FRIEDENREICH: primeiro ídolo do futebol brasileiro

                   Arthur Friedenreich nasceu dia 18 de julho de 1892, na cidade de São Paulo (SP). Um craque maior que Pelé? Mais fino do que Di Stefano? Mais boêmio do que Heleno de Freitas? Do grande Friedenreich se diz tudo isso e muito mais. Filho de um comerciante alemão e de uma lavadeira negra brasileira, Arthur Friedenreich nasceu no bairro da Luz em São Paulo e aprendeu a jogar bola com bexiga de boi. Poucos anos depois de Charles Miller chegar ao país, em 1894, trazendo o futebol como novidade, o Brasil revelou seu primeiro ídolo. Hoje em dia, são poucos aqueles que viram Friedenreich brilhar nas décadas de 1910, 1920 e 1930. Sem dúvida, foi o primeiro ídolo do futebol brasileiro na época amadora, que durou até 1933. Era considerado pelos cronistas da época um jogador inteligente dentro de campo. Era conhecido como “El Tigre”.

COMO TUDO COMEÇOU

                  Tão logo Friedenreich percebeu seu talento para jogar com bola de capotão em peladas improvisadas nas ruas mal calçadas do bairro paulistano da Luz, onde nascera na esquina das ruas Vitória e Triunfo, nomes que profetizaram seu destino esportivo. O futebol, que continuava uma novidade, fora trazido ao Brasil em 1894 pelo estudante paulista Charles Miller, de volta de uma viagem de dez anos à Inglaterra. Praticado a princípio nos ambientes fechados dos chamados clubes elegantes de São Paulo e do Rio de Janeiro, sobretudo os que congregavam colônias estrangeiras, não demorou para que o jogo se difundisse nas várzeas. O futebol, de qualquer maneira, custou a se popularizar. Clubes como América, Fluminense, Rio Cricket, Germânia, Paulistano e São Paulo Athletic, que participaram dos campeonatos principais das duas cidades, tinham entre seus jogadores apenas filhos de boas famílias, com título de doutor e pele invariavelmente branca. Isso poderia ser um obstáculo para o jovem Arthur Friedenreich, que herdara da mãe, uma lavadeira mulata, as características raciais que fizeram dele um mestiço. Mas não foi.

                  Com 17 anos incompletos, arranjou uma vaga no time do Germânia, onde receberam sem problemas aquele rapaz magricelo de jogo habilidoso e de cabelos que lembravam os de um europeu. Embora fossem naturalmente ondeados, ele os alisava com pacientes aplicações de gomalina, uma espécie de brilhantina, e de toalhas quentes. Tratava-se de um processo demorado, mas eficiente: Friedenreich, sempre o último a entrar em campo, por causa dos cuidados com o penteado, chegou a ser considerado um branco. Bronzeado, porém branco. Foi o preço que pagou para que lhe fossem abertas as portas do nascente e elitista futebol brasileiro. Agora não mais um mulatinho de um bairro da baixa classe média, eis Friedenreich fazendo gols em cima de gols pelos clubes por onde passava: Mackenzie, Paulistano, Germânia outra vez, e bem depois São Paulo e Flamengo.

                Seu pai, o velho Oscar, que nunca perderia o sotaque, começou a anotar os gols de seu filho, selecionando as súmulas dos jogos, e não se cansava de comentar com os amigos: “Pézinho de Arthur vale ourrrro…” Prosseguiu anotando até 1918, quando Friedenreich, já maduro e famoso, transferiu-se para o Paulistano, o aristocrático clube do Jardim América em que ele viveria os mais fulgurantes e inesquecíveis momentos de sua carreira. A partir daí, passou a incumbência a um de seus novos companheiros de equipe, Mario de Andrade, que não era parente de seu homônimo escritor. Mario, que logo se tornaria seu amigo, cumpriu a missão ao longo de 17 anos. Enquanto cada um de seus jogos ia sendo documentado, Friedenreich projetava-se como uma celebridade nacional, dimensão que atingiu durante o Sul-Americano de 1919, realizado no Rio de Janeiro.

               Tudo contribuiu para que ele virasse ídolo do país inteiro: suas belíssimas atuações, o gol histórico na segunda prorrogação da final contra o Uruguai e, como pano de fundo, o crescente entusiasmo popular pelo futebol, que virava uma paixão brasileira. Com a vitória da Seleção e a inauguração do estádio do Fluminense, palco do campeonato, o público das grandes partidas passou de 4 mil para 20 mil espectadores. O apelido de “El Tigre” foi dado pelos uruguaios após a conquista do Campeonato Sul-Americano de 1919, atual Copa América. O jogador Neco que foi o primeiro ídolo do Corinthians, foi o artilheiro da competição, mas no jogo final que aconteceu dia 29 de maio de 1919, e que o Brasil venceu o Uruguai por 1 a 0, foi  Friedenreich que marcou o único gol da partida.

                Depois do jogo suas chuteiras ficaram em exposição na vitrine de uma loja de jóias raras no Rio de Janeiro. No ano de 1925, voltou da Europa como um dos “melhores do mundo”, depois de vencer, pelo Paulistano, nove dos dez jogos disputados. Um de seus mais incríveis feitos ocorrido em 1928, foi a marca de sete gols numa única partida contra o União da Lapa, batendo o recorde da época. Ele jogava pelo Paulistano e o resultado final foi de 9 a 0, no dia 16 de setembro; a curiosidade fica por conta do pênalti perdido por Friedenreich. Jogando pelo Paulistano, Friedenreich sagrou-se campeão paulista nos anos; 1918, 19, 21, 26, 27 e 29.

SÃO PAULO F. C.

               A sua posição de origem foi a de centroavante. “El Tigre” acabou introduzindo novas jogadas no ainda menino futebol brasileiro, na época ainda amador, como o drible curto, o chute de efeito e a finta de corpo. Foi campeão paulista em diversas oportunidades pelo clube Paulistano. Também atuou pelo São Paulo Futebol Clube da Floresta, precursor do atual São Paulo Futebol Clube, conquistando mais um campeonato paulista em 1931. O time do São Paulo campeão naquele ano ficou conhecido por “Esquadrão de Aço”, e era formado por Nestor; Clodô e Bartô; Mílton, Bino e Fabio; Luizino, Siriri, Araken e Junqueirinha. Pela Equipe tricolor “El Tigre” marcou 99 gols, figurando na décima sétima posição na tabela dos maiores artilheiros do tricolor paulista.

SELEÇÃO BRASILEIRA

                Sua estréia na seleção se deu no ano de 1912 em um amistoso contra a seleção paulista, quando o escrete brasileiro venceu por 7 a 0 com dois gols de “Fried”. Sua despedida aconteceu em 1935, em um jogo contra o River Plate no dia 23 de fevereiro, no qual o Brasil ganhou por 2 a 1. Friendenreich fez pela seleção principal 23 jogos e marcou 12 gols. Já na seleção de veteranos, em 1935, disputou 2 jogos e marcou 2 gols. No ano de 1914 ganhou o primeiro título do Brasil na história: a Copa Rocca, taça amistosa realizada para melhorar as relações diplomáticas entre Brasil e Argentina. Outras conquistas importantes que conseguiu foram os Sul-Americanos de 1919, marcando o gol do título na prorrogação contra os uruguaios, e 1922, primeiras conquistas relevantes da Seleção Brasileira.

ARTILHEIRO             

                A carreira de Friedenreich foi marcada por feitos, histórias e polêmicas. A maior delas é em relação ao número de gols marcados. A Fifa chegou a referendar que o atacante teria feito 1.329 gols. Mas o escritor Alexandre da Costa conferiu os registros de todos os jogos de “El Tigre” em pelo menos dois jornais, “Correio Paulistano” e “O Estado de S. Paulo”, e chegou a números bem diferentes: 554 gols em 561 partidas. Como se pode ver, o número de gols varia. Realmente, é muito difícil ter a conta exata de gols e partidas de Friedenreich, em especial pelo fato de que na época os jornais davam mais destaque até à criação de pombos que ao futebol.

                O registro de seus incontáveis gols que se acredita terem ultrapassado de muito a barreira dos mil foi levado por um caminhão de lixo da Prefeitura de Santos, em 1962, entre restos apodrecidos de comida, latas vazias e papéis inúteis. Perdido, portanto, para sempre.  Suas glórias e façanhas, que hoje poderiam fazer parte da memória da cultura nacional, transformaram-se então numa coleção de lendas fantásticas e numa antologia de histórias maravilhosas. Se houvesse meios de recuperar tais registros, Friedenreich sem duvida se consagraria perante a posteridade como o maior jogador que o mundo conheceu antes do aparecimento de Pelé. Sendo assim, muitos jogos nunca foram registrados ou, se foram, não possuem detalhes como o placar ou quem marcou os gols.

                 Mas de uma coisa temos certeza, Friedenreich parecia conhecer todos os segredos do futebol e sabia quando e como ia marcar um gol. Nos dias atuais, ainda é considerado um dos maiores centroavantes que o Brasil já teve. Uma das característica marcante da personalidade de Friedenreich era seu caráter questionador. Em 1932, engajou-se na Revolução Constitucionalista, doando troféus, medalhas e prêmios em benefício da causa. Encerrou a carreira no Flamengo, em 21 de julho de 1935, aos 43 anos de idade. Depois de abandonar os gramados, viveu na pobreza um bom tempo até morrer em 6 de setembro de 1969, em uma casa cedida pelo São Paulo F. C.

SELEÇÃO BRASILEIRA DE 1919

Friedenreich em campo com a seleção brasileira contra a Argentina, pelo Sul-Americano de 1925
Três gênios do futebol brasileiro: Leônidas da Silva, Friedenreich e Pelé
SELEÇÃO DO EXÉRCITO DE AQUIDAUANA – MT – Em pé da esquerda p/direita: Arthur Friedenreich que foi o árbitro deste jogo. Ao seu lado o Sr. Gildo Margonar que nasceu em 1917
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