LADEIRA: um descobridor de talentos

                Adailton Ladeira nasceu dia 23 de agosto de 1941, na cidade de São Paulo. Foi um meia-direita talentoso que chegava com facilidade à área adversária e marcou muitos gols durante sua carreira. Tinha boa impulsão, cabeceava bem e chutava forte da intermediária. Em 15 anos como jogador, Ladeira defendeu 10 clubes. Depois que encerrou a carreira começou a trabalhar como treinador de juniores. Hoje é um dos mais corretos e competentes técnicos de juniores do futebol do Brasil, conquistando inúmeros títulos. Já revelou grandes valores para o futebol, principalmente trabalhando pelo Corinthians. O atacante Gil é um deles. Descoberto em Andradina e trazido para o Parque São Jorge, ele foi estrela do Timão até 2004 e depois também vestiu a camisa do Cruzeiro.

                Revelou também jogadores que fazem sucesso no exterior. Edu, meio campista que foi campeão mundial pelo Corinthians em 2000 e depois foi brilhar no Arsenal da Inglaterra, conquistou seu lugar na seleção brasileira do técnico Parreira. Kléber, lateral-esquerdo que também começou no Corinthians, já também no futebol alemão do  Hannover, e pelo Basel, da Suiça. Em 2005, Kléber se transferiu para o Santos e depois para o Inter de Porto Alegre. Todos eles foram revelados por Ladeira e juntos, foram campeões da Copa São Paulo de Juniores em 1999 contra o Vasco da Gama.

INÍCIO DE CARREIRA

               Iniciou no juvenil do Comercial de Ribeirão Preto. mudou-se com os pais para Ribeirão Preto quando tinha quatro anos de idade. Os tios Kelé e Ladeira, irmãos de seu pai Olívio, eram zagueiro e meia-direita do Botafogo, respectivamente. Por influência deles também tornou-se jogador profissional. “Tomei gosto pela coisa”, comenta. Emprestado por três meses pelo Comercial ao Jaboticabal, disputou um quadrangular em Uberlândia quando foi observado por Canhotinho, técnico dos aspirantes do Palmeiras, na segunda metade da década de 50. Atuou entre os juvenis do Verdão, mas nunca teve oportunidade na equipe principal. Voltou para Ribeirão Preto, onde jogou no Botafogo.

DIVERSOS CLUBES

               Na Inter de Limeira foi campeão da Série Algodoeira da 2ª Divisão. Comprado pelo XV de Piracicaba, permaneceu duas temporadas no “Nhô Quim”, entre 1963 e 1964, até ser emprestado ao São Paulo. Integrou a equipe que contava com De Sordi, Belline, Pagão, entre outros. Pelo Tricolor, Ladeira disputou o Rio São Paulo de 1965. Fez apenas três jogos com a camisa são-paulina e marcou dois gols No início de 1965, o presidente do América de São José do Rio Preto, comprou o passe do criativo meio-campista junto ao clube piracicabano. Sua passagem no América ficou marcada por uma discussão com o técnico Rubens Minelli durante um coletivo, no estádio Mário Alves Mendonça.

               Ladeira passava por uma má fase e treinava entre os suplentes. “Estava lutando para me recuperar, fiz três gols no coletivo e o Minelli anulou os três”, recorda como se fosse hoje. “Me senti injustiçado, discuti asperamente com ele e quase fomos às vias de fato”, acrescenta. O desentendimento, porém, acabou ali mesmo. Três anos depois, os dois trabalharam juntos no Guarani, sem nenhum atrito. Ladeira ainda jogou no Bangu de Moça Bonita em 1966, no Náutico, de Recife em 1967, onde foi campeão pernambucano e vice-campeão da Taça Brasil naquele mesmo ano.

               No Náutico, ao lado de Valter (goleiro), Nino, Gena, Fraga, Clóvis e do técnico Duque, foi vice-campeão da Taça Brasil em 1967. A final foi contra o Palmeiras, que venceu o primeiro jogo em Recife. Mas na volta, em jogo noturno no Pacaembu, o Náutico venceu por 2 a 1, com gols do centroavante Nino e do próprio Ladeira que, em bela virada, venceu o goleiro paraguaio Perez, do Verdão. O gol palmeirense foi marcado pelo saudoso Tupãzinho, morto em 1986. Só que na negra, o Palmeiras venceu o Náutico por 2 a 0, no Maracanã, com dois gols de César Maluco, debaixo de muita chuva. Ao deixar o Náutico, foi jogar  no Guarani de Campinas, onde encerrou sua  carreira em 1970.

DESCOBRIDOR DE TALENTOS

               Formado em Educação Física pela PUC de Campinas, começou a trabalhar nas categorias de base do Bugre como auxiliar técnico de Zé Duarte. “Aprendi muito com ele (Zé Duarte)”, diz. Ganhou fama como lapidador de talentos e foi responsável pela projeção de grandes valores para o futebol. De suas mãos surgiram craques como o atacante Careca, o zagueiro Júlio César, o lateral-esquerdo Roberto Carlos, além de mais jovens como Marcos Senna, Rodrigo Pontes, etc. Trabalhou 10 anos na base do Guarani e criou identificação com o Corinthians, onde foi tricampeão da Copa São Paulo de Juniores (1998, 2004, 2005 e 2009), além de revelar Cris, Ewerthon, Fernando Baiano, Kléber, Gil, Edu e outros.

O JOGO QUE ENTROU PARA A HISTÓRIA

              No segundo semestre de 1966, o América de São José do Rio Preto emprestou Ladeira e o goleiro Mané Mesquita ao Bangu em troca do empréstimo do zagueiro Zé Oto. Ladeira foi campeão carioca pela equipe de Moça Bonita, protagonizando umas das maiores brigas entre jogadores em campo já vista. A selvageria ocorreu justamente na decisão, contra o Flamengo, único time que havia vencido os banguenses na competição. A grande decisão aconteceu no dia 18 de novembro de 1966, diante de 140 mil torcedores rubro-negros no Maracanã.

                Neste dia o técnico do Bangu, Alfredo Gonzales, mandou a campo os seguintes jogadores: Ubirajara, Fidélis, Mário Tito, Luís Alberto e Ari Clemente; Jaime e Ocimar; Paulo Borges, Ladeira, Cabralzinho e Aladim. O time de Moça Bonita simplesmente atropelou o Mengão. Fez 3 a 0 com gols de Ocimar, Aladim e Paulo Borges e poderia ampliar o marcador com facilidade, caso a partida não tivesse sido encerrada aos 25 minutos do segundo tempo, com uma tremenda pancadaria entre jogadores, iniciada por Ladeira.

               O meia-direita não esquece o lance que originou a confusão. Paulo Henrique se preparava para cobrar um lateral quando Ladeira tentou impedir e provocou o jogador do Flamengo. Paulo respondeu com palavrões e recebeu uma bofetada. Ligado e disposto a tudo para não aumentar a humilhação, Almir, meio-campo do Mengo, perdeu o controle. Apanhar na bola e no tapa era demais para uma tarde só. Ele partiu pra cima de Ladeira, que correu, mas em direção a zaga do Flamengo. Itamar, um negrão de 1,85m e chuteira 44, pulou com os dois pés no peito do meia banguense, que caiu. Almir, que vinha correndo, chutou a cabeça de Ladeira. Ari Clemente, do Bangu, veio por trás e agrediu Almir.

              Ladeira deixou o campo de maca. Almir, que descia para o vestiário, resolveu voltar ao gramado e deu um soco no goleiro Ubirajara. Cercado por Ari Clemente, Mário Tito, Luís Alberto e Fidélis. Almir distribuiu socos prá todo lado. Bateu e apanhou. A muito custo, os policiais conseguiram dominá-lo e levá-lo para fora do campo. O árbitro Airton Vieira de Moraes, que era conhecido por Sansão, expulsou cinco jogadores do Flamengo: Valdomiro, Itamar, Paulo Henrique, Almir e Silva; e quatro do Bangu: Ubirajara, Luís Alberto, Ari Clemente e Ladeira.

               Por causa do conflito, a partida foi encerrada aos 25 minutos do segundo tempo. O resultado foi confirmado e deu ao Bangu o título de campeão carioca de 1966, acabando com um jejum de 33 anos. A campanha foi memorável, com 16 vitórias, dois empates e apenas uma derrota. “O Almir era um cara sensacional, mas naquele dia estava alucinado”, conta Ladeira. “No dia seguinte, ele foi ao meu apartamento, me pediu desculpas e fomos almoçar juntos”, revela. Quatro anos depois, Almir teve uma morte trágica, ao ser baleado num bar do Rio de Janeiro.

EXCURSÃO PELA EUROPA

               Ladeira também marcou muitos gols quando defendeu o XV de Piracicaba, entre janeiro de 1963 e dezembro de 1964. Fez parte, inclusive, da delegação quinzista que excursionou à Europa entre 15 de abril e 11 de junho de 1964. Foram 20 jogos contra equipes da União Soviética, Polônia, Dinamarca, Alemanha Oriental, Alemanha Ocidental e Suécia. A equipe piracicabana acumulou cinco vitórias, cinco empates e sofreu 10 derrotas, com 32 gols marcados e 37 sofridos. Quando se tornou treinador, sonhava em dirigir uma equipe grande e sua maior frustração é não ter ganho uma real oportunidade para trabalhar com profissionais. “Sei que tenho condição, mas quando assumi alguns times, a diretoria não me oferecia o respaldo necessário”, lamenta.

               Ao longo de sua carreira como treinador, Ladeira dirigiu as equipes principais do Barbarense, Paulista de Jundiaí, União São João, XV de Jaú, Inter de Limeira, Francana, Ponte Preta e o Al Shabab, onde foi vice-campeão da Copa da Arábia, em 1995. Trabalhou durantes muitos anos como treinador dos juniores do Corinthians, onde conquistou vários títulos na Copa São Paulo. Ladeira mora no bairro São Quirino, em Campinas, ao lado de sua mulher, Anita, com quem é casado desde 1962 e tem as filhas Telma e Liliane. Os netos Guilherme e Henrique, filhos de Liliane, são sua curtição.

BANGU – Campeão Carioca de 1966  –   Em pé: Mário Tito, Ubirajara, Luiz Alberto, Ari Clemente, Fidélis e Jaime    –   Agachados: Paulo Borges, Cabralzinho, Ladeira, Ocimar e Aladim

Em pé: De Sordi, Bellini, Renato, Dias, Jurandir e Suly    –   Agachados: Faustino, Ladeira, Del Vecchio, Benê e Valdir

Em pé: Miranda, Luizinho, Wilson, Cidinho, Beto Falseti e Cido Jacaré    –    Agachados: Capelozza, Ladeira, Milton, Vanderlei e Vagner
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