DICÁ: maior ídolo da Ponte Preta

                   Oscar Salles Bueno Filho nasceu dia 13 de julho de 1947 na cidade de Campinas (SP). Garoto levado, que preferia nas peladas de rua na cidade de Campinas jogar no time dicá e não no dilá, por puro charme, ganhando o apelido que iria torná-lo para sempre respeitado nos gramados brasileiros. Quando Dicá tinha 11 anos, todos os domingos, o campo de areião do bairro Santa Odila, em Campinas, estava sempre cercado de torcedores. “Tudo para me ver jogar” – dizia orgulhoso enquanto saia do pequeno vestiário de madeira, ajeitando a enorme camisa alvi-azul dos infantis do Santa Odila Futebol Clube para dentro do calção azul.

                   Seu Oscar, pai de Dicá e técnico do time, chamou-o de lado – “Meu filho, o negócio é o seguinte: Você não sabe, mas tem muita gente aqui no time reclamado que você anda driblando demais. E eu mesmo estou convencido disso.  Então,  hoje,  vou te botar na reserva.  É a única maneira que eu conheço de você perder esse vício”. Dicá abaixou a cabeça e se afastou devagar. Seu Oscar sentiu que o golpe tinha sido duro demais.  Afinal,  Dicá era de fato  a  grande atração do Santa Odila. A cada domingo aparecia mais gente no bairro, atraída pelas conversas de que ali estava se revelando um Pelézinho branco.

PONTE PRETA

                  Foi levado em 1963 para defender a Ponte Preta. A estrela meteórica participou de apenas sete jogos pela equipe de juniores da Macaca e foi logo integrado ao time principal, com 19 anos de idade. Começava ali uma linda história de amor entre um craque e um clube. A camisa da Ponte Preta parecia inspirar ainda mais o talento de Dicá, jogando na meia direita e com liberdade para criar as jogadas do ataque ponte pretano, ele foi responsável por uma reforma estrutural no time do Moisés Lucarelli.

                  Antes de Dicá, a Ponte teimava em contratar jogadores famosos e experientes, mas com este camisa 10, a diretoria do clube implantou uma nova filosofia para conquistar títulos acreditando nos novatos. O resultado foi o respeito e a projeção do clube no cenário futebolístico paulista e nacional e o Acesso à Primeira Divisão do Campeonato Paulista em 69. No Paulistão de 70, Dica foi eleito o jogador revelação do campeonato.

                 Na década de 70 na cidade de Campinas, em São Paulo, as duas maiores equipes do interior do estado, viviam tempos de glórias, afinal de contas dava para formar uma seleção brasileira de dar trabalho em qualquer Copa do Mundo com os bons jogadores das duas equipes sem sombra de duvidas. Como não poderia deixar de faltar nesses times, havia em cada um deles um grande líder, um cérebro, aquele jogador que comandava a equipe dentro de campo e sabia os atalhos do campo, o tempo da bola, a maestria dos passes, lançamentos e magia sobrenatural nas bolas paradas: Dicá na Ponte Preta e Zenon no Guarani disputavam quem era o melhor cobrador de faltas, ambos tinham a destreza sutil na arte de colocar a bola no fundo das redes em cobranças de falta e quando era na entrada da área o grito de gol era quase certo. 

SANTOS F.C.

                  Em 1971, Dicá teve uma passagem discreta no Santos de Pelé, Clodoaldo, Carlos Alberto, Rildo, Edu e Cejas. Mesmo tendo poucas oportunidades de mostrar suas habilidades, nada mal para um jovem jogador, que recebeu elogio até do Rei do Futebol: “Durante uma partida em Recife contra o Sport me sai muito bem e assim que terminou o jogo, Pelé me chamou de lado e me entregou sua camisa, dizendo que era um prêmio por ter sido o melhor jogador em campo e responsável pela vitória santista. Aquilo me emocionou muito, afinal, era o Pelé”. Mas era apenas na Macaca que Dicá justificava o futebol que o transformou em Mestre.

PORTUGUESA

              Quando foi defender a Lusa (72-76), amargurou o banco de reserva e assim como no Peixe, era escalado como meia esquerda, com os técnicos pedindo para que o craque desse combate, que se preocupasse em defender, e não atacar. Por isso, parecia mesmo sina brilhar com a camisa 10 da Ponte Preta: “Sabe como eu jogava nesse time? Era dali pra frente. Sem preocupação de voltar muito, até a área da gente, sem ser obrigado a marcar o tempo todo, correndo atrás do adversário, mais preocupado em não deixar fazer do que fazer. O que me prejudicou nas outras equipes foi esse negócio de mudar a maneira de jogar: eles queriam que eu jogasse da minha área até o meio do campo. Só até ali. Quer dizer, exatamente o contrário do que eu estava acostumado a fazer e do que eu gostava”, explica Dicá, que também assistiu de camarote uma transferência sem sucesso para o Fluminense. Mas e os títulos?

               Se tem uma tristeza que o Mestre guarda é não transformar em pó a angústia dos torcedores da Macaca por não conquistar o título dos Campeonatos Paulistas de 70,77,79 e 81. Era sempre um lance, um nervosismo a mais, uma falta de experiência, uma marcação individual, um juiz que atrapalhava e deixava a Ponte com o vice-campeonato.  Mas se o que realmente importa é o troféu de campeão, Dicá conquistou o Campeonato Paulista de 73, defendendo a Lusa, que ficou com o título daquele ano com o Santos.

               Em uma coluna escrita para o jornal A Gazeta Esportiva do dia 15 de maio de 1998, o Mestre Dicá afirmou: “O jogador cerebral está em extinção, se é que já não foi extinto. Jogadores como Gérson, Rivelino e Ademir da Guia já não existem mais”. Saudoso por jogadores e jogadas brilhantes, Dicá sabia exatamente que essa grande safra também foi responsável pela sua maior frustração como atleta: nunca ter sido convocado para defender a seleção brasileira de futebol. 

               Ele sabia que por mais que se destacasse e se esforçasse, o Brasil tinha apenas uma seleção, e inúmeros craques. “Eu tive essa ilusão. Já cheguei a me abater por não ter sido lembrado para a seleção e ficar horas em profunda depressão emocional. Mas nada como a sequência dos jogos e campeonatos para nos fazer voltar à rotina de nossa profissão e esquecer as decepções”. Só mesmo um Mestre como Dicá para aceitar com tanta humildade o que a cartilha do futebol escreveu em sua história.

               Se na Ponte Preta viveu seu grande momento, na Portuguesa de Desportos, com o técnico Oto Glória, viveu um verdadeiro inferno sem nunca reclamar. Em 1972 a Lusa era um time em ascensão, mas ele caiu na desgraça de Oto Glória, que preferia a combatividade de Basílio ao jogo cerebral de Dicá. O técnico sentia prazer em ser cruel com o craque campineiro. Quando escalava, costumava dizer nas preleções – “Você vai entrar. Mas fique sabendo: se jogar mal, sai logo, logo”. E Dicá nunca reclamou. Mesmo nos momentos mais cruciais de sua vida, Dicá sempre se mostrava tranquilo e sem reclamar de nada.

                Ele jogou seis meses emprestados ao Santos de Pelé e na hora de vender o passe, mesmo sabendo que a Ponte Preta ganharia muito dinheiro, ele preferiu ficar em Campinas. Jogou na Portuguesa, onde o técnico Oto Glória procurou humilhá-lo e Dicá ficava em silêncio, certo de que poderia se impor tão somente com o seu futebol.

                No decorrer dos anos 70, vários jogadores inferiores a ele foram convocados para a seleção brasileira, mas jamais se ouviu de sua boca uma reclamação. E nem ouvirá. Em 1978, o jornalista Brasil de Oliveira, do Jornal da Tarde, fez uma enquete – Qual o jogador mais querido em Campinas? Não foi Oscar, Zenon, Carlos ou Careca. O vencedor foi Dicá. E não apenas porque ele era educado, simpático ou boa gente. É que o povo conhece o futebol. O treinador Zé Duarte sempre dizia – “Campinas deve estátuas a duas pessoas: Amaral e Dicá”.

                Nas duas decisões dos campeonatos paulistas de 1977 e 1979, entre Corinthians e Ponte Preta, Dicá ao vivo ou pela TV para o Brasil inteiro, mostrou todo seu grande futebol. Foi um meia armador que por mais de dez anos bateu na bola como poucos, colocando quase sempre seus companheiros de ataque na cara do gol, esfriando ou esquentando o ritmo das partidas com sabedoria. Apesar disso, Dicá sempre foi um rapaz retraído, muito bicho do mato. Terminou a carreira na equipe do Araçatuba, no interior de São Paulo, em 1985.

                Dicá tinha como principais características os lançamentos milimétricos, passes certeiros e um chute muito forte, além de ser um exímio cobrador de falta, considerado o cérebro do time. Era um verdadeiro camisa 10. Foi eleito o melhor jogador da história da Ponte Preta, sendo o jogador que mais vezes vestiu a camisa da Macaca, além do maior artilheiro da história do clube.
Hoje Mestre Dicá, como ficou conhecido em Campinas, tem quatro filhos (um dentista, um fisioterapeuta, um professor de Educação física e uma empresária) e vive confortavelmente em Campinas. Trabalhou até 2008 na Rádio e TV Bandeirantes de Campinas como comentarista esportivo. Ainda hoje, por onde passe em Campinas é saudado com muito carinho, tanto pelos torcedores da Ponte, como também do Guarani. Isto prova o enorme respeito e carinho que o torcedor campineiro tem por Dica. Por tudo isso, nossa humilde homenagem ao “Mestre Dicá”.

Em pé: Cardoso, Santos, Calegari, Badeco, Mendes e Zecão      –     Agachados: Antônio Carlos, Dicá, Tatá, Adilton e Xaxá
Em pé: Cejas, Orlando, Ramos Delgado, Marçal, Clodoaldo e Turcão      –     Agachados: Jader, Dicá, Mazinho, Pelé e Edú
Em pé: Teodoro, Wilson, Samuel, Henrique, Nelsinho Baptista e Santos      –     Agachados: Alan, Dicá, Manfrini, Roberto Pinto e Ézio.
Em pé: Mendes, Zecão, Badeco, Calegari, Santos e Cardoso      –     Agachados: Antonio Carlos, Enéas, Tatá, Dicá e Wilsinho
Em pé: Mauro Dias, Polozzi, Oscar, Vanderlei, Moacir e Odirlei      –     Agachados: Lúcio, Marco Aurélio, Parraga, Dicá e Genau
Em pé: Carlos, Oscar, Polozzi, Vanderlei, Jair Picerni e Odirlei      –     Agachados: Lúcio, Marco Aurélio, Rui Rey, Dicá e Tuta

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