RAFAEL: o menino de ouro do Parque São Jorge

                Rafael Chiarella Neto nasceu dia 17 de janeiro de 1935, na cidade de São Paulo – SP. Começou na divisão de base do Corinthians, depois passou para o profissional, onde ficou por dez anos, de 1950 até 1960. Nesse período conquistou inúmeros títulos, pois foi uma década de ouro do time de Parque São Jorge. Rafael era tão querido no clube, que todos o chamavam de “menino de ouro do Parque São Jorge”. Foi sem dúvida alguma, uma das maiores revelações das categorias de base do Corinthians de todos os tempos. Era alto, magro e com ótima visão de jogo e com extrema elegância dentro do campo. Fez parte de um dos melhores times da história corintiana. Com a camisa do Corinthians, Rafael disputou 451 jogos. Venceu 111, empatou 257 e perdeu 95. Marcou 111 gols. De todos os títulos conquistados pelo Timão, sem dúvida alguma o de 1954 foi o mais importante, pois foi o título do IV Centenário, um título que ficou na história do futebol paulista. Depois foi jogar no Juventus da Moóca, onde encerrou sua brilhante carreira.

AINDA MENINO

               Transcorria o ano de 1946, e depois de um “rachinha” no Parque Dom Pedro II, os meninos do bairro se reuniam no salão de recepção da paróquia de São Vito Mártir. Quase todos Congregados Marianos, dirigidos pelo Roque Teófilo, colaborador da antiga Rádio 9 de julho e, posteriormente, militar e mensageiro cristão pela Rádio Bandeirantes. O Roquinho, como todos o chamavam carinhosamente, atendendo ao apelo da garotada, na faixa de 14 a 16 anos, resolveu fundar um clube de futebol. Em junho desse ano nascia o Juvenil São Vito, posteriormente o “Extra” e ainda depois o São Vito F.C. Quase todos os elementos de origem italiana, “bareses”, de Polignano à Mare, pequena província de Bari e que hoje empresta seu nome a antiga rua Álvares de Azevedo, onde está localizada a igreja de São Vito. Na formação da diretoria, estavam Vicente Carrieri, Rafael Chiarella, Francisco Stoppa e o Roquinho, naturalmente.

              É com muita saudade que recordamos os jogos de rua, que antecederam a formação do Clube São Vito, onde já se vislumbrava o vistoso e brilhante futebol do Rafael Chiarella, que todos queriam ter do seu lado nos “rachinhas” de rua ou no Parque Dom Pedro II. Pra se ter uma ideia de como o Rafael tinha uma intimidade com a bola, a partir de uma jogada simples, mesmo que seu marcador soubesse o que ele faria, driblava com toda a facilidade. Tinha um lance, quando a pelada era disputada na calçada do “parafuso”, antiga metalúrgica na antiga Rua Álvares de Azevedo, em que ele usava a parede como tabela, como se fosse snooker, deixando seu adversário com cara de bobo. Não era preciso ser adivinho ou futurologista pra se prever o futuro craque que seria o Rafael. Os jogos do São Vito eram todos nos campos do adversário e quando o time chegava a assistência era enorme, porque sabiam que aquela tarde iriam ver Rafael.

               Só uma coisa decepcionou Rafael: era palmeirense “roxo” de carteirinha, mesmo com ajuda de parentes, que eram conselheiros do Palmeiras, não conseguiu entrar no “verdão”. Na época o Palmeiras já sofria do assédio dos famigerados “corneteiros”, que sempre prejudicaram o time na seleção de novos valores.

CORINTHIANS
              

             Com a ajuda de Nardo, outra vítima dos “corneteiros”, foi pro Corinthians, com 17 ou 18 anos, completando uma carreira simplesmente brilhante, tendo conquistado, entre tantos títulos, o de Campeão do IV Centenário, em 1954. São Paulo, Palmeiras, Corinthians, Santos, Portuguesa etc. tinham, na época, grandes craques mas, o Rafael se destacava pelo finíssimo futebol que praticava e encantava. Ele era a somatória de um Heleno de Freitas, com Ademir da Guia e Didi. Hoje, só resta a lembrança daqueles bons tempos.

              Rafael Chiarella, um craque mesmo, jogava um bolão, só não foi mais além no Corinthians e com isso não ter chegado à Seleção Brasileira pelo fato de carregar a fama de palmeirense, isso muito o atrapalhou no Corinthians, ele mesmo, numa entrevista, levada ao ar num domingo, feita em sua residência, falou isso, por carregar a fama de ser palmeirense, teve vários problemas. Outro motivo que atrapalhou e muito a carreira de Rafael foi o fato do mesmo não viajar de avião. Quando o Corinthians ia jogar fora e precisava viajar de avião, Rafael saia um dia antes e ia de automóvel.

               Uma das partidas que Rafael mais recordava tal foi a importância do gol que ele marcou naquele dia, foi o jogo contra a Portuguesa de Desportos no dia 9 de janeiro de 1955, quando o Timão venceu a Lusa do Canindé por 1 a 0, gol de Rafael. Com este gol o Corinthians começou sua arrancada para a conquista do título de 1954. Neste dia o Corinthians jogou com; Gilmar, Homero e Alan; Olavo, Goiano e Roberto Belangero; Cláudio, Luizinho, Baltazar, Rafael e Nonô. Como este título de 54 foi muito importante, muitos esquecem dos outros títulos que Rafael conquistou com a camisa corintiana, sendo assim, vamos citar os demais:  Taça Charles Müller de 1954 e 1958; Pequena Taça do Mundo em 1954; Troféu Bandeirantes em 1954; Torneio Internacional Charles Müller em 1955; Taça o mais querido do Brasil em 1955; Torneio Rio-São Paulo em 1955; Torneio Início do Campeonato Paulista em 1955; Copa Atlântico em 1956; Taça dos Invictos em 1957; Troféu Lourenço Fló Junior em 1962.

CAMPEÃO DO IV CENTENÁRIO

               O time do Corinthians estava escalado com Gilmar, Homero e Alan; Idário, Goiano e Roberto Belangero; Cláudio, Luizinho, Baltazar, Rafael e Simão. Um time individualmente tão bom quanto o Palmeiras, mas com muito mais raça. Nessas alturas, o estádio já estava lotado. Em menor número, a torcida do Palmeiras, ocupava um terço da lotação do Pacaembu e vibrava vendo seu time vencer o Corinthians por 3×1 no jogo de aspirantes. Os altos falantes anunciava o time do Palmeiras. Laércio, Manuelito e Cacão; Nilo, Valdemar Fiume e Dema; Liminha, Humberto, Nei, Jair da Rosa Pinto e Rodrigues. Para a maioria da imprensa paulista, um time que jogava certinho por seu estilo técnico.

             Nos primeiros minutos do jogo mais de cinqüenta mil corintianos estavam em silêncio. Gilmar fez duas grandes defesas. Jair e Humberto perderam dois gols considerados feitos. Ventava muito no estádio e a vantagem era do Corinthians que tinha o vento a seu favor. Com isso, melhorou seu futebol e passou a empurrar o Palmeiras para seu campo. E foi ainda aos 9 minutos do primeiro tempo que surgiu o gol do Corinthians. Cláudio cruzou a meia altura para a área do Palmeiras entre Waldemar Fiume e o goleiro Laércio. Rápido, o pequeno Luizinho entrou no meio dos dois e cabeceou para abrir a contagem. Antes de entrar, a bola ainda bateu na trave. O grito de gol de Luizinho foi afogado pelos corpos dos companheiros que começaram a pular em cima do artilheiro. Corinthians, Corinthians, berrava em êxtase a torcida enlouquecida, o velho Pacaembu virou uma loucura.

               No segundo tempo, logo aos cinco minutos, Homero cometeu uma falta em Liminha perto da linha de fundo. Jair chutou com violência. A bola desviou em Idário, tirou Gilmar da jogada, e Nei se aproveitou e fez o gol palmeirense. Era o gol de empate e o jogo fica ainda mais nervoso. Apesar da pressão, o Corinthians se defendia com garra e muita raça. Gilmar se confirmava como o grande nome do jogo. Nei, Jair e Humberto bem que tentaram, mas Idário, Roberto e Goiano se defendiam como podiam. No final do jogo, Roberto Belangero lançou Rafael que ficou diante do goleiro do Palmeiras e perdeu a oportunidade. Logo depois, Humberto ainda teve a chance de fazer o segundo gol palmeirense, quando chegou na marca do pênalti, vê o canto e chuta. Gilmar defende a bola e não dá mais tempo para nada, o árbitro Esteban Marino apita o final da partida. Corinthians Campeão do IV Centenário.

JUVENTUS

               Depois do Timão, o meia vestiu a camisa do Clube Atlético Juventus, onde encerrou a carreira de jogador de futebol. No time da Rua Javari, chegou a jogar junto com um de seus companheiros de Corinthians, o pequeno polegar Luizinho, que também estava prestes a encerrar sua carreira. Nesse ano o time juventino era o seguinte; Claudinei, Dario, Milton Buzzeto, Clovis e Diógenes; Hidaldo e Luizinho; Waldir, Rodarte, Quarentinha, Rafael e Gelson.

               Depois que encerrou a carreira, se tornou dono de uma fábrica de fôrma de sapato na cidade de Franca (SP). Além de dono, ele fazia questão de ser também um dos vendedores e quando ele chegava numa indústria para vender seu produto, todos os funcionários, sendo eles corintianos ou não, faziam questão de cumprimentá-lo, pois era um exemplo de pessoa, fino, educado e muito gentil para com todos. Rafael, o Rafael Chiarella Neto, ex-meia-esquerda do Corinthians nos anos 50 e 60, morreu vítima de cirrose no dia 27 de outubro de 1980, aos 45 anos de idade.

Em pé: Cabeção, Walmir, Oreco, Olavo, Jair e Roberto Belangero     –    Agachados: Bataglia, Paulo, Zague, Rafael e Tite
Em pé: Alfredo Ramos, Oreco, Idário, Olavo, Walmir e Gilmar Agachados: Cláudio, Luizinho, Índio, Rafael e Zague
Em pé: Oreco, Gilmar, Olavo, Cássio, Goiano e Roberto Belangero    –   Agachados: Zezé, Índio, Rafael, Zague e Boquita
Em pé: Olavo, Oreco, Goiano, Walmir, Gilmar e Roberto Belangero     –    Agachados: Bataglia, Rafael, Índio, Luizinho e Tite
Da direita p/esquerda: Gilmar, Zague, Benedito, Rafael, Olavo, Idário, Índio, Walmir, Oreco, Luizinho e Cláudio
Em pé: Alan, Homero, Goiano, Idário, Roberto Belangero e Gilmar      –     Agachados: Cláudio, Luizinho, Baltazar, Rafael e Nonô
CAMPEÃO DO IV CENTENÁRIO – Da esquerda p/direita: Gilmar, Rafael, Goiano, Homero, Idário, Alan, Nonô, Roberto Belangero, Simão, Luizinho, Cládio e o técnico Osvaldo Brandão
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