GAMARRA: símbolo da garra paraguaia

                   Carlos Alberto Gamarra Pavon nasceu dia 17 de fevereiro de 1971, em Ypacaraí, Paraguai.  Começou sua carreira no Cerro Porteño, em 1991. Passou depois por Independiente da Argentina, Inter de Porto Alegre, Corinthians, Benfica, Atlético de Madrid, AEK de Atenas, Inter de Milão, Palmeiras, Ethnikos Piraeus, da Grécia e Olímpia, do Paraguai, onde encerrou sua brilhante carreira em 2007. Defendeu a seleção paraguaia em 110 jogos, dos quais marcou 12 gols. Optou por seguir trabalhando no futebol após parar com a bola. Em 2008, trabalhava como gerente do Rubio Nu, equipe pequena de Assunção, Paraguai.  Gamarra é muito conhecido do torcedor brasileiro.

                   O primeiro time do país que defendeu foi o Internacional de Porto Alegre, onde foi campeão gaúcho em 1997. Sua passagem pelo  Colorado foi  tão marcante,  que até hoje  ele  se  declara torcedor do clube do Beira Rio. Gamarra chegou sem muito alarde para o futebol brasileiro. Em 1996, começou a entrar para um seleto grupo de craques estrangeiros que demonstraram seu talento em gramados brasileiros, que já contava entre outros, com Pedro Rocha, Forlan, Romerito, Ricon, Figueroa, De Leon, Dario Pereira, Lugano, Rodolfo Rodrigues e Ramos Delgado, por exemplo.

                 Ao chegar no Internacional, o torcedor colorado ainda não havia esquecido do zagueiro Figueroa, craque chileno da década de 70 que defendeu o clube gaúcho. No entanto, Gamarra que era dono de um belo futebol que aliava técnica e raça, também deixou saudades na massa colorada quando se transferiu para o Benfica, de Portugal, após brilhar na conquista do campeonato gaúcho em 1997. A ida a Portugal, embora bastante rentável financeiramente, não foi espetacular no aspecto esportivo. Gamarra jogou bem e encantou a torcida, mas não pôde comemorar títulos.

                E também não conseguiu atrair a atenção dos grandes clubes da Europa. Sem mercado no velho continente, resolveu voltar ao Brasil, para defender o Corinthians, com boas referências do atleta, desde os tempos de Inter. Sua volta ao Brasil foi sem as pompas merecidas. O craque até entrou pela porta dos fundos naquele time que estava sendo formado por Wanderley Luxemburgo no Timão. Mal sabia o zagueiro paraguaio que sua passagem pelo alvinegro paulistano seria marcada por conquistas importantes, atuações memoráveis, e a consagração profissional mais que merecida, tudo isso, apesar de um primeiro semestre que contou com a sofrida derrota para o rival São Paulo, na final do Campeonato Paulista de 1998. 

                Gamarra chegou ao Parque São Jorge no dia 24 de janeiro, sem maiores festas. O Corinthians, que não mais contava com o dinheiro do Banco Excel (antigo patrocinador), formava uma equipe que, antes do campeonato, era considerada apenas razoável. Ninguém poderia imaginar que era o embrião do campeão brasileiro de 98 que se formava.

                Porém, foi na Copa do Mundo daquele ano que Gamarra resolveu encantar o mundo. Com um futebol exuberante, de muita raça (como na partida contra os donos da casa franceses) e, especialmente, de muita técnica (o jogador passou quatro jogos sem cometer uma única falta, ou seja, 724 minutos), o jogador foi eleito o melhor defensor do Mundial.  Em gramados franceses, o zagueiro encontrou o palco perfeito para seu show. Jogando um futebol vistoso, de muita luta, mas especialmente muito leal, Gamarra começava a conquistar o mundo já na estréia, contra os fanfarrões búlgaros.

                 O zagueiro ajudou a segurar a estrela Stoichkov e a garantir um empate sem gols na partida. No segundo jogo, o Paraguai começou a desenhar uma das maiores zebras da Copa, quando empatou com a Espanha. Gamarra não se intimidou pela constelação de craques do oponente e fez uma partida fabulosa. Na última rodada da primeira fase, os paraguaios eliminaram a Espanha da Copa, após uma surpreendente vitória contra a sensação da competição até o momento, a Nigéria. Nas oitavas-de-final, o Paraguai foi eliminado ao cruzar com a França, dona da casa e futura campeã do torneio. Mas os surpreendentes paraguaios levaram o jogo para a prorrogação e caíram somente na morte súbita.

                Gamarra esteve impecável na partida, jogando por todo o segundo tempo praticamente com o braço na tipóia, como outro grande do futebol, Beckembauer, já tinha feito (no Mundial de 1970, no México). A Copa podia ter acabado para Gamarra, mas seu futebol fabuloso e a lealdade o consagraram como melhor zagueiro do torneio e do mundo na época.

              Após o Mundial, ninguém mais se arriscaria a desrespeitar o paraguaio no Brasil. Logo na sua re-estréia no Corinthians, Gamarra parou o potente ataque vascaíno e ajudou a garantir uma vitória sobre o campeão brasileiro de 97. Isso sinalizava o que vinha pela frente. O Corinthians faria um campeonato irresistível e, sob o comando do capitão Gamarra, conquistaria o título brasileiro após um emocionante playoff contra o Cruzeiro.

              Na sua volta ao Corinthians, quis o destino que o paraguaio fosse o capitão de um brilhante time que conquistou um Campeonato Brasileiro, em 1998, e o Campeonato Paulista de 1999, cuja final foi contra o eterno rival Palmeiras. No primeiro jogo o Corinthians venceu por 3 a 0. No segundo jogo disputado no dia 20 de junho, o placar foi de 2 a 2, mas como o empate já bastava para o Timão, acabou conquistando mais este título. Este segundo jogo não terminou, pois Edílson começou a fazer graça e os jogadores palmeirenses não gostando da brincadeira partiram pra cima dele e a briga fez com que o juiz Paulo César de Oliveira terminasse a partida.

               Neste dia o Corinthians jogou com; Maurício, Índio, Gamarra, Nenê e Silvinho; Rincon, Vampeta e Ricardinho; Marcelinho Carioca, Edílson e Fernando Baiano.  Este ano de 1999 o Corinthians conquistou praticamente todos os títulos que disputou e foi a consagração de Gamarra, que caía nas graças dos críticos e torcedores, que se encantavam com o seu futebol. Era unanimidade.

               Em 1999, após a derrota na Libertadores (nas quartas-de-final, para o maior rival, o Palmeiras), o jogador saiu do Timão. Mas não saiu por baixo: o time não pôde arcar com o valor de seu salário e o vendeu para o Atlético de Madrid (Espanha), onde teria mais uma chance de conquistar a Europa. Gamarra disputou pelo Corinthians, 80 jogos. Venceu 38, empatou 20 e perdeu 22. Com a camisa do alvinegro de Parque São Jorge, marcou 7 gols e está incluído por muitos fiéis na seleção corintiana de todos os tempos.  

              Nada deu certo para o jogador no futebol espanhol. Seu time era muito ruim, o técnico não apreciava tanto seu futebol (ficou na reserva em alguns jogos), e o fracasso foi intensificado com o rebaixamento do tradicional time para a segunda divisão espanhola. Com a passagem frustrada pelo Velho Continente, Gamarra viu no clube mais popular do Brasil a chance de recuperar o prestígio: o Flamengo resolveu lhe abrir as portas. O fato é que a primeira temporada no rubro-negro foi muito ruim, em 2000.

                A equipe, carinhosamente chamada de “SeleMengo” por causa da constelação de jogadores famosos que possuía (Alex, Denílson, Petkovic), foi um dos maiores fracassos da história rubro-negra, quando fez uma campanha digna de Segunda Divisão. Como o torneio era a famigerada Copa João Havelange, que não deixou saudades nas torcidas pelo país, o time foi esquecido. Com isto, não foram poucos os que, surpreendentemente, começaram a duvidar do futebol de Gamarra. No ano seguinte, entretanto, o paraguaio deu a chamada “volta por cima”: conquistou o histórico tricampeonato carioca, na decisão diante do Vasco com um gol fabuloso de Petkovic.

                Ninguém mais duvidava da capacidade do paraguaio. Com a conquista da Copa dos Campeões, na final contra o São Paulo, torneio que reconduziu o Mengão à Copa Libertadores da América, após nove anos. Gamarra foi o capitão da equipe comandada pelo tetracampeão Mário Jorge Lobo Zagallo. Gamarra marcava sua despedida do futebol brasileiro, mais uma vez em grande estilo. Pelo Flamengo, Gamarra disputou 30 jogos. Venceu 15, empatou 4 e perdeu 11 vezes. Com a camisa do Mengão ele marcou somente um gol.

                A saída do Flamengo foi tumultuada, pois as dívidas do clube carioca eram tantas que os salários do paraguaio (e de tantos outros atletas) não foram pagos integralmente. Gamarra preferiu trocar o caos financeiro do rubro-negro pelo desafio de vencer no futebol europeu – mesmo que distante dos grandes centros. Em 2001, após a Copa dos Campeões, desembarcou na Grécia e foi jogar no AEK de Atenas.  No clube grego, o paraguaio manteve as características que o acompanharam por onde passou: refinamento técnico, elegância dentro de campo e profissionalismo. A limitação da equipe impedia sonhar com vôos mais altos, mas Gamarra conseguiu vencer a Copa da Grécia 2001/2002 e se tornar o melhor zagueiro do futebol local.

                Portas abertas, enfim, para um grande clube europeu: a Internazionale de Milão, da Itália. Depois de algum tempo, retornou ao Brasil, onde veio defender o Palmeiras em 2005, mas jogou bem pouco no time de Parque Antarctica onde não chegou a fazer história. Gamarra disputou as Copas do Mundo de 1998, na França, e 2002, no Japão e na Coréia do Sul, pela seleção paraguaia. No primeiro Mundial Gamarra foi eleito o melhor zagueiro da competição. Na segunda participação, a geração paraguaia já vivia um processo de franca decadência, e Gamarra não brilhou tanto. A eliminação veio novamente nas oitavas, diante da Alemanha, futura vice-campeã, mas Gamarra retornou ao Paraguai como um herói.

Em pé: Maurício, Márcio Costa, PC Gusmão, Nei, Gamarra, Batata, Silvinho, Rincón e Cris    –     Agachados: Dinei, Amaral, Mirandinha, Didi, Rodrigo, Vampeta, Índio, Ricardinho, Marcelinho e Edílson.
Seleção do Corinthians de todos os tempos:   Em pé: Zé Maria, Gilmar, Gamarra, Roberto Belangero, Wladimir e Luizinho    –     Agachados: Sócrates, Rivelino, Neto, Cláudio e Casagrande. Técnico: Oswaldo Brandão
Seleção do Internacional de todos os tempos:    Em pé: Paulinho, Manga, Figueroa, Gamarra, Oreco e Salvador    –     Agachados: Tesourinha, Carpegiani, Falcão, Valdomiro e Fernandão. Técnico: Rubens Minelli

       

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