ORLANDO: o gato preto do canindé

                    Orlando Alves Ferreira nasceu dia 25 de julho de 1940, na cidade do Rio de Janeiro – RJ. Era conhecido por Gato Preto, por sua elasticidade e agilidade. Durantes vários anos revezou a posição com o goleiro Felix na Portuguesa, com o qual foram companheiros inseparáveis. Hoje continuam juntos lá no céu com certeza. Orlando foi o último ganhador do prêmio Belfort Duart, em 6 de setembro de 1973, prêmio concedido aos profissionais que completam mais de 200 partidas oficiais de futebol ou ficam 10 anos sem sofrer uma única punição, de acordo com o artigo documentado pela revista Placar, em 8 de abril de 1977. Mesmo que a lua iluminasse, eram muitos os comentários de que o goleiro Orlando não enxergava direito em partidas disputadas à noite. O que justifica algumas infelicidades em bolas praticamente defensáveis que acabaram indo para o fundo das redes. Jogou na Portuguesa de 1963 até 1974, ou seja, uma época em que teve que enfrentar os bombardeios de Pelé, Pepe, Coutinho e companhia, pois foi a época que o Santos tinha um ataque arrasador.

PORTUGUESA DE DESPORTOS

               Orlando começou a carreira no final do ano de 1958, no São Cristovão do Rio de Janeiro, onde permaneceu até o final de 1962. No início de 63 foi contratado pela Portuguesa, que na época tinha um grande time; Orlando, Cacá, Ditão, Edilson e Vilela; Pampolini e Nair; Neivaldo, Gino, Silvio e Gilberto. Este foi o time que o técnico Aymoré Moreira mandou a campo para enfrentar o Corinthians no dia 25 de agosto de 1963, no estádio do Pacaembu. O jogo terminou empatado em 1 a 1, gol de Silvio para a Lusa e Silva para o Corinthians. Neste ano a Lusa não fez uma boa campanha no Paulistão, ficando em décimo segundo lugar. Mas nesse Campeonato Paulista, a Lusa realizou, disciplinarmente, uma campanha exemplar, já que em 30 partidas teve apenas um jogador expulso.

               Em 1964 a Portuguesa foi convidada para tomar parte nos eventos ligados à Feira Internacional de Nova York, e teve de enfrentar em Massachusetts, uma seleção local.  O time da Portuguesa era respeitável, com Ivair (o príncipe), Henrique Frade, Almir e o campeão mundial Dida entre outros. A Lusa venceu por 12 a 1. Na última rodada do Paulistão, a Portuguesa enfrentou o Santos em plena Vila Belmiro. Na época a Lusa tinha um grande time, inclusive brigou pelo título paulista daquele ano até o final, tanto é que ficou em terceiro lugar, somente quatro pontos atrás do Santos que foi o campeão.

               Naquele domingo à tarde, com verdadeiro dilúvio caindo na Vila Belmiro, Ivair chegou a sofrer um pênalti escandaloso do lateral direito Ismael, não marcado pelo árbitro Armando Marques.  O lance aconteceu no primeiro tempo, quando o placar ainda estava em branco.  O Santos venceu por 3 a 2 e todos os gols aconteceram no segundo tempo, sendo eles na seguinte ordem: Toninho, Pepe, Ismael (contra), Ditão e Pepe de falta.  Neste dia a Portuguesa que era comandada por Aymoré Moreira, jogou com a seguinte formação: Orlando, Jair Marinho, Ditão, Wilson Silva e Edílson; Pampolini e Nair; Almir, Henrique, Dida e Ivair.

               Orlando pode não ter sido um goleiraço quando jogou na Portuguesa, mas pegava as bolas defensáveis. De quebra, de vez em quando praticava defesas impossíveis no período em que ficou no clube. Durante vários anos Orlando e Felix se revezavam no gol da Portuguesa. Havia uma cultura no futebol de treinadores intercalarem a escalação de goleiros a cada partida quando o nível técnico de ambos era semelhante. Assim, Orlando só foi fixado como titular da Lusa com a transferência de Félix para o Fluminense, cuja trajetória culminou com ingresso na Seleção Brasileira, chegando a disputar a Copa de 1970, no México, como titular absoluto, disputando todas as partidas do mundial.

               A militância de Orlando no futebol ocorreu num período em que eram raros os goleiros negros. Exemplos marcantes se resumiram a Barbosa, Veludo, Barbosinha, Ubirajara Alcântara, Mão de Onça. Dimas Monteiro, Tobias e Jairo. Infelizmente alguns desses goleiros ficaram marcados por gols que sofreram e que o torcedor jamais perdoou. Assim foi com Barbosa na Copa de 50 e Barbosinha no Corinthians em 1967, quando já era ídolo da Fiel torcida corintiana, mas depois foi taxado de frangueiro pelos torcedores ao sofrer dois gols de Tupãzinho contra o Palmeiras.

CAMPEÃO PAULISTA

               Embora fosse reserva do goleiro Zecão no ano de 1973, Orlando também foi campeão paulista daquele ano. Um título que a Lusa dividiu com o Santos, devido a um erro aritmético do árbitro Armando Marques. Este jogo aconteceu dia 26 de agosto de 1973, quando Santos e Portuguesa de Desportos decidiram o título paulista nos pênaltis, uma vez que no tempo normal, houve empate de 0 a 0. E mesmo com a prorrogação, o placar continuou em branco. Esta foi a primeira decisão por pênaltis da história do futebol paulista. Em dado momento, para espanto de todos, Armando Marques ergueu os braços e encerrou a partida dando vitória ao Santos.

               Os santistas nem perceberam que ainda faltavam duas cobranças para a Lusa e uma para o Peixe, o que poderia terminar empatado em 2 a 2, então começaram a comemorar o título. Oto Glória, técnico da Lusa, percebeu o erro e ponderou que seu time tinha poucas chances de reverter a situação. Antes que seus jogadores fizessem algum tipo de reclamação, mandou todo mundo para o vestiário e, de lá, direto para o ônibus, para que o árbitro não tivesse oportunidade de reparar a sua falha. Com isto, a Federação Paulista de Futebol declarou os dois clubes como campeões daquele ano de 1973.

FINAL DE CARREIRA

               No final de carreira, Orlando jogou em equipes de pouca expressão, como Sampaio Corrêa do Maranhão, Operário de Campo Grande, Mato Grosso e pelo Operário de Várzea Grande, também Mato Grosso, quando em 1976, encerrou a sua carreira. Posteriormente, atuou na grande equipe do Milionários, um time que reunia grandes astros do futebol. Depois chegou a ser treinador de goleiros da própria Portuguesa e do Juventus.

TRISTEZA

               Orlando Alves Ferreira, o Orlando Gato Preto, arqueiro da Portuguesa de Desportos nos anos 60, depois de quatro meses internado, veio a falecer no dia 19 de julho de 2007, às 5:37h no hospital do Mandaqui (zona norte de São Paulo), em decorrência de um AVC (acidente vascular cerebral). Ele morava em São Paulo, na Vila Albertina, prestava serviços para a Prefeitura de São Paulo pela “Cooperativa Craques de Sempre” e tinha uma escolinha só para goleiros no bairro de Santana, zona norte de São Paulo. Era casado e deixou três filhos e três netos. Faltavam 6 dias para completar 67 anos. Em toda sua carreira conquistou dois títulos somente, o de 1973 com a Portuguesa e o de 1975 pelo Sampaio Corrêa, pelo campeonato estadual do Maranhão, onde até hoje é lembrado pelos torcedores daquela equipe, por tudo que ele fez pelo clube.

               Era uma pessoa muito querida por todos, pois sempre foi um homem simples e humilde. Sempre que podia estava a disposição dos jogadores que estavam começando a carreira, dando conselhos e ensinando algumas técnicas que ele tanto utilizava debaixo das traves, onde teve uma brilhante carreira. Era carinhosamente chamado de Gato Preto, pela sua elasticidade, agilidade e por sua cor negra. Como dizia a letra da música do antigo grupo, que fez muito sucesso nos anos 70, os Secos e Molhados: “O gato preto cruzou a estrada. Passou por debaixo da escada. E lá no fundo azul na noite da floresta. A lua iluminou a dança, a roda, a festa. Vira, vira, vira…

               Como já dissemos, a Portuguesa montou um grande time no ano de 1964 e foi nesse ano que a Lusa fez uma partida a qual Orlando sempre comentava que tinha sido uma de suas melhores apresentações com a camisa número 1 da Portuguesa. Este jogo aconteceu dia 22 de novembro de 1964 no Estádio Paulo Machado de Carvalho, o velho Pacaembu. Neste dia a Portuguesa derrotou o Corinthians por 4 a 2, com gols de Ivair, Henrique, Dida e Almir, enquanto que para o alvinegro de Parque São Jorge marcaram, Silva e Marcos. Neste dia o técnico da Lusa, o saudoso Aymoré Moreira, o mesmo que comandou nossa seleção na conquista do bicampeonato mundial em 1962, no Chile, mandou a campo os seguintes jogadores; Orlando, Jair Marinho, Ditão, Wilson e Edilson, Pampolini e Nair; Almir, Henrique, Dida e Ivair.

              Realmente o goleiro Orlando sempre gostou de jogar contra o Corinthians, pois sempre fazia grandes partidas contra o alvinegro. Assim também foi no dia 29 de maio de 1968, quando a Lusa goleou o Corinthians por 4 a 0, numa quarta feira a noite no Pacaembu. O jogo foi válido pelo segundo turno do Campeonato Paulista e neste dia Leivinha marcou três gols e o quarto foi de Basílio. Neste dia Orlando pegou tudo, embora o Corinthians tivesse um ataque muito bom e viesse com muita disposição, pois dois meses atrás havia quebrado o famoso tabu de 11 anos contra o Santos. O ataque corintiano era formado por; Paulo Borges, Benê, Flávio, Rivelino e Eduardo.

              Na memória e na história da Associação Portuguesa de Desportos ficará a lembrança e o agradecimento a esse grande nome do futebol brasileiro, Orlando, o Gato Preto que brilhou na meta da Lusa e que até hoje seu torcedor guarda na lembrança as defesas milagrosas que ele fazia.

Em pé: Orlando, Luizão, Marinho Peres, Zé Maria, Lorico e Augusto      –     Agachados: Ratinho, Ivair, Leivinha, Paes e Rodrigues
Em pé: Orlando, Ulisses, Marinho, Guaraci, Zé Maria e Augusto       –       Agachados: Mário Américo, Leivinha, Paes, Ivair, Lorico e Rodrigues

Em pé: Fogueira, Ulisses, Marinho Peres, Luiz Américo, Orlando e Arengue      –     Agachados: Xaxá, Lorico, Cabinho, Basílio e Piau
Em pé: Guaraci, Paes, Zé Maria, Marinho Peres, Orlando e Luiz Américo      –     Agachados: Waldomiro, Basílio, Leivinha, Lorico e Rodrigues

   

Postado em O

Deixe uma resposta