CAFURINGA: irreverente, ciscador e folclórico

                Moacir Fernandes nasceu dia 17 de outubro de 1948, na cidade de Juiz de Fora – MG. Foi um ponta direita que jogou no Fluminense e Atlético Mineiro na década de 70, conquistando vários títulos importantes em sua carreira. Para alguns não passou de “ciscador”, folclórico, ao passar o pé sobre a bola; para outros um jogador que se desvencilhava do marcador e pegava bem na bola nos cruzamentos. De fato não era um jogador habilidoso, mas, a exemplo da maioria dos pontas, sabia se posicionar para receber lançamentos e, a partir daí, criava jogadas para que os homens de área completassem.

               Rivelino, que o considerava um amigo do peito, sempre demonstrou gratidão pela ajuda recebida quando chegou ao Fluminense, após deixar o Corinthians com imagem arranhada em 1974. Seja como for, Cafuringa ainda deixa saudade e uma história no futebol brasileiro, por ter sido um jogador que fazia seu feijão com arroz e jamais comprometia sua equipe. Cafuringa começou sua carreira no Botafogo do Rio de Janeiro em 1965. Depois foi jogar no Bangu, onde ficou por pouco tempo até chegar ao Fluminense, onde teve a melhor fase de sua carreira.

FLUMINENSE

               Cafuringa chegou ao Tricolor das Laranjeiras em 1969 e já naquele ano sagrou-se campeão carioca. O time do Fluminense daquele ano era formado por; Felix, Oliveira, Galhardo, Assis e Marco Antonio; Denilson e Samarone; Cafuringa, Silveira, Flávio e Lula. O técnico era Telê Santana. Este foi o time que perdeu para o Corinthians no dia 1 de novembro de 1969 por 2 a 0, gols de Ivair e Dirceu Alves. O goleiro corintiano Ado, defendeu um pênalti cobrado por Lula, quando o placar ainda estava zero a zero.  Mas não podemos negar que o Fluminense tinha um grande time.

              No ano seguinte o Fluminense sagrou-se campeão da Taça de Prata. O jogo que decidiu o título foi contra o Atlético Mineiro no Maracanã dia 20/09/1970 e terminou em 1 x 1 e como o Flu venceu os outros 2 adversários do quadrangular final (1 x 0 no Palmeiras e 1 x 0 no Cruzeiro) este empate lhe deu o título da competição. Em campeonatos cariocas, o Fluminense se dava bem nos anos impares, pois alem do título de 69, ficou campeão também em 1971, 1973 e 1975 e Cafuringa participou de todos eles. Por ter conquistado a Taça de Prata em 1970 (o Campeonato Brasileiro começou em 1971), o Fluminense adquiriu o direito de disputar a Taça Libertadores da América em 1971.

             O Fluminense disputou a Libertadores no grupo 3 e tinha como adversários o Palmeiras que foi vice-campeão, o Deportivo Itália, campeão Venezuelano e o Deportivo Galícia, vice-campeão da Venezuela. A equipe Tricolor estreou na competição com uma vitória sobre o Palmeiras, por 2 a 0, jogando no Pacaembu, em São Paulo, no dia 29 de janeiro. Os dois gols da partida foram marcados por Flávio Minuano e o jogo teve arbitragem do paulista Armando Marques. O Fluminense atuou com: Félix (Jorge Vitório); Oliveira, Galhardo, Assis e Toninho Baiano; Denílson e Didi; Cafuringa, Samarone, Flávio (Mickey) e Lula – Técnico: Paulo Amaral.

               A quarta partida na Libertadores de 1971 foi contra o Deportivo Itália, no dia 03 de março, e o que se viu foi uma das maiores zebras da história do torneiro. O Deportivo Itália que havia perdido por 6×0 em casa para o Fluminense conseguiu sair na frente com um gol de pênalti do zagueiro-central Manoel Tenório. O Fluminense pressionava o quanto podia buscando a vitória que garantiria a classificação para próxima fase, mas o possante ataque formado por Cafuringa, Flávio Minuano, Samarone e Lula, parou na grande atuação do goleiro Vito Fassano.

              O Fluminense perdeu a partida, a primeira vitória de um time Venezuelano em terras estrangeiras. O feito foi chamado de “El Pequeño Maracanazo”. Com esta derrota o Fluminense ficou fora da competição e o técnico Paulo Amaral foi demitido, assumindo o seu posto, Mário Jorge Lobo Zagallo. Durante o período que jogou no Fluminense, Cafuringa teve a honra de jogar ao lado de grandes craques do futebol brasileiro. Como exemplo podemos citar; Gerson, Paulo César Cajú, Felix, Rivelino, Samarone, Lula, Marco Antonio, Doval, Manfrine e tantos outros.

ATLETICO MINEIRO

               Em 1976, Cafuringa foi jogar o Atlético Mineiro e sua estréia foi contra o arqui-rival Cruzeiro. Mais de 101.000 pagantes bateram o recorde de renda no Mineirão na época: 1 milhão e 200 mil Cruzeiros, para ver a decisão da Taça Minas Gerais de 1976. Animada pela estréia de Cafuringa no Galo, a Massa atleticana foi maioria. E viram coisas extraordinárias, a começar pelo gol de Cafuringa, um dos pouquíssimos de sua carreira, passando por uma correria desenfreada, feita muito mais de garra do que de técnica e terminando com a tensão, insuportável que resultou em três expulsos.

               O gol surgiu após uma cobrança de falta, bola rolada por fora da barreira e ele entrou chutando, Raul que defendia o gol da Pampulha, pulou mas a bola passou entre ele e a trave. Atlético um a zero. O empate do Cruzeiro surgiu em uma jogada de Nelinho que passou no meio de dois atleticanos e chutou forte para o gol. Zolini rebateu e Palhinha emendou na corrida, sobre o corpo do goleiro atleticano caído. A tensão aumentou, e o jogo continuou corrido ao extremo. E mesmo com uma prorrogação em eminência, ninguém poupou energia para o tempo extra. Até o último minuto a disputa foi grande por ambas as equipes.

               O que parecia impossível, aconteceu. No tempo extra o jogo ficou ainda mais corrido, mais tenso e mais disputado. E aí foi que o Galo se impôs. Não porque o Cruzeiro diminuísse o ritmo, mas  porque o Atlético correu mais ainda, valendo-se de sua juventude. Aos 7 minutos do segundo tempo da prorrogação, quando se pensava a decisão nos pênaltis, Reinaldo invadiu a área e Piazza o empurrou com as duas mãos. Pênalti CLARO! Mesmo assim, Palhinha e Jairzinho foram reclamar e passaram dos limites toleráveis. Resultado; o juiz expulsou os dois. Reinaldo entrou no bate-boca e também foi expulso.

               Na cobrança, Toninho Cerezo bateu e marcou. Galo 2×1. Festa em BH, Galo Campeão da Taça Minas Gerais 1976. Neste dia o Atlético Mineiro jogou com; Zolini, Getúlio, Márcio, Vantuir e Flávio; Toninho Cerezo, Danival (João Alfredo) e Campos; Cafuringa, Reinaldo e Paulinho (Paulo Isidoro) – Tec: Barbatana. O Cruzeiro jogou com; Raul, Nelinho, Morais, Osires e Mariano; Piazza, Eduardo e Palhinha; Roberto Batata, Jairzinho e Joãozinho – Tec: Zezé Moreira. Este jogo aconteceu dia 25 de abril de 1976, dia da estréia de Cafuringa no Galo mineiro.

               Cafuringa se transferiu para o Atlético Mineiro em 1976 e ficou até o ano seguinte e nesse período disputou 46 jogos e marcou 4 gols. Posteriormente teve passagem por Maringá (PR), Bangu e Tachira da Venezuela, onde encerrou a carreira, num período que gozava de prestígio. Houve insistência de Curitiba, Vila Nova (GO) e Santo André (SP) para que retornasse aos campos, mas recusou enfaticamente. Topou apenas jogar numa seleção de master organizada pelo radialista Luciano do Vale, na década de 80, e arrancou aplausos. E mais: o apelido que o capitão do penta Cafu ganhou tem tudo a ver com Cafuringa, por causa da velocidade. Segundo o próprio Cafu, a coisa mais importante para sua carreira, contudo, foi a adoção de um apelido. Por abusar das jogadas de velocidade pela ponta, foi comparado ao ex-jogador do Fluminense e do Atlético Mineiro Cafuringa e o nome pegou. De Cafuringa, logo virou apenas Cafu.

               Antigamente o que muito se via nos jogadores, era ele atacando, defendendo, dando carrinho ralando o bumbum na grama e saindo de campo extenuado de tanto lugar em campo. E um grande exemplo disso, era Cafuringa. Era indescritível o encantamento que as jogadas do veloz e abusado ponteiro do Fluminense exerciam sobre aquele menino, que se espantava com o tamanho do estádio e com o urro das multidões. Ele costumava ser lançado no segundo tempo, para animar o time em busca da vitória ou tripudiar um adversário já batido. E ele sempre correspondia. Arrancava em velocidade, cortava o lateral para os dois lados, ajeitava a bola, tocava por entre as pernas do zagueiro, dava mais dois cortes, e só então cruzava. Não era incomum que saísse com bola e tudo ou mandasse o cruzamento por trás da baliza. Pouco importava. Para os garotos que estavam aprendendo a gostar de futebol naquela época, Cafuringa era o melhor de todos.

               Para tristeza de todos nós e do futebol brasileiro, o ex-ponta-direita Moacir Fernandes, o Cafuringa, morreu no dia 25 de julho de 1991, vítima de septcemia (infecção generalizada por presença no sangue circulante de bactérias). Ele estava internado em estado grave no Hospital Geral Cardoso Fontes, em Jacarepaguá, zona norte do Rio, quando veio a falecer. Tenho certeza de que, esteja onde estiver, Cafuringa sorri a cada nova firula dos seus discípulos.

Em pé: Félix, Toninho, Bruñel, Gérson, Assis e Marco Antônio    –    Agachados: Cafuringa, Mazinho, Cléber, Gil e Carlos Alberto Pintinho
Em pé: Oliveira, Félix, Denílson, Galhardo, Assis e Marco Antônio   –     Agachados: Cafuringa, Didi, Flávio, Ivair e Lula
Em pé: Oliveira, Félix, Galhardo, Denílson, Assis e Marco Antonio   –    Agachados: Cafuringa, Didi, Flávio, Samarone e Lula
Em pé: Zolini, Getúlio, Toninho Cerezo, Márcio, Vantuir e Flávio   –    Agachados: Cafuringa, Reinaldo, Campos, Danival e Paulinho.
Em pé: Oliveira, Félix, Denílson, Galhardo, Assis e Marco Antonio    –    Agachados: Cafuringa, Didi, Mickey, Samarone e Lula
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