FRIAÇA: o quase herói brasileiro

                    Albino Friaça Cardoso nasceu dia 20 de outubro de 1924 em Porciúncula (RJ) e faleceu dia 12 de janeiro de 2009. Friaça foi um ponta direita veloz e de chute forte.   Morava e jogava em um time de Carangola (MG) quando foi descoberto pelo Vasco. O time fez uma excursão até a cidade mineira e perdeu um amistoso contra o time local por 2 a 1. Friaça fez os dois gols e veio com a delegação cruzmaltina na volta para o Rio de Janeiro em 1943. Após uma breve passagem, por empréstimo, ao Botafogo, voltou ao Vasco da Gama para integrar o famoso “Expresso da Vitória” e começar uma seqüência de conquistas: campeão carioca invicto de 1945, do Torneio Municipal de 1946, carioca invicto e do Torneio Municipal de 1947, e sul-americana invicto de 1948.

                   Na conquista do titulo de 48, Friaça participou de todas as partidas e fez o gol de empate contra o Colo Colo do Chile, em um dos jogos mais difíceis daquela conquista.  Jogando contra o anfitrião  e  com a pressão de mais de 50 mil torcedores, o ex-atacante marcou de cabeça o gol que garantiu a ida do Vasco para o jogo decisivo com o River Plate, da Argentina, na última rodada, como líder da competição disputada por pontos corridos. Com a camisa do Vasco da Gama, Friaça disputou 164 partidas e marcou 108 gols. Em 1949, Friaça transferiu-se para o São Paulo F.C. Apesar do pouco tempo no Tricolor do Morumbi, o ponta é lembrado com carinho até hoje pelos antigos torcedores. Campeão invicto paulista e artilheiro do Estadual de 1949 com 24 gols, em um time que tinha a seguinte escalação;  Mário, Savério, Mauro Ramos de Oliveira, Rui e Noronha; Bauer e Remo; Friaça, Ponce de Leon, Leônidas da Silva e Teixeirinha.

                   O jogo que praticamente definiu o titulo ao tricolor do Morumbi, aconteceu quatro rodadas antes de terminar o campeonato, foi quando venceu o Palmeiras por 4 a 2, depois de estar vencendo por 3 a 0. Mas o título só foi confirmado na penúltima rodada, quando o São Paulo venceu o Santos por 3 a 1. Em 1951, ainda com o trauma do Maracanã bem vivo na memória, retornou ao Rio e ao Vasco. E foi campeão da Taça Rivadávia Corrêa Meyer de 53, torneio que substituiu a Copa Rio. Em 1954, voltou a São Paulo, atuando na Ponte Preta e neste ano o time campineiro tinha a seguinte formação; Ciasca, Derem, Valdir, Pítico e Carlinhos; Carlito e Bibe; Friaça, Baltazar, Nininho e Jansen.

                  Este foi o time que enfrentou o Corinthians no dia 26 de setembro de 1954 no Pacaembu e perdeu por 6 a 1 para o Timão. Os gols corintianos foram marcados por; Cláudio (2), Luizinho (2), Paulo e Nonô, enquanto que o gol da Ponte foi anotado por Jansen. Neste dia o goleiro da Ponte defendeu dois pênaltis cobrado por Cláudio.  E foi na própria Ponte Preta, que Friaça encerrou sua carreira um ano depois, aos 31 anos de idade. 

              Mas sem dúvida alguma, a carreira de Friaça foi marcada por sua passagem pela Seleção Brasileira na Copa de 1950, disputada aqui no Brasil. E num relado emocionante, Friaça nos conta como foi aquele dia 16 de julho de 1950: “A gente tinha saído da concentração para o Maracanã às onze e quarenta e cinco. Chegamos ao estádio em torno de uma hora da tarde. Quando chegamos ao vestiário, encontramos colchão para todo mundo se deitar no chão”. Os jogadores queriam logo entrar em campo e acabar com aquela ansiedade que tomava conta de todos. Finalmente começou o jogo e o primeiro tempo terminou empatado em 0 a 0. Veio o segundo tempo e o gol saiu logo no primeiro minuto de jogo. O Maracanã enlouquece. Friaça também.

             “A emoção foi tão grande que só me lembro de uma pessoa que veio me abraçar: César de Alencar, o locutor. Quando a bola estava lá dentro, ele gritou: “Friaça, você fez o gol!”. Naquela confusão, ele entrou em campo e me abraçou. Nós dois caímos dentro da grande área”. Louco de alegria, Friaça só se lembra com clareza do rosto de César de Alencar. “Passei uns trinta minutos fora de mim. Eu não acreditava que tinha feito o gol. Eu tinha potencial, mas estava ao lado de craques como Zizinho, Ademir e Jair. E logo eu é que fiz o gol”. Se o Brasil precisava apenas de um empate, então o jogo estava liquidado: a seleção ia ser campeã do mundo. “Ali, nós já éramos deuses”.

              Friaça só não poderia imaginar que outras cenas inacreditáveis iriam acontecer ali, além da queda com César de Alencar dentro da grande área, numa explosão de alegria, pois o Uruguai virou o placar e venceu por 2 a 1, gols de Schiaffino  e Gigghia aos 35 minutos do segundo tempo. Consumada a tragédia brasileira, diante da maior platéia até hoje reunida para um jogo de futebol, a dor da derrota desnorteou o autor do gol do Brasil. “O trauma foi enorme. O que vi no vestiário do Brasil, assim que acabou o jogo, foi só choro. Não se via outra coisa, a não ser gente se abraçando, chorando, lamentando. Os mais frios sofrem mais. Quem desabafa sente um alívio. Quem não desabafa fica sofrendo.

             Nosso vestiário desculpe a expressão, virou um cemitério. Era só gente se lastimando, como num velório. Depois do jogo vim para o clube do Vasco. Fiquei, em companhia de outros jogadores, andando de noite em volta do campo, ali na pista. O assunto era um só: como é que a gente foi perder um jogo daqueles ?”.  Ficou aquela “conversa de bêbado”, sem fim nem começo”. Depois das voltas inúteis em torno do campo do Vasco na noite de domingo, Friaça pirou. “Só me lembro de que a gente subiu para o dormitório. Eram umas onze da noite. Troquei de roupa e me deitei. Não me lembro de nada do que aconteceu depois. Quando dei por mim, por incrível que pareça, eu estava em Teresópolis, no meu carro. Passei pela barreira, fui para um hotel.

             Quando me perguntaram: “Friaça, o que é que você quer?” Eu simplesmente não sabia onde estava. Só sabia que estava debaixo de uma jaqueira, no terreno do hotel. Não sei como é que saí com meu carro da concentração. Não sei como é que fui bater em Teresópolis. Um médico que era prefeito de Teresópolis foi que me deu uma injeção. Comecei a saber onde é que estava uns dois dias depois. A minha família, em Porciúncula, estava atrás de mim, sem saber onde eu estava. O pior é que eu também não sabia. De 64 quilos eu passei para 59”.     

              “Antes do jogo, aquele assédio atrapalhou o descanso dos jogadores. Como era ano de eleição, teve jogador que foi levado para passear. A seleção, então, não teve sossego e tranqüilidade. Durante a Copa, jogadores receberam camisa, corte de terno, relógios e lustres. Da sexta para o sábado e do sábado para o domingo, dentro do bar do Vasco da Gama, na concentração em São Januário, eu assinei autógrafos como “campeão do mundo”. Assinei! Tinha até comerciante envolvido. Hoje, jogador de futebol não faz um negócio desse se não receber uma importância.

                Mas eu assinei bolas, faixas, fotos, todo tipo de coisa. Já nem sei onde assinei…Quem fizesse o primeiro gol receberia um terreno, perto do Leblon. Quem fizesse o primeiro gol do Brasil contra o Uruguai iria ganhar uma televisão, uma novidade, na época. Fiz o gol. Nunca vi esse prêmio. Não ganhei terreno. Corri atrás, mas não adiantou nada. Quem ia dar os prêmios disse que não podia, porque o Brasil tinha perdido a Copa. A televisão ia ser prêmio de uma loja chamada A Exposição. Meu cunhado foi à loja, para saber do prêmio. Disseram : “Ah, não ! Só se o Brasil tivesse ganhado o jogo…”.

                Durante a Copa, houve uma reunião entre os jogadores, para discutir a divisão de prêmios que eram oferecidos à seleção. Decidiu-se que ia se fazer um leilão dos objetos. Pelo seguinte : havia no grupo jogadores que não tinham condições físicas ou técnicas de jogar. Como não jogavam, corriam o risco de não receber prêmios. Então, combinou-se com nossa “diretoria”, formada por Augusto, Nílton Santos, Castilho e Noronha, o seguinte : tudo o que cada um recebesse seria leiloado. Houve, então, uma pequena desavença sobre como é que se ia dividir um lustre de cristal, oferecido por uma loja. Flávio Costa, nosso técnico, entrou na discussão para acalmar o pessoal”. Com a camisa da seleção brasileira, Friaça fez 12 partidas e marcou um único gol.  Foi campeão das Copas Rio Branco de 47 e 50 (torneio contra o Uruguai), Taça Oswaldo Cruz de 50 (contra o Paraguai) e do Campeonato Pan-americano de 52.

                Friaça sempre foi um homem alegre, mas ficou debilitado principalmente por causa da morte de um dos filhos em acidente de asa delta, na metade dos anos 90. Depois da tragédia, nunca se privou do cigarro e da bebida, que prejudicaram sua saúde. Quase não saia de casa. Vivia sob os cuidados da esposa Maria Helena e tomava remédios regularmente. Em 2005, Friaça foi internado na UTI de um hospital da cidade de Itaperuna, cidade do interior do Estado do Rio de Janeiro, vítima de insuficiência respiratória. O ex-jogador também teve um AVC (acidente vascular cerebral) e perdeu a visão do olho direito.

                 No dia 12 de janeiro de 2009, Friaça, o ponta-direita do Brasil na decisão da Copa de 50, faleceu aos 84 anos, em Itaperuna (RJ), vítima de falência múltipla dos órgãos causada por uma pneumonia. Friaça tinha vinte e cinco anos, oito meses e vinte e seis dias quando realizou o sonho máximo de todos os jogadores brasileiros de todas as épocas: fazer um gol numa final de Copa do Mundo dentro do Maracanã superlotado. Obrigado por tudo Friaça, pois o sentimento não pode parar, e a lembrança também não!!!!!

Em pé: Ruy, Barbosa, Augusto, Bauer, Noronha e Juvenal    –   Agachados: Alfredo, Maneca, Baltazar, Ademir de Menezes e Friaça
Em pé: Barbosa, Eli, Bellini, Aldemar, Wilson e Jorge   –    Agachados: Friaça, Ipojucan, Ademir Menezes, Alvinho, Jansen e Mario Américo
SELEÇÃO DA COPA DE 1950   –   Em pé: Barbosa, Augusto, Danilo Alvim, Juvenal, Bauer e Bigode   –    Agachados: Friaça, Zizinho, Ademir de Menezes, Jair Rosa Pinto, Chico e o massagista Mário Américo
Em pé: Rui, Palante, Oberdan, Mauro, Bauer e Noronha   –    Agachados: Friaça, Pinga, Baltazar, Antoninho e Teixeirinha
Em pé: Rui, Savério, Mauro, Mário, Bauer e Noronha     –    Agachados: Friaça, Ponde de Leon, Leônidas da Silva, Remo e Teixeirinha
Da esquerda para a direita, Barbosa, Augusto, Danilo Alvim, Juvenal, Bauer, Ademir, Zizinho, Jair, Chico, Friaça e Bigode
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