que desconheço, ao Sr Antônio Rego Vieira.

CORAÇÃO BONDOSO

               Em outubro de 1931 Tuffy publicou um anúncio de 1/4 de página no jornal “A Gazeta”, um feito bem dispendioso para um jogador de futebol na época. No seu anúncio, um apelo para que dirigentes e esportistas paulistas se unissem para auxiliar o jogador Tatu, que até pouco tempo antes deste anúncio, havia defendido a Portuguesa de Desportos e gravemente doente teve que abandonar definitivamente o futebol, chegando a passar muita necessidade. No anúncio, Tuffy com palavras emocionantes conclamava seus colegas a contribuírem com 10$000 (10 contos de Réis) para ajudar Tatu (apelido do atacante Altino Marcondes). A ajuda, após o apelo, foi grande, mas Tatu viria a falecer meses depois, no início de 1932.

O  FIM

               Em 4 de dezembro de 1935, vitimado por uma pneumonia dupla, Tuffy viria a falecer. Como era desejo seu, foi sepultado com a camisa do Corinthians em seu mausoléu no Cemitério São Paulo em Pinheiros e é lá que está até hoje. Mas poderia estar melhor, seu túmulo há muito tempo está esquecido e em situação de abandono. Seu túmulo é bastante simples e aparentemente ele está ali sozinho. Uma foto sua com o uniforme de goleiro do Corinthians em um lado e duas placas, uma com suas datas de nascimento e morte e outra uma homenagem recebida por ele em 1936 doada por veteranos do futebol. Me entristece em ver que quase ninguém se lembra mais deste grande ídolo do futebol brasileiro.

              Nós não reverenciamos nossos mortos, temos medo e preconceito de ir a um cemitério, quando na verdade ali é um recinto de paz. O que Tuffy contribuiu para o futebol alvinegro tornar-se aos 100 anos de existência o gigante que é, pede que seja mais lembrado pelos corintianos. Fazendo uma analogia simples, se o Corinthians fosse uma casa em construção, de nada hoje adiantaria Liedson, Ralf e Chicão fazerem o telhado, se homens como Tuffy Neugen não tivessem antes construído os alicerces.

GOLEIRO

               O velho ditado diz que onde o goleiro pisa nem grama nasce. O goleiro, por excelência, é um atleta diferente de todos, enquanto os outros jogam com os pés, ele é o único que pode utilizar as mãos. Os outros jogadores correm atrás da bola e dos adversários, ele permanece estático, guarnecendo o seu arco. Os demais buscam o gol, objetivo maior do futebol, ele, ao contrário, cuida de evitar, a todo o custo que o objetivo não seja alcançado. Dizem que no futebol a posição mais ingrata é a de goleiro. E ser goleiro significa ser um jogador de dois extremos. Uma sequência de defesas espetaculares pode fazer deste um herói, por outro lado se falhar cai em desgraça. Esta tão instável posição que já revelou no passado inúmeros talentos, tanto ou mais que nos dias de hoje.

                Vimos pisar nos gramados homens como Gilmar, Oberdan, Leão, Manga, Félix, só para citar alguns nomes mais conhecidos. Hoje a geração de goleiros consagrados atende pelos nomes de Rogério Ceni, Marcos, Cássio, Fábio, Vitor, entre outros. Mas muito antes de todos estes goleiros do passado e do presente sequer pensarem em serem consagrados, um grande jogador de nome e personalidade forte, caráter irrepreensível, e de uma segurança invejável sob as metas já defendia o gol corintiano por aí. Seu nome, Tuffy, um goleiro que o torcedor corintiano jamais poderá esquecer.

Em pé: Nerino, Grané, Tuffy, Del Débbio, Guimarães e Munhoz  –    Agachados: Filó, Apparício, Gambinha, Rato e De Maria
GRANÉ – TUFFY – DEL DÉBBIO
O ex-goleiro Tuffy em foto de 1930 é o terceiro da esquerda para a direita. O segundo é Grané e o quarto é Del Debbio    –    Agachados: Filó, Neco, Gambinha, Rato I e Rato II
Seleção Paulista de 1928    –   Em pé temos Amilcar, Grané, o goleiro Tuffy, Del Débbio e como centroavante Friedenreich
CORINTHIANS   1930   –    Em Pé: Tuffy, Nerino, Grané, Guimaràes, Del Débbio e Munhoz    –    Agachados: Filó, Neco, Peres, Rato e De Maria
CORINTHIANS  1928    –    Da esquerda p/ direita: Tuffy, Grané, Aparício, Neco, De Maria, Del Débbio, Gambinha, Mário, Munhoz, Soares e Rato
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