ZÉ CARLOS SERRÃO: uma formiguinha dentro de campo

                   José Carlos Serrão nasceu dia 12 de outubro de 1950, nasceu no bairro do Jabaquara, em São Paulo. Durante sua carreira como jogador, acumulou muitos adjetivos. Com uma movimentação constante e aparecendo em todos os setores do campo passou a ser chamado de “formiguinha”, tipo operário. Às vezes recebia tarefas mais pesadas como marcar o astro adversário para que um ou mais companheiros de time brilhassem na partida, então, era o “carregador de piano”. Também foi “polivalente”. Formado na meia-direita, só no São Paulo ele atuou como volante, meia-esquerda, nas duas pontas (direita e esquerda) e até de centroavante. Zé Carlos não ligava para as improvisações. “O importante era estar entre os 11”, diz. Aos 15 anos Zé Carlos já se destacava na várzea paulistana e decidiu fazer testes no Corinthians. Reprovado pelo Timão, alguns meses depois, seus amigos Carlão e Geraldinho o indicaram para um período de avaliação no São Paulo.

SÃO PAULO F.C.

                 Os dois “padrinhos” já estavam no Tricolor. Zé Carlos aproveitou e também levou o irmão dele Betão, que jogava como zagueiro, e o lateral Gilberto Sorriso (amigo de infância). O olho clínico do técnico José Poy não deixou os três novatos escapar. Em 1969, foi campeão paulista juvenil após a vitória sobre o Santos por 3 a 2, na final. Na temporada seguinte, Gerson se machucou e o treinador Zezé Moreira não pestanejou. Colocou Zé Carlos para substituir o “canhota de ouro”. Integrou o elenco do São Paulo campeão paulista de 1970. Para adquirir mais experiência, no ano seguinte, foi emprestado ao XV de Piracicaba. A equipe piracicabana ficou em 6º lugar entre os 12 participantes do Paulistinha e se classificou para o Paulistão.

                Segundo ele, ocorreu uma história curiosa. “Fui bem num amistoso contra o São Paulo e um diretor do Tricolor queria me contratar, sendo que meu passe já era deles.” Retornou ao clube do Morumbi, onde permaneceu até 1977, sendo campeão estadual de 1975, que tinha naquele ano o seguinte time; Valdir Peres, Nelsinho Batista, Paranhos, Arlindo e Gilberto Sorriso; Chicão, Muricy Ramalho e Pedro Rocha; Terto, Serginho Chulapa e Zé Carlos Serrão. Foi um ano maravilhoso para Zé Carlos, pois o time tricolor realmente era muito bom, não esquecendo que no ano anterior ainda tinha Pablo Forlan, pai do jogador uruguaio que fez uma belíssima Copa em 2010, na África do Sul, tinha também o centroavante Mirandinha e o ponta esquerda Piau.

                No entanto, nestes anos sofreu seguidas contusões no joelho direito. “Passei por três cirurgias”, recorda. “Em alguns jogos cheguei a tomar infiltração e fazer pulsão no intervalo para poder voltar no segundo tempo.” Foi convocado seis vezes pela seleção paulista e esteve na lista do técnico Zagallo entre os nomes selecionados para a Copa do Mundo de 1974, sendo afastado devido a uma cirurgia.

                O joelho inchava e Zé Carlos não conseguia jogar às quartas-feiras e aos domingos. “Estava sem condições de manter o mesmo nível que tinha antes das lesões”, afirma. Então, começou a rodar por outras agremiações. No segundo semestre de 1977, o presidente do Botafogo-PB, José Flávio, que também era dirigente do São Paulo, conseguiu levá-lo para a equipe nordestina. Foi campeão paraibano e tornou-se ídolo do clube. Colocou mais uma faixa no peito na temporada seguinte ao conquistar o título catarinense pelo Joinville. Ainda defendeu Juventus, Santo André, Anapolina e ficou cinco meses no Deportivo Cúcuta, da Colômbia. “Foi aí que machuquei o joelho de novo e resolvi parar.”

TRISTEZA

                 O carinho pelo clube que o revelou e os 28 gols que marcou com a camisa são-paulina não foram suficientes para afastar um fantasma do passado. No dia 19 de outubro de 1974, São Paulo e Independiente realizaram a terceira e decisiva partida da Taça Libertadores daquele ano. Na primeira, o Tricolor havia vencido por 2 a 1, no Pacaembu. Os argentinos fizeram 2 a 0 na segunda partida, em Avellaneda, e forçaram o confronto de desempate, que aconteceu em Santiago do Chile. Quem vencesse seria o campeão continental de 1974. E eis que o destino marcaria para sempre a vida de Zé Carlos. O time do Independiente era muito bom, eles também tinham ganhado a Libertadores de 72 e 73. Foram três partidas equilibradas. Era a escola argentina contra a brasileira, e no último jogo qualquer coisa poderia ter acontecido – disse Zé Carlos.

                O Independiente abriu o placar com Pavoni, cobrando pênalti, aos 37 minutos do primeiro tempo. Aos 27 minutos da etapa final, Zé Carlos sofreu uma penalidade, e o São Paulo teria a chance de empatar o duelo e levar a disputa do título para a prorrogação. O ídolo tricolor Pedro Rocha, que havia feito quatro infiltrações no tornozelo para jogar a partida, não reunia condições ideais para cobrar a penalidade. Com isso, a responsabilidade caiu nos pés de Zé Carlos Serrão. “Eu sofri o pênalti e segurei a responsabilidade. O goleiro deles defendeu a cobrança, e nós acabamos perdendo por 1 a 0 e ficamos sem o título daquela Libertadores.

                Eu era jovem, tinha acabado de completar 24 anos, e senti mais que os outros. É difícil de explicar depois de tantos anos. Bate um sentimento de culpa até hoje, de incompetência mesmo” – lembrou.  Mas, depois daquela derrota, o São Paulo ficou 58 partidas invictas, pois o time realmente era muito bom, ninguém quebra esse recorde. Depois fomos campeões paulistas em 1975 em cima da Portuguesa de Desportos na disputa de pênaltis, em que o Waldir Peres brilhou e fechou o gol.

AUXILIAR TÉCNICO

                 Quando pendurou a chuteira, o meia Zé Carlos ficou sete meses inativo até ser convidado por José Poy, coordenador das categorias de base do São Paulo, para prestar serviço ao clube do Morumbi. Trabalhou na formação de novos talentos e foi auxiliar técnico da equipe principal. Em 1986, foi efetivado para suceder Cilinho, mas logo depois a diretoria optou por trazer Pepe, que havia sido campeão paulista pela Inter de Limeira. Zé Carlos, que passou a ser chamado de Serrão, voltou à função de auxiliar, e ajudou o Tricolor a faturar o Brasileiro daquele ano.

TREINADOR
Depois de 9 anos como jogador profissional e 20 anos como funcionário do São Paulo, em 1987, decidiu caminhar com as próprias pernas e assumiu o XV de Piracicaba.“Sabia do meu potencial”, diz. “Peguei o XV em último lugar no Paulistão e conseguimos terminar numa posição intermediária.” Peregrinou por vários clubes (comandou mais de 40) pelo Brasil afora, em alguns, por duas ou três vezes. José Carlos Serrão assumiu o comando do América de São José do Rio Preto em 1997. Porém, ele preferia apagar essa passagem. Montou o time e começou a temporada com dois empates em 1 a 1, contra Botafogo e Guarani. Depois foram quatro derrotas, para Santos (3 a 1), Palmeiras (6 a 0), Portuguesa (3 a 2) e São José (2 a 0). Dirigiu o América por 20 dias apenas.

                  Demitido no dia 31 de março, justamente 20 dias após a sua contratação, Serrão previa o rebaixamento do América, que acabou se confirmando alguns meses depois sob a batuta de Luís Carlos Ferreira, seu sucessor. Fez parte de um intercâmbio entre o São Paulo e a Federação da Coréia do Sul, ficando três anos em Suwon, no país asiático. “Foi uma experiência incrível. Inclusive, pude acompanhar a Copa do Mundo de 2002”, informa. Também comandou o Pogon, da Polônia, em 2006, levando 19 jogadores brasileiros para atuar na equipe polonesa. “O problema era o frio de até 18 graus negativos”, relata. Durante toda carreira de treinador, sempre enfrentou desafios, como o de evitar clubes de renome no futebol brasileiro, a serem rebaixados.

                     Separado judicialmente, José Carlos Serrão, é pai de Cynthia (hoje com 31 anos), Michele, 28, Juninho, 24, Thaís, 22, e Fernanda, 19. Durante sua vida já morou em muitas cidades, mas foi em Mogi Mirim que ele passou a maior parte de sua vida, mesmo porque, está sempre sendo chamado para trabalhar no comando técnico do Mogi Mirim F.C.  Nunca negou que é são-paulino de coração e sempre diz “sou muito grato por tudo o que vivi no São Paulo. Eu era um meia-atacante franzino, habilidoso e extremamente técnico. Não fui muito de fazer gols, mas municiava bem os nossos atacantes. O meu cabelo estilo ‘Black Power’ também chamava a atenção. Estava na moda. O Serginho Chulapa, o Paulo César Caju… muitos tinham aquele cabelo. E o São Paulo daquele tempo era um timaço.

                   Lembro do Pedro Rocha, do Mirandinha, do Forlán. Era uma grande equipe aquela” – comentou. Com a camisa do Tricolor, José Carlos Serrão fez 261 jogos, venceu 117, empatou 99 e perdeu 45. Marcou 28 gols. Os jovens torcedores são-paulinos talvez não saibam quem foi José Carlos Serrão, ou simplesmente Zé Carlos. Meia-atacante habilidoso e de drible fácil. Chegou ao Tricolor Paulista em 1965, com apenas 15 anos de idade, e jogou entre os profissionais do clube do Morumbi entre 1969 e 1977, conquistando três títulos paulistas (1970, 1971 e 1975).

Em pé: Gilberto Sorriso, Sergio Valentim, Roberto Dias, Samuel, Teodoro e Nelsinho Baptista   –    Agachados: Terto, Zé Carlos, Toninho Guerreiro, Pedro Rocha e Serginho Chulapa

Em pé: Gilberto Sorriso, Sérgio Valentim, Roberto Dias, Arlindo, Edson Cegonha e Forlan   –    Agachados: Paulo Nani, Terto, Zé Carlos Serrão, Pedro Rocha e Paraná
Em pé: Gilberto, Sérgio, Samuel, Teodoro, Arlindo e Forlan   –    Agachados: Ratinho, Terto, Zé Carlos, Rocha e Piau
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